Sexta-feira, 25.07.14

A posta que mais vale a culpa morrer solteira

Sempre que troco impressões com alguém acerca do que se passa (mais uma vez) em Gaza percebo que poucos conseguem abraçar algum tipo de isenção neste tipo de assunto, tão trágico quanto inquinado de contra-informação destinada a baralhar as mentes simples e permeáveis do cidadão comum.

No meio do debate, ninguém recorda que o efeito da sucessão de asneiras geopolíticas que originaram conflitos sangrentos que, por sua vez, alimentaram ódios difíceis de dissipar faz-se sentir, também, sobre pessoas sem qualquer tipo de intervenção ou mesmo de inclinação para qualquer dos extremos desta corda esticada demais.

Algumas delas demasiado jovens para entenderem o que se passa à sua volta sequer.

 

Na dificuldade de manter o tino nas acesas discussões, invariavelmente caídas no beco sem saída que resulta da preocupação em desmascarar um “culpado”, consigo ter uma visão, um pequeno indicador, do quanto será fácil incendiar corações no seio de quem se apanha enredado nos erros da História.

De repente, a questão da Palestina é de esquerda e a de Israel é de direita. Ou uma é apenas mais uma prova da maldade muçulmana enquanto a outra, vista do lado oposto, não passa de uma evidência da natureza malévola dos israelitas que por acaso até são judeus. E ainda existe o argumento, válido para as partes em confronto, da permanente legítima defesa contra um ataque acontecido há mais tempo do que alguém consegue lembrar e que, por si só, constitui garantia de que se irá repetir no futuro endiabrado que assim se constrói.

 

É uma pescadinha de rabo na boca, feita de autocarros escolares cobardemente armadilhados ou de mísseis canalhas enviados por engano para hospitais. É o mal sem controlo, legitimado por alianças de conveniência, por interesses obscuros e pelo radicalismo dos que nada se preocupam com o destino das suas populações. É política, depois é religião e no fim é aquela sensação de impotência perante a contagem dos corpos inertes no chão.

De pouco valem os argumentos em abono de um ou do outro lado, ambos mergulhados na cegueira militarista que lhes tira qualquer razão quando os inocentes pagam a factura e certamente prefeririam, sobretudo os vivos, qualquer outra opção que lhes permitisse sonhar uma vida sem tanto medo, quase normal (há outros problemas prementes em tempo de paz).

 

É difícil racionalizar um conflito marcado pela ausência de escrúpulos de quem se sente, por vingança, por sede de poder ou apenas por erro dramático de raciocínio, legitimado para matar por pátrias, por deuses ou por outro cliché dos que sempre alimentam estas chacinas que ninguém parece conseguir travar até alguém já ter ido longe demais.

Em causa estão duas nações cuja população, cada vez maior parte dela, preferiria ver erradicado o inimigo do outro lado da vedação entre os bons e os maus, consoante a perspectiva de cada um.

 

Contudo, é fácil de adivinhar o desfecho de uma guerra tão suja assim, e recordem-se os inocentes - a maioria dos que já morreram e dos que morrerão, se o resto do mundo não conseguir controlar as partes em disputa até ao dia famigerado em que o lado mais fraco desta quezília equilibrar a parada em matéria de capacidade para a aparentemente ansiada aniquilação total.

publicado por shark às 18:53 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 28.04.14

Ucrânia, Europa - A nova tragédia eslava do Velho (in)Continente

Se um dia, e o tempo passa a correr, na vizinha Espanha se instalasse (de novo) um poder fascista ou apenas expansionista que entendesse cobiçar o território português?

E se esse poder dispusesse de um arsenal nuclear e aproveitasse um momento conturbado, como por exemplo a destituição forçada de um governo daqueles que os povos são incentivados a derrubarem, para somar a Olivença mais umas generosas fatias aquém fronteira recorrendo para isso a violentos soldados mascarados?

E se da chamada comunidade internacional pouco mais viesse do que o apoio moral, sanções em pequena escala, devidamente balizado pelo peso castelhano em diversas economias de aliados potenciais e ficássemos, na prática, entregues a nós mesmos e com o poder em parte confiado a extremistas?

 

A caldeirada acima parece tão ficcionada como pareceria poucos anos atrás a qualquer cidadão ucraniano aquilo que está a acontecer no seu país, num tão Velho Continente que já se revela quase senil.

O exemplo da Ucrânia, olhado com relativa indiferença pelos restantes europeus (ainda que a nível institucional assim não pareça), é o mais recente exemplo do quanto a História nem sempre vira páginas de um mesmo capítulo. As surpresas, os aparentes impossíveis, explodem nos rostos incrédulos dos eternos optimistas (um clássico) como fruto dos contorcionismos a que mesmo numa democracia normal o poder se presta ou apenas como consequência de um desastre natural de maior dimensão.

É num instante que se esboroam os laços entre vizinhos, a estabilidade, a paz que julgamos sempre eterna e depois é o que se vê.

 

A montanha russa

 

Agora é a Ucrânia o epicentro de mais um tornado de acontecimentos que resultam em mudanças que produzem alterações radicais e, em última análise, destroem os equilíbrios precários entre nações ou entre regiões e instalam um inferno na vida de pessoas como nós.

A relevância dos enquadramentos históricos, das justificações de circunstância e de todas as patranhas que adornam este tipo de intervenções externas nos destinos de outrem (sim, as dos nossos aliados americanos cabem neste pacote) é quase nenhuma.

Importante é o facto de um povo europeu estar refém do espectro de uma guerra civil que seria o prelúdio de uma invasão anunciada por quem tenta dividir para reinar. Uma população deste mesmo continente que um dia quis domesticar o mundo inteiro, com a vida em risco, com o futuro comprometido, com a pátria por um fio.

 

A roleta ucraniana

 

É esse o aspecto que me parece sobrepor-se aos demais. Nenhum argumento cola para branquear a hostilidade russa ou a hipocrisia da UE e do grande polícia mundial que, oportunista, entendeu meter o bedelho onde nem a própria aliança a que pertencemos deveria ter intervido sem absoluta certeza dos passos a dar a seguir. No meio de um novo braço de ferro ao bom velho estilo da guerra que também se serve fria está mais uma nação a caminho de se ver tão devastada como quaisquer outras apanhadas no centro do furacão que se formou sem ninguém o prever.

É a população da Ucrânia quem sairá a perder, na ressaca do que julgava ser uma bonita revolução em defesa de um modo de vida que parece agradar à maioria mas foi votado diferente nas urnas que elegeram o presidente que entenderam depor.

 

E é esse para mim o único assunto que importa, o único interesse que urge salvaguardar.

Se o banho de sangue acontecer, a União Europeia que ladra alto em euros mas, pela debilidade da sua coordenação e mesmo da sua comunhão de interesses, não morde sem a anuência ou mesmo a intervenção do poderio militar norte-americano poderá tentar lavar as mãos como Pilatos mas nunca formatar a consciência colectiva que registará desta trapalhada, como a História, apenas mais um episódio triste na novela do seu processo de inevitável desagregação.

publicado por shark às 22:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sábado, 05.10.13

No lado de cá

Nunca primei pelo optimismo, admito. Perante alguns factos que me chocam opto sempre pela preocupação inerente às minhas previsões (quase sempre) catastrofistas.

Quando tento entender o funcionamento desse mecanismo interno que me conduz para os receios pelo pior, apenas um dos desfechos possíveis em qualquer situação, percebo que a lógica assume um papel relevante.

Essa lógica é a que me diz ser absurdo não vaticinar um pesadelo quando, à face das evidências, estão reunidos todos os ingredientes para o mesmo se verificar.

 

Lampedusa, uma localidade italiana que bem dispensaria a associação sinistra impossível de evitar, é apenas uma face visível dessa tragédia que está a acontecer com cada vez maior frequência, o êxodo em massa por parte das populações aterrorizadas e famintas de boa parte do hemisfério sul.

E na minha visão pessimista do futuro, a fortaleza em que se estão a transformar muitos países ocidentais da zona mediterrânica mas também nos EUA no que respeita à sua fronteira com o México, por exemplo, vai progredir para uma barreira instransponível futura que, na prática, assumirá esta vergonhosa divisão do planeta em dois.

 

Nunca conheceremos a verdadeira dimensão deste horror, nos números como nos contornos tenebrosos da jornada dos emigrantes africanos no mar feito estrada para um paraíso como naturalmente o entenderão.

É desumano, é assustador e, face à reacção hostil que acaba por marcar a actuação das autoridades nos países confrontados com o problema, é descaradamente cruel.

É de pessoas que se trata. Com peles diferentes, com culturas distintas, com o azar de terem nascido no local e no tempo errados para quem ambicione a felicidade de coisas tão simples como uma terra em paz. Mas são gente, gente que arrisca a morte com filhos nos braços depois de pagar fortunas por uma viagem sem retorno nas piores condições que conseguimos imaginar.

Essa é a realidade tal como está a acontecer e envolve números na casa das dezenas de milhar, todos os anos. E não estamos a falar de gnus.

 

O dilema com que deste lado dourado do mundo, por estranho que isso possa soar, nos confrontamos passa pela luta interna entre o humanismo elementar que nos impele a acudir a estas pessoas em aflição, com culpas no cartório para a Europa colonialista, e o pragmatismo financeiro dos que têm optado pela via da fortificação, no sentido de impedir o afluxo de gente de fora que custa dinheiro só pelo facto de ter que se reparti-lo.

Numa balança com um dos pratos ocupados pelo dinheiro já sabemos para que lado os pratos, as decisões, penderão, somando-lhe a xenofobia, o racismo, a ganância, a desumanidade de uns quantos que, quando todos em sintonia, são demasiados e até há exemplos de como conseguem chegar ao poder em eleições nestas democracias cada vez mais bizarras.

 

É esse, sem dúvida, o rumo que italianos, espanhóis, turcos e todos quantos, na Europa, sentem mais de perto e com maior intensidade o problema têm optado por seguir. Mais vigilância nas fronteiras, mais repressão dos clandestinos, repatriamento na ponta da língua para a maioria dos que conseguem capturar com vida.

É essa a barreira intransponível que estamos todos a construir, passo a passo, até à tal visão pessimista do futuro como o prevejo para um mundo inteiro em convulsão. Um planeta armado até aos dentes e dotado de tecnologia superior, a norte, com os seus recursos empenhados na manutenção dessa fronteira global pouco acima do equador. Interdito para todos aqueles que, dessa forma, serão abertamente declarados inferiores.

