NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES

- Parabéns. Acabou de esfregar a lâmpada mágica e eu sou o Génio libertado cuja eterna gratidão, blá blá blá, tem direito a três desejos.

- A sério? Três? E posso escolher à vontade?
- Sim, mas pense bem pois não aceitamos devoluções...
- Assim de caras apetece-me pedir um porradão de dinheiro.
- Tenha em conta que eu sou um Génio do Bem, pelo que a fuga aos impostos está interdita e teremos que reter na fonte à taxa máxima em vigor. Além disso terá que comprovar a origem de tais rendimentos às Finanças por causa da legislação em vigor quanto à lavagem de dinheiros. E nós não passamos recibo.
- Mas nós quem? Tanta conversa, tanta generosidade e eu ainda nem pedi e já está a levantar obstáculos?
- Não são obstáculos, são regras a cumprir. Lamento. Quer então reformular o seu pedido?
- Deixe ver, deixe ver… Olhe, eu sempre sonhei com um Ferrari.
- Tem ideia de quanto paga esse carro de imposto de circulação? E de quanto gasta aos 100? E o seguro contra todos? Não me diga que vai andar sem seguro contra todos com um carro tão caro. Custa uma pipa de massa, o seguro também.
E a manutenção? Faz ideia de quanto custa uma revisão no representante da marca? Ui ui…
- Bolas, você é um génio muito derrotista…
- …realista…
- Seja o que for, já perdi a vontade à merda do carro. Olhe, e que tal um casão à beira-mar?
- Hummm. À beira-mar? O amigo tem ideia das restrições à construção na orla costeira? E olhe que eu sou do Bem, não há cá manobras nos PDM.
Por outro lado, o IMI de um casão não é pêra doce. Isto para não falar da crise do imobiliário, o que pode fazer desvalorizar imenso o desejo concedido e isso contraria o espírito da coisa.
E uma casa dessas não é nada fácil de manter aprumada. Tem o jardim para cuidar, a pintura para fazer de xis em xis de tempo. E depois há as enchentes de Verão, perde o sossego todo…
- Mas olhe lá, você quer mesmo conceder-me algum desejo?
- É para isso que ainda aqui estou.
- Então porque me aliciou com uma promessa que afinal não pode cumprir?
- Poder até posso. Mas seria leviano e desonesto da minha parte não o alertar para os aspectos menos positivos das suas opções nesta circunstância. A minha missão é de enorme responsabilidade, respondo pela imagem positiva da fantasia no seu todo quando exerço estas funções (foi um part-time que me arranjou a fada dos dentes, tenho tido dificuldades nos últimos tempos…).
- Dificuldades??? Um Génio da lâmpada? Você deve estar a gozar comigo.
- A gozar? Isso é obviamente proibido…
- Pois, já sei. É um Génio do Bem…
- Precisamente. Por isso entenderá que não tenho as abébias de um Génio do Mal, esses é que não têm problemas porque estão-se nas tintas para as questões éticas e quanto à imagem até lhes dá jeito ser a piorzinha possível. Já que da fama não se livram…
- Então se calhar é com um desses que eu devia falar.
- Não gosto de falar mal da concorrência, mas olhe que tenho sabido de coisas…
- Quais coisas?
- Nada, nada. O senhor veja bem no que se mete. E já agora peço-lhe então que formule os três desejos, pois hoje ainda tenho muita esfregadela para aviar.
- Nem sei o que pedir, porra. Tudo o que me vem à cabeça pode ter alguma perda associada…
- Tem a certeza? Então olhe, tem aqui um folheto explicativo do nosso Crédito ao Desejo. Tem uma TAEG irrisória, prestações suaves e ainda recebe esta listagem de desejos viáveis (os isqueiros pode riscar, pois já não temos em stock) e uma sensacional tostadeira inteiramente grátis (o pão não está incluído). Três ofertas magníficas!

Obrigado pelo seu tempo e ficamos a aguardar na Lâmpada Mágica S.A. que nos envie cópia dos seus documentos de identificação, o último recibo do vencimento, um comprovativo da morada, a última declaração de IRS e a identificação dos fiadores para o fax que consta no folheto.

publicado por shark às 14:12 | linque da posta | sou todo ouvidos