Quinta-feira, 28.01.16

A posta nos verbos de encher

Virei-lhes as costas porque às tantas quase as senti desleais. Sei agora que não mereciam tal interpretação, tão óbvia me parece neste momento a ausência das culpas que lhes atribuo, sem nexo, quando a vida me atiça para lhe retorquir.

Comem por tabela, afinal.

 

São, como quase sempre acontece a quem e ao que nos é mais próximo, vítimas dos estilhaços aleatórios de uma espécie de explosão com a qual se marca um momento de viragem. O combate é muitas vezes travado no interior e elas pouco mais podem do que aguardar pela hora de entrarem em cena e cumprirem o papel a que se entregam.

Sem mágoas, sem contas para acertar porque na prática são vinganças e isso elas não conseguem levar a cabo de forma consciente e voluntária.

São, como quase sempre acontece a quem e ao que nos é mais querido, injustiçadas pelas distâncias criadas com base num pretexto tão idiota como os que sustentam todos os afastamentos artificiais.

 

Senti-lhes a falta, todos os dias sem excepção, e nunca consegui colmatar a sua falta com panaceias de recurso que não passam de estratégias desorientadas por nem se reconhecerem nessa condição. Mas apontava-lhes o dedo enquanto instrumentos do meu desacerto, cúmplices involuntárias do destino que eu próprio ajudei a traçar no finca-pé nos valores que elas sempre me ajudaram a exprimir. Bodes expiatórios de circunstância, nada mais.

 

Agora, talvez porque me amem até mais do que faço por merecer, quase me pedem desculpa pelas pequenas traições para as quais as arrastei à bruta, forçando-as a serem arautos das minhas múltiplas zangas e indignações.

 

Algo embaraçado, tento recuperar uma relação sólida, porquanto construída por entre os escolhos que a vida semeia, como minas mais ou menos camufladas, ao longo do terreno que escolhemos pisar.

Celebro convosco a minha reconciliação com elas, as palavras que amo.

 

E o amor, todos o sabemos, é sempre uma coisa bonita de partilhar.   

publicado por shark às 20:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 24.03.15

Para não emudecer

Em poucas palavras.

Apenas as bastantes para comunicar por breves instantes as coisas que não podem ficar caladas. Para lhes justificar a existência, palavras imbuídas da prudência que lhes é recomendada para poderem ser ditas sem prejuízo de algo ou de alguém.

Para as tornar indispensáveis mas nunca maçadoras e sempre cheias de razão.  

Para salvar as próprias palavras da ameaça de extinção.

publicado por shark às 23:07 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 27.01.13

A posta que é um espelho do dono

Quando falava, aquela pessoa parecia passear as palavras com uma trela. Açaimadas para não poderem morder alguém, treinadas para jamais espalharem pelo caminho algum dejecto que aquela pessoa tão limpinha pudesse ter que apanhar do chão.

As palavras lá iam saindo, direitinhas, domesticadas, sempre as palavras bem comportadas que qualquer dono gostava de ter.

Palavra deita! Palavra rebola! E as palavras obedeciam, amestradas, sempre palavras bem treinadas para brilharem, para encaixarem na imagem daquela pessoa como peças de lego da sua construção de pessoa muito dona de si e das palavras que recolhia aqui em além, caridade verbal, para depois as transformar em palavras de estimação que passeava diante dos potenciais observadores.

Aquela pessoa falava sempre aquilo que melhor poderia soar consoante a outra pessoa ou a ocasião. Hoje uma palavra Golden Retriever, simpática e com um ar ternurento, amanhã uma palavra São Bernardo, tão imensa como a pessoa sua dona que a contemplava vaidosa do cimo de um altíssimo pedestal.

E as outras pessoas admiravam aquele dom, surpreendidas pela forma como as palavras eram tão bem ensinadas a cumprirem o seu papel, passeadas com elegância por aquela pessoa até ao dia em que alguém tentou aproximar-se para as observar com mais atenção e questionou a sua aparência tão perfeita que parecia irreal.