E um outro planeta, a sul, faminto e desesperado, sem recursos ou com os mesmos esgotados pelas alterações climáticas ou pela rapina ocidental, a alimentarem os ódios que se converterão naquilo a que chamaremos terrorismo mas não deixará por isso de ser na realidade uma luta pela sobrevivência, a exigência de um equilíbrio que, por este caminho que lhes oferecemos, é fácil concluir dos dois lados da barricada que só à bruta poderão algum dia alcançar.  

publicado por shark às 11:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Segunda-feira, 16.09.13

Deplorável

A mudança em nós acontece todos os dias, com o envelhecimento e mesmo com as repercussões dos acontecimentos que qualquer existência implica.

No entanto, não damos por isso a curto prazo. Precisamos que passe mais tempo, que exista uma maior distância entre os momentos em que avaliamos os termos de comparação, como uma foto que nos permite comparar a diferença e perceber a marca do tempo a passar.

Com o mundo as coisas também acontecem assim.

As coisas mudam, mais depressa ou mais devagar, e não nos apercebemos da maior parte dessa mudança permanente a que os mais optimistas gostam de chamar evolução, progresso ou qualquer outro termo capaz de exprimir a enganosa sensação de que tudo se transforma num sentido positivo, de que andamos em frente e quase sempre para melhor.

Contudo, de vez em quando paramos para olhar a “foto” de uns tempos atrás, olhamos para as lições que a História nos dá e percebemos o quanto se repetem tantos capítulos desse livro que, cada um/a à sua maneira, com maior ou menor impacto, vamos escrevendo para gerações futuras poderem tirar as suas conclusões acerca dos marcos assinalados num determinado lapso de tempo pelas gentes que os produziram, no sentido de saberem que tipo de pessoas havia quando determinado acontecimento, quando determinada mudança se produziu.

É assim que olhamos para a Idade Média como um período sinistro, da mesma forma que lamentamos a época do Feudalismo ou realidades medonhas como a escravatura ou as guerras devastadoras que invariavelmente afectam a vida das populações em dada altura e constituem, a par com cataclismos naturais, descobertas científicas ou inovações tecnológicas perniciosas, factores de mudança nem sempre para melhor.

E é assim que rotulamos períodos da História mais as pessoas que os fizeram acontecer, da mesma forma que criámos relógios e calendários para nos servirem de pontos artificiais de orientação.

 

Quando tento encaixar o meu tempo sob esta perspectiva e esboço um qualquer cenário futuro para o qual a minha geração esteja a contribuir agora, enquanto o meu país definha à mercê dos abusos e dos desleixos que também eu deixei acontecer e o mundo inteiro parece caminhar sobre as brasas de uma economia titubeante, de uma tensão permanente, de uma hipoteca da maioria dos valores que definem as pessoas e as nações de bem, de um ambiente em profunda e alarmante degradação, de toda uma corda bamba cada vez mais próxima de partir, só consigo antever o pior.

E quando olho para o espelho e percebo as diferenças que o tempo vai pintando na minha carcaça irrelevante, penso nas que se produzem no mundo de que faço parte, na herança que os que partilham este momento específico da existência num espaço comum que construímos (destruímos?) e cada vez mais me preocupo e envergonho com o rasto que iremos deixar.

publicado por shark às 00:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Sábado, 11.05.13

A posta que isto já lá não vai com falinhas mansas

No visível desespero dos próprios apoiantes dos partidos da coligação que nos governa, cada vez mais desarmados para acudirem em seu auxílio e com a perda de audiências da presença televisiva de Sócrates a privá-los do renascer das cinzas de um culpado mesmo a jeito para a argumentação fácil, percebe-se o quanto as sondagens até acabam por não reflectir na sua verdadeira dimensão o esboroar absoluto da base de legitimação do actual Executivo.

 

Sejamos claros: já nem a malta de Direita acredita nas hipóteses de sucesso deste grupo heterogéneo de pessoas a quem o poder foi confiado nas circunstâncias que se sabe e de entre a mesma falta de alternativas que nos aguarda em futuros plebiscitos.

Falha-lhes o talento para o jogo político, a credibilidade para a mobilização popular em torno das suas medidas bizarras e, em muitos casos, simplesmente cruéis, a consistência para consolidar uma imagem de força que colmate as várias debilidades da sua forma de controlar o poder e, acima de tudo (e nem quatro Poiares bem maduros conseguem apagar o rasto de imbecilidade deixado pelo inenarrável Relvas), falta-lhes a inteligência que nos poderia valer.

 

Depois de assente o pó da desilusão inicial, os portugueses agitaram-se e quase roçaram a revolta chegando a haver quem temesse uma nova Grécia nas nossas ruas. Claro que foi sol de pouca dura e depressa a população acabou enfraquecida pelo próprio efeito de uma governação desastrada e desastrosa que nos obriga a centrar atenções nas questões mais elementares da sobrevivência. Quase um milhão de desempregados mais outro milhão de reformados (com pensões sistematicamente alvejadas pelos snipers da rapina estatal) a sustentarem famílias inteiras deixam pouca margem de manobra para a contestação.

Agora, encravados entre um Governo muito incapaz e uma oposição pouco convincente, oscilamos no quotidiano entre o encolher de ombros resignado, a gestão in extremis de recursos financeiros depauperados e os fenómenos quase diários de estupefação perante as asneiras, as tiradas idiotas e as medidas controversas (ou mesmo inconstitucionais) de que a Comunicação Social e o seu batalhão de notáveis desertores analistas, maioritariamente da mesma área política da quadrilha liderada por Passos Coelho, nos dão conta.

 

O banana no topo do bolo é uma velha glória dos dias felizes do esbanjamento dos milhões que a Europa nos ofereceu como contrapartida para abdicarmos de boa parte do controlo económico sobre o país. O Presidente da República, esse colosso do anedotário político, deveria constituir a maior esperança para uma solução mas acaba por ser uma das faces mais evidentes do problema: a triste realidade de um poder meio senil que ameaça a Democracia, destruindo-a aos poucos neste caldo em lume brando, num banho-maria de impunidade despudorada, de desorientação mal disfarçada e de um esforço concertado de estupidificação das massas por todos os meios ao alcance da seita de chicos-espertos e de palermas instalados nos diversos poderes.

 

Entregues a uma corja de oportunistas e de mercenários, mergulhamos aos poucos nas trevas da lei da selva, do salve-se quem puder.

E ninguém faz a mínima ideia do quanto neste período negro Portugal já deitou a perder.

publicado por shark às 01:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Sábado, 23.03.13

A posta nos mal A(r)mados

É tudo muito bonito quando pensamos a Democracia e a queremos acreditar indestrutível por ser o mais perfeito dos regimes que conhecemos ou experimentámos na pele até à data. Contudo, seja democrático ou ditatorial, qualquer regime só perdura não enquanto tiver o controlo da respectiva população mas sim durante o tempo que durar o seu estado de graça junto das estruturas militares ou militarizadas que o possam assegurar.

 

Quando Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço e outras figuras de menor destaque mediático ligadas à s hierarquias militares engrossam o discurso e agitam o papão do golpe militar, da tomada do poder à bruta, a maioria das reacções são de escárnio perante as pessoas e suas aptidões e não de análise acerca das respectivas motivações.

Os militares fizeram o 25 de Abril de 1974 ou ainda estaríamos hoje, povo de indecisos, a ponderar essa opção para derrubar um regime caduco qualquer.

Sim, havia uma resistência, uma minoria de antifascistas que se submetia à clandestinidade, ao exílio, à tortura ou apenas à indiferença dos seus pares num poder nada democrático que lhes dava voz apenas por comiseração ou por dar jeito um grupelho dissonante para transmitir uma fragrância de liberdade ideológica e de expressão.

Contudo, a maioria silenciosa, o rebanho, aturava como uma lei fundamental todos os abusos que o formato do Estado Novo fomentava com a imposição de uma estrutura assente em hierarquias sociais bem definidas, a um esquema quase feudal de gestão de um colectivo feito de indivíduos dependentes da sorte ou do azar no berço e, acima de tudo, da sua habilidade para se tornarem úteis à implementação de um qualquer modelo de autoridade que pudesse beneficiá-los e/ou aos seus.

 

Agora passo à parte da definição de prioridades de um novo rebanho, mais instruído mas nem por isso necessariamente mais esperto ou mais capaz de distinguir o certo e o errado, aquele que passa ao lado de episódios como o que motiva esta posta.

Um tenente do Exército Português foi detido por ter levado ao Laboratório Militar, para análise, uma amostra de comida estragada que alguns soldados se recusaram comer. Podem ler os detalhes aqui.

A decisão do Tribunal Administrativo que confirmou o acerto de tal punição assenta na pretensa deslealdade do tenente Gonçalo Corceiro perante os seus superiores.

Tomou a atitude certa mas não respeitou os códigos internos, a hierarquia, as regras que no entender daquele tribunal prevalecem sobre a constatação pura e simples dos factos: o tenente fez aquilo que tinha que ser feito, algo que a lógica diz dever prevalecer sobre quaisquer imposições de feudos mais ou menos institucionais e quem aplica as leis entendeu sobrepor a isso a violação dos tais preceituados militares.

O rebanho, tão lesto a peticionar contra a liberdade de expressão ou o abate de animais assassinos, nem reparou.

 

Se no parágrafo inicial fiz alusão ao mal-estar de que alguns militares vão sendo porta-voz e no segundo referencio o efectivo poder de que aquela estrutura usufrui para intervir, bem ou mal, sobre os nossos destinos, no terceiro chamo a vossa atenção para o facto de o absurdo poder gerar as condições para uma revolta que, acontecida no seio de quem detém as armas, nunca se sabe as proporções que pode assumir. Esse absurdo tanto pode provir de uma decisão judicial, porquanto acertada do ponto de vista formal, como do somatório de decisões absurdas por parte de um poder político legítimo do ponto de vista dos procedimentos democráticos mas tão errado como a História, portuguesa e mundial, já provou ser passível de acontecer.

O medo de uma intervenção militar, quiçá oportuna no entender de alguns mais desesperados mas sempre de último recurso para quem abraça a democracia e teme a imposição seja do que for pela força das armas, acaba por ser secundário perante as consequências da falta de razoabilidade nas decisões tomadas, a nível político ou judicial, a dissonância entre estas e a lógica que preside ao modelo de sociedade que (quase) todos defendemos e, acima de tudo, à indiferença generalizada para com todos estes sinais de uma insanidade colectiva que está a contribuir sobremaneira para um verdadeiro livre arbítrio por parte da elite com acesso a qualquer poder.

 

E agora esse desgoverno está a atingir patamares tão baixos que já destruiu a consciência crítica dos cidadãos, incapazes na sua maioria de prestarem sequer atenção aos sinais da demência que nos corrói a Nação pelos seus alicerces que incluem, na minha opinião, coisas tão elementares como um conceito de justiça universal que se sobreponha sem hesitar às regras de qualquer instituição que dela faça parte quando estas contrariem, em questões tão elementares como a saúde pública dos cidadãos, a ética e decência de que tantos suspiram a ausência e a apontam como um mal mas muitos mais (e tantas vezes os mesmos) tornam irrelevantes por não lhes prestarem a devida atenção.

