NÃO FINJAM QUE ACREDITAM

É uma chatice, mas é a sinceridade o ponto de partida para todas as verdades incómodas. Seja por um acesso de fúria ou sob a forma de revelação num momento propício, quando alguém se permite ser sincero é garantido que algumas das verdades abafadas ou reprimidas soarão como bujardas na pele de outrem.

A sinceridade é assim como o sexo, no que respeita à sua imagem pública. Todos sabemos que é bom mas na maioria dos casos praticamo-lo às escondidas e até temos vergonha de o falar.
E até se torna feia na perspectiva de quem a recebe no peito quando preferiria escondida a realidade que alguém entendeu verbalizar.
 
É paradoxal a relação entre a defesa intransigente de uma atitude aberta e frontal e a rejeição visível dos efeitos práticos da respectiva adopção. Ou seja, o inferno está cheio de boas intenções hipócritas. Daquelas que nos fazem não saber para que lado pender quando nos confrontamos com tais escolhas.
Se é certo que em teoria o consenso roça a unanimidade e mesmo as pessoas mais falsas fazem a apologia da sinceridade enquanto correcta e até indispensável, na prática das relações humanas tende-se a varrer para debaixo do tapete tudo quanto possa ser substituído por uma conveniente omissão ou, ainda mais incongruente, por uma mentira piedosa.
 
O poder de encaixe exigido pela sinceridade absoluta equivale à nudez psicológica total e permanente no relacionamento com outras pessoas. E essa, se nem mesmo perante os mais próximos a esmagadora maioria de nós consegue lograr, quando aplicada aos de fora é receita infalível para o exílio social.
Mesmo os que possuam as características, as condições ideais e a motivação necessárias para dizerem sempre o que lhes vai na alma dificilmente terão arcaboiço para enfrentar as reacções alheias que, salvo raras excepções, tenderão sempre para uma forma de hostilidade (o sincero, como o nudista, é no mínimo um excêntrico aos olhos da maioria) e, em última análise, acabam por se ver isolados como bactérias infecciosas pelo perigo que representam.
 
É perigoso ser frontal numa sociedade com predominância hipócrita. Ser sincero é uma desvantagem lógica no confronto com aldrabões ou mesmo com gente de bem mas cobarde demais para assumir aquilo que sinta como fraquezas.
Quem opte pelo caminho da verdade que até a nossa religião predominante preconiza condena-se a receber o troco por parte de quem se habituou a gerir a vida e a personalidade como plasticina.
À pessoa frontal chamamos desbocada, atrevida, insensata, inconveniente ou mesmo desagradável.
Até o Estado cultiva e sobrevaloriza aquilo a que chama de seu segredo, o saco azul para as omissões que dizem servir melhor os nossos interesses para não terem que nos chamar burros com as letras todas. Porque papamos o grupo e não exigimos a verdade e a transparência, tal como o fazemos com tudo e com todos no dia-a-dia.
 
São estes os pequenos quês que envenenam a saúde das relações entre as pessoas, estes binómios entre o que devia ser e o que tem que ser que nos amarrotam aos poucos no interior de um saco de pancada em cujo revestimento se encontram coisas tão importantes como a dignidade e a honra, mas que acabam por ser substituídas por conceitos mesquinhos que se camuflam sob os pretextos inventados para as ignorar.
Mentiras piedosas, afinal, para mitigarem a infelicidade instalada pela suspeita, pela desconfiança e pela inevitável solidão que estas produzem.
 

No fundo, no fundo, sabemos que se mesmo com o desplante mentiroso desta sociedade de verniz dificilmente conseguimos enganar os outros, é (deveria ser) óbvia para qualquer pessoa a impossibilidade de nos enganarmos a nós próprios.

publicado por shark às 20:25 | linque da posta