A POSTA NO EFEITO AVESTRUZ

Pagamos a um gajo para evitar os cartéis e ao fim de vários meses tudo o que ele tem para nos dizer é que conclusões só lá para Março (quando o problema já não provocar alarido) e que as petrolíferas estão a baixar os preços a um ritmo mais baixo do que os aumentaram. Algo que passou completamente despercebido ao cidadão comum…

Também pagamos um balúrdio a outro gajo para ele controlar o sistema financeiro, nomeadamente a banca, e foi o que se viu. É cada cavadela, cada minhoca. E quase apostamos que ainda a procissão vai no adro.

Ainda temos mais umas dezenas de moinantes a soldo no Parlamento e volta e meia chega-nos a imagem do regabofe com as baldas massivas e comprometedoras, mais as viagens “de trabalho” à pala e até temos medo de saber que outros sinais de desplante existem por revelar.

 

A lista de parasitas e de ineptos para os cargos que ocupam é infindável e só mesmo alguns estranhos silêncios por parte da Imprensa vão poupando o país ao escândalo de se descobrir a saque às mãos dos que já fazem a coisa tão à descarada que percebemos todos a dimensão do problema. Só nos falta quantificar as respectivas repercussões, as debilidades que estes crimes (habitualmente) sem castigo provocam nos cofres e nas atitudes de toda uma seita de instalados à sombra da teia de conivências que há muito deixou de fazer distinções entre cores partidárias.

 
Da infecção à gangrena
 

Sem nexo, apontam-se baterias ao Governo. A qualquer Governo, como se a situação pudesse resolver-se pela substituição dos rostos das eminências pardas que dão a cara em dado momento pelos diversos poderes.

Como se fizéssemos de conta que o problema está neste ou naquele bode expiatório quando afinal é de uma infecção generalizada do Estado e da maioria das suas instituições pelo fenómeno mais perigoso para uma democracia sem alternativas decentes e, por isso mesmo, sem defesas para a população que a sustenta e que só nas ruas ou nas urnas pode dizer de sua justiça.

E na blogosfera também, o que já se mostrou incomodativo para os que preferem (porque dele dependem) o silêncio cúmplice ou amorfo às denúncias ou simples suspeitas que possam desmascarar uma verdade cada vez mais à vista desarmada.

 

Vejo os figurões da política folclórica em permanente reciclagem, indispensáveis para o desvio das atenções mediáticas, os sempre em pé deste dominó cujas pedras sabemos estarem já a tombar umas sobre as outras. E vejo as figurinhas atarefadas a apagarem por todos os meios ao seu alcance os pequenos focos de incêndio ateados pelos comparsas que dão demasiado nas vistas, pressentindo em algumas reacções (ou na respectiva ausência) os acordos de bastidores que servem os desígnios de uma classe à parte das muitas que esta sociedade mesquinha e corrupta vai construindo à custa da apatia generalizada.

Aos poucos vejo diluírem-se no horizonte as ideologias, ultrapassadas, incapazes de reagirem de forma adequada perante um mundo em passo acelerado de mudança e arrastando na queda, talvez nem seja uma coincidência, os sustentáculos do único sistema económico sobrevivente depois da derrocada da sua paupérrima concorrência.

 

Vejo mas não entendo, pois até o sentido de Estado serve na perfeição de argumento, de justificação para toda a serradura que nos queiram deitar para os olhos a bem da estabilidade tão grata a qualquer grupo de interesses ou seita a quem jamais interessarão as águas agitadas.

 

E constato a cada dia que passa o agravamento de uma crise global com os destinos do meu país confiados a cromos como aqueles que resumi no início desta posta, sem vislumbrar um caminho a tomar para a necessária alteração do figurino que nos poderá custar um colapso irreversível se por algum motivo as coisas se descompuserem de forma mais acentuada.

 
Talvez se negarmos não aconteça...
 

Todos pressentimos, mesmo os mais optimistas, que basta um pequeno abanão na frágil estrutura que intuímos equilibrada de forma precária nos balões de soro que não passam de adiamentos e que não possuem um cariz inesgotável.

 

Mas, estranhamente e mesmo perante os indicadores mais alarmantes, poucos arriscam sequer desenhar alguns cenários possíveis num contexto mais catastrofista. E multiplicam-se aqueles que, como sempre aconteceu no passado das crises internas ou globais, se desdobram em argumentos para negarem as evidências e com isso tentarem esvaziar qualquer tipo de reacção em sentido contrário ao esquema vigente e que manifestamente não nos valerá se (quando?) o pior vier a acontecer.

 

É essa a postura que mais me preocupa, pelo que pode implicar nas motivações e sobretudo nas consequências. E contudo é também a menos capaz de me surpreender nesta altura.

 

Acaba, tristemente, por constituir para os meus receios pelo futuro próximo a sua mais transparente confirmação. 

publicado por shark às 11:15 | linque da posta | sou todo ouvidos