SÁ(I) FERNANDES

Entre o Sá Fernandes que deu cabo da cabeça a Carmona Rodrigues e o que agora parece no céu com António Costa vai uma diferença substancial.

Mas convenhamos que entre o Bloco de Esquerda que em Junho ensaiou esta titubeante mas clara manifestação de solidariedade institucional ao seu “menino de ouro” caído em desgraça e o que se prepara para lhe retirar a confiança política também são mais quilómetros do que os da frente ribeirinha que constituiu a última gota no (complicado) matrimónio que agora se prepara para um divórcio previsível.

 
A política é assim, sinusoidal. Um dia está-se em cima, na crista da onda, e no dia seguinte pode-se facilmente mergulhar de cabeça em plena rebentação. E isto aplica-se tanto aos protagonistas deste jogo para equilibristas (e cada vez mais para malabaristas e prestidigitadores, sem ofensa pela comparação) como às organizações que os acolhem e os promovem e depois arcam com as consequências dos seus erros de casting, tão próprios da cegueira do apelo eleitoralista que todos, à direita como à esquerda, são tão lestos a negar.
 
Desilude-me, esta súbita queda do anjo Zé na pele (pelo menos na imagem) do demónio seguidista. Sinto isso como uma perda para Lisboa mas também para um estatuto sempre embaraçoso para os aparelhos partidários mas cada vez mais pertinente na actividade política: a do candidato independente.
No casco carcomido das estruturas partidárias (pelo menos na imagem, também) os candidatos independentes podem constituir a única e derradeira tábua de salvação e, num futuro próximo, antevejo-lhes uma presença cada vez mais numerosa tanto a nível autárquico como nas próprias listas de candidatos às legislativas.
 
Ou seja, a esperança que Sá Fernandes representa (ou representava) passa tanto pelo que se apostava nele enquanto defensor acérrimo dos interesses da Capital (não confundir com os DO capital) como pela visibilidade da sua condição de não filiado no partido pelo qual se candidatou e fez eleger.
A sua iminente ruptura definitiva com o Bloco, ou vice-versa, ilustra a quase impossível compatibilidade entre os “livres-pensadores” sem cartão de militante e aqueles que se subordinam aos ditames da disciplina partidária (a mesma que transforma deputados da nação em vegetais sem convicção).
 
E nem estão em causa para mim as várias razões (pretextos) que este Zé que deixou de fazer falta e o BE que gosta de tresandar a ganza mas cheira cada vez mais a cigarrilha possam invocar na mais do que certa zanga das comadres em preparação.
Será sempre um enxovalho para uma certa esquerda que o Bloco representa e um sinal para os cidadãos que aceitem lançarem-se no circo político sem terem em conta a reacção das feras.
Se calhar, no recurso inevitável aos independentes para colmatarem a ausência de candidatos credíveis (ou elegíveis, na preferência partidária) reside a esperança de contenção da decadência óbvia dos partidos e, no verso da medalha, a sua condenação definitiva.
 
São cada vez mais os que esboçam uma democracia protagonizada por movimentos organizados de cidadãos criados de raiz para substituírem aos poucos os partidos nos órgãos do poder (o que já acontece, e faz todo o sentido, em muitas autarquias), para devolverem aos eleitores a voz que os políticos de carreira fazem soar de forma cada vez mais estranha e imperceptível. Dissonante, até.
E nesse aspecto é foleiro o papel do Zé.
 
Contraria ao mesmo tempo o incondicional-porreirismo do Bloco que se vê obrigado a fazer o mesmo que os outros perante o excesso de irreverência dos seus eleitos, mesmo que no caso em apreço a irreverência pareça consubstanciar-se na respectiva ausência (o que não deixa de ser um paradoxo com a sua piada…), e ao mesmo tempo desmente a esperança dos que ainda acreditam nos Estados Gerais como um precedente para uma complicada mas imprescindível miscigenação entre filiados e não alinhados no novo formato partidário que estes arranjos de conveniência ensaiam.
 

Mas são poucos os Zés que ficam…

publicado por shark às 21:18 | linque da posta | sou todo ouvidos