A POSTA NO EXPURGATÓRIO

Hoje é mais um daqueles dias em que me descubro diferente, muito mais prudente neste exercício de blogar do que um anito ou dois atrás. Menos desbocado, sem dúvida, com o calo no fundo das costas que distingue um descendente de símios que não renega Darwin e nem por isso perdeu a fé num paraíso ou mais.

Sim, porque hoje é outro daqueles dias em que paraíso é qualquer ponto da Terra ou do céu onde não possa cruzar-me com alguém em particular. Seria o fim da macacada, tal infeliz coincidência.

 

Furioso como me sinto, adivinho-me capaz de partir aqui a louça toda como fazia no passado recente. Só que a tal calosidade ensinou-me que numa sociedade também composta por hipócritas, cobardes, nhónhinhas e oportunistas um gajo que parte a louça acaba por levar com os cacos em cima. Acaba por lhe ver colada a imagem do mau da fita.

E essa característica não é exclusiva da blogosfera, pelo que um gajo sem estima pelo recheio dos armários de cozinha e que se viu algures forçado por terceiros a abdicar do anonimato sabe que a factura de um desabafo pode vir “lá de fora”. Eu sei, acreditem.

 

Por isso mesmo, e apesar de ter hoje confirmado uma das razões que me assistiam no passado, não vou deitá-la a perder por via da publicação de uma posta demasiado… sincera acerca de algo e de alguém (ninguém conhecido por estas bandas largas, sosseguem) que me enoja e a quem anseio suscitar precisamente a mesma reacção (seria para mim uma lisonja).

Claro que sinto esta posta como um acto falhado, devidamente amordaçado pela prudência gerada não pelo medo das consequências mas precisamente pelo cariz inconsequente dos desabafos que mesmo fundamentados só servem para nos tramar aos olhos dos outros quando se revelam excessivos na terminologia. Só saímos a perder.

 

Confesso que estou saturado desse tipo de derrotas, que se somam a tantas outras, bem mais penosas, que a vida e o meu feitio me proporcionam. Estou farto de morrer como o peixe, pela boca, por ser um peixe com voz grossa e ter uma boca das que mordem a doer quanto lhe concedo a rédea solta que me deita a perder, ou deitava.

Por isso esforço por conter a informação disponível e publico apenas o que posso partilhar sem arriscar o julgamento leviano de quem não está no convento e depois soma alhos com bugalhos e me condena por dar pala de mau perante quem se beatifica com falinhas mansas.

Em última análise é a imagem que conta, muito mais do que a razão ou o valor da argumentação em causa.

 

Hoje é mais um daqueles dias em que enfio as emoções como gatos num saco para que me esgatanhem por dentro, abafadas, escondidas dos olhares reprovadores de quem me mede pelo tom e não pela validade do móbil da indignação.

 

Deixem lá, podem ter como certo de que fica para outra altura. 

publicado por shark às 22:07 | linque da posta | sou todo ouvidos