A POSTA NUM PECADO MORTAL

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Foto: sharkinho

O invejoso é um dos espécimes mais desprezíveis que um conjunto de seres humanos consegue produzir, dentro da camada mais soft de gente desnecessária que a sociabilidade nos obriga a aturar.
É enervante, o confronto com alguém assim. Quem inveja, alimentando um sentimento muito negativo (já vos explico porquê), destila rancor contra outrém pelo simples facto de o(a) visado(a) possuir algo que a vida não lhe proporcionou ou simplesmente retirou quando, num momento de lucidez, o acaso entendeu a dimensão do seu equívoco.

A inveja é negativa porque inspira estados de espírito muito desagradáveis nas pessoas. Tornam-se amargas, frustradas, incapazes de descolarem da sua obsessão mesquinha. É difícil explicar o facto de alguém optar pelo caminho infantil que empurra a pessoa para a onda "ó pai, aquele menino tem imensos brinquedos e eu também quero ter", quando nada se faz para os merecer.
A inveja requer algum dispêndio de energia, nem que seja no acto de a manifestar. E manifesta-se invariavelmente da mesma forma: "aquele menino tem todos os brinquedos que eu desejo, mas não lhe assiste mérito algum". Donde conclui o invejoso que é seu o direito a todas as guloseimas, mas a vida madrasta não sabe escolher os destinatários das benesses invejadas.
Pitosga, a vida entrega de bandeja as coisas boas a alguém que, não sendo o próprio, é sempre a pior aposta da sorte que o traiu.

A sorte, ou a falta dela, é sempre um argumento do invejoso vulgar. Ele não tem, mas isso não é porque não mereça. Os outros é que têm mais sorte do que ele. Ou manha, pois essa é outra das versões (mais típica do invejoso merdoso) com que se tenta tapar o sol cinzento da frustração com a peneira de uma qualquer teoria da conspiração. O outro tem o que eu quero mas só o obtém à custa de logros e de farsas. O outro, o que tem, assume de imediato o estatuto do mau. Como se tivesse roubado ao invejoso algo que, na verdade, nunca lhe pertenceu.
Mas onde a inveja se instala tudo adquire proporções exageradas. A galinha do vizinho fica cada vez mais gorda (isto, no interior retorcido do crânio que inveja), embora no discurso para o exterior se afirme com desdém a falta de atributos do escanzelado galináceo (porque não sendo o seu tem que ser de qualidade inferior).

Sendo difícil tipificar o invejoso-padrão, é simples distingui-lo dos demais. Pelos tiques acima referidos e por, regra geral, se tratar de alguém com nada de parecido com uma vida animada. Tem um emprego de treta, uma relação amorosa inexistente ou extinta e uma imaginação prodigiosa para se pintar à altura da sua desmesurada ambição. Normalmente também inveja o chefe ou o patrão, que desdenha pelas costas, às escondidas.
Tanto na versão macho como na sua correspondente feminina, o invejoso acredita-se belo e engatatão. Claro que isso raramente corresponde à realidade vista pelos olhos das outras pessoas, mas a inveja pode cegar e o espelho pode enganar os(as) que nele descobrem uma beleza especial que não passa de uma ilusão.
A inveja, como a mentira, torna as pessoas mais feias. Como pinóquios, aos invejosos cresce-lhes o nariz, brotam verrugas e todo o corpo mirra consumido pelos sucos gástricos que substituem aos poucos o sangue da pessoa.
Envelhecem de forma prematura, os invejosos mais obstinados...

Por isso não os invejo e rejeito em mim qualquer indicador dessa forma doentia de encarar a vida. O segredo, quando se cobiça algo igual ao que outros desbundam, está na vontade de fazer pela vidinha e procurar obter a mesma satisfação pelos nossos meios. Uma espécie de masturbação intelectual que reprime a tentação traiçoeira e nos encaminha para um objectivo alcançável, tangível, real. Sem má onda, apenas naquela de "tão bom que seria eu desbundar uma cena daquelas". E depois é só partir para outra e buscar algures uma cena parecida ou redimensionar (baixar a fasquia) a ambição à medida da capacidade e do engenho de cada um(a).

Isto sou eu a falar, que só poderia invejar coisas que não me fariam falta alguma. Tenho o que preciso e não pretendo açambarcar. O supérfluo, como o inatingível, são posses que uma pessoa com um mínimo de bom senso não deveria reclamar.

E ainda menos apontar o dedo aos que, possuindo, repousam tranquilos à sombra dos factos que falam por si.
publicado por shark às 11:17 | linque da posta | sou todo ouvidos