 

Rendo aqui homenagem ao tenente Corceiro, ao cidadão Gonçalo, na proporção inversa ao que me apeteceria aqui dizer acerca dos que viram a cara para outro lado neste tipo de injustiças quando esse outro lado não passa de um conjunto de miragens e de fugas superficiais vocacionadas para entreter os cobardes e os acéfalos que preferem fazer de conta que nada há a fazer de concreto para combater a decadência moral que está a matar pela raiz a própria civilização ocidental e, sem dúvida, o seu próprio país.

publicado por shark às 16:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quarta-feira, 27.02.13

A posta que o futuro imediato é uma desconcertante incógnita

Sempre que se coloca a questão de como dar a volta à situação que o país atravessa esbarro numa parede que o raciocínio impõe e dou comigo num beco sem saída.

Em causa está a relação entre a dimensão do problema, nomeadamente do ponto de vista financeiro, e o leque de alternativas disponíveis num cenário eleitoral.

Quando vejo cidadãos mobilizados para as diferentes formas de luta que uma democracia digna desse nome nos faculta entendo perfeitamente as suas razões e, em mais do que um momento, sinto-me compelido a também fazer qualquer coisa.

O problema, e é aqui que de repente me vejo no tal dilema, está na nítida sensação de que derrubar o actual governo (e é esse o mote de todas as manifestações populares acontecidas ou por acontecer) pode confrontar-nos apenas com cenários ainda mais complicados no contexto da aflição generalizada, como o exemplo italiano cuidará de comprovar.

 

Cruzar os braços é sempre uma opção impossível perante a progressiva degradação do tecido empresarial e respectivo impacto no número de gente desempregada que pode apenas recorrer aos mais próximos para se valer e também a maioria desses sente na pele o efeito da austeridade. O consequente efeito bola de neve arrasta até a geração dos avós para o turbilhão e a em termos sociais o país começa a acumular tensões indisfarçáveis que só não eclodiram ainda como o caos nas ruas porque olhamos para os gregos e percebemos que nem essa hipótese resolve seja o que for.

Porém, todos sentimos que urge fazer algo e com a máxima urgência.

 

As opções que nos restam limitam-se a males maiores. A desordem não serve. Eleições antecipadas não resolvem. Não há dinheiro e devemos milhares de milhões, pelo que a dependência externa é total e não é realista equacionar a saída do Euro ou a desresponsabilização relativamente aos compromissos assumidos.

Perante isto, o que fazer?

É aqui que ninguém apresenta sugestões minimamente consensuais. Toda a gente consegue apontar culpados e exigir a respectiva responsabilização. Contudo, nesse lote incluem-se os maiores partidos e só uma minoria leva a sério as opções que restam.

 

Um novo partido, alheio aos já existentes e livre das várias cargas pejorativas, surge no horizonte como a única hipótese no âmbito do sistema democrático que o bom senso recomenda e a racionalidade impõe. Uma alternativa distinta das já existentes, capaz de congregar vontades em torno de um projecto simultaneamente realista e milagreiro, seria nas conjecturas de muitos de nós a aposta ganhadora.

Mas no meio do furor demagogo que a desorientação facilita, quem nos garante que não estaremos a investir numa solução sem pernas para andar ou que, como no exemplo italiano que acima referi, não consiga mais do que tornar-se num estorvo à possibilidade de constituição de uma maioria parlamentar capaz de sustentar uma solução governativa estável?

 

Como baratas tontas, acabamos quase todos paralisados perante tantas dúvidas (legítimas) e o tempo esgota-se ao sabor dos caprichos de cada um dos países de uma União Europeia refém de si própria e do efeito dominó de uma crise em roda livre, sem o amparo federalista.

Ainda assim, e caso queiramos insistir na democracia como opção (não existe outra), só mesmo através da criação de novos partidos, movimentos de cidadãos e quaisquer formas de mobilização organizada de cidadãos poderemos alimentar a esperança no surgimento de uma nova ideologia com propostas exequíveis ou, no mínimo, de alternativas credíveis de liderança.

publicado por shark às 16:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Terça-feira, 29.01.13

A posta num aumento de pressão

No espaço de dias um pai português disparou sobre a cabeça de um filho e uma mãe portuguesa envenenou dois. Estes dois exemplos mais recentes somam-se a outros que sempre chocam a opinião pública e que, para horror da maioria, tendem a proliferar.

Existe um denominador comum em boa parte destes casos e que obriga a uma reflexão séria acerca da forma como a sociedade está a lidar com o problema: a estas tragédias costuma estar associada uma doença mental, a depressão, que tem provocado outros exemplos similares um pouco por todo o mundo.

 

A depressão é um daqueles problemas cuja visibilidade só parece explodir na sequência dos episódios mediáticos protagonizados por quem, mesmo tendo sido diagnosticado na condição, não teve o acompanhamento devido e acabou por perder por completo o controlo de ideias e de acções.

Fala-se da depressão com a ligeireza de quem pretende justificar tristezas várias ou, quando as pessoas afectadas exibem de forma mais evidente o seu completo desnorte, evitam falar de todo sob o espectro do rótulo de malucos que se cola como um estigma definitivo na imagem de a quem talvez bastasse a medicação adequada para equilibrar a química em desacerto.

 

A emergência de um plano concreto de acção, até no domínio legislativo, que permita uma intervenção mais directa e actuante por parte dos organismos já existentes no âmbito do SNS, em conjugação com as autoridades policiais, junto de adultos a quem seja evidente a necessidade de tratamentos que quantas vezes se recusam a aceitar, faz-se sentir no quotidiano de muitas pessoas que lidam dia a dia com casos de depressão e respectivas consequências sobre a vida de quem padece e de quem tenta cuidar.

O reverso dessa alteração de mentalidades e tomada de consciência da crescente gravidade do problema será a proliferação destes dramas nas primeiras páginas dos jornais e na abertura dos noticiários radiofónicos ou televisivos.

publicado por shark às 00:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 16.12.12

Wikileaks e Anonymous: algo mudou e para pior

Nutri simpatia pelas suas causas desde o dia em que tomei conhecimento da sua existência e não escondo a minha desilusão por perceber que nenhuma das duas organizações resistiu a dois pecados mortais para as boas intenções: o diabo da arrogância e o demónio da tentação capitalista.

Mas se me caiu mal a paywall com a qual a Wikileaks entendeu a dada altura impor a venda dos seus serviços sob a capa de generosas doações, limitando o acesso à informação aos que possuam poder de compra para lhe aceder, a guerrinha entre os Anonymous e uma igreja evangélica norte-americana que os hostilizou esclarece-me quanto à falta de controlo na mira daqueles a quem admirava pelo tiro certeiro.

 

Num mundo no qual temos razão para temer tanto a inépcia como o abuso de quem detém o poder, e sobretudo neste último caso, acolheria sempre com agrado uma reacção da sociedade civil como a Wikileaks e os Anonymous protagonizam.

Mas atenção: estou a falar dos princípios que pareciam representar e agora, no meu entender, violaram.

Não faz sentido para mim que a Wikileaks tenha nascido para oferecer ao mundo o livre acesso a informação confidencial que precisamos conhecer para sabermos com que lidamos no poder político e, talvez em desespero de causa mas ainda assim, esse acesso passe a gozar de uma liberdade condicionada pela carteira dos cidadãos.

Contudo, a retaliação anunciada como bem sucedida pelos Anonymous contra a Westboro Baptist Church (WBC) arrisca transformar uma organização de defesa de valores primordiais numa milícia capaz de intimidar pelo medo qualquer cidadão ou instituição que os hostilize.

 

A minha desilusão é sincera, pois começam a rarear as causas e os projectos capazes de nos fornecerem a esperança de equilibrar a parada com quem oprime ou tenta silenciar os seus opositores.

Nesse aspecto, os Anonymous constituíam para mim um bastião sagrado, um recurso valioso para contrabalançar a degradação das democracias e manter vigilância apertada sobre os abusos de poder, nomeadamente sobre as tentativas para silenciar os cidadãos. Nada menos do que isso.

 

Como posso, depois do episódio WBC, apoiar uma organização que acaba de me provar que, em caso de discordância com alguma das suas operações ou mesmo por ter acordado num dia mau, amanhã o silenciado posso ser eu? 

publicado por shark às 20:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Domingo, 18.11.12

Da convergência impossível nas realidades paralelas

Por norma, as classes dirigentes englobam pessoas com níveis de vida acima da média. São, na sua maioria, pessoas de classe média ou média-alta que tiveram acesso a boa formação escolar, que cresceram em ambientes estáveis e puderam abraçar as carreiras que sonharam ou simplesmente lhes pareceram mais favoráveis na altura de tomarem as mais importantes decisões acerca do seu futuro. Puderam tomar essas decisões num presente que lhes foi garantido pela sorte, pelo mérito, pela inteligência, pela conjuntura, por qualquer um dos factores que contribuem para estarem reunidas as melhores condições para alguém poder controlar o seu caminho, a sua vida.

Essas classes dirigentes, empresários, políticos, salvo raras excepções, não enfrentaram ao longo da vida qualquer tipo de obstáculo sério à sua progressão e puderam concentrar-se na evolução dos seus conhecimentos, das suas aptidões. Puderam gerir o seu destino sem lidarem com o medo concreto do que o dia seguinte lhes poderia reservar, pelo menos no que dizia respeito ao essencial, aos dados adquiridos como um frigorífico atestado ou a roupa adequada para qualquer ocasião.

 

A pessoas com este tipo de percurso, com as referências de estabilidade e de controlo sobre as suas vidas, o sossego de alguém que até pode ter conhecido dificuldades de vária ordem mas nunca teve em causa uma condição financeira sólida e uma posição privilegiada de acesso às catapultas para os patamares mais elevados da pirâmide social, não se pode exigir que entendam e ainda menos que consigam sentir o efeito da pressão que se instala na vida daqueles a quem uma crise retira o comando da situação, apanhados de surpresa num turbilhão de acontecimentos que minam aos poucos a resistência de quem percebe o chão a fugir-lhe sob os pés e pouco ou nada pode fazer para evitar um trambolhão tão sério como a perda de um pequeno negócio, de um emprego precário, do rendimento à justa para manter o mínimo de normalidade que passa, por exemplo, pela certeza de ter no mês seguinte um tecto para morar, angústia multiplicada por mil quando há filhos na equação.

