VERDADES INCÓMODAS

Já aqui falei nessa aversão que me provoca constatar que alguém apagou um blogue.

E eu já o fiz, pelo que não me ponho em bicos dos pés quando manifesto essa repulsa por um gesto que, aprendi na altura, constitui um gesto de desprezo para todos quantos participaram na construção desse espaço.

Queira-se ou não, um blogue conserva pedaços de vida. De quem o fez, acima de tudo, mas também de toda a gente que o leu, que o lincou ou o comentou. Trata-se de um registo de pessoas, de eventos, de emoções que basta deixar ficar no sítio para não desaparecerem de vez.
 
Quando alguém apaga um blogue só me ocorre a ideia de que pretende apagar também os rastos de uma porção de vida que pretende escamotear, para a esconder a alguém ou para evitar fazer a má figura como a sente quem se embaraça com passados que renegou.
É um acto de desprezo mas é um acto de cobardia também.
E denuncia na condição quem o pratica.
Mais uma vez, recordo que eu próprio já o fiz num acesso de fúria. De pouco me vale o arrependimento agora, mas bastou para que entendesse que se nos queremos dar ao respeito no que aqui fazemos não podemos depois cuspir nos olhares de quem assim se apaga naquilo que ajudou a construir e a fazer o sentido que assim se esgota com a magia do apagador.
 
O problema é que as memórias dos outros não se podem apagar.
E é sempre fácil de lembrar os detalhes que denunciavam, na altura em que esses blogues existiam, a essência de quem mais cedo ou mais tarde acabaria por os eliminar.
publicado por shark às 20:50 | linque da posta | sou todo ouvidos