Sexta-feira, 30.09.16

A posta que é a vida a brincar

Sempre que a vida, essa brincalhona, nos encurrala em labirintos também oferece diversas saídas que, na maioria, desembocam em ratoeiras.

 

Na ascensão tudo parece conjugado para sermos transportados ao colo para o sucesso. Multiplicam-se os amparos, expandem-se os horizontes, alargam-se os benefícios e depressa interiorizamos que é a subir que todos os santos ajudam.

Contudo, na queda o fenómeno é o mesmo embora em sentido contrário. O universo parece transformar-se num escorrega e, a brincar, a brincar, sentimos a vertigem do aumento na inclinação que mais favorece a lei da gravidade quando se instala de armas e bagagens na existência. Se é para descer, todos os demónios empurram.

A mesma vida que nos catapulta cada vez mais alto depois do salto inicial num qualquer trampolim transforma-se numa daquelas brocas industriais que até furam os asteróides que cavalgamos a caminho do nosso armagedão pessoal e intransmissível. Sempre a cair.

Claro que gostamos sempre de acreditar que a vida é uma espécie de montanha russa, com ciclos como os da economia do passado, altos e baixos, subidas e descidas. Mas agora que na economia o mar está sempre flat e em permanente maré baixa, a vida parece acompanhar-lhe o ritmo e o parque de diversões parece só fornecer a emoção do salto para o abismo a bordo do comboio fantasma. Bater no fundo é apenas um degrau no rés-do-chão, a meio do caminho para as caves.

Isto porque, como referido na entrada desta prosa, a vida, essa parodiante colorida, não gosta de meias-tintas. Só aceita o horizonte cinzento-escuro por contrastar bem com a alegria do azul que transforma numa miragem, numa aberta apenas sonhada em períodos extensos de temporal. Até o brilho do sol se tornar em mais um dos muitos milagres integrados exclusivamente no domínio da fé.

 

É essa que nos move, mãos dadas com o desespero de causa, no interior do tal labirinto pelo qual deambulamos sem rumo e arriscamos nas saídas traiçoeiras que são afinal entradas para males piores. Em cada uma dessas falsas saídas um novo túnel cuja luz ao fundo não passa do reflexo luminoso de uma parede de betão.

E a vida a acelerar o tempo que passa sem nos fornecer qualquer travão.

publicado por shark às 10:23 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 12.09.13

Espera que passe

À espera.

O ciclo que parece completar-se mas acaba por se fechar sobre si próprio já perto de um fim aparente, de uma conclusão em nada diferente da que nos ofereceu no início que não passava de outro falso ponto final nos seus 360 graus.

A volta completa numa partida feita chegada, uma espécie de eternidade nesse caminho, numa estrada que começa e acaba no mesmo lugar. Uma espécie de rotunda, tão larga que consegue enganar a mais atenta observação e transmite uma falsa sensação de rumar adiante mas apenas conduz ao ponto de partida pintado como uma meta para disfarçar.

A espera.

 

Pelas decisões adiadas, pelas conclusões precipitadas pelo apelo da especulação. Um tapete feito de pontos de interrogação, calcorreado de olhos abertos, às cegas, ladeado de efígies de esperanças feitas em pedra oriunda de uma montanha de desilusões.

Talvez amanhã, no máximo depois. Mas afinal era cedo demais e é preciso aguardar uma nova oportunidade no cais de uma doca ou de uma estação, na paragem do coração que às vezes passa por ali para transportar os sonhos de grandeza para onde a tristeza tratará de os acordar, talvez à partida, talvez à chegada, será uma saída? Dá acesso a uma entrada que não passa de um alçapão.

 

O mergulho de cabeça onde o ciclo recomeça, mais uma e ainda outra vez, percorrido de lés a lés enquanto a ampulheta faz o pino para entreter o tempo a passar mais depressa diante do olhar desorientado daquele viajante sentado num banco, ansiosamente à espera de uma boleia para um lugar distante, para um ciclo diferente, onde a espera não demore tanto tempo a passar.

publicado por shark às 00:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 06.08.13

Nas bordas de um parapeito

São pontos de viragem. Surgem nos caminhos da vida como as curvas imprevistas em estradas com muitos quilómetros sempre a direito. Ou como os entroncamentos.

De repente, o destino obriga-nos a abrandar para fazermos escolhas ou simplesmente nos empurra para uma alternativa que nem ousaríamos considerar.

São pontos de exclamação que interrogamos, pelo medo do desconhecido ou apenas pela curiosidade que o futuro sempre despertará. E depois desta viragem como será?

 

Nem sempre tomamos consciência desses instantes cruciais que nos aproximam ou afastam de um objectivo ou de um sonho qualquer de futuro desejável que afinal é um amanhã impossível de acontecer tal e qual alguém o imaginou.

Os acontecimentos encadeiam-se com as conjunturas, imprevistos e riscos mal calculados, sorte e azar, reflexão ou impulso, esquerda ou direita e aí vamos nós a caminho completamente a leste do paraíso que contemplamos pelo retrovisor que a nostalgia ou o remorso nos podem facultar.

 

Damos connosco a abraçar aquilo que a vida nos dá. Ou nos impõe. Ou se esbanja nas oportunidades perdidas pelos que não as percebem ou não as conseguem agarrar. Abraçamos o rumo mais feliz ou precisamente o que nos conduz direitinhos à bocarra da perdição. Ou coisa parecida que é como se sentem as coisas dentro de tudo quanto de relativo um problema, uma aflição, podem englobar.

De um momento para o outro tudo pode desabar como pode acontecer aos bocadinhos sob o castigo da erosão, a vida madrasta, o lado B ao qual ninguém presta a devida atenção até ser essa a única canção a tocar como banda sonora de um pano de fundo que julgamos serem as cortinas do espectáculo que entretanto acabou.