Não existe forma de explicar a alguém que o nunca tenha experimentado esse conjunto de emoções intensas que nos arrebatam quando somos mãe ou pai. As palavras podem transmitir quase tudo o que quisermos, se as soubermos utilizar. Mas existem realidades que transcendem até a nossa capacidade de compreensão e tornam-se por isso impossíveis de partilhar na sua essência. Tem-se uma vaga ideia, mas só a experiência pode trazer a luz.

 

A aflição de quem perde o controlo da sua vida por via do descalabro financeiro, levada ao extremo quando existem outras vidas dependentes da sua, é uma emoção igualmente impossível de descrever de uma forma clara e que faça entender a quem decide aquilo que verdadeiramente está em causa por detrás dos números que nos traduzem o desespero.

Torna-se por isso impossível de acreditar que existem, nos vários poderes que gerem os destinos de um país, as pessoas necessárias, as pessoas suficientes com a consciência do que está em causa para que as decisões possam ser influenciadas por tudo aquilo que lhes está vedado por desconhecimento de causa. Aquilo que interessa porque interessam mais as pessoas do que os sistemas.

 

Torna-se por isso impossível pactuar com discursos e com decisões emanadas de onde a vida acontece diferente da realidade que lhes compete enfrentar.

 

publicado por shark às 15:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sábado, 20.10.12

A POSTA QUE NEM SABEMOS O QUE ESTAMOS A PERDER

As notícias mais recentes acerca do Público e da Lusa são das que mais fragilizam uma classe já de si esfarrapada pela proliferação e aumento de intensidade das diversas pressões. Os jornalistas estão cada vez mais reféns do medo de perderem os seus empregos, um medo legítimo para quem sabe fazer algo que não serve para fazer mais porra nenhuma.

Seria leviano afirmar que não existem jornalistas corajosos, independentes, ou malucos o bastante para continuarem a pugnar pelos princípios sagrados do ofício. Contudo, no actual contexto de aperto do torniquete por parte dos poderes que controlam o pilim só pode tratar-se de temerários, pois mesmo os mais bem intencionados serão, mais cedo ou mais tarde, confrontados com decisões muito difíceis de tomar.

 

Temos que convir que o estandarte da verdade já conheceu melhores dias. Num mundo governado por aldrabões, a missão de informar as coisas tal e qual transforma-se num exercício kamikaze e abundam os exemplos de como essa sim é uma verdade insofismável.

Morrem jornalistas, todos os anos, em todo o planeta, nessa batalha pela tal verdade que, bem vistas as coisas, ninguém parece querer ouvir. Basta olhar para o que prende as audiências para percebermos porque é cada vez mais exigente o esforço para manter o entusiasmo perante coisas sérias, com toda a gente preocupada com o sexo furtivo nas casas dos segredos e apenas meia dúzia em busca de informação acerca daquilo que verdadeiramente interessa.

A lógica é simples de entender: as audiências só espevitam perante assuntos da treta, os anunciantes só patrocinam conteúdos da treta, os jornalistas são obrigados a concentrar a atenção naquilo de que o público gosta, as minorias deixam de prestar atenção e às tantas deixa de haver espaço no mercado para tanta fast press. Ou seja, o efeito bola de neve acaba por arrastar tanto os que teimam em fazer o trabalho sério que não dá lucro à casa como os que se esmifram para alimentar páginas com aquilo que toda a gente sabe porque é aquilo que toda a gente publica.

 

No meio disto tudo ainda entram em cena os políticos que ameaçam e pressionam, os patrões que precarizam e despedem e a ditadura fria e impessoal dos critérios das agências publicitárias. Entretanto, fora das redacções, a Democracia sucumbe e a falta de uma Comunicação Social sólida e independente ajuda nas exéquias.

Os jornalistas não são soldados ou polícias, a sua única arma é a esperança na diferença que consigam fazer, tantas vezes à custa da teimosia, da abnegação e do brio que podem custar-lhes o emprego se os interesses atingidos mexerem os cordelinhos certos na teia de ligações perigosas contra as quais um jornalista pouco ou nada pode fazer. E as contas podem ser acertadas a qualquer momento, os poderes nunca esquecem os golpes sofridos e não lhes falta paciência para esperarem o pouco tempo necessário para apanharem a jeito profissionais tão desamparados, mesmo a nível sindical.

 

Uma crise capaz de fechar farmácias às centenas dá cabo das contas a um órgão de Comunicação Social e encurrala ainda mais quem tenha dedicado a vida a essa nobre função, sabendo todos nós como a maioria dos grandes grupos financeiros tem o dedo ligeiro no gatilho quando toca a despedir. E depois, que futuro espera um jornalista, mesmo dos bons, veteranos, com provas dadas, quando o chão lhe foge debaixo dos pés?

É quase cruel exigir a alguém que cumpra bem o seu papel quando até o cumprimento escrupuloso das regras do jogo do ofício pode afinal constituir o cavar da cova onde deitarão as carreiras todos quantos se virem apanhados por uma das várias trituradoras que a crise estimula. Pessoas, tal como as que usufruem do seu trabalho no derradeiro bastião da Democracia, de qualquer Democracia.

Nenhuma resiste à falência dos valores que a Comunicação Social representa e são esses os que mais tentam destruir aqueles para quem a verdade possa constituir uma ameaça real, sobretudo quando estão em causa interesses vitais, ainda que ilegítimos, dos poderosos que não param de abusar.

 

E esta é uma verdade que uma Democracia saudável não poderá jamais ignorar.

publicado por shark às 19:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Segunda-feira, 15.10.12

ABANCADOS NO PODER

Aos que consigam ler em inglês recomendo vivamente a leitura desta prosa. Depois é só colocar a seguinte questão: embora com outros protagonistas e diferentes contornos, onde é que já vimos este filme?

 

Arremedo de tradução do Google Translator e de Paulo Moura:

"Quem vai governar nos EUA após as eleições?

A actual campanha eleitoral nos EUA vai determinar quem vai ser o presidente dos Estados Unidos para os próximos quatro anos. No entanto, é certo que quem for eleito para presidir à Casa Branca não vai governar o país. Uma série de relatórios recentemente divulgados destacam uma verdade antiga que ainda está para ser fundamentada com factos específicos.
A julgar pelos relatórios que chegaram à imprensa, a primeira auditoria oficial de sempre ao Sistema da Reserva Federal [FRS - Fedreal Reserve System] dos EUA revelou que o FRS aplicou quantidades incrivelmente enormes de dinheiro para as empresas norte-americanas durante e depois da crise de 2008.
Segundo o senador Bernie Sanders, Wall Street tem feito o maior negócio da China da história mundial por conta dos contribuintes norte-americanos. E o senador Sanders esclarece que uma auditoria independente, conduzida a seu pedido, revelou que a Reserva Federal destinou uns surpreendentes $ 16.000.000.000.000 (16 triliões de) dólares para as grandes corporações financeiras, de negócios e indivíduos ricos do país, sem juros, sem a aprovação do Congresso e do presidente, conforme exigido pela lei.
Se não fosse para este senador influente, esta informação poderia facilmente passar por conversa fiada atirada para criar ruído. As autoridades de Washington e a liderança da Reserva Federal não contestaram os relatórios e os meios de comunicação americanos, tão sedentos de sensacionalismo, também têm mantido silêncio sobre isso. Tudo isso demonstra como a proclamada "livre" imprensa dos EUA funciona.
No entanto, é um erro pensar que a Reserva Federal, que desempenha as funções de um banco central nos EUA e tem o direito de imprimir dólares, é dependente do governo. A Reserva Federal dos EUA é uma empresa de gestão privada, que assumiu as funções de um banco central em 1913, após uma conspiração de políticos de topo e banqueiros. Mesmo não estando previsto na Constituição e sendo praticamente independente do governo e do presidente, a Reserva Federal foi dirigindo a economia e a política dos EUA desde 1913.
Não pode haver dúvida quanto a cujos interesses a Reserva Federal dos  EUA está a tentar proteger. A recente auditoria revelou que os destinatários dos biliões emitidos pela Reserva Federal, desde 2008, incluem os principais bancos de Wall Street, incluindo Morgan Stanley, Bank of America, Goldman Sachs e Merrill Lynch.
No momento, estes bancos estão a injectar enormes fundos para a campanha eleitoral do bilionário Mitt Romney, que declarou a Rússia o inimigo número um e promete destinar recursos generosos para programas militares. A campanha do candidato democrata não está tendo qualquer tipo de escassez de fundos também. Segundo relatos, a actual campanha eleitoral está a custar a Obama acima de um bilião de dólares.
Todos esses biliões para a corrida eleitoral não estão a cair do céu. Quem vai ganhar a corrida eleitoral vai governar a Casa Branca, mas não o país."
Valentin Zorin
«The voice of Russia»

publicado por shark às 10:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Domingo, 30.09.12

A POSTA QUE HOJE AINDA PODEMOS ESCOLHER

Deus quis que, entre os homens, uns fossem senhores e os outros, servos, de tal maneira que os senhores estejam obrigados a venerar e amar a Deus, e que os servos estejam obrigados a amar e venerar o senhor (…)

 

Saint Laud de Angers

 

 

Assim se resumia, preto no branco, a definição das hierarquias numa sociedade feudal.

Eram simples, à época, estas questões melindrosas do lugar que as pessoas devem ocupar em função dos critérios de outras pessoas que reclamam os melhores para si mesmas.

Havia uma elite, os senhores, e havia o resto da malta, os servos, numa relação legitimada (e certamente abençoada) pela vontade de Deus.

Não havia muito a pensar com as coisas postas dessa forma: Deus quis e a partir daí fim de papo.

Depois era só aceitar a lotaria do destino e rezar (a probabilidade era tão escassa que só mesmo com milagres) para nascer no lado certo desta arrumação básica das prateleiras sociais.

 

Só em 1789 o mundo produziu algo de significativo para contrariar o espírito da coisa no escrito acima, depois de séculos mergulhados numa mera disputa de poderes entre os diferentes senhores e na qual ao povo (o tal resto da malta) competia sempre servir de carne para canhão.

Mas como a História sempre nos ensinou, os mecanismos de poder bem sucedidos nunca desaparecem em definitivo. Ficam latentes, à espera do momento certo, das circunstâncias mais favoráveis para ressurgir, noutras mãos, com outros rostos, com as mutações necessárias para se adequarem aos propósitos dos mais poderosos em cada tempo e em cada lugar.

 

Quando na citação acima substituímos Deus por dinheiro e olhamos em nosso redor é impossível reprimir uma certa inquietação. A chamada agenda neoliberal tem paulatinamente removido do caminho os obstáculos a um feudalismo em versão moderna, igualmente fascista mas mais civilizada, mais consentânea com os estragos que os últimos dois séculos provocaram nas contas dos que ganham mais. Mas é um facto que o poder político surge cada vez mais distante, para lá das muralhas policiais e das barreiras à Informação que os preservam da ira legítima dos cidadãos quando se percebem abusados ou vítimas de um embuste, tal como é incontestável o primado do dinheiro nas decisões seja de quem for, seja onde for, amado e venerado ao ponto de merecer o sacrifício de vidas, imensas, como só aos deuses se permite sem contestação.