Afinal a questão nem se colocava, aquela pessoa tão correcta rosnava palavras de raça perigosa quando sentia ameaçado o seu território que lhe parecia um bem cuidado jardim e soltou as feras perante o olhar espantado de quem já se tinha habituado a um exemplo de postura.

Quando ladrava, aquela pessoa parecia que atiçava as palavras ferozes para atacarem o outro que soltava as suas pequenas e inconvenientes interrogações. As palavras daquela pessoa transformavam-se em leões, vociferadas para lhes enfatizar a agressividade que dirigiam à tal outra pessoa que as provocou com a sua inquisição.

 

Eram palavras de pessoa mas pareciam mesmo palavras de cão.  

publicado por shark às 23:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Quarta-feira, 04.07.12

A POSTA NO REINO DO FUNGÁGÁ

Se há questão que se mantém em aberto entre os seres humanos, embora numa espécie de banho Maria morno, é a da escolha entre a Monarquia e a República. Volta e meia, monárquicos e republicanos esgrimem argumentos na defesa da sua dama (com mais entusiasmo destes últimos porque o seu ícone até tem as maminhas ao léu), o modelo de liderança dos subgrupos, das tribos a que chamamos nações. A coisa até já descambou em conflitos armados entre as pessoas.

Contudo, no reino animal a discussão é mais feroz e espanta-me ainda não ter assumido proporções alarmantes.

 

Ao que vi no meu percurso pela fauna portuga, o binómio Monarquia/República não existe e isso acontece pelo mesmo motivo que deixa de fora a democracia como opção. A bicharada não quer votar e prefere tratar o seu líder por Vossa Alteza.

Porém, o consenso acaba aí. Nas ruas é fácil de perceber a disputa acesa pelo trono no seio de diversas espécies do reino animal, sendo públicas tais divergências.

Em poucas centenas de metros é possível, por exemplo, encontrar dois reis dos caracóis.

E a avaliar pela dimensão das respectivas cortes, orgulhosamente expostas à vista de qualquer plebeu, não será pelo número que a questão ficará decidida. Os analistas chamam a atenção para a enorme influência dos orégãos de comunicação social neste particular.

 

Mas existe uma outra espécie onde são ainda mais os galos para um só poleiro: os reis dos frangos multiplicam-se pela cidade e os respectivos súbditos, fanáticos, fazem-se imolar pelo fogo (pela brasa, mais concretamente) em quantidades astronómicas na luta encarniçada pelo poder que se faz sentir pelas redondezas num macabro odor a churrasqueira a que nenhum transeunte parece ficar alheio.

Consta até que alguns frangos mais leais ao seu monarca se fazem empalar num estranho ritual que vi mencionado como espeto e que deixa clara a coragem e o espírito de sacrifício que são incutidos desde o berço nos aviários deste país.

 

Um trono cuja disputa dá sempre porcaria é o dos leitões. Talvez por se tratar de um movimento juvenil de apoio à causa, o empenho dos jovens suínos no reclamar do ceptro atinge foros de uma irreverência descontrolada, ao ponto de o conflito estar já a estender-se ao reino das sandochas e sendo de prever também aí o surgimento de herdeiros de uma das coroas mais ambicionadas, sobretudo na região centro do país.

No chiqueiro agitado por esta luta fratricida a esperança é imensa e a confiança traduz-se numa lógica simples: vença quem vencer, o triunfo será sempre dos porcos.

 

O Fim da História ou a Última Amêijoa

 

Esta tensão permanente entre as monarquias animais já produziu episódios deploráveis. De acordo com fontes próximas das várias realezas, os interesses em causa são tão importantes que está a eclodir uma guerra surda entre as monarquias das diferentes espécies, sedentas de projecção. É esse fenómeno, ainda de acordo com as mesmas fontes, que estará na origem daquilo a que apelidam de boatos sem fundamento como o da gripe das aves (ninguém viu um único frango espirrar) e o contra-ataque da peste suína, havendo quem sugira que só por lapso ficaram alegadamente loucas as vacas e não os caracóis.

