SEM DÚVIDA ALGUMA

As dúvidas desfeitas em pó, espalhadas pela estante onde velhos livros se perfilam como sentinelas capazes de dispararem as palavras para arrasarem qualquer interrogação.

O dedo que passo na madeira, sobre os despojos da hesitação que a dúvida instiga, enquanto escuto essa triste cantiga que fala de desencontros entre as pessoas e os seus tempos, a pele suja pelo detrito de todas as perguntas que ficariam por responder se um dia não tivesses querido ler nos meus olhos a exclamação esclarecedora quando o acaso nos cruzou e tu, observadora atenta que os perscrutou, folheaste sem pressas os talões do depósito de amor que neles escrevi, de propósito, só para ti.
 
Os caminhos que percorri entretanto, à deriva num deserto interior que invade os espaços vazios do amor cuja falta nos desidrata ao ponto de o espelho nos revelar o aspecto ressequido do olhar com uma alma sedenta por detrás, foram meras travessias de quem se sentia capaz de avançar sem rumo, alheio às pegadas efémeras sopradas como fumo pelo vento que moldou o areal do passado que afinal não deixou rasto enquanto o presente não me ofereceu um futuro pavimentado, um caminho onde ficou gravado cada passo que demos a dois.
 
As dúvidas desfeitas depois, espalhadas pela estante onde se guardam livros cujas lombadas de um tempo distante evocam a memória das perguntas que fizeram a história que o nosso romance contará a quem um dia procurará as mesmas respostas que cobrirão, com as cinzas de dúvidas sopradas por outra respiração, o rasto deixado na madeira pela passagem do meu dedo à superfície do mar onde o tempo as sepultou.
 

Sob as certezas que o amor (em palavras tatuadas nas peles beijadas) nos legou.

publicado por shark às 11:52 | linque da posta | sou todo ouvidos