A POSTA NO CAVALO ERRADO

Numa fase da minha vida na qual me predispus a fazer do risco uma prioridade (um disparate, bem o sei) fui um jogador.

Viciado, aliás, assumido nos exageros que fazia enquanto paulatinamente destruía as hipóteses de algum dia poder ter o que se possa chamar de uma vida normal.
Existia sempre um preço a pagar por cada vitória que afinal era a sorte que definia e nunca a minha intervenção, o custo inerente às derrotas inevitáveis que nos esperam quando abdicamos do controlo sobre aquilo que somos quando isso se revela prejudicial.
Perdi, muito mais do que ganhei, ao longo dessa espiral de insensatez. Ganhei apenas aquilo que aprendi na ressaca da merda que fiz, enquanto me arrastava penosamente para longe do fundo a que quase cheguei.
 
Hoje ouvi uma notícia que me perturbou, precisamente porque me obrigou a reencontrar essa alma de jogador, essas características que unem todos quantos mergulhem nos braços de uma sorte que descobrimos sempre não passar de um azar mascarado, de um apelo malvado às nossas debilidades e a uma estranha propensão para a decadência disfarçada com argumentos de circunstância que em nada nos libertam de qualquer tipo de prisão.
Alguém ganhou um jackpot no Casino de Lisboa, quatro milhões de euros ou perto, e o Casino não pagou. E o pretexto foi uma “avaria no sistema informático”, como poderia ser outra qualquer, inevitavelmente condenada por constituir uma traição.
 
Quem joga ou já jogou entende porque não é extrema a expressão, quando veste a pele de jogadores confrontados com tamanha deslealdade a um princípio que nenhuma sala de jogo poderá algum dia virar as costas, sob pena de destruir o próprio pilar que motiva pessoas normais a correrem depois da abertura das portas para a máquina que acreditam talismã.
Um jogador já tem que viver sob o medo da batota que suspeita em todos os sinais que possam explicar a sua falta de sorte. Não é possível somar-lhe tamanho temor: o de que mesmo quando a sorte lhe bater à porta, seja a que pretexto for, o milagre ruirá como um castelo de cartas perante uma qualquer explicação de treta de quem dá as cartas e ainda se arroga o direito de não assumir as consequências do mesmo azar que enfrenta cada um dos jogadores que alimentam estas sanguessugas que vivem à custa das fraquezas de cada um.
 
É indigno que o Casino de Lisboa se recuse a assumir que o azar também pode ser seu. Uma avaria nas máquinas ou outra coisa qualquer. Tem mesmo que pagar, pelo princípio, pelas regras do jogo que ninguém precisa escrever para que qualquer jogador as intua.
 
Qualquer alternativa não passará daquilo que resumi numa expressão. Não passará de uma traição.
 

E eu, livre das garras desse parasita institucional, envio-lhes toda a energia negativa que consigo reunir. Porque me enoja o desplante, ainda mais do que a confirmação de uma falta de escrúpulos tão nociva que justificaria por si só a sua ilegalidade formal.

publicado por shark às 18:05 | linque da posta | sou todo ouvidos