CELEBRATION OF LIFE

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O vocalista parou de cantar por alguns minutos, prestando vassalagem ao sensacional guitarrista cujos dedos passeavam pelas cordas em busca do acorde mais próximo da perfeição. O baterista, sorrindo, marcava o ritmo de forma mais discreta e parecia acariciar os címbalos. Em fundo, o teclista simulava violinos com o seu teclado mágico.
Com as mãos entrelaçadas atrás da cabeça, entreguei o corpo e a alma ao som divinal, pele arrepiada pela vibração das gigantescas colunas a escassos metros de mim.

A guitarra, no que me pareceu uma eternidade, falava connosco e milhares de corpos e de almas respondiam, em absoluto transe. Todos naquele instante sabíamos estar a viver uma experiência irrepetível e o ambiente no recinto era o mais próximo de hipnose colectiva que eu poderia conceber.

O vocalista decidiu contribuir para o improviso do feiticeiro da guitarra e recitou o mais belo poema que a banda havia cantado na sua carreira. Pianíssimo, como os violinos do teclista, murmurou as palavras por detrás da portentosa exibição do parceiro. As lágrimas de alegria tingiram ainda mais de vermelho os meus olhos e agachei-me para apanhar a lata de cerveja. Quando retomei a posição, uma mulher linda duas filas adiante estava a olhar para mim.
Seria impossível ignorar a beleza da sua expressão e não desviei o olhar, nem mesmo para acender o que tirei da algibeira do casaco. A música como que se transformou num manto que nos isolava da multidão. E ela, encantadora, sorria e dançava para mim.

Por entre o meu fumo e o dos convivas mais próximos deu-me a sensação de que ela caminhava na minha direcção. A guitarra acelerou o ritmo e o meu coração também. Inalei e ela chegou perto de mim, ajeitou-me a cabeleira sobre os ombros e colou-se a mim num beijo apaixonado e aspirou o meu ar respirado e o meu fumo de celebração da vida. Soprou para o céu, braços esticados, olhos fechados para ouvir melhor a felicidade que acontecia naquele lugar.
Depois olhou de novo para mim e retribuiu o melhor sorriso que consegui oferecer-lhe, escapulindo-se de seguida por entre a confusão de cabeças maravilhadas.
Nunca voltei a encontrá-la, essa mulher-anjo que me lacrou nos lábios e na memória um instantâneo da beleza que o vocalista recitava e do poder do amor que a guitarra interpretou.
Mas para mim a história tem um final feliz na mesma. Ainda a procissão vai no adro...
publicado por shark às 10:34 | linque da posta | sou todo ouvidos