A POSTA NO SI(S)MULACRO

Por duas vezes senti a terra tremer a sério debaixo dos pés e muito sinceramente não gostei nada da experiência. Aliás, a primeira aconteceu tinha eu quatro anos e lembro-me de quase tudo como se tivesse acontecido ontem.

 
O simulacro de sismo que está a decorrer nos distritos de Lisboa, Santarém e Setúbal não é (ou não deve) ser encarado de ânimo leve, apesar dos sorrisos que possam suscitar as dramatizações das vítimas simuladas.
Num país onde tudo é resolvido em cima do joelho e impera a arte do desenrasque todas as oportunidades para testarmos os meios e a capacidade de resposta em caso de tragédia podem revelar-se vitais se vier a acontecer “a bronca”.
 
São muitos os profetas da desgraça que auguram uma repetição de 1755 por esta altura, mais ano, menos ano. De acordo com os mais atentos a esta realidade terrível que são os tremores de terra (ou sismos), e embora estes sejam quase imprevisíveis – recorde-se a excepção de Haicheng, na China, em 1975, onde a monitorização dos movimentos da crosta terrestre permitiram antecipar a ocorrência – os mais pessimistas coincidem nos cálculos que apontam para um grande sismo na zona de Lisboa a cada 250 anos.
O último foi em 1755.
É fazer a conta.
 
Se podemos, por via da escassa fiabilidade das previsões acima, descartar a “certeza” de tal ameaça, uma análise descuidada ao registo dos sismos a nível mundial prova-nos que podem acontecer a qualquer momento e praticamente em qualquer lugar.
E podem, como o terror do recente tsunami evidenciou, afectar áreas de milhares de quilómetros.
O terramoto de 1755 fez-se sentir no Brasil e o respectivo maremoto, originado pela localização do epicentro desse safanão estimado em 8,75 na escala de Richter, terá atingido Antígua, a mais de 6000 km de Lisboa.
 
Mas este verdadeiro terror para a indústria seguradora, e que recentemente deu origem a alterações – para pior na perspectiva dos titulares de apólices com esta cobertura – que derivam do recuo das grandes resseguradoras mundiais perante os efeitos devastadores dos mais recentes sismos de que há memória, pode assumir actualmente proporções dantescas.
Em causa não está um aumento significativo da frequência dos abanões mas as suas repercussões nas colossais zonas urbanas que não existiam no Séc. XVIII e agora constituem a maior dor de cabeça para os serviços de Protecção Civil.
 
A malha urbana da Grande Lisboa não será propriamente colossal à escala planetária mas constitui o ponto de concentração de cerca de um terço da população portuguesa. Por outro lado, catástrofes de menores dimensões como as cíclicas inundações que paralisam parcialmente diversos pontos críticos provam o quanto estamos vulneráveis perante a conjugação dos erros de palmatória a nível de planeamento e de prevenção (a qualidade de construção dos edifícios, por exemplo, pode esconder armadilhas que só um sismo sério trará a lume) com a escassez de meios e a tradicional balda optimista lusitana.
 
É esse o principal argumento para justificar a realização de simulacros como o que decorre e parece envolver cerca de 5 mil pessoas empenhadas em testarem a capacidade de resposta perante uma repetição de um sismo forte nesta região.
No vale inferior do Tejo (em 1909 a vila de Benavente foi arrasada por um abalo) situa-se um dos pontos críticos da chamada sismicidade intraplaca, existindo também essa característica desconfortável no vale submarino do Sado e na região do Algarve (a 200 km do Cabo de S. Vicente) encontra-se o temível Banco do Gorringe de onde costumam partir os maiores abanões nacionais.
 

Nomeadamente o que destruiu Lisboa e que as autoridades tentam agora prevenir e minorar nas hipotéticas consequências da única forma possível.   

 

 

Nota: se quiserem aprender qualquer coisinha acerca do assunto, recomendo-vos uma vista de olhos neste site.

publicado por shark às 11:36 | linque da posta | sou todo ouvidos