CÍRCULO BLOGAR CÁUSTICO

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Numa fase em que diversos(as) colegas discorrem acerca da sua actividade blogueira (e da dos outros, claro, que isto só lá vai por comparação), entendi que seria um bom mote para a minha posta "de aligeirar".
Sim, porque isto da gente saturar as pessoas com temas deprimentes como a fome no mundo, a política ou a irregularidade do Glorioso no seu nível exibicional acaba por ter repercussões no nosso blogue (em nós) que nunca suspeitaríamos. Um pouco como o efeito dos telejornais.
Por outro lado, a perspectiva umbiguista esgota-se quando percebemos (em choque) que pouco mais temos de nosso para partilhar sem darmos à plateia blogueira (sedenta de pretextos para nos achincalhar, mesmo em surdina) mais umas munições para a sua escrita trauliteira pela qual, naturalmente, nutrem a maior admiração.

Pela escrita e pela pessoa, pois é raro o blogueiro capaz de se submeter sistematicamente ao enxovalho por parte dos abutres que já esgotaram a sua quota de novidades de índole pessoal. É que as vidas correm, para a maioria de nós, entediantes e não constituem um viveiro natural de postas. Vai daí, tendência irreprimível, passam a ser as vidas (e os blogues) dos outros a constituir a alma do negócio. E rende, a coisa, bem esmifradinha, como se constata em blogues com bastante projecção como noutros sem projecção alguma.
Por projecção entenda-se "quota de mercado", algo que se mede em unidades de consumo registadas por contadores. Claro que os mais ciosos não expõem à saciedade essa estatística que lhes pode reduzir o orgulho a pó. É que a malta também se mede uns aos outros por essa bitola e quem está nisto há uns anos nunca compreenderá como é que um blogue juvenil consegue, de repente, dar nas vistas. É um fenómeno muito humano e por isso também atrai as fraquezas inerentes (como a inveja e a dor de corno que tanto amargam os discursos dos "veteranos" menos "populares"). E ainda por cima, por muito que se ocultem essas "vergonhas" numéricas, lá estão as caixas de comentários a denunciar a falta de pachorra do pessoal para as tricas e os amuos publicados.

Mas o fenómeno acaba por existir apenas porque se atribui demasiada importância à estatística. A popularidade, um privilégio ao alcance de apenas uma ínfima percentagem de sobredotados(as) e de figurões, é um factor secundário quando o que está em causa é o talento das pessoas para se comunicarem. Naturalmente, os medíocres raramente saem do anonimato que os contadores, mais os trackbacks, mais os linques, mais o número (e a qualidade) de comentários acabam por reflectir. Mas existem blogueiros magníficos, poucos, que permanecem "na sombra" apenas por uma questão de falta de jeito para se promoverem ou por optarem por temas sérios a que ninguém parece dar grande importância nesta comunidade virtual. Ou porque não angariaram amigas(os) capazes de os distinguirem com linques que os projectem para um patamar sofrível de "audiência", como acontece a alguns que desapareceriam nas trevas sem o auxílio impagável desse empurrão "mediático" tão eficaz (e notem como acabo de fazer precisamente aquilo que pretendo criticar).

Como na vida lá fora, a antiguidade é um posto na blogosfera. Mas não basta para conferir a quem bloga um estatuto à altura das expectativas dos mais ambiciosos, por quanto se empoleirem em bicos dos pés num caixote de fruta de onde se esganiçam para uma sempre exígua multidão. Por mais voltas que se dê, a malta que bloga não dá muito crédito a quem envereda, por muito bem que se exprima, pela política do "aquele(a) é uma merda e por isso olhem só pra mim, tão refinado(a) filho(a) da puta que sou". Deve doer à brava um fracasso assim, a quem liga a essas tretas. É duro ver escapulir algo que se ambiciona e ter que admitir que a culpa não compete a terceiros mas sim ao fraco desempenho dos que não interessam a alguém por mais do que umas semanas. E a blogosfera, como a vida lá fora, é sincera e não nos poupa a derrotas e a frustrações.

Tudo isto para vos dizer que o verdadeiro problema da blogosfera, o que a atrofia, é precisamente a mentalidade mesquinha que grassa na maioria dos blogues (das pessoas que blogam). Em vez de surpreendermos pela positiva dedicamo-nos à má onda recíproca e esbanjamos a nossa "arte" em guerrinhas que espantam o maralhal, sobretudo o de fora (alheio aos ódios de estimação e aos grupelhos que se enredam num circuito fechado de maledicência inócua ou de descarada bajulação).
Eu, que estou no grupo dos "intermédios" (que nem são velhos qb para lhes reconhecerem o mérito da persistência nem jovens o bastante para recolherem o efeito da novidade), sinto alguma dificuldade em escolher um registo para o meu blogue, uma linha editorial se assim o quiserem.
Ando às apalpadelas em busca de assuntos que possam interessar às pessoas que aqui gastam o seu tempo, sem as fazer sentir a noção de desperdício, de tédio indisfarçável que a maioria dos blogues nesta altura me provoca.

Parecemos umas comadres plantadas todo o dia à janela em busca da informação alheia para no dia seguinte a partilharmos de forma cáustica com as vizinhas do lado, nas entrelinhas de uma posta ou nas piadinhas de comentador(a).
Temo pelo futuro desta cena. E confesso-me à nora, em boa parte dos dias, para a conseguir suportar.

Sobretudo quando reparo no desinteresse que os assuntos (os blogues) mais sérios inspiram nas decisões de quem bloga.
A malta foge da seriedade com a mesma pressa com que fomenta e divulga as paródias (que o são) ou as tricas (que o são também) que, doa a quem doer, são a alma deste "negócio" da blogosfera.

Por isso entendo o desabafo do homem que mais citei até hoje neste espaço, o Eufigénio dos parafusos.
E embora aceite o meu quinhão de futilidade no que blogo e no que dou a blogar, sinto que existia meses atrás um equilíbrio nos conteúdos e nos interesses que agora desapareceu. Como se estivesse em curso uma guerra das audiências entre um grupo alargado de rádios-piratas ou a rapaziada tivesse deixado de acreditar na diferença que se pode fazer com a força das ideias e das palavras. Com o debate construtivo acerca das várias questões que a vida nos coloca e não podemos discutir com facilidade noutro lugar ou noutra plataforma qualquer.
É isso que procuro na blogosfera e, tal como o Eufigénio, sinto cada vez mais difícil encontrar os espaços à medida dessa pretensão.

Arrepia-me a frieza que se instala aos poucos na nossa comunidade virtual.
E cada vez menos procuro o agasalho.
Sou um blogueiro em crise de fé.

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publicado por shark às 20:20 | linque da posta | sou todo ouvidos