De resto, diversos anónimos destacam como mais um exemplo dessas formas de subversão a que está a afectar os inúmeros pretendentes ao trono de reis do marisco, o papão das toxinas que, citando fontes próximas das principais marisqueiras, não passará de mais um simples rumor. Em declarações que não quis gravadas, um anónimo exaltado afirmou à minha reportagem: Isso não passa de propaganda falsa. Dizem que algum marisco tem toxinas? É mentira. Desafio toda a gente a olhar atentamente para uma travessa de amêijoa à Bulhão Pato, qualquer travessa, mesmo que afirmem estar cheia de toxinas. E depois digam-me na cara que viram lá alguma toxina, uma que fosse!

 

Toda esta celeuma em nada afectou as monarquias mais sólidas, apesar de alguns pontos fracos beliscarem aqui e além a imagem do soberano incontestado. Contactámos o rei da selva que nos confirmou não existir de facto qualquer tipo de contestação ao seu poder, acrescentando um desabafo: “O único ponto fraco na minha imagem enquanto soberano incontestado é mesmo o Sporting, mas felizmente a malta daqui ainda só ouviu falar do Eusébio…”.

Sua Majestade igualmente sacudiu a juba em tom de reprovação relativamente à péssima conduta de outros monarcas e que tanto enfraquece as coroas, fazendo alusão a um alegado rei dos burros que por ali andou a matar elefantes.

 

Também no reino dos mares o líder é absoluto e ninguém ousa disputar o trono do tubarão, nem existe alguém que para o futuro próximo o preveja.

A chatice é que ele já foi por diversas vezes avistado a desbundar no regaço de uma República: a da Cerveja.

publicado por shark às 12:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sábado, 03.03.12

PALAVRA

Era uma palavra, isso sabia.

Apenas não compreendia porque não fazia sentido por si, porque não podia ser apenas palavra como se entendia mas submeter-se ao arbítrio na sua interpretação. Até a palavra solidão se bastava, toda a gente a conotava com um conceito universal. Sozinha, a solidão já tinha um significado e isso ainda lhe juntava a coerência. Até a solidão conhecia a independência das muletas como a palavra as entendia, todas aquelas de que precisava para se conseguir explicar.

Uma palavra sozinha sentia-se palavra nenhuma porque precisava das outras até para se afirmar na condição:

ÉS UMA palavra.

E isso já a palavra sabia, mas todos os outros precisavam das outras palavras para a reconhecerem na condição sem ficarem com cara de ponto de interrogação a olharem para uma palavra e só quererem saber afinal o que quer dizer em concreto, ali, a palavra palavra, mas palavra o quê, foi a pergunta que lhes deixei.

 

É que palavra de honra que às tantas já nem eu sei.

 

publicado por shark às 21:40 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 22.04.11

A POSTA QUE HÁ CADA VEZ MAIS HISTÓRIAS POR CONTAR

Está na natureza humana gostar de histórias. Tribos inteiras reuniam-se em torno de uma fogueira para ouvirem os seus anciãos nas narrativas de coisas acontecidas ou, tanto fazia, de ficções nascidas do acrescento de um ponto ao conto contado pelos pais dos seus avós.

Os melhores contadores de histórias garantiam um lugar de destaque nos tempos de lazer, eram protagonistas dos filmes que projectavam nas imaginações daqueles que entretinham, ora choravam, ora sorriam, com histórias de gente que podiam ser pássaros disfarçados ou deuses traquinas que desciam ao mundo real para matarem o tédio de uma eternidade nos céus.

 

As estrelas e a lua, fascinantes e misteriosas, cobriam o horizonte visual por detrás das imagens que os espectadores criavam na tela escura da noite, caçadores trapalhões que fugiam, eles as presas, da sua caça que os apanhava a jeito agachados nas suas precisões, feiticeiros poderosos que transformavam os inimigos em insectos rastejantes, mulheres bonitas que conduziam tribos inteiras a guerras sem quartel, vidas contadas ou apenas inventadas pelas mentes dos contadores das histórias que divertiam os outros e lhes transmitiam saberes, as suas morais, que os ensinavam a respeitar o que mais valia e a temer ameaças que nunca haviam enfrentado até então.