 

A crise, o galo, a porra da sorte ou a pouco reconhecida mas quase omnipresente estupidez, mesmo ao virar da esquina para o beco sem saída que julgávamos inexistente ao longo da avenida das descobertas que são como surpresas que dão para o torto e nos apanham sempre com as calças na mão, borrados de medo pelas consequências terríveis de um erro somente ou de uma inegável acumulação desse e de outros factores que se controlam ou antes pelo contrário.

A granada sem cavilha nas palmas e paralisamos sem saber como sairmos dessa situação, às voltas com o mapa mental de um percurso que não estava traçado para levar-nos ali.

 

São pontos na viagem, ligados entre si pelos traços que coincidem com os rastos da passagem de qualquer um de nós, que interpretamos ou decidimos parágrafos depois de eliminados os pontos que as reticências têm sempre a mais.

São pontos de interrogação, todos eles.

O pressuposto da nossa arrogância consolida-se na ignorância que tantas vezes nos despista na leitura apressada.

E depois a história pode não ter um ponto final feliz.

publicado por shark às 00:33 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sábado, 01.06.13

Noutra cela

Invejam-te, pássaro, pelas asas que te permitem voar. Talvez percebas de vez em quando no seu olhar uma expressão desagradável, um ar desconfortável perante aquilo que, por não terem, entendem de imediato como uma limitação.

Nunca lhes basta a imaginação, constroem equipamentos, procuram argumentos para te poderem imitar.

Como tu, querem voar. E cobiçam-te as asas, inventam anjos que são arquétipos da perfeição que se acreditam capazes de alcançar por mérito próprio, pecadores arrependidos, quando se juntarem a ti no céu de um paraíso de conveniência.

 

Invejam-te, pássaro, pelas asas que simbolizam liberdade e independência. Mas desenham uma realidade opressora, esculpida nos detalhes que são como o avesso das grades de uma prisão interior. Não querem asas sequer no amor que definem e compartimentam em regras desorientadas que entendem como pontos de referência para um modelo universal e obrigatório.

Nunca lhes basta o essencial, concentram-se no acessório, procuram saídas de emergência para o espaço de segurança que precisam acreditar, promessas de pessoas que julgam ser possível moldar personalidades com base nas realidades que impõem aos outros por norma, por regra, por costume e por tradição. E ainda lhe juntam a canga de uma religião castradora, seguem pela vida fora em espasmos de arrependimento ou em convulsões de desentendimento que os perturbam porque os tornam reféns de uma tristeza desnecessária, encarcerados na penitenciária que uma vida de mentira tão bem sabe construir.

 

Invejam-te, pássaro, pelas asas que te garantem poderes partir em qualquer direcção sem barreiras ou limitações, sem amarras nem prisões, para o céu que tanto se esforçam por merecer mesmo que seja para acontecer apenas depois do seu fim.

Como tu, querem voar.

Mas preferem invejar a felicidade que simulas quando cantas, assustado pelo que vês sempre que espreitas para o lado de fora desse cárcere que vês espelhado na expressão vazia, abandonada, dos seus olhares.

Sempre que espreitas para o lado de dentro desses pássaros sem asas, enfiados eles próprios em gaiolas às quais soldam aos poucos as portinholas até não lhes restar qualquer esperança de que alguém um dia as possa abrir.

 

publicado por shark às 12:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Terça-feira, 30.04.13

Uma panela, depressão

Água na fervura e deixa-se a coisa em lume brando, a ver se resolve. Mas apenas adia.

Apenas prolonga a agonia no tempo, num ferver mais lento que continua a queimar o rastilho improvisado para atrasar a deflagração.

Cada vez mais perto de explodir, a tampa prestes a saltar, pressionada pelo vapor da locomotiva escondida no interior de um espaço incapaz de a manter na linha, o descarrilamento ao virar da esquina, pouca terra, pouca terra, e demasiado caminho a percorrer em tão pouco tempo que falta para algo rebentar, um aneurisma ou coisa pior, e a água a ferver cada vez mais escassa no fundo.

Todo o tempo do mundo, era aquilo que parecia, mas a ampulheta ameaça ficar vazia e ninguém a pode virar ao contrário para garantir o prolongamento, um lado quase cheio a um ritmo cada vez mais apressado, e a imagem em câmara lenta para fingir que tudo acontece mais devagar.

Mas o comboio não pára de apitar no pipo da panela que grita a impaciência ou mesmo a dor que lhe provoca o escaldão, o pesadelo da evaporação acelerada da pouca água já queimada em demasia, o lume brando que só adia o momento do final inevitável, pouco tempo, pouco tempo, e demasiado perto da estação terminal que se aproxima a passos largos, à vista naquele horizonte cinzento, lá ao fundo, no céu.

 

O ferver está mais lento, mas a água já quase desapareceu.

publicado por shark às 12:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 12.02.13

Passos descalços

Pedaços no chão, mesmo ali ao lado, como cacos de uma falsa partida que acabou tombada sem o amparo que se dá aos vencedores. Perdida uma luta qualquer, a derrota ali espalhada, a bandeira que se agitaria à chegada distribuída em pequenos farrapos meticulosamente organizados no meio do chão, como símbolos de uma desilusão que um dia sonhou ganhar uma corrida contra o tempo tão veloz.

 

Retalhos de uma solidão enclausurada num espaço sem som, nunca ouvida, nunca falada, perdida numa multidão de silêncios comprometedores em plena avenida da demência em construção.

 

Pedaços no meio do chão, mesmo ali atrás, pisados pelos passos descalços de um olhar tão seco, tão morto, que nem assim sangrou. 

publicado por shark às 02:13 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 21.02.12

COMEÇAM POR DESABAR AOS POUCOS

Via naquela casa esventrada uma pessoa abandonada pela sorte à sua e que afinal era nenhuma.

Via nos sulcos escavados pelo tempo na fachada as rugas de uma pessoa envelhecida, algures esquecida, à espera do regresso de um irmão imaginário ou de um amigo ilusório para ludibriar a solidão.

