A POSTA QUE EM EQUIPA QUE GANHA...

No meu ofício actual o valor principal é o da equidistância. Compete-me gerir enquanto intermediário a relação entre duas partes de um contrato, garantindo a todo o tempo que sirvo os interesses de todos os intervenientes sem violar o mais sagrado princípio.

E esse consiste precisamente em posicionar-me a meio caminho das partes envolvidas.
Não é fácil, pelo conflito de interesses que a minha função acarreta.
 
Um dos aspectos que mais dificulta a equidistância é o óbvio desequilíbrio entre os dois extremos da minha corda profissional. De um lado um colosso financeiro e do outro uma pequena empresa ou um anónimo cidadão. E eu no meio, obrigado a não defraudar as expectativas seja a quem for. Mesmo quando me deparo, e é frequente, com a razão escarrapachada apenas num dos pratos da balança. Mesmo aí sou obrigado a possuir a sensibilidade necessária para que as coisas aconteçam sem levantar a suspeita de pender mais para um ou outro dos lados.
A verticalidade é um must neste particular.
 
Claro que me vejo com frequência entalado e, por norma, acabo por me ver obrigado a utilizar a dolorosa ferramenta da sinceridade sustentada (a única possível no contexto de relações comerciais passíveis de gerarem polémica – a alternativa é a mentira piedosa com a qual nunca me dei bem).
Costuma resultar, quando fundamentamos com rigor a posição defendida, e acaba por não se melindrar seja quem for bastando os restantes casos na estatística para provarem a tal equidistância desejável.
É este o contorno resumido do meu papel quotidiano, aquilo que me sustenta os vícios de trabalhador por conta própria desde há mais de duas décadas (um terço das mesmas em acumulação com outras funções).
 
Umas vezes puxo para um lado, noutras puxo para o outro e na maioria do tempo respeito a regra do jogo com o escrúpulo indispensável de quem depende da confiança depositada e comprovada para singrar no que será provavelmente um dos maiores desafios para qualquer mercador: vender a sua própria imagem e a de determinada corporação e respectivos produtos ou serviços, sem catálogos ou objectos apelativos para exibir.
Faço-o o melhor que consigo, nomeadamente para que ninguém possa questionar-me na pele de responsável por um lapso qualquer. Não há margem para o erro numa actividade que mexe tanto com a vida das pessoas na sua dimensão menos prazenteira, a dos azares ao virar da esquina.
 
Mas o cerne da questão é sempre o tal compromisso de equidistância, servindo os interesses de ambas as partes sem me tornar de alguma forma suspeito de compadrios de circunstância. E tenho sido intocável nessa matéria até agora. Entendo o meu papel e visto essa pele desconfortável dos que devem estar bem com Deus e com o diabo e aprendi com o tempo que eles trocam ocasionalmente as posições.
Isso já não basta para trocar-me as voltas, tarimbado pela vida a gerir lealdades entre os antípodas de um conflito qualquer. Sem pretensões a diplomata nem gosto por me ver encurralado nesse tipo de posição.
Apenas interessado em não sair a perder por causas que nem me envolvem de forma directa, evitando por isso intervir de forma susceptível de gerar más interpretações.
Mesmo quando percebo, ou julgo perceber, a origem do problema.
 
Não me sabe a cobardia, pois já provei saber gerir as minhas escolhas e assumi-las, mas a sensatez da mais pura e simples.
 

E tem-me poupado a desgostos e a encrencas que nesta fase da minha vida não tenho arcaboiço nem paciência para enfrentar.

publicado por shark às 09:01 | linque da posta | sou todo ouvidos