E eles, os senhores da finança que controlam os senhores da política e da justiça e todos quantos procuram cobertura sob a capa de um estatuto superior ao da maioria dos cidadãos, fomentam porque lhes convém essa organização tão simples: senhores e servos. Ou senhores e trabalhadores por conta de outrem, desde que devidamente amansados pela desautorização do movimento sindical, pela precariedade dos postos de trabalho, pelo apelo ao consumo desmedido, pelo condicionamento ou mesmo manipulação da informação que mais pesa na opinião pública, pela degradação sistemática e objectiva dos mais sólidos pilares da Democracia e por todos os meios que possam tornar cada cidadão refém e, se possível, devoto a essa causa duvidosa.

 

Quando os sinais se somam e continuamos a ignorá-los temos razão para nos assustarmos. Podemos ou não levar a sério as perspectivas mais desconfortáveis e pessimistas, consoante o nosso próprio ponto da situação quanto àquilo em que a nossa vida se tornou no meio da aceleração e da alienação que quase nos são impostas como um preço a pagar pela felicidade em que alegadamente se tornou a integração na sociedade, implicando esta a posse de bens que funcionam como as bijutarias com que compraram Manhatan aos indígenas.

A esses privaram de um pedaço de terra. A nós, compram-nos aos poucos a alma. Ou, quando tal caminho não resulta, vergam-nos pelo medo da exclusão social a que nos condenam se não conseguirmos atinar ou se a conjuntura for desfavorável e se necessário desertam, mesmo que estejam em causa grandes aglomerados populacionais, como o exemplo da cidade de Detroit tão bem documenta e as várias nações miseráveis do mundo gritam nas nossas caras viradas para o lado, problema dos outros que a nós jamais atingirá, enquanto perdemos o controlo das nossas vidas, a soberania das nossas nações e tudo aquilo que nos possa defender do regresso ao passado numa das suas memórias mais desprezíveis.

 

E é sempre no presente que se constroem as várias Histórias possíveis.

publicado por shark às 19:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quarta-feira, 26.09.12

A POSTA QUE ASSIM ATÉ A ANARQUIA PARECE SOLUÇÃO

Desde o início dos tempos, o critério de selecção dos líderes passou pelo reconhecimento de uma qualquer superioridade num indivíduo que se destacava por algum motivo de entre a multidão. O melhor guerreiro, o melhor caçador ou, em menor escala mas numa tradição que perdurou até aos nossos dias, o melhor comunicador.

Claro que tal como os nossos antepassados deverão ter aprendido às suas custas, o jeito para a comunicação de pouco valia na prática para a gestão muito terra a terra dos interesses de uma tribo ou clã em tempos hostis.

Curiosamente, foi esse o talento que se impôs até aos nossos dias e o rei leão foi substituído pelo bobo papagaio que, como sentimos agora no lombo, fala que é uma maravilha mas quando a coisa dá para o torto sente-se a falta de um rosnar a sério, capaz de espantar hienas e abutres que mesmo em tempo de crise nunca abdicam do seu quinhão.

 

Depois de ultrapassada a fase das mocas e das lanças e de todo esse arsenal ao dispor dos candidatos à liderança do passado, os que se impunham pela força, a coisa foi evoluindo ao ponto de os chefes deixarem de provar a sua competência no campo de batalha. A esperteza entrou em cena e os líderes começaram a mandar fazer, o que os privou de poderem exibir as suas habilidades, como a sua coragem e até, quando já começavam a soar os canhões, a sua inteligência para lidarem com os imprevistos da governação, depois de entregue a terceiros por delegação de competências a actuação física no terreno mas também boa parte das decisões difíceis a tomar.

A ideia de os líderes serem deuses, o que naturalmente os livrava da tropa, não vingou mas depressa se encontraram outras formas de legitimar a liderança sem provas dadas.

Bastava ser filho do líder anterior. E esse ser filho daquele que o antecedeu. Ficava tudo numa boa, filho de peixe sabe nadar e assim…

 

Mas afinal não era mesmo nada assim e às tantas os franceses decidiram virar tudo do avesso e entregaram o poder ao povo (pelo menos era essa a intenção), repescando um sistema porreiro que os gregos tinham bolado tempos atrás mas sem grande popularidade à época entre os que gostavam de mandar à chapada, uma tal de Democracia.

De repente, os líderes passaram a ter que se submeter ao sufrágio e aos candidatos deve ter-lhes logo ocorrido: sou um cobardolas, fui um cábula na escola (na altura não havia equivalências e assim…), a única coisa de jeito que sei fazer é dar a volta aos outros com o meu paleio. E agora?

Bom, rodearam-se de uma legião de gente que não possuindo a mesma visibilidade e o mesmo carisma até percebiam daquilo e como cenas tipo o brio, a honra, a dignidade e o amor à Pátria ainda existiam a coisa ia-se fazendo com maior ou menor dificuldade.

Claro que os líderes não tardaram a perceber que aquilo da Democracia não lhes garantia a preservação dos couratos quando metiam o pé na argola e o paleio, com a malta a ir à escola e a alargar os horizontes, não remediava as mentiras, as omissões, os abusos de poder aqui e além. E passaram a incluir no seu séquito uns espiões, uns polícias com mais caparro ou mesmo, nas democracias de fachada, unidades militares de elite para manterem o povo manso como dá jeito para mandar sem problemas, manifestações e outras desordens populares que ficam tão mal nos noticiários.

 

A república do venha a mim

 

Depois de acautelada a segurança e a preservação de si e dos seus, os líderes não tardaram a perceber que ao contrário de uma ditadura (que é um conceito muito rígido e que exige uma postura musculada que custa um dinheirão e só dá chatices à pessoa), uma democracia é muito mais flexível em sabendo como ultrapassar os seus melindres.

Se já nem precisavam provar os seus méritos, aos líderes bastava assegurarem a vitória eleitoral para poderem depois implantar nos sítios certos a sua corte, família, compadres, cúmplices e outras pessoas de confiança, legislar de forma ambígua para dar espaço de manobra a muitas interpretações e salvaguardar a impunidade no futuro, ficando este garantido para lá do período transitório de liderança por via de uns favores enquadráveis na zona cinzenta ética e moral (com alçapões populistas, etc.) e sem temor a uma Justiça sem meios e sem mecanismos funcionais para punir em tempo útil alguém do topo e esse topo é feito por uns poucos que controlam milhões com os seus, de caminho abafando as vozes dissonantes pelo controlo de uma Comunicação Social feita refém de coisas comezinhas como a necessidade dos salários por parte de quem a faz.

E esta versão do paraíso, este political dream moderno, acontece nos nossos dias e é tão apetecível que os mais poderosos líderes democráticos do planeta não hesitam em vergar pela força os tolos (sobretudo os de nações cheias de recursos naturais por explorar) que demoram demasiado tempo a perceberem como é que se faz e ameaçam estragarem-lhes o arranjinho.

 

Este mar de oportunidades para quem alcança o poleiro depois de afastados aos poucos do caminho os entraves como a decência, a lealdade e outras mariquices do género, nem sempre é de pequena vaga, como nas ruas dos países à rasca, primaveras ou quaisquer outras estações, se vê.

Alguns líderes do passado (recente) aprenderam à sua custa que existem limites para a tolerância de um povo para com os abusos de poder, qualquer que seja o regime, e essa lição parece até fácil de assimilar e de levar à prática com uma pitada de patriotismo e de bom senso e sem a desfaçatez de acharem que no tal mar de oportunidades a elite prospera e o povo… nada.

Sem alternativas sérias de poder, as populações desorientadas olham para os seus líderes tão capazes de falar como incapazes de fazer e em águas cada vez mais conturbadas, com a acumulação de temporais a indiciar uma tempestade à escala global, percebem-se entregues à bicharada porque o peixe graúdo insiste numa clássica mas comprovadamente utópica ilusão: a de que na ideia deles vai correr tudo bem.

 

Porque quem se lixa sempre, e apenas, é o mexilhão.

publicado por shark às 14:33 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 25.09.12

A POSTA QUE ESTOU A FALAR PARA O BONECO

Em momentos de crise existem domínios da governação que se tornam patinhos feios ou chegam a eclipsar-se das prioridades de governantes e de governados.

Claro que me dava jeito lançar a pedra seguinte apenas ao Estado e, logo de seguida, ao Governo que confiou num Francisco José Viegas para tornar ainda mais invisível a Cultura que a simples perda de um Ministério próprio não lhes bastou como sinal do que aí vinha.

E também é óbvio que acabarei por recordar os tempos felizes e abastados em que o Ambiente, essa preocupação política tão evidente (e conveniente) quando o dinheiro não falta, existia como algo de que se ouvia falar.

Mas não vou por aí, precisamente porque parte do fenómeno de abandono da Cultura quando a crise aperta e as hierarquias se relevam entre os diferentes Ministérios e Secretarias de Estado é alimentado pela própria percepção (e consequente reacção, ou respectiva ausência) transmitida pela opinião pública.

 

É, ou dizem que é, normal que as pessoas aceitem como natural o desinvestimento na Cultura quando o dinheiro escasseia para as coisas sem as quais não podemos viver, Saúde, Administração Interna (para não ficarmos como a Grécia, blá blá blá...), Economia (por ser o viveiro de milagres mais à mão) e por aí fora até só restarem as coisas sem as quais se passa bem.

Não tenho tanta certeza, tanta fé nesse critério grunho como seria de esperar. Até porque um ano civil das famosas gorduras atacadas onde mais se amontoam (em boa medida nos tais sectores indispensáveis), bastariam para fornecer energia ao longo de muito tempo para manter vivos projectos que funcionam, numa sociedade decente, como as escolas de formação dos clubes de futebol.

 

Reparem: a formação dos clubes é uma espécie de seguro de vida para os mesmos. É o único embrião de jogadores, a alternativa à contratação a peso de ouro de vedetas estrangeiras de segundo plano que estrangula as contas das SAD e afunda na decadência as colectividades que as justificam.

Por outro lado, jovens recrutados para a prática desportiva não serão os melhores candidatos aos vícios e comportamentos que o ócio e a falta de perspectivas induzem.

A Cultura cumpre um papel equivalente. São os mais pequenos, instituições e pessoas, os primeiros a perderem quando cortes estéticos (ninharias, no contexto global) se fazem sentir.

Tal como no futebol, sem actividades culturais de âmbito local ou regional devidamente apoiadas e que abram as portas aos mais jovens para um mundo que lhes pode estar vedado por muitas razões, é quase impossível ver nascerem talentos.

