CONTAGEM DECRESCENTE - 5

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Foto: sharkinho

As palavras são como camaleões. Mudam de cor na boca de quem as proferiu, quando a passagem do tempo as despe da pigmentação original. Adaptam-se à percepção de quem as tenta interpretar, coloridas o bastante para se camuflarem no novo pano de fundo que por detrás se instalou. O cenário que mudou.

E as palavras também mudam, afinal, desprovidas do seu sentido inicial. À solta pelo bosque dos mil olhares e das escutas, à mercê dos predadores da palavra no efeito que ela pode causar. Escondidas na vegetação, receosas, as palavras adquirem um tom que as proteja, que as dissimule por entre um mar de incertezas e de indecisões na folhagem que o outono entretanto empalideceu.
O contexto ao qual não conseguem fugir, cor-de-rosa desmaiado no futuro condicionado pela leitura transversal.
Na paleta das mais fortes emoções é cinzenta a cor das suas indefinições.

Mas as palavras subsistem e na prática assistem à sua deturpação, reagem num rubor que lhes aviva a cor ou numa palidez que as desmascara de vez. São letras de uma canção. Melodia que varia de acordo com o (des)acerto dos pares. As palavras dão música também.

As palavras são como coelhos. Acossados na toca por futuros furões para a saída que desemboca na jaula dos leões. Vulneráveis ao medo dos olhos que as leiam ou dos ouvidos que as possam escutar amanhã. Indefesas perante a falsa lã nas costas das hienas que as irão degustar, ideias passadas e mais fáceis de mastigar. Tenrinhas na sua inocência, mas venenosas nas barrigas de quem as não saiba encaixar.
Ambíguas nas suas mutações.

As palavras são ilusões, coisas efémeras que se produzem com a finalidade de alguém as esquecer. Levadas pelo vento para um destino qualquer, distantes do ponto de partida, diferentes na cor e no tom. Outros tempos as pintaram no papel de fantasia que a brisa arrastou para o vazio que se criou em seu redor. O vácuo das palavras sem som.
Criadas do nada que a sua existência não transformou, inócuas para lá do preciso instante em que se sonharam um verbo importante. Que depois esbranquiçou na lixívia, na relatividade que o tempo sabe lavar, como nódoas num futuro que se antevia melhor.
Verborreia passada a ferro pelo peso das evidências. Engomada no fundo de uma gaveta encravada no armário que o sótão escondeu no meio das restantes velharias.

As palavras que se anunciam apenas prenunciam a inevitabilidade do seu fim.
São, afinal, um espelho da vida de cada um de nós.

Serão os restos de mim.
publicado por shark às 18:11 | linque da posta | sou todo ouvidos