CONTAGEM DECRESCENTE - 3

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Foto: sharkinho

Quanto mais se tapa a cabeça, mais se destapam os pés. Ou quanto mais nos agachamos, mais mostramos o cu.
São duas imagens que se aplicam na perfeição à maioria das situações que vivemos no relacionamento com outras pessoas.
É uma estranha tendência que, regra geral, todos evidenciamos. Se em teoria é fixe acreditar que devemos dar o litro, exibindo o nosso interesse e o nosso empenho na satisfação do (ego do) outro, na prática esse é o melhor caminho para desinteressar qualquer pessoa. Mostramos o cu se damos demasiada importância a alguém, pois está na natureza da maioria sentir-se atraído(a) por quem nos rejeita ou apenas demonstra pouco entusiasmo.

É um fenómeno curioso, geralmente atribuído às mulheres (mais por tradição, convenhamos). Fazem-se difíceis (é o que consta) para obterem o tal resultado mágico que põe os homens a prostrarem-se a seus pés. E vice-versa. Um jogo de sedução, no fundo, à medida das complicadas e exigentes tolas de cada um de nós.
Naturalmente, não é fácil a posição de uma pessoa que se vê no lado errado dessa reacção espontânea do outro. No fundo, é aquela sensação desconfortável de nos sentirmos uns patos que nos invade e dá-nos vontade de contrariar tal tendência à bruta.

Por outro lado, dá azo a confusões essa postura de aparente desinteresse. É que pode tratar-se de desinteresse genuíno e não apenas de fachada e aí pode proporcionar-se um cenário de demasiada insistência por parte do alvo da rejeição. Uma complicação, isto das relações entre as pessoas...

Eu, que sempre dei atenção ao assunto pessoas (está-me no sangue), tenho assistido a diversas manifestações desse comportamento bizarro e noto que as repercussões raramente são as desejadas. Porque as pessoas viciam-se nessa pose distante que assumem por instinto ou por opção estratégica e desequilibram assim as relações estabelecidas.
Ao fascínio(?) inicial sobrepõe-se a saturação, tanto do lado de quem rejeita (pela reacção "cola" do outro) como de quem é rejeitado (por se fartar de levar na tromba com os indicadores da falta de pachorra do alvo da sua devoção/dedicação).

A coisa manifesta-se das mais variadas formas e em diversos domínios da interacção humana analógica ou virtual, mas a mim ocorreu-me a propósito das caixas de comentários e de uma posta do Eufigénio (sempre na berlinda por estas águas) a esse respeito.

Eu decidi fechar as minhas.
Em boa medida pelo mesmo motivo que me levou a deixar de frequentar as das outras pessoas.
publicado por shark às 11:59 | linque da posta | sou todo ouvidos