A POSTA NO JUMENTO

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Foi a primeira e a última vez. E apenas porque estavam em causa os interesses de alguém (na altura) muito especial para mim.
Em boa medida o seu futuro estava condicionado (julgava eu) pelo sucesso da minha intervenção. Andara a brincar ao longo de um ano lectivo e o chumbo desenhava-se no horizonte, um ano perdido que poderia implicar a sua desmotivação e consequente abandono daquilo que me parecia ser a sua tábua de salvação anos mais tarde.

Por isso me meti ao caminho, entalado entre os valores que defendia (e que me impediam de alinhar numa cena daquelas) e a certeza de que a minha recusa em intervir implicaria um rude golpe no futuro da pessoa em causa. Na prática, eu preparava-me para usar a minha influência sobre um amigo, um professor do liceu, para salvar o coirato de uma estudante que dependia em absoluto de uma positiva naquela disciplina para não marcar passo no oitavo ano da sua mísera escolaridade.
Na prática eu via-me obrigado a meter uma cunha e a alinhar assim num dos esquemas mais ordinários de promoção da mediocridade que o nosso país aprendeu em 48 anos de sono.
Mas à minha vontade de boicotar essa via indigna para fugir ao merecido castigo de uma moinante sobrepunha-se uma estranha noção do dever que me impunha.
E por isso decidi engolir o sapo uma única vez.

O meu amigo era um homem em condições, não duvidava, e isso fazia-me adivinhar que também ele se sentiria entre a espada e a parede perante o que tinha para lhe dizer. Li o desagrado na sua expressão, contrastando com o sorriso simpático mais o abraço com que me recebera, quando lhe expliquei o que me trazia à sua presença.
Deixou bem claro que a nota correspondente ao desempenho daquela aluna era a mais baixa possível (um numa escala de zero a cinco) e mesmo sabendo que a isso corresponderia uma raposa, por via de outras duas disciplinas com negativa certa, seria esse o seu critério. Se eu não estivesse ali a esgrimir argumentos em abono da jovem preguiçosa ou burra demais para aprender, utilizando a amizade como arma de arremesso contra os princípios daquele homem. E contra os meus.

Cedeu, por fim, e foi a última vez que voltei a ouvir-lhe uma palavra. Virou-me as costas sem me estender a mão e foi à sua vida. Eu fiquei sozinho à porta da sala dos professores, envergonhado pelo meu papel e incapaz de lutar pela relação com aquele amigo que hipotequei por terceiros.
Dias depois, a pauta comprovava que a minha iniciativa produzira o efeito pretendido. A nota positiva naquela disciplina, um milagre incompreensível para os que se haviam esforçado, garantia a passagem de ano e a continuidade da jovem no seu caminho rumo a uma licenciatura que até hoje, quase vinte anos depois, ainda não completou.

Existem várias conclusões a extrair desse episódio e eu tenho tentado interiorizá-las. Fui oportunista, recorrendo à minha influência sobre alguém para falsear uma verdade e as suas consequências. Fui fraco, deixando que a pressão de outros e o meu tique de salvador da Pátria se sobrepusessem ao que eu sabia ser a atitude mais correcta a tomar. Fui corrupto, ao alinhar numa situação que possui todos os contornos do que encaro como um dos cancros mais malignos para a saúde do meu país.
E fui estúpido, ao sacrificar uma relação e uma escala de valores em prol de um objectivo sem eira nem beira. Na defesa dos interesses(?) de quem, anos mais tarde, se transformou numa das maiores ameaças que na minha vida enfrentei.

Não sei se aprendi todas as lições que este episódio me podia ensinar. Mas aprendi algumas, como o teor do meu texto denuncia e o meu comportamento desde então confirma.
Contudo, ficarei sempre na dúvida e nunca pagarei a dívida que contraí perante o amigo que atraiçoei por algo que se provou não ter valido a pena.
Por alguém cuja ingratidão e incapacidade para fazer bom uso da goela que o destino lhe deu à minha pála me servirá para sempre de exemplo, de uma prova irrefutável do erro que cometi e nunca poderei repetir.

Por alguém que em troca desse meu "favor" (e de outros que nunca reconheceu) me tentou destruir.
E pelo menos em parte conseguiu.
publicado por shark às 12:30 | linque da posta | sou todo ouvidos