Tal como no futebol nenhum craque se notabilizará se jamais puder calçar um par de chuteiras, na Cultura não irão surgir os virtuosos a quem é recusado o contacto com o instrumento ou a arte por descobrir em si.

 

Depois há a crise, com todas as suas pressões e anseios. E aos mais novos, sem acesso a algo que todos parecemos tomar por supérfluo quando o pilim escasseia, resta o quê para expressarem de forma não violenta tudo aquilo que os revolta no futuro risonho que lhes é negado, dia após dia, neste presente sem alternativas culturais que os ajudem a canalizar tudo para uma qualquer forma de expressão artística?

Enquanto escrevo sei o quanto tudo isto poderá soar fútil, pseudo-intelectual de pacotilha, lírico, o que se queira chamar a quem chame a atenção para estes luxos em tempo de crise, precisamente porque também sei o que é viver num país sem essa fonte de pessoas positivas, esclarecidas e capazes de proporcionarem a uma população enfraquecida alguns momentos de deleite como só a Cultura pode proporcionar.

 

São vistas muito curtas. E se não lutarmos pela mudança que inverta o estatuto de palhaço rico (ou de parente pobre) com que pintamos quem se dedica ao que, na prática, constitui das mais fortes argamassas para a coesão social, nem podemos adivinhar que parte da nossa identidade essa miopia acabará por aniquilar.

publicado por shark às 00:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 11.09.12

VÍTOR GASPAR ARRANCA GARGALHADAS AOS QUE AINDA ESTÃO ACORDADOS!

Mantém-se a convicção de que a recuperação económica acontecerá em 2013.

publicado por shark às 15:43 | linque da posta | sou todo ouvidos

VÍTOR GASPAR AINDA ESTÁ A FALAR!

Mas já acabou o stock de café e a acumulação de ressonos até já provocou uma avaria temporária nos microfones.

O Ministro já fez uma ligeira referência ao IVA.

Tenham medo, tenham muito medo!

publicado por shark às 15:22 | linque da posta | sou todo ouvidos

VÍTOR GASPAR ACABA DE ENTRAR NA SALA!

Bem podemos tremer...

publicado por shark às 15:06 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 27.08.12

A POSTA QUE NUNCA MUDAM DE CANAL

Uma das coisas que mais me irritam e preocupam nesta caldeirada europeia é a mania de que sempre que há assuntos urgentes por resolver reúnem-se a Merkel e o francês de serviço na liderança à la Louçã (bicéfala) que nenhum tratado consignou.

Será a realidade dos factos, sem dinheiro não há palhaços, mas constitui uma desconsideração para com nações que não se tratam como verbos de encher, entregues os destinos de todo um continente a quem exerce um poder que, por derivar da condição financeira, afinal apenas comprou.

Mas a entrevista de António Borges, na qual um gajo que ninguém elegeu ou nomeou para um Ministério ou Secretaria de Estado revela a sua decisão privada acerca do futuro do canal público, conseguiu irritar-me e preocupar-me ainda mais.

 

O paralelo está à vista: na Europa dita comunitária como neste desgraçado país não manda a política, recheada de figurantes, de testas-de-ferro patéticos de quem mais ordena. Manda o dinheiro.

Claro que não faltam os defensores da teoria de que sim senhor, faz todo o sentido que mande quem paga. Contudo, essa teoria esbarra no caso da RTP com o pequeno detalhe de sermos nós, a multidão de pelintras, a pagar. A mesma que ajuda a sustentar parlamentos e comissões e outras ilusões europeias de poder para o povo que paga à grande e à francesa mas acaba sempre espoliado do que seja seu ou seja de todos por quem já nem tenta disfarçar o incómodo que estas coisas da Democracia e dos Estados de Direito podem causar à livre iniciativa, ao empreendedorismo ganancioso, ao furor capitalista desastroso e descarado que já nos perdeu a EDP e agora ameaça destruir cinquenta anos de trabalho e de experiência adquirida que todos pagámos a peso de ouro, entregando-o a quem se devam favores milionários.

 

Na questão europeia a situação é, ou pelo menos parece, idêntica. Gregos, portugueses e outros povos do sul com menos jeito para as contas andaram séculos a contribuir para que o Velho Continente se tornasse num paraíso por comparação com a maioria e agora que a acumulação de riqueza parece ser o único critério de avaliação da grandeza e da relevância das nações (como das pessoas) são colocados num canto com orelhas de burro enquanto, nas tintas para órgãos de soberania ou mesmo para as próprias estruturas criadas para o efeito no âmbito da alegada União, alemães e franceses, os Borges desse filme, anunciam as suas decisões e impõem-nas à revelia de qualquer legitimidade que não a de serem a malta do pilim.

Ou quem a representa.

 

Em ambos os casos, tudo o que de importante acontece parece determinado por poderes que não os institucionais, não aqueles a quem confiamos as decisões que mais interessam a cada um de nós e ao colectivo que integramos. Tudo o que acontece, cada vez menos razoável, parece provir de quem pouco ou nada se interessa pelo impacto das tais decisões comunicadas por gente sem mandato para as tomar e ainda menos para as impor, com troikas ou com falsas tutelas legitimadas por um sistema cada vez mais difícil de entender no funcionamento e na sua lógica distorcida pelas questões marginais do lucro fácil, imenso e despudorado que rege quase tudo o que emana de quem manda. Ou de quem apenas finge mandar.

publicado por shark às 23:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Domingo, 12.08.12

A POSTA NA ACELERAÇÃO PERIGOSA DE UMA ECONOMIA SEM TRAVÕES

A globalização, uma realidade aparentemente imparável, parece possuir uma característica que se destaca das demais e certamente fará as delícias de organizações e de pessoas poderosas em todo o Mundo: funciona como um gigantesco acelerador de todo o sistema capitalista, impondo ritmos de crescimento tão avassaladores que mesmo empresas de dimensão colossal acabam absorvidas pelas mega-corporações que funcionam quase como uma praga de eucaliptos nos seus nichos de mercado, gerando uma dinâmica que se pode definir como survival of the biggest.

 

O impacto deste fenómeno à escala global, cuja vertente mediática se cifra nas fusões ou assimilações de gigantes multinacionais, poderá estar na origem de dois conceitos, chamemos-lhes assim, que fazem escola há um par de décadas nas empresas de maior dimensão: na área comercial temos a escalada sistemática dos objectivos anuais e no sector produtivo impõem-se tempos-padrão para o completar de determinadas tarefas.

Em termos práticos, os directores comerciais vêem-se obrigados a desenharem objectivos cada vez mais altos e os seus congéneres da produção esforçam-se por conseguir que as suas unidades obtenham os melhores desempenhos em fracções de tempo cada vez mais curtas.

Isto parece lógico, razoável até.

 

Contudo, a realidade prática, a verdade dos factos por detrás do aparente (e seguramente temporário) sucesso desta combinação de automatismos (só as máquinas podem calibrar-se dessa forma) é o culto da frustração imposto aos comerciais que nunca chegam perto da cenoura pré-definida e da falta de brio aos técnicos a quem impõem ritmos impossíveis de abraçar sem perda da qualidade do serviço prestado. E entretanto a pressão vai dando cabo de quem trabalha, adicionada à do medo do despedimento que verga a coluna mesmo aos mais contestatários.

A realidade apresenta-se como a de um processo descontrolado, caótico, que está a definhar à mercê da sua inviabilidade, da sua falta de sintonia com um elemento fundamental da engrenagem: as pessoas.

 

Desde o início, a globalização soou-me, como a imensos economistas e outros estudiosos da dinâmica da coisa, ameaçadora. De resto, não faltam na Ficção Científica os hipotéticos cenários que o futuro pode criar a partir da tendência acelerada de canibalização de empresas por parte da sua concorrência de maior dimensão, com as regras de mercado a privilegiarem os impérios com pés de barro mas cuja voracidade acaba por trucidar tudo à sua passagem, pessoas e valores, sem hesitar em destruir-se enquanto sistema se a operação for lucrativa para os que mais interessam e que ninguém sabe muito bem quem são mas mandam cada vez mais no Mundo.

A crise provoca na globalização um fenómeno semelhante ao de um animal ferido que cego pela dor desfere golpes a quem se aproxima demais, ainda que venha em seu auxílio.

Na cegueira dos gráficos, das cotações, do lucro astronómico exigido a quem tem o seu dinheiro investido nessa máquina infernal, vale tudo para manter o tal ritmo alucinante que está a criar distorções e a pressionar decisores a arriscarem todo o tipo de golpadas, the show must go on, para cada ano representar um xis por cento de crescimento como deve ser.

 

Estão a ser cometidas asneiras com consequências irreparáveis, pelo menos no contexto do sistema capitalista como o conhecemos, com a agravante de ninguém saber o melhor passo a dar a seguir. Cada cabeça sua sentença, mesmo entre os entendidos, com o planeta em suspenso à espera de ver cair o primeiro dos gigantes que vacilam perante uma crise cada vez mais espalhada por contágio a cavalo na tal globalização que também colabora na infecção generalizada de países ou mesmo de continentes nesta orgia de milhares de milhões que se perdem em todo o lado e ninguém parece ser ganhador excepto umas figuras difusas, sinistras, especuladores ou coisa que o valha, e o sistema parece cada vez mais próximo do fim por quanto tentem chutar para canto o espectro de um armagedão financeiro que pode mesmo arrasar a sociedade como até agora a construímos.

 

E nos equilíbrios de forças nivelados por baixo, à escala global acelerada demais, basta uma pequena faísca para queimar o rastilho curto que nos separa de uma implosão como nem a Grande Depressão, mais localizada e sem tantas repercussões externas, representou.

publicado por shark às 23:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Domingo, 29.07.12

A POSTA EM VIAS DE EXTINÇÃO

As lições da História em matéria de (maus) comportamentos humanos impedem-me de fazer finca-pé na noção de que não existem alegados ecologistas que aproveitaram a onda do ambiente para surfarem o sucesso financeiro. Concedo esse benefício da dúvida aos que tentam a todo o custo desacreditar os avisos e os números (que são factos) que comprovam não apenas as alterações climáticas que vamos sentindo na pele mas igualmente a sua ligação com um dos preços mais altos do nosso progresso movido a combustíveis fósseis.

Porém, a concessão que faço à possibilidade de infiltração de oportunistas em qualquer causa humana estende-se à que aplico à hipótese de existirem alguns indivíduos inteligentes mas tragicamente equivocados entre a falange de imbecis que tentam desmentir sem sucesso uma verdade tão inconveniente quanto insofismável.