Via nas janelas escancaradas, por detrás, os farrapos de cortinas deixadas ao vento, como almas fustigadas pelo tempo até preferirem nem se verem espelhadas naquelas janelas como se fossem elas os olhares de pessoas que via, imaginadas, pessoas escondidas por detrás das cortinas para poderem espreitar a vida dos outros a passar pela sua.

Via essa vida no meio da rua, presente, e tentava transportá-la com a sua mente para aquela casa abandonada, a falsa memória de uma vida passada em todas aquelas divisões coloridas em tons desmaiados pela luz encoberta do sol.

Quase ouvia cantar um rouxinol preso na gaiola agora desmantelada, patética, presa a um pedaço de parede por cair daquela casa deixada ali para morrer. A realidade que não queria enfrentar enquanto sonhava que via naquela casa destruída uma pessoa cheia de vida que a sua mente, crueldade, converteu numa imensa saudade para preencher o vazio criado, de repente, sem saber que deixava pendente uma vida a necessitar de reparações, uma alma esfarrapada por emoções como a que via no espelho, por detrás dos seus olhos encharcados pelas ordens de despejo ali reflectidas.

 

Sentia que com as almas deixadas ao relento, como as das casas abandonadas ao tempo, também as pessoas podem acabar demolidas.

publicado por shark às 17:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sexta-feira, 03.02.12

METROS DE VIDA

O homem mergulhado num mundo alcoolizado e a mulher que o segue com o olhar perdido naquilo que poderia ter sido mas já nem ousa ambicionar.

A mulher entediada com a vida pautada por rituais e o homem que a acompanha pelos caminhos habituais sem sorriso nos lábios nem chama no olhar.

O homem isolado num planeta desabitado e a mulher que o carrega pelos atalhos da vida sem ser por isso reconhecida na condição de amparo derradeiro, de tábua de salvação à deriva sem alguém que sobreviva para a justificar à superfície daquele mar que tudo afoga, esperanças, ilusões, memórias de campeões de um passado entretanto obliterado pela decadência etilizada, pela consciência entorpecida aos poucos até pouco ou nada interferir na passada titubeante ao longo do caminho para sítio nenhum.

A mulher desanimada com a vida marcada por horários que a orientam pelo meio de um estranho nevoeiro de desejos imaginários que compensam a realidade enfadonha tão diferente da que sonha, acordada, enquanto dura a caminhada lado a lado com um jovem que no passado a entusiasmou, o olhar vivaço que ela amou e agora parece ter desaparecido do rosto envelhecido daquele burguês adormecido durante a viagem para o local costumeiro onde gastam o dinheiro que algures preencheu o espaço dedicado pelo jovem apaixonado até nada restar naquele rosto, naquele olhar embaciado pela ausência do amor que entretanto esqueceu.

 

A vida que entretanto se perdeu, esbanjada por tudo aquilo que a manteve afastada do rumo original, descarrilada pela força da gravidade de acontecimentos imprevistos ou pelo desvio nos objectivos propostos que se transformaram em desgostos, em transporte público, ir e vir, das expressões em rostos privados da vontade de sorrir.

publicado por shark às 00:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Terça-feira, 22.11.11

A ALEGORIA DA CASERNA

Desertor na guerra das palavras, escondeu na trincheira do silêncio as armas para a resistência clandestina contra o invasor que um dia o amordaçou.

publicado por shark às 14:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Domingo, 16.10.11

O GLADIADOR

Aproveitou o breve instante de sossego para observar o público em redor daquela arena que pisava sem querer, voluntário recrutado para lutar contra o inimigo inesperado que antes lhe apertava a mão com a proximidade de um meio irmão cuja metade mais negra deambulava agora por ali, nos olhos inexpressivos dos lutadores cansados e nas expressões alheadas daquela audiência ávida das desgraças dos outros para alimentarem a ilusão de que nunca chegaria a sua vez.

 

Na sua mão uma arma inútil, adereço, simbolizava a vulnerabilidade da sua condição, indefeso na realidade contra a besta à solta naquele espaço de ficção onde cada espectador saboreava a sua própria salvação enquanto podia, gente que se fingia incólume e encolhia os ombros perante a desdita dos seus iguais apanhados pela rede aleatória de um sistema caçador.

E ele aguardava, sentidos alerta, a sua hora de tombar naquele chão, escassas hipóteses de salvação como melhor servia os desígnios dos que concebiam a armadilha que alimentava aquela arena onde o sistema trucidava todos quantos se deixavam apanhar.

 

E ele a aguardar, em posição defensiva, um epílogo tantas vezes adiado pela vontade que lhe restava para lutar contra a besta especialmente treinada para o derrotar, como aos outros distribuídos ao acaso pelo campo de batalha encenada para fingir a oportunidade que era negada a todos quantos se deixavam ludibriar.

As armas de brincar que em nada os protegiam, os deserdados que ali se reuniam, quase vergavam com a força do vento e eles sonhavam parar o tempo no dia anterior ao que os arrastara para ali, aos poucos, olhados como loucos pelos mais afortunados que se acreditavam superiores na sua condição de espectadores daquela chacina anunciada, daquela luta fratricida entre as presas da besta feroz para lhe merecerem misericórdia pelo mérito que lhes assistisse naquele lugar, em vão.

 

A besta não tinha coração, era apenas uma máquina concebida para expurgar todos quantos ousassem falhar os compromissos impossíveis com as garantias tão falíveis que sentiam agora no chão uma espécie de efeito alçapão que aumentava o aperto do nó nas gargantas de quem aguardava a sua hora de cair.

Chegava a hora de acertar as contas entre a força dos poderosos e a fragilidade dos ambiciosos que gostavam de sonhar e não pensavam no azar de uma conjuntura desfavorável capaz de fazer tropeçar o mais sensato caminhar sobre as brasas escondidas logo abaixo dos seus pés.

