A POSTA ORÇAMENTAL

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Um desaguisado por email fez-me perder um rendimento fixo mensal de trezentos euros.
Uma decisão adiada vai custar-me entre 550 a 1000 euros.
Um desleixo menor acarretou-me um prejuízo directo de cerca de duzentos euros.

A minha personalidade e o meu dinheiro estão demasiado interligados. Como é prática no comércio tradicional, terei que inventariar por esta altura o espólio e fazer o balanço dos ganhos e das perdas. À primeira vista, que a crueza de um extracto de conta não dá margem para devaneios, a minha estrutura financeira foi significativamente abalada ao longo do corrente ano fiscal.
Na origem da derrapagem orçamental estão intervenções directas (ou a sua lamentável ausência) da minha personalidade na fluidez dos rendimentos e das despesas. Donde se conclui que terei que proceder a alguns cortes.
De cutelo em punho, pondero os luxos supérfluos de que abdicarei, a moderação no consumo, as decisões de compra ‘inadiáveis’ relegadas para o plano das fantasias incomportáveis. Depois equaciono a possibilidade de trabalhar mais, horas extras, um part time qualquer, um esforço suplementar que me permita o milagre da recuperação económica.
Mas a minha personalidade tudo veta. Não cortas coisa nenhuma. E que merda de ideia é essa de trabalhar mais? Achas pouco, sábados de manhã e tudo? Não senhor, tens que avançar sem medos e aguardar pacientemente a retoma. As cadelas apressadas...

A minha personalidade tomou de novo o controlo das rédeas do poder. O meu dinheiro, minoritário, não tem a força necessária para lhe fazer oposição. Sou ingovernável, do ponto de vista financeiro. E não estão reunidas as condições para um golpe de estado, para a imposição de um regime ditatorial que vergue esta personalidade indisciplinada.
Vou ficar na cauda da minha rua, com o pior nível de vida do primeiro piso do edifício onde resido. Vou ser remediado outra vez, sempre à rasca para honrar compromissos e para pagar as prestações, lixado pela conjuntura aziaga e pelo feitio estuporado cuja combinação preconiza a minha ruína.

No entanto, o pessimismo não se instala. Flexível, a minha personalidade engloba mil e uma compensações, pão e circo, para as agruras que um aperto circunstancial me possa causar. O dinheiro é de quem o gasta e não de quem o possui. Vil metal, abomino essa treta. Amanhã é outro dia e ainda por cima é feriado nacional, aleluia.
Pego no cutelo e corto umas fatias de presunto e de pão. Mais uma pinga de eleição. Família e amigos, patuscada. Um fadinho para animar.
Pontapé prá frente e fé na virgem.
Estas épocas de crise alimentam o meu nacionalismo mais bacoco e justificam as minhas mais desastradas negligências e uma perniciosa tendência para o deixa andar.

Fazem de mim um europeu cada vez mais portuga.
publicado por shark às 12:45 | linque da posta | sou todo ouvidos