Um velho incontinente a morrer sufocado por detrás das janelas fechadas

No momento em que escrevo estas linhas acabo de saber que começaram a construir mais um muro europeu, desta vez em Calais. Na fronteira entre duas antigas potências coloniais das várias que exploraram pessoas e recursos por todo o planeta, ao longo de séculos.

Ambas as nações, por coincidência ou não, estão directa ou indirectamente envolvidas nos acontecimentos que estiveram na origem do problema que decidiram emparedar, seguindo o exemplo de alguns países mais próximos dos locais de desembarque e de regimes extremistas tão desprezíveis como os que provocaram o último grande conflito europeu e mundial.

 

Toda a argumentação a que tive acesso até agora não justifica senão a realidade com que nos confrontamos: parte do Velho Continente está a mergulhar de novo nas mesmas políticas odiosas que quase o destruíram por completo num passado tão recente que ainda há gente viva para o contar na primeira pessoa.

O pretexto dos refugiados, perfeito para alimentar a trumpização europeia, surgiu em cena não como uma oportunidade para os europeus acertarem contas com o lado menos bonito da sua história, mas como um bode expiatório excelente para prolongar a negação da agonia dos sistemas democráticos ocidentais à mercê da crise financeira e social que nos atormenta.

Em vez de a Europa abraçar os valores de que tanto nos orgulhamos, acolhendo gente em aflição, estamos, a reboque de uma UE desorientada e em desmembramento, envolvidos na escrita de uma das suas páginas mais tristes.

A construção de muros, imbecil à partida, não é uma solução mas sim um tiro no pé daquilo que apregoamos representar. Nós, os bons da fita, os ocidentais que lutam para salvar o mundo do fundamentalismo, estamos a construir muros para impedir o acesso das suas maiores vítimas à respectiva salvação.

Muros. Com tudo o que representam para a Europa em particular, são, sempre serão, símbolos de um mal que aprendemos a identificar nessa condição. São ícones de tudo quanto os nossos avós juraram impossível de repetir nestas terras arrogantes e sobranceiras, depois de vencerem os bons, também à custa do sacrifício e da coragem dos antepassados dos maus como os tratamos agora e que lutaram ao nosso lado contra a ameaça nazi. São uma vergonha pelo que representam de negação de tudo aquilo que nos fez sonhar com uma federação europeia, pois muitos cidadãos europeus não se identificam com este acumular de pessoas nas fronteiras em condições miseráveis e ainda menos com este bater-lhes com a porta na cara.

Notem que não precisei até este ponto do texto de referir as questões religiosas que fundamentalistas dos dois credos se esforçam por enfatizar. Nem o islamismo professado pela esmagadora maioria dos refugiados, nem a cristandade de fachada dos que são cúmplices por omissão deste virar a cara a quem precisa.

E não precisei porque se trata de uma falácia. Fossem cristãos os refugiados e ficariam do lado de lá da vedação na mesma, por serem pobres, por serem muitos, por não fazerem parte deste eldorado que vamos destruir começando pelos alicerces, renegando a nossa cultura e a nossa forma de entendermos o mundo e entregando o poder às bestas incapazes de vislumbrarem um colapso associado a esta forma nojenta de proceder que nos dividirá, que arrasará a hipótese de um colectivo com base nas afinidades que os extremistas e os cobardes renegam por detrás dos seus paredões farpados.

A União Europeia é, neste momento da história, uma farsa. As divisões entre membros são cada vez mais óbvias e o Brexit é apenas um dos seus prenúncios, com tudo o que isso implica.

E os muros que agora permitimos erigidos no seu interior servirão, mais cedo ou mais tarde, para garantirem essa mesma separação.

publicado por shark às 22:20 | linque da posta | sou todo ouvidos