O inferno camuflado em cada asneira que se fez e no triste resultado final para aquela legião patética que ignorara a mensagem profética do oráculo nas lições do passado, a história dos milhões que haviam tombado em circunstâncias quase iguais.

 

E ele ansiava cada vez mais um desfecho, os nervos em franja, venha quem quer que seja, os polegares virados para baixo menos ameaçadores do que a fileira de indicadores apontados para a porta de saída dos cadáveres sociais, a indiferença dos seus iguais tão bem expressa na apatia, a solidariedade que não recebia por parte de alguém capaz de perceber a injustiça daquela farsa, daquela guerra postiça não declarada por instituições travestidas em forças do mal.

 

Aguardava o momento final já sozinho na arena, sem nunca se admitir digno de pena por parte de quem pela desconfiança injustificada o condenou.

 

E mesmo quando finalmente tombou, já a assistência debandava, o seu indicador apontava com precisão o lugar onde deveriam meter cada polegar que tanto podia descer como subir.

Logo abaixo da coluna que nem assim lhe conseguiram partir.

publicado por shark às 22:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Sexta-feira, 02.09.11

POUCA TERRA

Pouca terra sobre uma terra imensa com um horizonte sem fim, debruada pelo alinhamento monótono das traves nos carris, cosida a sangue frio pelas máquinas que preparam os caminhos que o ferro irá seguir.

Pouca terra naquela que se torna terra de ninguém, desertificada, abandonada pelos que ali viveram um dia sem a incómoda companhia do monstro que lhes assustava os animais e trucidava costumes ancestrais com o advento de uma modernidade que não conseguiam entender.

Pouca terra sobre uma terra condenada a perder a face, desfigurada por aquela linha recta na sua pele deserta que era apenas o princípio de uma explosão, demográfica, noutros pontos de passagem desta triste carruagem metálica cuja janela funciona como uma tela na qual o tempo artista oferece os seus dotes de pintor.

Pouca terra a caminho da terra queimada pelo sol do progresso onde ninguém aguarda o regresso a uma estação distraída que deixou passar o verão, entretida com os sinais da chegada do outono nas suas telhas arrastadas como folhas pelo vento, deslocação do ar, daquele comboio cinzento a passar, cheio de pressa para chegar ao destino traçado na muita terra que treme à sua passagem, mais um percurso, mais uma viagem, rumo ao inverno futuro pintado no inferno presente de um céu muito escuro num horizonte bem real, pouca terra até à terra anoitecida com o prenúncio de um temporal.

publicado por shark às 11:43 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 29.06.11

AQUELA NUVEM

Foto: Shark

 

Aquela nuvem ao longe, tão escura mas tão distante que não intimidava quem queria usufruir dos dias com sol, avançou devagar no horizonte e começou a desenhar no céu a sua imagem sinistra de ampulheta invertida, o tempo esgotado no espaço cada vez mais ocupado pelo manto de breu que vinha pousado sobre os ombros do temporal.

Ao longe, tão escura mas ainda a uma distância segura que permitia ambicionar o desvio, para passar só de raspão, empurrada pelo Verão para as terras cinzentas de outros mais habituados a borrascas, a chuvadas sempre imprevistas para quem nunca usou um chapéu protector.

Aquela nuvem logo ali, olhos nos olhos, tão escura e cada vez menor a abertura disponível na janela azul reservada para o brilho do sol. O tempo encurtado grão a grão, entornado na ampulheta invertida que apesar de imaginada exprime o essencial da desconfortável sensação de estar tão próxima a perdição encharcada, a aflição por vezes chorada pelos que, já debaixo daquela nuvem, enfrentam a enxurrada porque o seu tempo ensolarado acabou.

Tão escura, tão perto, o último dique desabou à vista desarmada da multidão apanhada de surpresa pela violência da tormenta até que alguém mais atento comenta que ouviu dizer na televisão que vinha aí um furacão financeiro, um colossal aspirador de dinheiro que já havia atravessado outras regiões com a devastação dos seus raios e trovões mais a chuva muito intensa, a torrente tão imensa que pouco ou nada lhe resistia.

E agora chegara o dia em que aquela nuvem ao longe, tão escura mas tão distante na percepção distorcida, optimista, do horizonte enegrecido pelo temporal, havia avançado na direcção menos desejada.

 

A água já cobria a única estrada de acesso à salvação quando falaram na evacuação emergente, qualquer espécie de fuga em frente naquela batalha perdida contra forças poderosas de um mal que esmagava qualquer esforço individual pela sobrevivência e aos poucos tomaram todos consciência de que aquela nuvem tão escura abdicara de ser futura e cobria agora o presente com um desastre iminente e para muitos terminal.

 

Só aí a maioria se deu conta de como a sua negligência apática braços dados com uma esperança excessiva, patética, haviam resultado para as suas expectativas numa combinação fatal. 

publicado por shark às 10:43 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 15.06.11

DES(P)ERTO DALI

Quem pudesse vê-lo à distância não o reconheceria, naquele deserto imaginário em que se sentia à mercê da sede de paz. Era ali que se isolava quando lhe parecia que não estava à altura daquilo que se sabia capaz, um homem que vivia tão depressa que quase derrapava nas curvas aceleradas do mundo que chamava seu.

Fechava-se agora num planeta árido, sem céu, o horizonte vazio de um deserto, tudo tão longe e a morte tão perto da sua mente, a lucidez intermitente que julgava salvação mas o torturava com uma aflição aguda que quase fazia doer a cabeça castigada pelo calor de uma luz que saía do nada por cima de si.

Estava além, passava por ali. Sem pontos de referência nem um objectivo a alcançar, limitava-se a caminhar a sós num deserto alienígena, desorientado. Mas preferia-se sossegado naquele refúgio sagrado que o poupava a uma razão empenhada em massacrar-lhe a vontade de ficar longe daquele ponto de fuga onde mergulhava no silêncio que encontrava nos oásis postiços da sua miragem interior.

