A POSTA NA FRONTEIRA ILUSÓRIA

Já houve uma altura em que a euforia da liberdade de expressão me induziu em erro ao ponto de me julgar, sob a impermeabilização de um frágil anonimato, à vontade para escrever (e publicar) praticamente tudo o que me dava na bolha.

Claro que a realidade provou-me, à bruta, que essa impunidade não existe de facto. Sobretudo quando o que dizemos envolve e afecta outras pessoas ou apenas serve de pretexto para a retaliação que abre caminho à lavagem pública da roupa suja.
Um pagode para os mirones, mas um embaraço para quem se deixa apanhar em tais curvas.
 
Perdi o anonimato na sequência de uma reacção colérica e tresloucada a algo que escrevi (e publiquei) e que nem visava as pessoas que usaram como argumento para a sua baixeza aquilo que afirmei.
Era excessivo, esse texto que “escondi” quando me vi confrontado com a perda do anonimato que, por tabela, permitia a identificação das outras pessoas envolvidas no meu desabafo legítimo mas, repito, desproporcionado nos termos.
Não o escondi por vergonha, porque assumo as minhas sem pudor, mas para poupar os visados a quaisquer sequelas.
 
Isto a propósito de como nos deixamos levar pela falsa sensação de segurança no que concerne ao sigilo que o anonimato possa conferir, tal como nos acreditamos invulneráveis aos contra-ataques de quem se melindre porque isto no fundo é apenas html.
Não é. Onde acontecem pessoas podem nascer problemas. O suporte de comunicação é irrelevante e quando o que dizemos afecta os outros e estes reagem sentimos na pele toda a carga negativa que as palavras em html produzem com o mesmo impacto do que lá fora. Ou mesmo maior, pela força e pela durabilidade dos registos sob a forma escrita.
Tudo o que dizemos da boca para fora na mesa do café acaba por perder-se, ou no mínimo, por se diluir nos ventos da memória.
Mas o que escrevemos pode perseguir-nos no futuro com a persistência de uma verdadeira assombração.
 
É vida o que acontece aqui e a prová-lo estão as emoções reflectidas em posts, em comentários e nas ligações não virtuais que acabam por se estabelecer entre as pessoas.
Somos nicks e construímos bonecos mas é na realidade em carne e osso que sentimos as coisas boas como as más que aqui se produzam.
Quando alguém entende difamar o Shark ou expor-lhe calcanhares de Aquiles (falsos ou verdadeiros, pouco importa) é ao Jorge que afecta. E o mesmo raciocínio aplica-se em sentido contrário, pois do lado de lá deste monitor existem pessoas que, regra geral, sentem as minhas palavras com o mesmo “realismo” com que enfrento as suas.
As emoções não são html e isso basta, ou deveria, para nos subordinar a algum tipo de moderação que não podemos dispensar nesta forma de comunicação por a julgarmos menos a sério do que as outras.
 
Se o anonimato (de quem se ilude na sua eficácia) não constitui salvaguarda para coisa nenhuma, como o meu exemplo acima testemunha, quando damos a cara e falamos dos outros estamos a negar-lhes, entre outros, o direito à privacidade que o pudor nos obriga aqui como noutros suportes. E este possui a agravante que citei da forma permanente, a escrita, que perpetua tudo quanto de mau possamos dizer num momento infeliz.
Daí a necessidade de um esforço de contenção que afinal é o mesmo que requer o usufruto de qualquer tipo de liberdade da que não se bloga, para que a nossa não colida com a dos outros por abusarmos dos seus limites naturais.
 
A falsa noção de que “isto são só blogues” conduz-nos a excessos a que talvez não nos permitíssemos noutras plataformas, com a agravante de tudo se eternizar como uma tatuagem que pode muito bem acompanhar-nos na imagem que criamos mas acima de tudo na que criam de nós. E ainda há a questão do troco que nos dão e nem sempre é tão inofensivo quanto o pintamos antes de sentirmos na pele a indignação real dos tais nicks que até são pessoas.
Pode ficar feio, o cenário, e acabam por perder todas as pessoas (ou nicks) envolvidas menos os mirones que parasitam as broncas alheias assim expostas na sua condição mais vulnerável, mais indigna, pela tal falsa discrepância entre o html e a vida real cuja distância acaba por não existir como se presume ou acredita.
 

E é por isso que a nossa conduta blogueira deve beber da que consideramos adequada fora do âmbito desta comunidade que, queiramos ou não, tem muito menos de virtual do que a pintam.

publicado por shark às 11:01 | linque da posta | sou todo ouvidos