MAIS DO MESMO

Gostava de poder acreditar que se tratam de coincidências, ou mesmo apenas de empolamento mediático, o das notícias por arrasto que sobredimensionam determinado tipo de realidade que, quando não noticiada em profusão (até à náusea), parece normal de acontecer.

Todavia, quando num mesmo dia descubro entre as notícias a de um fulano que disparou três tiros sobre um outro no interior de uma esquadra (recordando-me um estranho acontecimento na “minha” esquadra de Moscavide, quando apenas um agente da autoridade não conseguiu impedir uma invasão do espaço) e a de que a frota de carros da PSP se encontra seriamente debilitada pelo número de viaturas “encostadas” por falta de verba para a respectiva manutenção (de acordo com a sua associação de classe alguns elementos da corporação pagam do seu bolso as pequenas reparações), vejo nesta dupla de absurdos os motivos de sobra para me preocupar enquanto cidadão.

 

Nos dois exemplos que cito, relegando para segundo plano o aumento de criminalidade e o desassossego que lhe está associado, encontro as duas debilidades mais flagrantes do esquema montado pelo Estado para nos garantir a segurança como é sua obrigação.

Se no caso das viaturas empanadas é óbvio que mais uma vez o dinheiro dos nossos impostos não está a chegar para garantir a operacionalidade dos meios ao dispor da polícia, culpa (pelo menos política) imputável ao Ministério da Administração Interna (MAI), na outra vislumbro a qualidade paupérrima da preparação de (pelo menos uma parte dos) agentes da autoridade que se revelam “passarinhos” ao ponto de permitirem um tiroteio nas suas barbas propriamente ditas por afrouxarem a vigilância de dois queixosos mútuos e visivelmente exaltados cuja presença permitiram numa mesma sala.

 

Ou seja, de um lado chove e do outro sopra o vendaval. E no meio está este nosso Portugal em paranóia para gáudio de guarda-costas, das empresas de segurança privada e da triste oposição ao actual Executivo que tenta capitalizar em seu abono as fragilidades que se expõem desta forma.

A verdade é que os acontecimentos impensáveis sucedem-se a um ritmo inusitado e fica no ar a ideia de que estamos entregues à Divina Providência em matéria de segurança dos nossos frágeis invólucros, à mercê dos micro-caos que se instalam a toda hora um pouco por todo o país.

E estes casos que cito constituem duas pontas de um mesmo icebergue, reflectindo-se no grau de confiança que podemos conceder a quem delegamos a gestão destas coisas.

 

Quem a faz parece estar a cometer alguns erros de palmatória, na construção dos orçamentos (como os carros parados comprovam e a garantia do MAI de que os que ainda andam chegam para cumprir a função – então para que servem os restantes?), como na formação dos operacionais ou, pelo menos, na respectiva motivação que se vê minada por salários medíocres, legislação obsoleta e que muitas vezes deita a perder o esforço e o risco e um conjunto de obrigações estapafúrdias como o custear da própria farda.

Esses erros, dos quais não pretendo (prioritariamente) extrair qualquer consequência para este Governo em particular (os anteriores não me convenceram por aí além e no futuro só vejo mais do mesmo), são a face visível do enfraquecimento da nossa defesa contra meliantes cada vez mais bem equipados e atrevidos o bastante para fazerem gato-sapato das nossas polícias como o comprovam os episódios que ilustram o desrespeito generalizado, mais a impunidade dos criminosos apanhados que depois se condenam a penas suspensas ou são libertados na hora ou, ainda pior, os que como o assassino de uma mulher aqui nas minhas bandas e de um jovem na zona de Oeiras ficam até por identificar.

 
Quando a um fulano exaltado se permite a entrada numa esquadra com o seu calibre 22 e a liberdade de movimentos necessária para o utilizar contra um oponente de circunstância, estamos perante um claro indicador do amadorismo em que se movimentam os bastiões da nossa segurança. O mesmo acontece nos tribunais, palco de diversas situações caricatas e que só não resultaram ainda em mais cadáveres para a estatística medonha dos últimos tempos por mero acaso.

A Lei e respectivos sustentáculos parecem cada vez mais uma carta fora do baralho nos medos dos que a entendem violar e nos das vítimas potenciais destes lapsos, infortúnios ou apenas tristes coincidências que se multiplicam à medida de uma péssima conjugação de factores. A própria conjuntura pode explicar a proliferação de desesperados, embora não sirva de costas largas para o deboche que tudo isto parece evidenciar.

 

Eu gostava de poder acreditar que estou errado, influenciado pelas forças maquiavélicas da Imprensa que me acenam a toda a hora com estes estranhos papões.

 

Mas o regabofe criminoso disparou e as mortes anunciadas nas parangonas deixam pouco espaço de manobra para o optimismo e nenhum para o desmentido, mesmo informal.

publicado por shark às 12:33 | linque da posta | sou todo ouvidos