DOUTOR É NOME PRÓPRIO OU APELIDO?

(…) Nos EUA, mesmo aqueles que são doutores a sério, porque fizeram um doutoramento após a licenciatura, ou são médicos, e portanto usam o título merecidamente (mas nunca como arma de arremesso para criar entre pessoas barreiras hierárquicas) logo após as primeiras palavras trocadas insistem que os tratemos por Bob, ou Jim, ou Phil. Sumidades como o Professor Dr. Robert Burgelmann, uma luminária da escola de negócios da Universidade de Stanford, pessoa com créditos firmados e reconhecimento internacional, disse-me quando eu me dirigi pela primeiríssima vez a ele, com a devida vénia e respeito, que me deixasse de tretas e o tratasse por Robert! Que Doutor, que Professor, qual carapuça.

Aqui as teias de aranha teimam em permanecer nos neurónios cerebrais. Alguns dos nossos licenciados ainda acham que é o título que os torna gente importante ou superior a quem, por exemplo, com um mero 5º ano liceal dos de antigamente (saíam melhor preparados que muitos “Doutores” hoje), tem uma vida inteira de experiência na sua profissão, e portanto é possuidor de um capital intelectual que nenhum canudo de recém-licenciado substitui. Se soubessem a figura lamentável que fazem… Uma geração no mínimo, é essa a minha aposta. Vamos precisar de uma geração para acabar com essa aberração. Os meus amigos mais pessimistas falam de três… (…)
 
José António de Sousa, licenciado, CEO da Liberty Seguros, in Revista Liberty em Acção.
 
 
Escolhi este trecho assinado por alguém a quem reconheço o mérito de ser o CEO de uma Seguradora que mais admiro e respeito. E nem sequer trabalho com a empresa em causa, o que me isenta da suspeita de “favores” ou outras coisas mesquinhas que as pessoas invocam para tentarem “justificar” este tipo de citações.
O homem é um espectáculo e o resto são fait-divers.
E o trecho em causa serve para pegar no tema sem que a minha condição de não licenciado (oito anos de propinas pró boneco…) possa ser trazida à baila como explicação para a minha opinião na matéria e que coincide com a do doutor que citei.
 
Ninguém pode duvidar da minha perfeita noção do esforço investido seja por quem for numa licenciatura, bem como do reconhecimento do mérito de quem a consegue completar (algo de que até hoje não fui capaz). Mas essa é uma questão acessória e serve apenas para separar as águas, para que entendam que não pretendo minimizar mas sim relativizar o valor dessa concretização.
No meu ofício é frequente ver-me confrontado com pessoas que utilizam o título, o grau académico, como nome próprio. “Fala Engenheiro A”, “sou o Doutor B” e por aí fora, tanto da parte de professores universitários como de recém-licenciados em cursos com nomes impronunciáveis tirados em universidades privadas extintas. E esse recurso visa apenas marcar a diferença entre tais interlocutores e os apenas “senhores” que lhes calham em caminho, visa apenas exibirem os galões possíveis de obter na vida civil por forma a colocarem-se num plano superior com base num pretexto artificial e antes que exista algo que possa sustentar tal pressuposto.
Equivale a pôr as pessoas na ordem, a impor uma hierarquia prévia.
 
Seria apenas arrogante e pretensiosa, esta mania tão portuga, se não constituísse igualmente um estorvo para a resolução de muitos problemas dos que exigem paridade (ou pelo menos equilíbrio) entre os intervenientes para que as coisas funcionem de facto e não fiquem inquinadas pela tal obsessão pelo estatuto que um grau académico só confere a quem se mostre um ser humano à altura.
Melhor dizendo, existem imbecis licenciados como se encontram por aí pessoas inteligentes e/ou especializadas em áreas que nenhum curso abrange de forma séria ou realista. E estas últimas nem sempre se predispõem a tolerar os bicos de pés implícitos no enfatizar de um “dr”, sobretudo quando a esse destaque não corresponde um ser humano em condições…
 
Confesso que não me perturba nem intimida o currículo académico seja de quem for. Admiro a capacidade intelectual, a bagagem cultural e tudo o resto que se presume em alguém que investiu uns anos da sua vida numa área de conhecimento específica. Contudo, admiro muito mais o calibre da formação pessoal dos outros, a firmeza de carácter, a imposição pelos factos, pelo mérito, em lugar da exigência de reconhecimento de um título que, bem vistas as coisas por quem por lá passou, pelo menos em boa parte das licenciaturas portuguesas, não requer assim tanto esforço ou mesmo tanta inteligência como seria desejável.
 
Quero com isto dizer que deveria ser óbvio para pessoas licenciadas e, teoricamente, mais inteligentes (ou pelo menos mais treinadas para pensarem as coisas) o absurdo de avançar com os títulos em riste mesmo antes de saberem com quem se deparam e de exibirem a massa de que são feitos, a idiotice de acreditarem que esses galões lhes permitem reclamar algum tipo de superioridade por inerência em vez da hostilidade mais ou menos reprimida por parte de quem os atura.
Mas não é assim tão óbvio, o que em nada abona da estrutura moral e mesmo da capacidade intelectual dos doutores e engenheiros que insistem em lidar com os outros com base nessa postura.
 
E repito, só levanto a questão porque me deparo com os engulhos que esta forma de ser licenciado cria em aspectos práticos do dia-a-dia profissional e não só. Muitas decisões erradas e conflitos desnecessários derivam da arrogância que só atrapalha quando se exige uma conjugação de esforços por parte de equipas de trabalho ou mesmo de parcerias de circunstância.
 

Por isso espero encarecidamente que os amigos mais pessimistas do meu estimado José António de Sousa percam a aposta…

publicado por shark às 12:01 | linque da posta | sou todo ouvidos