CANTAS BEM MAS NÃO ME ALEGRAS

Perdeu o momento certo quando logo a seguir às eleições presidenciais deixou pendurado o movimento de cidadãos que quase o fez eleger, recusando-se a assumir um projecto político autónomo com base nesse conjunto de cidadãos.

Agora volta a descartar-se da hipótese de liderar um novo partido que possa nascer no espaço da esquerda que não se revê no PS e não acredita nas alternativas comunista e bloquista.
E não consegue combater no interior do partido os males que denuncia como se já estivesse fora, sem no entanto assumir a ruptura com os tomates que gosta de alardear.
 
Manuel Alegre, o candidato em que votei nas últimas presidenciais, faz-me lembrar os gajos que hesitam entre duas paixões e como não sabem para que lado cair inventam desculpas.
Fala grosso, aponta o dedo, mas depois remete-se a um silêncio discreto enquanto tudo acontece à sua volta.
E não faltariam as espingardas disponíveis na contagem dos apoios que poderia reunir se de facto ainda restasse nele algo do homem de Abril que parecia capaz de mover montanhas pela liberdade e pela democracia, como o provaram os resultados nas presidenciais como os da Câmara de Lisboa.
Com muito menos do que isso, o copinho de leite Monteiro conseguiu acautelar a sobrevivência política (moribunda, mas enfim…).
 
Mas o lutador Alegre parece limitar-se aos murros no ar e às atoardas inconsequentes de quem na hora da verdade foge ao ringue como o diabo da cruz. Não ata nem desata, limita-se a ser uma espécie de marreta que manda umas bocas do camarote, de vez em quando, sem que a isso corresponda a necessária acção política directa e frontal que jogaria certo com a sua pala de inconformado.
 
Falar é fácil, como outro ilustre barbudo (o que bloga) confirma.
Contudo, se alguém com condições políticas para avançar (a oposição apenas gatinha), com razões de queixa para lamentar (pelo menos dá para encher umas entrevistas) e com fama de combatente (mais do que o proveito nesta altura) se resguarda numa postura prudente de “vão-se a eles que eu fico a ver”, a mensagem que fica é de que ninguém de facto ousará contestar o poder absoluto da actual maioria rosa. Mesmo que ela descambe para os excessos que aqui e além dão à tona.
 
Falta-me a pachorra para contestatários de bancada, até porque ocupam um espaço privilegiado da blogosfera, e não acredito em desabafos sem consequências práticas.
 

Por isso acredito que talvez o poeta com pose de pugilista devesse ponderar a hipótese de abraçar a palavra escrita e de, na política, arrumar definitivamente as luvas.

publicado por shark às 19:46 | linque da posta | sou todo ouvidos