 

As histórias propagadas pela voz profunda de um ancião a cada um dos seus sucessores, os futuros transmissores do registo possível de vidas a acontecerem num mundo tantas vezes hostil, mas quase sempre generoso nas oferendas de coisas que alimentam as vidas.

Como as histórias, preciosas, que distraíam os homens das suas preocupações diárias com a sua sobrevivência e a dos seus, que lhes abriam as portas dos céus com as memórias de antepassados que dessa forma não eram esquecidos ou a lembrança de filhos perdidos sob os rigores de um inverno mais duro ou numa armadilha montada por uma tribo rival.

Os mais jovens, sedentos de diversão, ouviam as histórias com mais atenção porque delas sorviam aos poucos tudo aquilo que lhes poderia valer ao longo do caminho pela existência forrada a pontos de interrogação tão numerosos como as estrelas no céu que não sabiam explicar mas existiam porque os seus olhos as viam como aos rostos enrugados e aos sorrisos desdentados dos velhos que imitavam os búfalos que atacavam os caçadores desatentos ou abriam os braços como asas dos falcões que diziam transportarem as almas de heróis que sobrevoavam os campos de batalhas vencidas ou de derrotas sofridas ou apenas para poderem rever as suas amadas depois de a morte os levar para o outro mundo que não lhes permitia falar para contarem as suas histórias, enriquecidas ao sabor da passagem do tempo com as impressões mais marcantes ou as informações mais importantes que os mais sábios ou os mais espertos precisavam divulgar.

 

Sim, está na natureza humana esta sede de contar e de conhecer as histórias que continuam a exercitar a imaginação ou a perpetuar uma tradição mais teimosa, capaz de resistir à influência perniciosa do progresso sobre os hábitos antigos e os detalhes que não se querem esquecidos das origens que se queiram respeitar ou apenas porque não se podem perder rastos da passagem do tempo, sabedoria, que desvendam os caminhos do futuro nas entrelinhas das histórias de ficção que já não se desenham no céu estrelado mas ganham vida nas páginas irrequietas de um velho livro agitado pelo vento num jardim descrito numa história de amor ou mesmo por detrás do reflexo romântico da lua destacada pelo olhar por entre o brilho das palavras escritas num moderno monitor.

publicado por shark às 14:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Terça-feira, 01.02.11

LIFE ON MARS

life on mars

publicado por shark às 15:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 30.01.11

SAPATEIRAS AOS MOLHOS E LEITE CONDENSADO EM PROFUSÃO

E eu que já de seguida vou para a cozinha trabalhar duas magníficas sapateiras (não havia serralheiras disponíveis) e fazer um doce de leite condensado e chocolate que é uma aflição só de pensar na cena?

 

Eu sei, ainda bem que a maioria de vós já almoçou, ou estaria a ser muito cruel. Eu sei.

publicado por shark às 14:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 26.12.10

VOLTO JÁ

 

para longe daqui

Foto/Imagem: Shark

 

publicado por shark às 16:32 | linque da posta
Terça-feira, 14.09.10

SIM, ESTOU-ME NAS TINTAS PARA A HUMILDADE. E DEPOIS?

Pela terceira vez, uma foto minha vai ilustrar a capa de um livro.

Não é grande coisa, bem o sei.

 

Mas são estas as únicas alegrias que um gajo que bloga pode ambicionar.

publicado por shark às 23:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)
Quarta-feira, 16.06.10

O PROGRAMA SEGUE DENTRO DE MOMENTOS (2)

Continuo sem vontade ou inspiração.

Nada a fazer...

 

Obrigado a quem ainda por aqui passa para ver se há novidades.

publicado por shark às 22:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Segunda-feira, 24.05.10

PURE CHESS

- Ó Bispo das Pretas, porque é que o vosso Rei não deixa jogar o nosso Cavalo???

