A POSTA QUE JÁ TOU A DESATINAR

Lido mal com os meus fracassos. Não por me julgar superior, imaculado, ao ponto de nunca falhar, mas porque já me sinto com menos disponibilidade para investir de mim em novos projectos, em novas apostas ou apenas em tiros no escuro motivados pela emergência associada a uma estranha forma de desespero de causa.

Ou seja, não é tanto a falta de vontade de promover a mudança que corrói a frágil base onde assentam os pés de barro típicos de uma conjuntura desfavorável mas sim a escassez de paciência para enfrentar sucessivos recomeços sem continuidade viável.
 
O que fracassa, acima de tudo, é a estatística que me permite calcular as probabilidades de sucesso que a própria lucidez já deixa de gatas com uma simples pitada de realismo. Nem é de desencanto ou de desânimo que se trata, mas da constatação factual de que os milagres são, por definição, cada vez mais restritos ao domínio do sagrado (ou da sua necessidade de afirmação, de concretização das expectativas de um dado grupo de fiéis). São panaceias, ilusões à medida de pecadores perdoados com ficção…
E eu nem sou, excepção feita ao amor, um homem de fé.
 
Jamais me aceitarei conformado, pelo menos no sentido mandrião do termo. Aceito e até sou capaz de digerir as derrotas que a vida me impõe ou apenas devolve como consequência das minhas asneiras ou imprecisões.
Todavia, quando chove à brava mas o vento insiste em virar o chapéu do avesso o instinto diz a um gajo para aceitar o aguaceiro de peito aberto e rosnar ao céu cinzento só para marcar uma posição. Mas como a atitude conta, de facto, mesmo quando chovem canivetes e nos resta apenas o bom senso ou o instinto de conservação que nos levam a procurar abrigo temporário debaixo de uma varanda qualquer, lá temos que nos resignar outra vez.
Importante é sabermos prever as consequências das diferentes opções ao nosso alcance, distinguindo-as não em função do grau das ameaças mas da análise fria do poder de encaixe que nos resta para as enfrentar.
 
Lido mal acima de tudo com as retiradas estratégicas que este campo de batalha sem nexo me impõe e que me obrigam a somar desilusões.
 

Não porque me envergonhe de tais recuos, mas porque por cada passo atrás neste terreno irregular não consigo imaginar os dois passos em frente subsequentes sem descartar os mais que prováveis tropeções.

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publicado por shark às 12:23 | linque da posta