A POSTA QUE MAIS VALE SÓ

Quando somos putos chamam-lhes más companhias. Por norma constituem-se bodes expiatórios de progenitores incapazes de aceitarem as pequenas “imperfeições” dos seus fedelhos que não tiveram tempo para educar mas que exigem impolutos à sua (repito: à sua) imagem e semelhança.

Acontecem as broncas e o culpado é o desencaminhador de serviço, o vizinho mal afamado, o amigo mais reguila, o outro que serve para limpar o pecado cometido.
Ao culpado, o verdadeiro, nem lhe permitem o mérito da autoria de uma irreverência que prefeririam expurgar do seu modelo sempre tão atinado, o fruto do seu ventre Jesus, incapaz de tal coisa sobretudo quando a coisa lhe desnuda a capacidade de pensar e de agir por sua conta e risco.
 
Aos que se vêem confrontados com essa tradição familiar e universal restam dois igualmente penosos mas bem distintos caminhos. Ou aceitam de forma submissa e silêncio cobarde a asa protectora do chuto para canto e vivem o resto das vidas a remoer o remorso, regra geral acrescentado por outros episódios com figurantes distintos.
Ou desafiam o protocolo e beliscam de forma indelével a sua reputação aos olhos dos que nada fizeram por isso mas os exigem imaculados.
Esta última opção também acarreta um preço a pagar, muito para lá dos bofetões e dos castigos e da declaração pública da vergonha que se inspira e que oblitera de imediato quaisquer realizações ou méritos que a pudessem contrabalançar.
A pele da ovelha ranhosa agarra-se aos mais dignos (há quem lhes chame palermas) como a da ovelha medrosa envolve para sempre a mente dos que optam pela aceitação tácita de uma mentira conveniente que abre caminho para uma vida irresponsável e invariavelmente pautada pela mesquinhez.
 
As más companhias dão jeito a qualquer pessoa, seguindo o raciocínio acima, tanto para os que prevaricam como para os que preferem o nojo de uma aldrabice ao embaraço de uma confissão que os conspurque por tabela. Acontece com superiores hierárquicos também.
E por isso são procuradas, com avidez, pelos que querem fazer merda sem sofrerem castigo (nem que seja por poderem descartar-se das suas tentações) e pelos que acham que vale bem a pena a punição por acompanharem gente capaz de alinhar numa ou noutra maluqueira que, na maioria dos casos, seria inconsequente sem a carga pejorativa que carregam aqueles que nada têm a ver de forma directa com o assunto mas anseiam salvaguardar a qualquer preço uma imagem (sua) sem borrões (dos outros).
 
Uma má companhia é, definida de forma grosseira, uma daquelas pessoas a quem não podemos exigir um comportamento exemplar, “perigosa”, imprevisível, proibida, e por isso só acompanhamos por uma das conveniências acima indicadas. Já vesti os dois papéis, o do desencaminhado (pasme-se!) e o do seu oposto e entendo-lhes as especificidades ao ponto de qualquer dos dois me vestir na perfeição.
Quem me conhece, e são menos do que aqueles que o afirmam, percebe porquê.
E esses poucos sabem igualmente que tipo de má companhia (entre aspas) me serve e qual a que sou homem à altura para proporcionar em condições.
 
Os outros, a maioria, mais receosos pela sua imagem ao ponto de esconderem as más companhias aos que os dominam de alguma forma, cedo ou tarde acabam por manter uma prudente distância.
 

Precisamente por não fazerem ideia daquilo que perdem por temerem em demasia a ignorância daquilo com que podem contar.

publicado por shark às 23:59 | linque da posta | sou todo ouvidos