A POSTA NOS INSTANTES DE LUCIDEZ

Queremos que o sol rompa por entre a mais espessa camada do cinzento que nos cobre, invernoso, quando o dia acorda mal-humorado.

Olhamos para o céu e procuramos o ponto mais luminoso para localizarmos o calor e a luz que sabemos ocultos por detrás, peito em sobressalto pela falta que nos faz.
A esperança naquilo que não se alcança agora mas ansiamos concretizado depois.
A vontade reprimida pela força de circunstâncias que nos transcendem, manipulações do destino ou de um Deus com enorme sentido de humor, em luta pela sobrevivência no interior daquilo que nos compõe, alma, energia, o poder que se impõe sobre o tom acinzentado daquilo a que estupidamente chamamos razão.
 
O apelo do coração, como o pintamos, aos coices nas paredes do estábulo onde não o conseguimos confinar sem aceitarmos a sua capacidade de lutar por aquilo que sobra, afinal, quando o nosso tempo atinge o total da sua duração.
A sede de uma forma de libertação que age nas decisões possíveis com a força de uma fé, capaz de mil voltas ao mundo a pé.
Constrangimentos artificiais, os que nos prendem, liberdades condicionais que aceitamos em nome dos valores que bebemos das fontes que não queremos de todo imitar.
A vontade tão forte de amar sem medos e sem vergonhas, sem castigos ou reprimendas não devidas quando nos confiamos à espontaneidade da nossa forma de sentir.
 
Queremos a vida melhor que podemos vislumbrar nos nossos sonhos e resistimos à pressão que rejeitamos porque nos diz para abdicar. De muito do que sabemos necessitar para conhecer a realidade do que definimos como felicidade e tudo nos diz essencial para se ser feliz enquanto usufruímos do privilégio de um nascer do sol.
 
A estranha confusão entre o bem o mal que nos incutem como uma herança requentada que receberam recomendada como um vírus muito urgente de transmitir. Que nos obriga a definir melhor as prioridades para combater aquilo que nos afasta do que o instinto grita desesperado enquanto nos indica o caminho mais indicado para prevalecer a função primordial, o chamamento irracional do carpe diem que nos desorienta no carril do que “deve ser”.
 Tudo aquilo que nos faz doer quando negamos esse lado escondido que renegamos em abono de coisas que nos são exteriores. Quando negamos os amores e muito mais.
 
Às vezes não podemos perseguir os ideais porque os sabemos utopia e não queremos que a magia nos cegue à realidade que compete enfrentar.
Cedemos ao primado do correcto, fazemos aquilo que é certo dentro dos padrões instituídos por alguém que nos precedeu.
Aceitamos o cinzento do céu como um imperativo a que nos subordinamos e viramos as costas a muito do que nos permitimos sonhar.
 
Coisas que sabemos interditas mas sentimos ser nosso direito reclamar.
publicado por shark às 11:51 | linque da posta | sou todo ouvidos