A POSTA NA LEI DO MAIS ESPERTO

Deve ter existido um tempo onde a Humanidade, como pomposamente nos chamamos, acontecia sem regras. Era tudo ao molho e fé em deus (com minúscula, pois na época ainda não tinham a noção dessas coisas e desenhavam alces nas cavernas em vez de virgens marias) e a malta (o macacal, bem vistas as coisas) ia sobrevivendo como podia sem código da estrada, regulamento do condomínio e outros preceitos que hoje entendemos, na maioria, maçadores mas indispensáveis.

 
Julgo que ninguém faz a mínima ideia, por mais esqueletos que analisem, de qual foi o primeiro cabeludo a definir uma regra e a conseguir impô-la no seio de um grupo de pré-históricos qualquer.
Certo é que algures um dos nossos mais antepassados deve ter mandado dois urros ao bacano que apanhou a debicar nas vísceras do mamute que não lhe pertencia. Se calhar até somou dois murros à argumentação para vincar bem o cariz permanente daquela norma que lhe pareceu porreira.
E o resto da malta aceitou a ideia porque o tipo era o mais calmeirão e, às tantas, porque perceberam que mais valia seguirem o raciocínio daquele do que estarem sempre a ser roubados por outros mais pequenos.
A anarquia pura deve ter morrido nesse dia.
 
Está bem de ver que depois de aberto o precedente o conceito espalhou-se como fogo ao vento e daí até ao complexo emaranhado legislativo (e não só) que nos regula a (co)existência foi um passinho em termos cósmicos.
Bem ou mal, não conseguimos viver em sociedade se não respeitarmos um conjunto de regras de conduta ditado pelos usos e costumes e pelo bom senso (não urinar à porta do vizinho, não enfiar o nariz gelado no decote escaldante da colega de trabalho, etc.), mais os que acabaram até por tomar a forma de lei (continuamos a não poder gamar as vísceras dos mamutes alheios).
 
A lógica simplista
 
Certo é que quase tudo o que fazemos está subordinado a esse conjunto de indicadores do que se deve ou não, do que se pode ou não e por mais rebeldes que nos acreditemos mais cedo ou mais tarde temos que amochar perante regras que, no nosso cada vez mais irrelevante entender, são estapafúrdias.
Às vezes até nos fica a sensação desconfortável de que existem obrigações, imposições e outras restrições a mais e fazemos o que é possível para contrariar os superiores interesses de uma elite qualquer em função dos nossos, os dos cidadãos comuns a quem compete legitimar o poder mas depois, para os que o ocupam, só o atrapalham.
 
Porém, a lei da selva já se ilustra na perfeição pela desigualdade entre os mais fortes (que equivalem aos que no tempo dos mamutes os possuíam) e os mais fracos (que são os que olhavam famintos para os mamutes dos outros mas não se atreviam a ir lá buscar um pedaço com medo da moca do calmeirão residente), pelo que a malta acaba por abdicar de forma pacífica até de direitos adquiridos para se certificar que algo impede que os mais brutos se imponham à lambada e nem os ossos dos mamutes sobrem para roer qualquer coisita.
As câmaras de vigilância e outros dispositivos análogos são uma extensão tecnológica desse anseio, embora a malta mais atenta tope logo que ao fim da privacidade não corresponde uma segurança verdadeira mas apenas a garantia de que os maus são apanhados depois de praticarem o crime por ficarem na caixa mágica do Big Brother.
Alguns, ainda mais cépticos, têm até a noção de que esses maus, bem advogada a sua causa, podem sair impunes ou quase por entre as inúmeras fissuras no expoente máximo do tal conjunto de regras cuja imposição confiamos a algo a que chamamos, pomposamente outra vez, Justiça.
 
A lógica da batota
 
É um mal menor, parece acreditar a maioria dos que investem em portas blindadas, alarmes e fechaduras de segurança para os isolarem nos casulos de onde têm cada vez menos vontade de sair. Pelo medo de que lhes roubem até as próprias vísceras porque o mercado negro de órgãos para transplante é um verdadeiro fazedor de fortunas.
E os mamutes entretanto extinguiram-se, tal como muita bicharada nos nossos dias à mercê dos que violam deliberadamente uma data de regras daquelas que só aturamos porque acreditamos que ajudam a criar um mundo melhor, pelo que os descendentes dos fulanos que o calmeirão original pôs na ordem acabam por fazer o mesmo que muitos daqueles a quem compete zelar pelas regras e afinal até as violam (ou pactuam com quem o faz, o que vem a dar no mesmo), buscando novos focos de cobiça entre o património do resto do pessoal (o que nem rouba nem manda).
 
Isto, em termos resumidos, é o que justifica a existência das regras e mais ainda a respectiva fiscalização (no cumprimento como na legitimidade das mesmas). Parece claro e razoável, este esquema das coisas, apesar dos muitos exemplos da sua fragilidade num mundo cada vez mais entregue a si próprio sem que Cristo ou as avançadas civilizações alienígenas desçam à Terra para acabarem com o pagode global.
Ou seja, estamos reféns do cada vez mais restrito grupo que vai ditando as regras em função de interesses que nem sempre são os nossos e resta-nos esperar que no mínimo tenham o brio e a decência de acautelarem as que nos garantam o acesso a um pedaço do mamute moderno que não se caça mas compra-se com o dinheiro, essa invenção maléfica que se tornou na mais importante prioridade de quem queira garantir a sobrevivência. Goste-se ou não. A alternativa é o flower power
 
Precisamos que nos garantam que a lei do mais forte não é substituída pela lei do mais esperto.
 

E é por isso que eu acho que o Dr. Vítor Constâncio havia de se demitir.

publicado por shark às 00:56 | linque da posta | sou todo ouvidos