- Sabes, Peão das Brancas, é que Sua Majestade ouviu dizer que o Cavalo é da zona de Setúbal e ninguém lhe tira da ideia que pode ser de Tróia...

publicado por shark às 22:17 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 20.05.10

VERÃO QUE É PARA FICAR

Não, não contem comigo a falar mal desta onda de calor, terrível e tal, que assim de repente e mainãoseiquê.

Ele veio e só espero que seja como o Toyota (o dos tempos em que os carros ainda não tomavam o freio nos dentes).

publicado por shark às 19:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 06.12.09

(IN)JUSTIÇA SER SEGREDO

Palavra que sei. Palavra que não digo. O segredo morre comigo, como a palavra que guardarei.

Palavra que ouvi e palavra que escondi. Conhecimento proibido, pelo acaso fornecido, em forma de palavra, palavra que não digo porque não devo ou não me deixam, essa palavra de que se queixam quando não a conhecem, palavra que não digo, palavra que ignoram porque jamais a divulgarei.

 

E palavra, palavra que sei.

 

publicado por shark às 15:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 11.11.09

ART DECO

É da minha vista ou existe de facto algo de extremamente perverso no facto de um dos spammers mais regulares dos meus emails ser a DECO mais as suas insistentes tentativas de angariação de assinantes para as suas publicações?

publicado por shark às 15:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Terça-feira, 22.09.09

A JOANA AMARAL DIAS

Está cada vez mais gira.

E o Ricardo acusou o toque...

publicado por shark às 22:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Domingo, 30.08.09

A POSTA PSICAdélica

A vida não pode ser uma realidade cinzentona.

publicado por shark às 01:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 03.06.09

ALMA METALEIRA

Adoro ISTO.

publicado por shark às 22:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quarta-feira, 01.04.09

BOM DIA!

E é preciso mais para fazer uma posta?

publicado por shark às 11:26 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Terça-feira, 24.03.09

UM MEDO SALGADO

 

Lembro-me da dimensão gigantesca daquela parede de metal, ancorada no cais onde a multidão imensa se entregava a uma emoção colectiva, intensa, mãos dadas, pessoas abraçadas, a esperança e o medo à mercê da maresia e dos salpicos salgados de lágrimas e de mar.
O Niassa, esmagador, carregado de jovens recrutas, fardado para cumprir a missão de os transportar para outro lado, para outra dimensão, onde a morte espreitava todos e cada um de quantos acenavam adeus perante os olhares angustiados de mulheres, de filhas ou de mães.
 
Lembro-me, bem miúdo, dos beijos intermináveis daqueles que não conseguiam resistir à pressão no momento de partir por um pedaço da Pátria reclamado por outros que não a sentiam como sua, casais separados com filhos de colo ou apenas com planos adiados para a sua concepção.
A bordo daquela embarcação, centenas de portugueses azarados porque nasceram nos dias errados que os arrastariam para uma guerra sem quartel, muito novos, com os nervos à flor da pele arrepiada agora pela estranha sensação que lhes acelerava o coração na medida exacta do seu sentir.
 
Alguns pareciam prestes a explodir, num pranto, enquanto viviam aquele momento com a dignidade possível perante a ameaça terrível, adeus e até ao meu regresso, a Deus confiados nas orações dos que permaneciam ancorados a uma fé que para alguns de pouco valeria quando das colónias chegavam as notícias piores.
 
Lembro-me bem das suas expressões ausentes quando já se imaginavam em terras distantes, à mercê da lotaria da vida, na roleta russa do acaso que a tantos estropiara e uns quantos até matara em emboscadas cuidadosamente preparadas para enfraquecer o colosso militar que era afinal um destroço das memórias de antigas e gastas glórias que o país tentava em vão, atordoado pela alucinação nacionalista, reviver num conflito imbecil porque impossível de vencer naquelas circunstâncias.
As vidas sacrificadas por um ideal ultrapassado, por um mote do passado que erradamente se incutiu e a alguns destruiu o futuro que poderiam vir a ter quando acabaram por morrer no solo africano que simbolizava o engano de quem o acreditava Portugal.
 
