PUF DESCOBERTAS

Por motivo de força maior, hoje passei quase todo o dia arredado da blogosfera.

Vivi uma experiência inédita para mim, no interior de um hospital privado que nem há muito tempo era uma referência (talvez o mais próximo que conseguíamos encontrar daquelas unidades hospitalares das séries americanas) e agora perde na comparação, por exemplo, com o Curry Cabral onde há pouco tempo passou a minha herdeira.
 
Em causa não está aquilo que os olhos comem. O hospital privado em causa, o CUF Descobertas, tem o aspecto que todos gostaríamos de encontrar num hospital público e rivaliza com alguns excelentes hotéis na qualidade do alojamento que proporciona.
Mas os olhos comem ao ponto de apanharem uma indigestão quando percorrem as paredes de um hospital privado ao longo de mais de quatro horas para uma triagem de um minuto, uma consulta de cinco minutos e dois exames complementares de diagnóstico que juntos não ultrapassaram meia hora.
O resto do tempo, uma eternidade para quem paga um balúrdio de seguro de saúde para evitar as demoras crónicas dos hospitais públicos, é a medida do pandemónio que o excesso de clientes (sim, clientes, como consta da parede do parque de estacionamento pago(!) - e caro - do CUF Descobertas) invariavelmente acarreta num estabelecimento comercial, perdão, hospitalar qualquer que seja o seu modelo de gestão.
 
É a meu ver inconcebível que se deixe chegar um hospital daqueles a um nível de eficiência similar ao dos hospitais públicos tornados parentes pobres, não pelo calibre de quem lá trabalha, por norma excelente, mas pelos motivos sobejamente conhecidos e que não enumero aqui por constituir tema para uma outra posta.
Salas de espera atulhadas para tempos de espera exagerados não são o filme que esperamos encontrar num hospital onde cada dia de internamento pode custar acima dos cem euros.
E se a simpatia e o ar prestável de quem (médicos, enfermeiros e auxiliares) lá trabalha contrasta com a secura e a frieza típicas da maioria dos que integram o sistema público, a gritante juventude e o sotaque eslavo predominantes na equipa médica do CUF Descobertas deixam perceber uma política de contratações pautada pela contenção nos custos. O preço destas decisões pode ser elevado e tenho tido diversos desabafos de quem já começou a apontar para um pouco mais longe (o Hospital da Luz) para procurar aquilo que se esperaria no local onde hoje perdi meio dia para acabar por sair sem respostas concretas.
 
Existe um limite para a capacidade de qualquer organização ou empresa e constitui quase sempre um erro de palmatória buscar a viabilização financeira com base na clara ultrapassagem desse limite razoável.
 

E quando é da saúde que se trata e da que se paga pela medida grande, não há tolerância que resista.

publicado por shark às 00:04 | linque da posta | sou todo ouvidos