A POSTA QUE POR ACASO PREDESTINEI

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Foto: sharkinho

Há quem diga que nada acontece por acaso. Existe até quem afirme que o acaso não é real. Ou seja, aquelas tristes coincidências que nos fazem a vida num inferno não passam de predestinações congeminadas por uma força superior. Alguns chamam-lhe Deus. E aceitam a cena como um castigo, uma punição pelos pecados que cometeram por mero acaso num momento de crise de fé.

Custa-me a acreditar que o acaso não exista. De resto, sempre que paro à saida de casa para abotoar os atacadores penso se essa decisão não poderá custar-me a vida. Se calhar, esses segundos preciosos vão cruzar o meu caminho com o piano de cauda que por acaso decidiu cair naquele instante fatídico em que transpus a porta da rua. Ou antes pelo contrário. A decisão terá sido minha, abotoar ou não abotoar, mas nada me diz que terei evitado o piano em queda por adiantar a passagem pela sua rota de colisão com o meu toutiço para depois tropeçar nos atacadores desapertados na corrida para o autocarro e enfiar a moleirinha num poste de iluminação.

Estava escrito, dizemos, quando acontecem coisas assim. Assumimos o azar como uma maldição e a sorte como um mérito que nos assistiu. Estava escrito pelo destino nos astros ou por Deus noutro suporte qualquer e não há nada a fazer. O livre arbítrio resume-se nesse caso a pequenas reviengas com as quais podemos eventualmente fintar a sina que nos tocou. Para melhor ou talvez não, pois aquela decisão de entrar na curva a cento e quarenta, esse desafio tão estimulante, pode ser o caminho acertado para a eternidade como pode evitar-nos um manjerico em contramão.
Confusa, esta perspectiva das coisas. Até porque eu sou daqueles líricos que gostam de acreditar na capacidade de gerir o seu destino e de influenciar (determinar) o que os anglófonos designam por outcome da cena. E nesse caso, acredito no acaso e considero as estatísticas evitando o escalamento de edifícios ou a sesta numa jaula de leões para ocupar o tempo livre que o destino me oferecer.

Em vão, se existir a tal predestinação, tento afastar do caminho as ameaças potenciais, evitar os sarilhos e rejeitar as tentações. Será o que tiver que ser e restará esmifrar a vidinha até ao tutano como se não existisse o dia de amanhã. Uma opção inteligente, aliás, que até se coaduna com a minha forma de estar. E aí só posso concordar com a posição dos que se submetem à inevitabilidade dos desenlaces e mergulham de carola em qualquer turbilhão.
Talvez por acaso, a minha opção agnóstica constitui uma receita ganhadora para abrir o peito a qualquer tipo de fé. Ou mesmo à combinação de uma data delas, pois acaba por ser irrelevante a questão quando nos confrontamos com a desdita ou nos regalamos com uma fezada qualquer.
A cavalo dado não se olha o dente, venha a sorte que vier. E guardado está o bocado, faça a gente o que fizer. Seja um acaso ou não, pois o problema só se coloca se tivermos o dom da adivinhação (algo que nos aproxima demasiado do conceito de Deus ou da tal força superior que nos destina as alegrias e as ralações).

Não temos esse condão e por isso mais vale ignorar quaisquer crendices ou superstições, avançar pela vida com determinação condimentada com uma pitada de prudência e pouco mais. Vai ao lume no inferno se existir um underground dantesco na eternidade dos pecadores. Ou fica em banho-maria no purgatório dos assim-assim. E pode até ser servida fria, essa vingança dos deuses que será a oferta do paraíso aos que souberam gozar a vida a valer, sem medos ou castrações artificiais.
Na gastronomia do Além, a ementa é sempre uma incógnita e ninguém sabe o preço a pagar pelas doses individuais de prazer e de satisfação terrena.

Mais vale oferecermos ao corpo o que a alma não nos pode garantir, mesmo que já esteja predestinado o nosso futuro como tocadores de harpa numa nuvem qualquer. Não o sabemos e por isso não devemos desaproveitar as melhores oportunidades que cada dia nos proporciona para entendermos o que é ser feliz.
É essa a decisão que não pode ser entregue ao acaso, sob pena de a vida nos passar ao largo enquanto aguardamos o momento de nos eclipsarmos numa cova qualquer. É outra das hipóteses que a lógica agnóstica nos obriga a considerar. E a lógica pura também.

Não vá o diabo tecê-las, por acaso, numa segunda-feira mal humorada...
publicado por shark às 10:33 | linque da posta | sou todo ouvidos