Lutavam (assim o julgavam) pelo Bem mas eram vistos como um mal desnecessário naquelas terras para onde os levavam tentando disfarçar o colapso iminente de uma forma de governar obsoleta. Temiam uma polícia secreta quando exprimiam as suas hesitações e depois abraçavam as deserções como única alternativa para escaparem ao inferno que os recrutou.
Partiam pouco convictos, a maioria, e depois era a sorte que decidia se voltavam pelo próprio pé.
 
Lembro-me de quanto o medo superava a fé nos olhares que desmentiam o discurso e se apoderava de todos por igual.
 
E também não esquecerei o olhar de uma namorada cujo sorriso escondia a alma de viúva antecipada e exibia a determinação para resistir à tentação de desistir daquele amor embarcado que só quando o barco desapareceu no horizonte finalmente chorou.
publicado por shark às 15:22 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Segunda-feira, 02.03.09

SATÉLITE DOS TLEZENTOS

Despenhou-se ontem na lua o primeiro satélite lunar chinês.

A China tem como objectivo enviar uma nave tripulada à lua dentro dos próximos anos.

Boa sorte para a tripulação.

Bem precisam...

publicado por shark às 10:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Sábado, 28.02.09

2, 8 e 9

São mentira.

publicado por shark às 11:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (23)
Quinta-feira, 26.02.09

ENTRETANTO...

O saber não aprende lugar e quem domine bem o inglês e aprecie um uso porreiro das mãozinhas pode aprender umas cenas giras aqui.

publicado por shark às 21:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?

A ideia que a Emiéle me impingiu é escarrapachar aqui nove afirmações das quais só meia dúzia correspondem à verdade, sendo vocês, quem me acompanha aqui, os polígrafos a que me submeto desta forma.

É um exercício com alguma piada, pois permite-me perceber até que ponto tenho deixado claro o meu perfil neste trabalho que (gosto de acreditar) me traduz aos vossos olhos.

 

Assim sendo, convido-vos a descobrir de entre as seguintes afirmações quais são as três que consideram não jogarem certo com o gajo que me julgam.

Podem deixar os palpites na caixa que eu esclareço a verdade dos factos ao longo do fim-de-semana e até vou pensar num prémio a atribuir a quem consiga topar o trio de petas no meio da confusão.

 

(Ah, e não contem comigo para encaminhar a cena seja para quem for…)

 
-//-

 

(1) Quando tinha onze anos partilhava habitualmente com um grande amigo a fechadura da casa de banho para espreitarmos por turnos o corpo nu de uma prima minha enquanto ela tomava o seu duche;

 

(2) Sempre defendi a pena de morte como único castigo possível para canalhas capazes de abusarem sexualmente de crianças;

 

(3) O meu animal de estimação mais original foi um camaleão que baptizei com o nome de Jeremias;

 

(4) Acredito que o amor é a minha religião e que os momentos de paixão são o mais próximo que consigo, enquanto agnóstico, aproximar-me de algo semelhante a um deus como o descreve quem possui uma fé;

 

(5) O primeiro livro que li foi A Cabana do Pai Tomás e fez-me chorar que nem uma madalena;

 

(6) Não passo um dia sem pensar em sexo desde o preciso instante em que a vida me ofereceu essa maravilhosa revelação;

 

(7) A maioria das pessoas com quem me relaciono actualmente e de quem mais gosto conheci-as a partir da blogosfera;

 

(8) A minha fantasia sexual de topo é o sexo em grupo com pelo menos seis pessoas;

 

(9) A um grande amigo jamais exigiria que conseguisse ficar impassível com uma amada minha toda nua na mesma cama, pois eu próprio nunca conseguiria respeitar tal compromisso. 

publicado por shark às 12:26 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Terça-feira, 24.02.09

TEASER

Em breve vou cometer uma pequena heresia neste blogue.

publicado por shark às 01:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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