A POSTA NO OLHAR DE QUEM VÊ A CIDADE PASSAR TÃO DEPRESSA

calor humano

Foto: Shark

 

 

Passa-lhe ao lado a cidade no contexto de uma realidade que é só sua e de mais ninguém. Não se sente mal nem se sente bem, não chora mas não lhe dá para rir, também dispensou esse luxo que é sentir, algures quando o prato da balança desequilibrou demais para a verdade da dor com que magoa a saudade mais o remorso misturados no caldeirão fervente da indignação.
Abdicou da emoção quando se percebeu incapaz de lidar com as memórias de tempos atrás e aprendeu que no futuro de pouco lhe iriam valer, essas lembranças que fazem doer quando enfatizadas pela solidão, ainda que voluntária.
Uma tendência suicidária nas relações, um vício qualquer nas explicações desnecessárias para aquilo que lhe aconteceu no dia em que morreu para todos quantos o conheceram no tempo em que o aturaram nas suas manias e enfrentaram as desilusões que provocava nos outros por sistema.
 
Ao início sentia pena de si próprio por ter hipotecado o pouco que lhe restava e a vida não tardaria a penhorar. Cansou-se de enfrentar a reacção desesperada de cada pessoa amada que tentava em vão contrariar-lhe a decadência e depois ele sentia como uma indecência a sua presença perniciosa nas vidas que lhe competia partilhar.
Um dia decidiu aceitar o impulso interior para esquecer de uma vez cada amor que destruía aos poucos com a sua insanidade temporária, cada vez mais adornada a sua história com episódios que o ilustravam imbecil.
Sentia-se um homem tão vil que a pena que sentia afastou-se soprada pelo vento que o enregelava e às tantas até a alma se escapou, quase jurava que a topou a fugir enquanto secava a última lágrima a cair com a manga do casaco que ainda veste tantos anos depois.
 
Quanto tempo não sabia, o que lhe restava e o que jazia na masmorra fechada num canto da sua mente anestesiada à prova de emoções, a alma afogada em alucinações etílicas que o deixavam à mercê dos que lhe cobiçavam o quase nada que conseguia reunir nos seus espaços aleatórios de papelão.
 
Acreditava-se com as rédeas da sua vida na mão, independente, mais livre enquanto indigente do que na pele controlada por um papel a cumprir numa vida tramada para todos os que se deixavam arrastar por uma maleita qualquer que culmina no ensandecer debaixo da ponte ou nas arcadas de um edifício, sob o fogo de artifício das luzes em movimento da cidade que os esqueceu depois de os banir.
 
Às vezes apetece-lhe sorrir, mas descobre que é engano quando o calor metropolitano o lembra do frio interior e é então que desliga o olhar, pousado sem brilho num ponto fixo da cidade que lhe passa ao lado enquanto rumina em silêncio a melhor solução para a próxima refeição, desatinado por já nem conseguir lembrar-se de como desenrascou a anterior.
publicado por shark às 00:30 | linque da posta | sou todo ouvidos