A POSTA NA ESSÊNCIA DA FELICIDADE

nao ter medo.JPG
And you kill what you fear and you fear what you don't understand.
Genesis, Duke, Duke's Travels.

Ninguém entende o amor. Apesar de ao longo dos séculos muitos terem tentado explicá-lo, ou no mínimo traduzi-lo sob uma qualquer expressão criativa, não existe uma noção unanimemente reconhecida como definitiva a propósito da maior das emoções.
Para muitos, o amor é algo que se sente e pronto. Não há que tentar explicá-lo. Para outros, nem faz sentido aplicar essa designação aos seus enlevos passageiros, por muito forte que lhes bata o coração na presença ou na memória de outra pessoa.
Para a maioria, porém, o amor está presente qualquer que seja a intensidade ou a duração do seu envolvimento com outras pessoas.

Porém, a assumida (e generalizada) ignorância acerca do assunto pode (tem) um efeito pernicioso na atitude de quem ama(?). O medo do desconhecido é uma das reacções mais instintivas das pessoas. Assim sendo, o amor surge quase como uma ameaça a evitar, pela sua falta de razoabilidade, pelo seu impacto no comportamento de cada um e, acima de tudo, pelo desgosto que o seu fim pode acarretar em quem o assume.
O amor desorienta, perturba, exponencia as piores emoções. E por isso assusta quem se vê apanhado nesse turbilhão e imediatamente se sente tentado a negá-lo, para minimizar a importância dos seus afectos e poder mais facilmente abdicar de uma relação instável ou complicada de manter.

Na prática, este receio, esta aversão à carga pesada de um termo que diz "demais" acerca da ligação sentimental das pessoas está a matar o amor. Soa exagerado? Se insistirmos em renegar o conceito, aplicando-o apenas às relações ultra-apaixonadas, de longevidade promissora ou devidamente enquadradas num contrato matrimonial, estamos a afastá-lo aos poucos dos nossos hábitos e das nossas expectativas. Estamos a acobardar-nos perante a intensidade das emoções, reduzindo-as a uma expressão análoga que nos "desresponsabilize" relativamente às situações que enfrentamos nessa matéria.
E não é apenas uma questão de nomenclatura, é a agonia do romance à mercê do realismo que, afinal, apenas traduz uma visão pessimista do que se percepciona ao longo de um caminho, por norma, feito de desilusões.

Uma relação que não aceita o amor como ponto de partida para todas as explicações, para a sua própria justificação, é frágil, é fútil e não vale um caracol. Esta é a minha versão da coisa. Nem que dure dez minutos ou não mais do que uma intensa troca de olhares. Se mexe connosco ao ponto de nos baralhar as ideias, é de amor que se trata.
Não existe apenas um amor, pois este manifesta-se de imensas formas. Mais ou menos intenso, mais ou menos comprometido, esse factor desconhecido que nos une em ligações quantas vezes "impossíveis", essa atracção que nos empurra para os braços de alguém é sempre uma exibição clara do amor tal qual ele se revela. Inesperado, arrebatado, perturbador, quaisquer que sejam as suas hipóteses de continuidade ou de viabilização.

Claro que é mais fácil chamar-lhe paixão, ou outra coisa assim leve e fresca que lhe confira um cariz (alegadamente) temporário e mais "light". Contudo, essa porta aberta para uma retirada ligeira ou para uma manutenção sem amarras (porquanto liberal e moderna) possui um reverso da medalha.
Porque à fuga ao compromisso podem corresponder algumas tendências "libertárias" facilitadas pela ligeireza das designações e correspondentes graus de vinculação. Às vezes até passa apenas pelo "deixar cair" de alguns cuidados que de outra forma se justificariam como "acendalhas" de uma relação.

E existem sempre dois factores a ter em conta nestas equações...
publicado por shark às 15:12 | linque da posta | sou todo ouvidos