Estava ali, sem ir para além. Sentia-se melhor sem partilhar o seu pior com os outros de quem fugia para um espaço amplo que não passava de uma caixa forrada por dentro com um cenário onde desempenhava o seu papel, onde poupava os outros à loucura reflectida na sua obsessão, a mente enfraquecida pela pressão e o corpo à deriva naquele deserto, tudo tão longe e a morte tão perto da cabeça que agarrava com ambas as mãos quando reunia a força necessária para romper o ciclo demolidor, para escapar ao interior isolado rumo a uma pena capital como sentia a sua incapacidade de reagir e o receio de interagir por temer o contágio do mal que o arrastava para aquele papel de caminhante solitário, a pele do dromedário na história beduína para a qual não encontrava um fim.

 

Estava aquém, ficava por ali.

E não queria de todo que outros o vissem assim.

publicado por shark às 16:50 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 08.06.11

PASSAGEIRO CLANDESTINO

Olhas aquele ponto imaginário no céu e pensas que é o avião contigo a bordo, a caminho de uma terra qualquer onde consigas sobreviver sem aflições.

Olhas e deixas-te embalar pela esperança em ilusões, renovas a confiança na tua capacidade de dar a volta a tudo aquilo que te atormenta, voas livre sobre o mar e acreditas que vai chegar o dia em que olhas para trás com a tranquilidade de quem encontrou a paz ansiada numa qualquer terra prometida de tudo aquilo que a tua negou.

 

Olhas acima da linha do horizonte e cerras as pálpebras para distinguires nesse ponto distante, no céu, o transporte para o paraíso no futuro que preparas para ti, no amanhã que é logo ali, tão perto que já é hoje e quando chegas a essa conclusão percebes que de um ontem se tratava, olhado sob a perspectiva de quem não percebe a passagem do tempo que arrisca tentar medir.

Olhas e aceitas-te a fugir em frente, neste passado já presente que te é dado ponderar na ilusão de que conseguirás mudar tudo até amanhã que afinal já passou, já é tarde, o teu futuro que arde diante dos olhos que te revelam finalmente a realidade daquele ponto cada vez mais distante no horizonte da tua imaginação.

 

E percebes que não se trata de um avião para um destino alternativo, outra vida, contigo a bordo nessa viagem, mas apenas uma miragem da reviravolta voada, do milagre que anseias mas tarda a acontecer.

Percebes-te então estatelado no chão de um deserto, mais os sonhos moribundos e a fé a perecer.

Porque até o anjo da guarda na linha do horizonte, nesse teu céu, num ponto distante da consciência que sentes prestes a desaparecer, perdeu a paciência e deixou-te cair.

publicado por shark às 15:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 13.05.11

POR DENTRO

Sentia-se no meio de um espaço fechado, de um espaço apertado que sufocava até as palavras por dizer, a revolta por gritar mesmo antes do nó que na garganta entretanto se formou.

Por entre a lividez explodia-lhe o olhar que parecia procurar um ponto de referência, parecia querer agarrar-se a uma tábua de salvação que acabasse com a dificuldade de respirar, um fogo medonho naquele olhar que parecia procurar no horizonte um extintor que apagasse aquele rastilho que sentia queimar, por dentro.

 

Sentia-se num poço inundado, um poço sem fundo onde caía sem saber se voltaria a pousar os pés em terra firme, a raiva por libertar mesmo no centro do peito que marcava o ritmo a galope num planalto da sua mente e a beira do precipício logo ali, a atracção do abismo a chamar por si e o olhar vidrado, o olhar embaciado pelas emoções condensadas, as lágrimas evaporadas, por dentro.

 

Sentia-se no meio de um mar agitado, de um mar revoltado pela força do vento e pela corrente do pensamento, o ódio por exprimir mesmo por detrás das pálpebras semicerradas que entretanto fechou.

Precisava pensar direito, tentou encontrar um efeito contrário ao da espiral descendente que arrastava para o centro do remoinho onde se afogava já parte da esperança que não queria soltar à sua sorte, não queria condená-la à mesma morte que acontecia numa parte de si naquele preciso momento, numa parte devastada pelo desgosto que a consumia.

 

Por dentro.

publicado por shark às 23:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quarta-feira, 11.05.11

SUBURBANOS POR EXCLUSÃO DE PARTES

Por muito que existam tentativas débeis (zonas de construção a custos controlados) ou simplesmente desastradas (implantação de bairros sociais em pleno tecido urbano) por parte dos municípios citadinos, a tendência é inevitável: os habitantes menos abastados acabam por se verem obrigados a procurar habitação na periferia, numa espécie de selecção natural sistemática que consolida nas grandes cidades uma elite com alguns direitos acautelados com muito maior acutilância do que a empregue nos dos cidadãos dos subúrbios, por norma entregues a autarquias próprias e, aparentemente, sem a mesma capacidade de intervenção.

 

Dúvidas que existam acerca do pressuposto acima começam por dissipar numa constatação fácil de obter na Grande Lisboa: fale-se em construir (ou mesmo manter em funcionamento) uma fábrica num bairro da capital e aqui d’El Rei. No entanto não é preciso ultrapassar muito os limites de Lisboa para encontrarmos unidade fabris poluentes paredes-meias com urbanizações dos arredores.

Por outro lado, basta inquirir qualquer cidadão se preferiria residir na Rinchoa ou no Parque das Nações para percebermos que só mora nos subúrbios quem não possui o poder de compra necessário para morar na própria cidade onde trabalha e provavelmente até nasceu.

 

Esta realidade, ignóbil no que toca aos milhares de fogos desabitados no centro da cidade por via das questões jurídicas e económicas que estagnam o mercado de arrendamento, suscita, para além da evidente e aparentemente inevitável separação das águas média e média-alta (com tudo o que isso implica, porquanto decorrente do normal funcionamento destas coisas do mercado), a desertificação progressiva das grandes cidades e subsequente sobrepovoamento dos seus subúrbios.