 

Aquilo que os números provam, o disparar da carga de dióxido de carbono na atmosfera ao longo das últimas décadas e a relação directa entre essa subida a pique com as das temperaturas no mundo inteiro, as mesmas que derretem glaciares e transformam o mar numa fábrica de temporais como a Humanidade nunca enfrentou, é algo de tão temível como a queda de um calhau semelhante ao que aterrou no Iucatão, México, em termos de possibilidade de extinção global da vida no planeta.

Nem os apoiantes da indústria petrolífera, a mais interessada em chutar o assunto para canto enquanto ainda duram as reserva de crude e que se lixe o resto, conseguem desmentir a verdade dos instrumentos de medição. Apenas refutam a explicação óbvia para esses números assustadores, empurrando a culpa para a própria Natureza e para os seus ciclos que já impuseram meia dúzia de períodos bem gelados ao longo do último meio milhão de anos, na sequência de aquecimentos globais espontâneos.

 

É essa a principal teoria daqueles que tentam, por ordem, desacreditar e ridicularizar cientistas ou políticos de topo que tenham a desdita de abraçar o combate pelo planeta, dos que denunciam os sinais de alarme que a cadeia de poder político-financeira predominante tenta abafar a todo o custo para salvar o que resta de um modo de vida que sustenta as suas fortunas pessoais e garante muitos postos de trabalho, é certo. Mas em causa estão consequências dramáticas num futuro tão próximo que já começaram a fazer-se sentir, nomeadamente na perda irreversível de vidas em calamidades naturais, de espécies entretanto extintas pelos efeitos da poluição e nos danos cada vez mais irreparáveis no equilíbrio já de si instável dos humores da mãe-terra.

Fecha-se a ritmo acelerado a pequena janela de oportunidade que permite uma existência normal, ou apenas a própria existência, a seres tão frágeis como os que habitam este planeta entre os intervalos de eventos, cataclismos, que redesenham e repovoam a superfície da Terra que estamos agora a envenenar.

 

A minha maior irritação, para além de começar a perceber o lugar que ocupará na História, em havendo uma, o grupo de gerações que integra a minha, é perceber que não existe um esforço real de argumentação por parte dos advogados do diabo que se concentram em alijar responsabilidades ao ponto de criarem um espaço de manobra reduzido, reasonable doubt, de apostarem no descrédito de mensagens importantes a que urge prestar mais do que a devida atenção, que clamam por uma urgente intervenção à escala mundial no sentido de inverter a actual tendência ou, no mínimo, de preparar a Humanidade para a colheita de tempestades que a apatia generalizada continua a semear.

publicado por shark às 20:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)

A POSTA QUE JÁ SINTO O CALOR NAS SOLAS

Uma experiência que jamais esquecerei foi a que vivi ao longo do evento foleiro que para qualquer lisboeta constituiu o incêndio do Chiado.

A imagem que se agarrou a mim como uma cicatriz impossível de disfarçar foi a que apreciei no cimo do Elevador de Santa Justa e que me deu a perspectiva black & white do que ali aconteceu nesse dia: de um lado o Chiado como sempre, intacto. E do outro uma fotografia a preto e branco de uma rua qualquer de Varsóvia após mais um bombardeamento aéreo.

 

Chorei perante o que vi, esmagado pelo que senti quando um local importante da minha cidade, da minha vida, morreu à mercê das chamas porque nenhuma reconstrução é feita em sintonia com o passado que se pretende, alegadamente, preservar. As cicatrizes são feridas curadas mas as memórias daquilo que representam, da dor que acrescentam às coisas boas que a vida nos dá, permanecem e permitem-nos constatar que depois de uma experiência traumática nada fica igual.

Alternei a vista entre os dois lados daquela passagem aérea, daquele corredor por cima da fronteira entre o céu e o inferno que alternavam consoante o ponto onde concentrava a visão, o que restava e o que desapareceu, a sorte da salvação a pairar quase como uma maldição sobre o lado daquele pedaço de vida que me servia como termo de comparação com o outro, dantesco, de um azar tão grande que só podemos entender como uma expressão visível daquilo que simplificamos com a palavra mal.

 

A vida pode colocar-nos sobre essa linha de separação sem nos oferecer uma perspectiva tão clara como a do pouso que escolhemos, um grupo de amigos, para assistir tão perto quanto possível a um dia triste da nossa história de alfacinhas como nesse dia, como nunca antes, me percebi.

O mal de um lado e do outro o bem, claros e distintos, sem qualquer espécie de dúvida ou de hesitação, sem qualquer influência subjectiva ou de uma má companhia sempre a jeito para explicar os nossos equívocos e até os desvarios.

Pode até o chão arder sob os nossos pés que nos quedamos imóveis como a rã em lume brando até ser tarde demais, distraídos com a influência externa ou interna de um impulso circunstancial ou apenas embalados numa estranha, porque perigosa, espécie de fé que se traduz na postura típica de quem acredita que tudo se haverá de compor.

 

É muitas vezes assim que nos deixamos tombar para o lado que acreditamos errado, adormecidos pela rotina, entorpecidos pela fadiga, desequilibrados pela ambição. Sem pontos de referência tardamos a distinguir o que nos serve melhor e uma vez apanhados de surpresa pelas circunstâncias reunimos forças em torno dos adornos indispensáveis para a justificação para terceiros que abraçamos como nossa, a verdade forjada ao sabor da conveniência que acaba por funcionar como um biombo que nos priva do tal termo de comparação que, na maioria dos casos, só o futuro nos exibirá.

Aquilo que podia ter sido, em contraponto com aquilo que a realidade nos dá, essa realidade que vivemos em função de pressupostos, de falsos pretextos, de paredes invisíveis erguidas no labirinto em que nos lançam os diversos poderes que manipulam o destino e as convicções à medida dos seus interesses egoístas e imediatos. Pessoas e organizações que nos cobrem os olhos com a serradura que funciona como um manto de nevoeiro a cobrir o lado em que não nos acreditamos capazes de cair até sermos obrigados a inventar-nos, histórias da carochinha, noutro lado qualquer ou baixarmos ainda mais os braços ao ponto de nos preocuparmos menos com o lado onde estamos e mais com a explicação atabalhoada de como nos fizeram lá chegar.

 

Alguém foi responsável pelo que aconteceu ao Chiado, quer por interferência directa, fogo posto, quer por resultado da negligência que resulta criminosa nos factos mas desculpável no plano das omissões que, no fundo, qualquer um pode protagonizar. Na prática o resultado é o mesmo, o desastre, e restam as cinzas e o entusiasmo político e/ou financeiro que se erguem como fénix dos escombros com o entusiasmo postiço de quem quer fazer radicalmente diferente mas pinta na preservação de fachadas uma ilusão de retorno ao que estava como dantes e isso, todos sabemos, nem no plano das boas intenções é tal e qual.

De um lado vai estar sempre o bem, ou aquela terra de ninguém a que chamamos o mal menor, e do outro o mal propriamente dito, aquilo que só não dói com uma anestesia chamada hipocrisia que nem precisam ser os outros, esses malandros, a contemplarem como recurso para dourarem uma das muitas pílulas que acabamos por tomar, panaceias éticas e morais, no sentido de podermos acreditar que não transpusemos a tal linha separadora entre o tudo como dantes e a ruína inerente à constatação dos factos que nos provam que quem anda à chuva molha-se e estamos, quantas vezes, mergulhados em águas mais turvas do que nos julgaríamos capazes de experimentar.

 

O Chiado é apenas um exemplo de entre muitos outros episódios, muitos recentes, que são como um arreganhar da dentuça dos muitos males que nos acontecem e, na sua maioria, apenas porque os deixamos acontecer. Apenas porque nos deixamos entorpecer pela soma combinada de pressões ou apenas pelas promessas que são ilusões de que, discretos e atinados, seremos como as princesas e os príncipes dos contos encantados se soubermos sempre desempenhar bem determinado papel que nos impõe quem se sabe no lado mais favorável do cenário e por lá pretende ficar, absolutamente nas tintas para a ruína temporária de uns quantos que, nas suas visões rasteiras, não passam de danos colaterais em face dos benefícios para outros no futuro que é sempre o presente de quem possua os meios, o egoísmo e o despudor necessários para o poderem influenciar.  

publicado por shark às 16:49 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 25.07.12

EM CANAL ABERTO

O líder dos socialistas e potencial Primeiro-Ministro mostrou-se chocado perante as imagens ao vivo da destruição provocada pelo fogo no Algarve e desabafou: “isto não é como ver na televisão”. Ou algo do género.

Até admito que tenha sido uma tirada espontânea, quiçá sincera, de um português confrontado com o resultado de uma política qualquer de terra queimada que ateia pirómanos ao serviço de interesses obscuros e lhes facilita a combustão com a falta de limpeza do mato que apanha tanto de surpresa os autarcas no meio de um incêndio rural no Verão como as sarjetas entupidas constituem um desafio renovado a cada inundação urbana em cada Inverno que passa.

 

Uma das maiores aflições que a falta de traquejo dos políticos destes dias me provoca é o notório alheamento dos mesmos da realidade tal como ela está a acontecer em Portugal. Não vale a pena invocar os concertos esgotados, os estádios lotados e as vendas em crescendo de Ferraris, a crise está a instalar-se de armas e bagagens de forma progressiva, galopante, e os discursos permanecem colados à questiúncula político-partidária, ao remoque, à gestão do imediato com a vista posta numa ambição qualquer.

A crise, que na boca da maioria dos políticos soa apenas como uma palavra forte, tão forte como maremoto mas igualmente dependente da percepção que pessoas afastadas de uma realidade conseguem formar a partir do que lhes chega no meio da confusão, no meio da pressão que inevitavelmente a gestão da crise, esse palavrão, lhes acarreta enquanto transtorno incontornável, enquanto conjuntura desfavorável para quase todas as recompensas que um cargo de poder, não viremos a cara à verdade, lhes proporciona, é um mal menor, um problema dos outros, para quem nunca a experimentou.

 

Lembrei-me do tal desabafo de António José Seguro e liguei-o de alguma forma neste texto à postura competitiva dos nossos líderes perante o monstro que nos atormenta porque, haja quem me desminta, se calhar tanto a multiplicação de incêndios como o alastrar da crise estão ligados ao alheamento à realidade de quem a vê pelos olhos de terceiros que, num contexto de exercício do poder com tudo o que isso implica, dificilmente a transmitirão com maior nitidez do que a televisão conseguiria. E porque a crise, não a palavra forte mas a debilidade humana à sua mercê, insiste em entrar pelas portas do cidadão comum que, para um político de topo, ficam quase nos antípodas das que governantes, aspirantes (chamam-lhes candidatos), deputados (um terço deles a partilharem funções com outras exercidas em nítido risco de sobreposição de interesses) e toda a corte financeira associada estão habituados a transpor.

