MAIS DO MESMO

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Aos poucos, a vida liberta-me dos engulhos e devolve-me aquilo de que me privou noutros períodos menos bons.
Como se tudo no universo se conjugasse para devolver o equilíbrio a todas as coisas, como se existisse de facto uma força superior que nos organiza a existência com moedas de troca que funcionam quase como uma lei das compensações.

Ganhos e perdas, equilibrados na balança. Na vida que dança ao ritmo das alíneas escondidas na pauta que firma o tom do contrato, talvez assinado por um Deus. A obra do acaso que nos desvenda o passo seguinte do plano concebido para cada um. Predestinação. Ou outra coisa qualquer que nos empurra para o momento da decisão que transforma as que virão a seguir.
Causa efeito Nas consequências que conseguimos explicar, nas coincidências que nos fazem interrogar quem manda afinal no caminho que percorremos. E quando morremos?
Quem aponta no calendário o dia em que soltamos a última das inspirações que nos estavam destinadas, peito cheio para as despedidas possíveis num suspiro final?

De uma irrelevância total, a quem devo agradecer as benesses concedidas ou praguejar as tristezas sofridas. Existe um deus em cada um de nós, mais o demónio que nem sempre conseguimos exorcizar. Acertam-se as contas no fim, com toda a certeza. E a vida é uma beleza quando a sabemos apreciar.
Não vale muito a pena pensar. Pelo menos, demais...
Ninguém anota as lágrimas que chorámos e as gargalhadas que deixámos por soltar. Somos nós a avaliar. Mais ninguém se interessará, na terra como no céu, pelos pecados que cometemos ou pelas orações que esquecemos na hora de deitar. Demasiada importância a questões de pormenor. Interessa-nos o amor.
E as histórias que temos para nos contar. As memórias que nos revelam como um espelho o que a nossa existência rendeu.

Um homem como eu não aceita as contas de sumir. A aritmética para rir, ao longo de uma aprendizagem que é feita de adições. O produto das emoções, dividido pelo tempo concedido pelo Criador (havendo um). A média do interesse que a vida nos despertou, a nossa presença no tempo de quem nos amou. Coisas que interessam ao objectivo primordial: que tenha valido a pena pela entrega total de que a vida se fez.

A uma amizade regressada e a um amor que se redescobriu, brindo com um beijo nos lábios do copo que deixo vazio.
E agarro a botelha pelo gargalo. Outra vez.
publicado por shark às 20:44 | linque da posta | sou todo ouvidos