Os resultados desta fé imensa no livre funcionamento da economia já estão à vista em muitas zonas da periferia e só não se fazem sentir com maior intensidade nos bairros citadinos porque manda que pode e pode quem paga ou possui a influência necessária para fazer acontecer o que é preciso no seu quintal.

 

Na minha visão do futuro que esta evolução indicia as grandes cidades transformar-se-ão aos poucos em fortalezas resultantes da proliferação de condomínios fechados com segurança máxima e do nivelamento por cima de todos preços praticados no interior desses bastiões de uma forma de vida que os pelintras só atrapalham, uma espécie de efeito “consumo mínimo obrigatório” que acaba por afastar da cidade os que não o possam suportar.

 

E se é fácil apontar a dedo este tipo de problemas, expostos aos olhos de quem os queira ver, qualquer tipo de solução aventada adquire contornos ideológicos por contrariar ou favorecer pressupostos tão gratos ao binómio esquerda/direita a quem competem as decisões políticas e se anulam reciprocamente pela antítese resultante da aplicação prática das mesmas.

Ou seja, enquanto os decisores de direita rejeitarem qualquer tipo de limitação séria ao livre funcionamento e auto-regulação do mercado não há forma de evitar o fluxo que acima descrevo e enquanto os decisores da esquerda não forem capazes de nivelarem a defesa dos interesses da população menos abastada com a cedência moderada (ponderada também servia) às pressões da especulação imobiliária e outros fenómenos e grupos poderosos vamos assistir à evolução imparável desses anéis por rendimentos, a estratificação garantida, e confirmar que se o país fosse um corpo e a cidade fosse as suas costas, os subúrbios ficariam mais abaixo e seriam, pela lógica do raciocínio acima, o fundo das mesmas. 

publicado por shark às 15:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 21.03.11

NAQUELA CADEIRA

Sentado na cadeira que comprara numa feira quase trinta anos atrás, o homem passava o tempo que lhe restava a olhar fixamente a velha fotografia na sua mão.

Quase nem pestanejava, o ancião, hipnotizado por aquele filme em sessões contínuas na sua imaginação, a mesma história, na sua memória danificada como um disco de vinil.

Parado ali, concentrado na imagem de um tempo guardado como um tesouro na sua mente acelerada como uma bobina no projector, ao ritmo da película que via de um tempo em que vivia numa outra dimensão.

Agora isolava-se da solidão, deixava-a na bilheteira, e depois passava uma tarde inteira na companhia de por quem o seu coração batia, alguém que o amou.

 

Sentado na mesma cadeira onde o dela um dia parou.

publicado por shark às 23:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quinta-feira, 17.02.11

A POSTA NAS PRESTAÇÕES EM PORTUGUÊS SUAVE

A conta da água, da luz, mais a renda para o senhorio ou para um banco qualquer. A mensalidade para o condomínio, outra para a tv cabo mais as outras comunicações associadas, não esquecendo as que chamamos de prestações, suaves quando isoladas mas que depressa percebemos pesadas quando lhes somamos outras parcelas dos compromissos que acumulamos em pedacinhos como os da vida que estilhaçamos sob a pressão que nos é imposta nesta corrida em que somos voluntários recrutados.

 

A comida indispensável, mais a roupa que se estragou ou deixa de servir, a moda a impor uma obsolescência prematura, já ninguém usa aquela cor escura que foi a principal tendência na penúltima colecção.

A fachada sempre cuidada para os olhos que também comem e alimentam nos bastidores o filtro daquilo que somos que nos converte naquilo que valemos na medida do que conseguirmos parecer.

 

Mais as contas imprevistas da saúde que pode faltar e os outros pequenos incidentes de percurso que nos acrescentam débitos nos cartões que oferecem créditos com juros insuportáveis que se revelam implacáveis a dias certos de cada mês quando se apresenta a factura dos excessos que a aritmética não perdoa na sua franqueza exponencial, o endividamento em espiral ascendente enquanto descemos sem dar por isso aos infernos tangíveis das cobranças difíceis que se acotovelam no horizonte das preocupações de quem não foi ensinado a dever a estranhos cujas missões ingratas transformam aos poucos em pedras iguais às que sustentam as sedes portentosas das instituições que representam, vazios por dentro porque precisam de se defender das agressões do exterior que eles próprios protagonizam na sua pele de juízes de valor dos que tropeçam em prestações suaves agigantadas pelas coimas previstas por incumprimento nas letrinhas pequenas de um contrato que assinamos em balcões ou secretárias adornadas por pessoas que nessa altura muito sorriem para nós e agora se empoleiram na mó de cima de uma condição que defendem com determinação férrea, quase feroz.

 

A insistência nos mesmos erros daqueles outros de que ouvimos falar no café e confirmamos nas histórias que nos revelam nas peças lamechas dos telejornais, quase à balda pelo lado da vida que não nos permite distracções ou leviandades que se podem revelar fatais para o falso dado adquirido da pertença a uma realidade que depende da nossa capacidade para a merecer, não apenas a trabalhar (enquanto nos deixam) mas igualmente na gestão do que gostávamos de ter e não podemos mas nos viabilizam como milagres a longo prazo, pequenas migalhas que todas somadas acabam por nos comer o pão.

Depois cedemos perante a aflição quando percebemos o tamanho do buraco e não conseguimos agarrar-nos à sua borda por mais que tentemos esticar os braços ou o dinheiro que lhe deitamos em vão para tapar aquela sepultura na qual somos coveiros em causa própria do cadáver adiado da nossa despromoção que no limite se assume uma exclusão social.

