A POSTA NA ANESTESIA LOCAL

Via com clareza no universo que se expandia o aumento da distância entre si e a pessoa mais próxima. E nada podia fazer contra isso, combater nas duas frentes, a sua e a de outrem, tão mais perto no dia de ontem e cada vez mais distante nos amanhãs que se sucediam num banho de pequena desilusão que provocava a inevitável corrosão das amarras de outrora.

 
Os dias passavam diferentes agora, com o silêncio a preponderar sobre o desconforto que viam instalar-se de permeio entre os dois. Os dias cansavam e depois só queriam dormir para ainda mais silenciar uma estranha forma de angústia conformada na aparência de uma cordialidade que sabiam forjada na lava que anunciava erupção.
A tampa colocada em cada noite passada pelas bocas que cada vez menos se conseguiam beijar, com a distância a aumentar também entre os corpos inanimados pelos tons desanimados que assentavam nos lençóis, tão precária na sua função de reprimir o furacão capaz de deitar tudo a perder.
 
A indiferença a prevalecer sobre a vontade de insistir numa causa que se gritava perdida em surdina, reflectida no tom baço e na fadiga que aos poucos ocupava o seu espaço naqueles olhares.
As revoltas abafadas que surgiam de surpresa por detrás dos mais disparatados pretextos, as janelas abertas nos peitos com o vento das palavras por soprar penduradas numa corrente de ar tão quebrada nos seus elos de ligação.
Libertação esparsa de uma energia tão diferente da que o passado lhes dera a conhecer antes da vida acontecer de uma forma menos feliz.
 
Tudo aquilo que a mais se diz, braços dados com o muito que fica por dizer. O coração que pára de bater na sua dimensão romantizada, uma artéria entupida pelo colestrol da saturação. O tempo a passar e as decisões adiadas, as palavras como chicotadas nas costas de uma esperança tão resignada e no entanto estupidamente determinada a ser a última a morrer no campo de batalha onde jaziam os cadáveres irreconhecíveis de um contingente de emoções.
 
As partilhas das divisões nas assoalhadas que evitavam ocupar em simultâneo, nas suas cabeças entretidas a sós, ameaçavam fazer ruir o frágil edifício daquilo que soava já a pura acomodação.
A perda da razão a cada esquina das frases secas e ríspidas arremessadas, despejadas sem tratamento na placenta da violência doméstica embrionária, psicológica, e contudo letal para a fé nos sucessivos recomeços, falsas partidas, com que desistiam de todas as corridas que a coexistência quase forçada transformava aos poucos em lutas insanas, verbais, perante um público pequeno e incapaz de entender aquele bizarro vazio do poder insinuado em estéreis disputas por uma liderança qualquer.
 
Via com nitidez no firmamento a morte do sentimento na sua própria avaliação das estrelas enquanto simples pontos patéticos de luz fria condenados à separação no espaço do universo a expandir imparável, a cada instante, na crueza de uma análise distante às profecias que os astros pareciam conter.
O futuro a acontecer no céu, para alguém observar depois, mesmo por cima do inferno de uma vida a dois cozinhada em lume brando sobre brasas ateadas pelas fagulhas incandescentes trazidas pelo vento, as palavras, da sua pira emocional.
 
Tudo aquilo que correu mal, as mentiras e as culpas, os desmazelos e as multas que agora surgiam para pagar no acerto das contas, a roupa suja estendida para secar depois da chuva de lágrimas secretas cujas nódoas jamais poderiam sair.
A chuva a cair do lado de dentro das janelas agora fechadas, pombas brancas escorraçadas pelas reacções a quente exploradas em tribunal sob as asas das aves de rapina que a vingança exigiu quando a chama se extinguiu na lareira diante da qual abdicariam ambos da tentativa de reconciliação.
Abdicaram também do perdão que pudesse acautelar uma proximidade razoável, apenas o bastante para se acertarem as agulhas nos aspectos mais elementares.
 
A custódia perdida dos filhos ou da razão, no calor da erupção adiada por tempo demais. O património dividido à facada numa solução arquitectada por gente de fora, a soldo, com base em critérios alheios a uma ponderação racional.
A esponja à bruta no passado que se exige apagado, impossível, que se apresenta conspurcado pela imagem terrível dos monstros que o orgulho ou o despeito, o desgosto instalado no peito sem aberturas para a respiração, apresentam aos outros no lugar dos personagens de ficção, sorridentes, retratados em álbuns de fotografias exilados para um mundo de pó no ponto mais afastado do universo em remodelação.
 
A vida em reconstrução sobre os escombros de uma aposta já muito distante no tempo, independência.
A obrigação do contacto à distância, por interpostas pessoas, retransmissores das combinações impostas pelo lastro de qualquer relação com laços filiais.
A descrença nos ideais que alimentam a esperança e sustentam a confiança em dias melhores com rostos sucessores que brilham sempre na comparação mas personificam a ameaça potencial de uma repetição desnecessária, de um desfecho igual.
 
O fim de uma ilusão legítima porque alicerçada pela paixão, nas ruínas fumegantes de um passado que se vê incinerado nos olhos descrentes de quem tenta, contraproducente, renegar o seu efeito reconstrutor mantendo-se algo distante seja de quem for.
 
Sem pressa de sentir as emoções. Sem coragem para ceder às tentações.
 

Com medo da dor.

publicado por shark às 09:55 | linque da posta