ONDAS DE CHOQUE

É muito fácil colar a um cidadão preocupado o rótulo de catastrofista.

Esse cidadão tenho sido eu, sempre que aqui invoco os meus pergaminhos de profeta da desgraça, e sobretudo em matéria económica.
Sou quase um leigo no assunto, embora uns anos de escola mais uns factos da vida (as lições da História, por exemplo) me permitam ir catando uma ou outra informação que me permitem, por exemplo, ter quintuplicado o único investimento sério que até hoje fiz na Bolsa.
 
E é na bolsa que nos vão mexer, agora que está em fase de morte anunciada aquela que é nesta altura a maior seguradora do planeta. Não estamos a falar de uma empresa importante, mas sim da maior do mundo num sector de actividade que contribui com cerca de 10% do PIB português.
Qualquer economista de pacotilha como eu consegue adivinhar os laços financeiros criados entre essa instituição e outras do mesmo ramo, as que cedo ou tarde deixarão de esconder o dano estrutural provocado por esta pancada.
Ocorrem-me as infelizes torres de Manhattan que ninguém imaginou pudessem cair mesmo enquanto ardiam a toda a largura de vários pisos.
Ninguém o previu, mesmo na pior hora. E no domínio da catástrofe económica, recordar 1929 é descobrir o mesmo problema: a esmagadora maioria dos investidores da época foi apanhada de calças na mão, apesar dos gritos de alerta de meia dúzia de vozes clamando no deserto ainda antes de a bronca maior acontecer.
 
Esta falência que se prepara terá um efeito psicológico, apesar de tudo, muito mais acentuado do que o do colosso bancário (Lehman Brothers) que ontem se finou. Logo à partida porque no mundo dos seguros não há lugar a distracções e este colapso da maior das empresas do ramo terá com certeza repercussões imediatas a diversos níveis.
E porque se trata da AIG, onde de resto não são poucos os portugueses com dinheiro investido e apólices em vigor, presente nas maiores nações mundiais e naturalmente rodeada de diversas empresas de outros sectores que dela possam depender.
É o tal efeito dominó de que se fala, tão arrasador à pequena escala como na perspectiva global do funcionamento da economia.
São as bolsas de valores sem capacidade de resposta para inevitáveis trambolhões que estas falências inesperadas geram, depois de instalado o pânico entre os accionistas e o pessimismo entre os potenciais investidores.
 
Este filme dantesco já está a acontecer e o que será de prever é a respectiva negação por parte de qualquer autoridade que jamais pode levantar ondas nestas condições. Se nos pusermos na pele de quem tem que raciocinar com base no sentido de Estado é fácil percebermos porquê.
 
E por isso, tal como há cerca de cem anos atrás, os optimistas e os desleixados podem estar já deitados não na cama que fizeram mas na que deixarem por fazer.
publicado por shark às 18:25 | linque da posta | sou todo ouvidos