 

Apontados a dedo como irresponsáveis, descontrolados, protótipos dos falhados que ninguém respeita porque suscitam medos instintivos dos que apontam e desdenham mas se adivinham na mesma linha de montagem onde passa o comboio que os pode trucidar, abdicamos se necessário do orgulho para podermos disfarçar essa condição de vítimas do sistema que sustentamos no empenho com que o alimentamos como a um cão capaz de morder o próprio dono quando este lhe estende a mão. Obrigados a fazê-lo para encaixarmos a qualquer preço no estilo de vida que aceitamos tacitamente como o nosso padrão.

publicado por shark às 11:48 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 10.02.11

SOLIDÃO PÓSTUMA

Uma pessoa morre no seu apartamento localizado no meio de uma freguesia com mais de 40 mil habitantes e só dão por isso oito anos depois?

Cada vez são mais macabros os indicadores da evolução da felicidade na selva (sub)urbana.

publicado por shark às 00:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Segunda-feira, 17.01.11

VISTO DE FORA

Perdido, desorientado, num ponto qualquer do reverso do seu pequeníssimo universo interior, desencontrado da vida pelas tropelias do acaso que lhe trocavam as voltas como gostava de as planear.

Virado do avesso, pendurado num estendal para a secagem sem sucesso por causa do sol que parecia nunca nascer e continuava molhado depois da lavagem ao cérebro a que acreditava ter sido submetido por uns gajos que apareceram na televisão.

Em cativeiro numa prisão espacial de máxima segurança, o seu próprio guarda prisional para eliminar qualquer esperança de uma fuga possível, sem conhecer as coordenadas daquela fria masmorra onde travava a sua guerra contra a loucura que o condenava, inocente, a uma vontade permanente de escapar a si mesmo que o afastava dos outros que nunca entendiam os argumentos da defesa e se assumiam jurados de acusação num tribunal de fachada que decorria à porta fechada na sua mente em sessões contínuas de um filme alucinante que vivia num ponto qualquer do reverso do seu infinito universo onde flutuava perdido, desorientado, à deriva entre paredes imaginárias com estrelas pintadas para o sossegar com a ilusão de uma liberdade que sabia não usufruir porque se sentia implodir à mercê do crescente aperto do torniquete daquilo que imaginava um capacete associado ao colete de forças no seu cérebro encharcado pelas lágrimas que não conseguia verter.

publicado por shark às 11:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Segunda-feira, 20.12.10

CORTE E COSTURA

A tesoura imaginária que corta ligações mantidas de forma precária, dez vezes mais depressa do que a mão sorrateira que tenta reparar à sua maneira os elos perdidos, muitos cortes definitivos, de forma atabalhoada, improvisando uns nós, atarefada a cortadora apressada que se acredita melhor caminho para a salvação no estranho conforto que a solidão parece prometer, talvez algum órgão vital a morrer por falta de irrigação das veias separadas pelas lâminas afiadas de uma tesoura imaginária que tenta alterar a história e prevenir a infecção recorrendo à amputação das ligações associadas a más emoções ou apenas teoricamente ameaçadoras, essas relações comprometedoras para o sossego das tesouras que reagem de forma automática a qualquer sensação menos simpática, o corte radical para separar o bem que somos do mal que os outros podem representar.

 

A tesoura imaginária a cortar, cem vezes mais depressa do que a mão piedosa que vê as coisas em tons de rosa e se esgota num esforço inglório para (re)atar alguns nós.

A ver se consegue evitar que acabemos completamente sós.

publicado por shark às 17:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 12.12.10

COMO AZEITE A BOIAR

Sempre à superfície, evitando o naufrágio, a imersão em coisas profundas que corta a respiração quando surgem ao longe as ondas da substância que se pretenda evitar.

 

Sempre à tona para alguém reparar na pessoa mais vistosa da zona, a luz dos projectores mais a hipótese de amores em profusão que compensem no coração a ausência da verdade que as emoções nascidas da vaidade, do egoísmo sem quartel, não conseguem reproduzir.

E depois a tentação de multiplicar pelo engodo de uma imagem fabricada, a autenticidade relegada para o plano das coisas que só atrapalham a ilusão que se preza como uma sensação de euforia passageira, poder chamar-lhe paixão durante a vida inteira, puro malabarismo, depois de mais uma entre muitas, outro simples algarismo, ter chegado ao fim.

O somatório de vitórias conquistadas assim, o ego afagado pelas glórias sem nexo que às vezes incluem o sexo que envergonha quem muito prometeu na fotografia de si que construiu e afinal não corresponde por inteiro onde é tudo verdadeiro e nenhuma encenação consegue disfarçar.

 

Sempre à vista, a navegar na linha do horizonte, superando o medo de que o sol desponte e derreta com o calor a maquilhagem do amor falado, o único conforme ao combinado com os seus botões trapaceiros.

A multiplicação das falsas partidas, a anulação sistemática das corridas a meio do que se entende como uma competição, eu tenho muito de tudo e tu não, como putos inseguros acabados de chegar ao liceu, hoje és tu mas todos os dias sou eu, na crista da vaga onde a pessoa se equilibra à vista de uma corte de falsos aduladores que aguardam a vez na fila para os amores de consolação, falados, sem consumação, criados por magia pela sede de fantasia que é a única que pinga no rosto escondido por detrás da máscara, tanto tempo tapado que até o espelho o esqueceu, da pessoa por si inventada, a pessoa que se precisa mascarada para ocultar a verdade que um dia transparece no olhar desiludido impossível de camuflar.

 

Sempre à superfície, onde se possa recuperar do trambolhão resultante do fracasso mais recente sem que alguém consiga reparar, em recolhimento, que a história de recurso para o explicar já não cola quando somada às anteriores, a ascensão e queda de muitos amores afogados na mágoa instantânea daquela água onde a flutuação momentânea não apaga a memória dos naufrágios consecutivos nem lava os detritos corrosivos de cada farsa que deforma sempre mais o rosto da alma com uma nova cicatriz que não desaparece jamais do coração, não como se fosse pintada a giz no alcatrão, que marca, que dói, tal e qual permanecerá na lembrança o falso auto-retrato de alguém que se pinta como afinal nunca será.