 

No fundo é assim

 

A crise entrou hoje pela minha porta numa versão diferente da que venho experimentando ao longo do meu processo de decadência social, não sob a forma de mais uma ameaça relacionada com uma conta ainda por pagar mas com uma aparência muito humana.

Sim, a crise é uma palavra mas as suas consequências têm pernas.

A crise, a que hoje deu à costa para se exibir em toda a sua pujança, não entrou sem se certificar de que toda a gente ficava com a certeza de que não pretendia assaltar alguém. Repetiu três vezes o aviso que pudesse contrabalançar a aparência, que a de uma crise é sempre assustadora.

Entrou e explicou a custo, desdentado e com alguns copos a mais, que está desempregado e precisava de ajuda. E depois aprofundou.

 

A crise de hoje é um desconhecido, meu antigo colega de ofício, dezoito anos no tempo de vacas tão gordas que é fácil para mim entender que aquela pessoa, a crise, vem do mesmo mundo que cada vez menos é o meu, a classe média que a crise rasteirou.

Emprego e família perdeu-as no turbilhão. A casa foi algum tempo depois.

E ele, a crise, a explicar, a custo na pronúncia mas com desconcertante lucidez e com a desenvoltura no discurso de quem obteve bastante formação escolar, que se sabia embriagado mas precisava mesmo de se anestesiar depois da enésima entrevista de emprego marcada pelo organismo do Estado a quem isso compete, apenas para ouvir repetido o mesmo não acrescentado ao argumento da idade, 53 anos, que faz de um homem um trapo no que respeita ao mercado de trabalho.

A crise, aquela tão próxima que lhe sentia o hálito carregado de anestesia, verteu lágrimas aqui e além durante o tempo que lhe concedi para se apresentar, até porque não estava ali para assaltar mas apenas porque era a terra da sua infância, para onde fugia quando se sentia desesperado, e porque ele precisa de ajuda todos os dias para mais uma realidade impossível de transmitir pela televisão que é a da luta pela sobrevivência em sentido restrito. Passa longe de quem manda, a crise verdadeira, mas cola-se à vida de quem a sente na pele, pegajosa, a suar frio perante os apertos crescentes que aproximam uma pessoa, qualquer pessoa, de um ponto perigosamente próximo do declive para onde resvalou aquele meu antigo colega, um dos fatos com gravata que se cruzavam comigo em corredores prósperos onde todos acreditavam que em fazendo bem iriam fazer aquilo para a vida inteira.

 

Números que caminham

 

A crise que hoje me entrou pela porta, indumentária de recurso com marcas visíveis de um quotidiano menos limpo do que o dos políticos que gemem as suas impressões marcantes, os números terríveis, a estatística do desemprego, os números constrangedores, sem o amparo de uma condição financeira sólida, de uma multidão de conselheiros, de poderosos, de gente que sempre viu a crise pela televisão e até calhou estar distraída a conversar na altura ou a tomar decisões importantes para a vida da Nação, essa crise com duas pernas teve emprego, teve família, teve casa, teve carro, teve uma vida que entretanto se perdeu.

 

Perturbado, fiquei a ver a crise caminhar sobre duas pernas, um número da pessoa, rumo ao espaço para pernoitar por si encontrado na Gare do Oriente e que, um luxo, quase lhe garantia que alguém lhe ofereceria uma refeição, enquanto numa reacção instintiva mesquinha e egoísta pensei de imediato no cenário em que estou mergulhado e que tanto me aproxima do nível de crise daquele cidadão educado de classe média e ampla experiência profissional numa área medonha do meu ofício, os sinistros de acidentes de trabalho, e que ninguém emprega por já ter 53 anos e são apenas mais seis do que os meus e o futuro que a crise ao vivo e a cores me acenou surge como um borrão escuro desfocado no horizonte do pensamento, esboçado de forma grosseira no equilíbrio precário da minha condição.

 

E agora que falo nisso, nunca tinha visto a crise por esse prisma a partir das imagens na televisão.

publicado por shark às 00:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Domingo, 27.05.12

A POSTA NA CHATA DA FISCALIZAÇÃO

Gostava imenso de saber que raio de poder é conferido (induzido?) a estes fulanos das secretas para se sentirem no direito de pedir a substituição de quem os fiscaliza.

Esta nova revelação acerca da chata (só sobe na nossa consideração, tendo em conta a função em causa e o transtorno que estaria a causar aos abusadores) confirma os piores pressupostos que os anteriores capítulos desta mixórdia permitiram conceber.

É uma balda, aquilo que se instalou numa área sensível do aparelho governativo. E é uma balda perigosa, considerando a leviandade da actuação dos intervenientes que vão subindo à tona do lodaçal desde que alguém remexeu o fundo da coisa.

 

Estamos a falar, caso não tenham reparado, nos fulanos a quem é confiada a segurança do Estado contra ameaças externas (pragas de gafanhotos, por exemplo, pois assim de repente não me ocorre outra coisa) e internas (aqui é que a porca torce o rabo pela forma como os inimigos da Pátria são seleccionados pelos espiões).

Ou seja, estamos a falar dos gajos cuja herança, cuja carga, pela natureza das funções e da autoridade conferida, é a da PIDE-DGS.

Claro que toda a gente corre a afastar esse papão, hoje em dia seria impossível, mas a verdade é que uma polícia secreta possui meios para, em teoria, exercer chantagem sobre um político, um banqueiro e, porque não?, um jornalista.

Se essa polícia secreta começa a surgir associada com frequência a escutas e vigilâncias difíceis de explicar no âmbito da segurança do Estado, temos a ameaça interna a provir precisamente de quem é pago por nós para a evitar. Nesse caso só há que desmantelar tudo aquilo e começar de novo pela raiz, sendo que essa deve beber de um terreno fértil em pessoas de bem, patriotas, e de uma legislação muito mais rigorosa na matéria.

 

A Democracia é uma realidade muito sensível a esta acumulação de agressões aos valores e aos mecanismos que a compõem. Com a classe política sob suspeita, a Justiça sob suspeita, a alta finança sob suspeita e a Comunicação Social no estado que se sabe, pouco resta dos sustentáculos de todo o sistema e só estupidamente exagerados a roçar o imbecil podem dormir sossegados com base na fé de que tudo se componha por si.

Não compõe. Nem por si, nem por mim, nem mesmo pelo superior interesse da Nação que a seita de crápulas e de parasitas pouco a pouco consome e certamente destruirá se a população não começar a falar mais grosso.

É a Grécia revisitada, bastando olhar para o cenário em termos de alternativas que nos espera em próximas eleições, demasiado próximas de uma fase que se adivinha complicada para o país e por isso desde já perfeitas para o desabafo expresso no voto de protesto (logo agora que se fala na saída do Louçã, olha a maçada...) que, exemplos não faltam, é a praia natural de uma fauna que se estende dos Coelhos madeirenses aos pistoleiros fanáticos pseudo-nacionalistas.

É uma lotaria.

 

Por isso mesmo, todos estes pequenos golpes na pele do sistema fazem-no sangrar credibilidade até a soma de feridas se tornar numa hemorragia de confiança que ninguém no actual panorama parece capaz de estancar, sobretudo quando (e não se) as coisas descambarem a sério.

Ao descrédito das instituições sucede-se a constatação da ausência de opções e somando a isso os efeitos da crise na população temos reunidos os ingredientes para uma revolta desnorteada, sem soluções, desesperadamente hostil.

É esse o resultado final mais provável para países que, no contexto de uma conjuntura terrível, se permitem o luxo da apatia perante as evidências, perante as emergências que se multiplicam e às quais não tarda (sim, a Grécia seremos nós) ninguém poderá ou quererá acudir.

publicado por shark às 22:09 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Sexta-feira, 25.05.12

A POSTA QUE PELO MENOS METADE SÃO COMPROVADAMENTE ALDRABÕES

Cada vez mais ficam de lado os pormenores e a vista abre-se sobre o grande plano que começa a parecer uma antecipação do inferno anunciado, muito para lá das dificuldades que uma crise acarreta.

Olhamos para os acontecimentos, os que nos chegam ao conhecimento, e já pouco interessa quem são os protagonistas mas apenas qual o seu papel e quais as causas e consequências da sua intervenções desastradas, levianas, perigosas até.

Pouco interessa o que vemos e o que sabemos acerca da inevitável degradação das funções, do que elas representam para o bem comum, quando ocupadas por pessoas incapazes de lhes entenderem a relevância e que por isso lhes mancham a dignidade com as suas exibições públicas de menoridade, de ignorância.

 

Embora a elite corra a cobrir a retaguarda dos seus, adiando respostas, rejeitando propostas, varrendo para debaixo do tapete a sujeira que o tempo ajuda a esquecer, vemos garantida a presença de aldrabões onde menos os desejaríamos quando as alegadas verdades de uns são categoricamente desmentidas por outros.

E quando uns são Ministros da Justiça e os outros são Procuradores Gerais da República, e quando uns são a tutela da Comunicação Social e os outros são Jornalistas, e quando uns são Primeiros Ministros cessantes e os outros são Primeiros Ministros vindouros, e quando percebemos que são os próprios a atrair a suspeita da mentira quando se contradizem entre si, essa elite gangrenada, deixamos cair os nomes, os rostos, os detalhes sórdidos da porcaria que fazem e que espalham pelo país que precisa mais do que nunca de gente de bem, respeitável e respeitada, deixam de interessar.

Interessa apenas salvaguardar os cargos que ocupam e aquilo que esses cargos representam muito para lá das figurinhas e dos figurões que os ocupem em determinado momento da História.

 

Cada vez mais aqueles a quem confiamos nada menos do que o bom funcionamento da Democracia (pedir-lhes mais do que isso seria desumano considerando a real valia do seu desempenho, bem expressa no que se vê e no que se adivinha ou deduz) parecem ignorar a responsabilidade que isso implica.

Embriagam-se com a projecção, com o poder, com a euforia do sucesso pessoal e perdem o rasto ao que lhes compete fazer a bem da nação que os promoveu, que lhes abriu as portas para um lugar na História que acabam por utilizar para nos envergonharem com a evidência de uma péssima escolha.

Sobretudo numa altura de aperto apenas lhes exigimos uma trégua no regabofe e nem isso parecem dispostos a conceder, na cegueira do poder que não respeitam e por isso se permitem condutas que trazem o descrédito muito mais para as funções do que para as pessoas que as assumem.

 

A insistência nesta aposta em males menores, nesta fé em falsas esperanças, nesta apatia que nos trai porque deixamos que nos atraiçoem, é a receita infalível para o futuro imediato do país ser equivalente ao presente de um outro país que não queremos ser e a quem igualmente um passado glorioso não poderá valer. 

publicado por shark às 12:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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