 

E provavelmente não foi.

publicado por shark às 20:14 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 05.12.10

A POSTA SEM PIADA NA CASERNA

Que fazes tu, soldado, que não passas de mais um homem desorientado numa guerra que te prepararam para combater mas sem qualquer alvo para abater que não tu mesmo sob o fogo cruzado dos inimigos entrincheirados no teu interior?

Quem és tu, desertor, que não disparas para acertar, nunca atiras a matar porque usas pólvora seca, barulho para intimidar a ameaça potencial e a munição real conservas numa algibeira para usares logo à primeira oportunidade em que a tua estranha realidade, como a percepcionas, te atingir como uma bala perdida no tiroteio instalado em teu redor?

 

Respira fundo, renegado, e permanece imóvel nesse campo minado pois só o contacto directo poderá fazer-te explodir e se nunca estiveres por perto nem os estilhaços dos que, incautos, tentarem atacar te atingirão.

Resiste, se necessário, à traição, sentinela, do falso camarada que tem a arma preparada para te acertar no momento em que te perceber desatento pela luta com o exército ocupante da tua insanidade latente e aproveitar a ocasião em que te deixes desarmar por uma emoção guerrilheira capaz de te mutilar para a vida inteira com uma estratégia ardilosa, talvez uma espingarda com um cravo ou uma rosa no cano que pode apenas constituir um engano para esqueceres a bala escondida por detrás, a intenção disfarçada que é bem capaz de te demolir as defesas, caso esqueças, guardião, a necessidade absoluta de protecção contra as surpresas pois vale tudo na guerra como no amor.

 

Se algum dia fores atingido, lutador, se perceberes que foste ferido pelo disparo certeiro do invasor que descobriu como trespassar o teu escudo de papel, essa estúpida emoção à flor da pele que converte num alvo fácil de abater, concentra a tua força no controlo da dor.

E depois só tens que decidir, mercenário, se pretendes abandonar o campo de batalha sem saberes as respostas ou, antes pelo contrário, com as tuas conclusões ripostas, barricado a sós no cimo da torre onde passas a disparar de volta e de onde conseguirás avistar, ao longe, o pó levantado pelo agressor na sua retirada silenciosa, deixando para trás um cravo, ou talvez uma rosa, que apanharás do solo ensanguentado para substituir a medalha de que não te sentirás merecedor.

 

Para guarnecer, veterano, a memória de mais um engano, outra cicatriz, com que aprenderás a viver em segurança se não permitires a qualquer flor fincar a raiz no canteiro traidor da tua tão daninha quanto ingénua esperança.

publicado por shark às 18:58 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 17.11.10

A POSTA QUE NUNCA, OU MESMO DEPOIS

Palavras finais deixadas por dizer no caminho interrompido sem uma despedida sequer, agora sem sentido algum.

Quem de dois tira um com a certeza de que depois ainda sobra metade para completar um todo que restar viável entre as cinzas da desilusão.

A vida continua enquanto o coração não parar de bater, congelado, pela exposição ao frio que entra por todo o lado, pelas feridas abertas no interior (que a fachada está sempre um primor), apenas mais uma facada para encaixar com a dignidade possível, a aparência sofrível de um orgulho que se tenta preservar por detrás de uma história diferente para contar a quem afinal nem interessam os pormenores.

 

Palavras finais quando acabam os amores ou outro tipo de ligações daquelas que pressuponham emoções ainda que sejam fingidas, para que não fiquem defraudadas as ilusões criadas por quem arrisque apostar.

Quem de um tira dois com a ideia de que resolve com essa panaceia um problema que mal consegue identificar, mais fácil deixar cair tudo aquilo que não se compreenda, simplificar ao máximo uma vida que no mínimo é sobrevivida porque a realidade passa o tempo a fugir pelos atalhos da verdade que se quer encobrir e esse aspecto dificulta a secagem de um verniz que é quanto baste para se parecer feliz como um sorriso insistente, talvez, presumidamente, traduz.

 

Palavras finais no escuro, com falta de luz nos cantos onde jazem escondidos os tempos mal investidos ao longo de um caminho que termina de forma abrupta, arrumadas na prateleira das coisas esquecidas, a única maneira de as impedir de poderem um dia servir de peso na consciência, o preço da arrogância de quem se acredita capaz de moldar alguma espécie de paz que possa viabilizar uma nova tentativa frustrada à partida pela falta de vontade de mudar tudo aquilo que se possa revelar prejudicial no futuro que se impõe tal e qual o padrão pré-definido, com o final planeado por inerência na mais do que provável ausência de qualquer tipo de esforço ou de fé.

 

Palavras finais, deixadas por dizer até ao dia em que passou tempo demais para serem ditas com o efeito desejado, o preço a pagar ignorado porque a factura só chegará amanhã ou depois.

 

Quando apenas restar a palavra jamais.

publicado por shark às 14:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Sábado, 11.09.10

TREVAS

Trevas que nascem em mentes que se revelam doentes por pintarem de negro a vida multicolor. Escuridão no vazio que o amor deixou, se é que verdadeiramente amou quem se deixou dominar por ervas daninhas, parasitas, por emoções mesquinhas, malditas, que turvam a visão e deturpam no coração a essência de alguém.

 

Trevas que o mundo tem guardadas a sete chaves no canto escuro das caves como masmorras nas mentes que se revelam doentes por esconderem no escuro aquilo que de mais impuro produz a alucinação que é a mais clara revelação da demência instalada no espaço por ocupar.

 

A luz que precisa brilhar e cada vez é mais ofuscada pelas trevas que uma pessoa mal amada propaga por contágio, como se o mal colectivo fosse apenas um plágio massivo de uma encenação individual. A peça de teatro num tabuleiro de xadrez, desnorteada na desorientação criada pela ausência de um guião capaz de explicar cada movimento ou definir no espaço e no tempo cada acto, cada causa e respectiva consequência.

 

A mais clara revelação da demência.

publicado por shark às 21:01 | linque da posta | sou todo ouvidos

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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