Segunda-feira, 03.04.17

A posta perdida

Ajudar quem precisa não pode, não deve, ser um gesto interesseiro a qualquer nível. Nem mesmo basear-se no pressuposto da retribuição posterior, algo que torna qualquer acto de generosidade num simples investimento a prazo, numa atitude capitalista.

 

O apoio a quem, por qualquer motivo, vê a vida afundar-se em conjunturas aziagas é, deve ser, um impulso espontâneo daqueles que nos distinguem enquanto seres humanos dignos desse nome. E não implica retorno ou qualquer tipo de reconhecimento. As medalhas devem sentir-se recebidas na confirmação do impacto positivo que se tem na existência dos outros, na satisfação do dever cumprido em matéria de construção de um mundo melhor.

Contudo, é legítimo ambicionar que esse mundo no qual, ainda que a um nível micro, se contribua com o melhor de nós mesmos para valer aos outros nas suas fases piores desenvolva o gosto por se disponibilizar da mesma forma. Por se provar melhorado, por contágio.

Infelizmente, não é assim que a coisa funciona no primado do cada um por si. Independentemente da postura que alguém assuma ao longo da vida, nenhuma garantia daí sobrevém de poder contar seja com quem for nos momentos menos bons. Pode esperar-se, isso sim, a habitual hipocrisia dos falsos preocupados, a palmadinha nas costas que apenas traduz a sua satisfação por não partilharem as mesmas aflições e não se materializa em porra alguma de positivo.

De resto, o conselho que é dado a quem padeça de algum tipo de fragilidade é que a esconda, que não revele em momento algum a fraqueza que, na prática, apenas serve como sinal de alerta para quem se sinta potencialmente alvo de pedidos de ajuda, essas maçadas como a maioria as entende no conforto de uma vida estável e abastada.

Aos indicadores típicos da mó de baixo como o povo a tipifica sucede-se a debandada mais ou menos apressada, mais ou menos óbvia de quem se vê demasiado próximo de alguém que mergulhe no inferno da decadência. O que valemos é o que temos e quando não temos assumimos o estatuto de assombrações. Negar esta evidência é confirmar o seu pressuposto, é exibir ignorância acerca de como a vida das pessoas pode tornar-se insuportável sob a pressão inerente aos fracassos ou mesmo aos azares que podem atingir qualquer um de nós.

De pouco interessam os passados quando os presentes denunciam futuros pouco risonhos. Não somos o que fomos, mas apenas o que se presume viremos a ser com base naquilo que temos para mostrar de nós em dado momento. De nada vale, sequer, o tipo de pessoa que escolhemos ser. Bons ou maus, o tratamento reservado aos que tropeçam é o mesmo: o de se levantarem do chão ou de lá permanecerem inteiramente por sua conta. Qualquer excepção a esta regra, a verificar-se, implica algum tipo de moeda de troca, de cedência, ou mesmo de humilhação.

Ninguém dá nada a ninguém, é um facto universal, um dado adquirido da sociedade moderna de que tantos se orgulham quando, na verdade, a maioria deveria a cada momento envergonhar-se.

E a vergonha na cara deveria bastar para que quem investe na caridadezinha de circunstância, feita de palavras ocas ou de gestos interesseiros, não acrescentasse, à desilusão de quem precisa e nada recebe, o nojo de quem também perde na aceleração das agruras da vida o travão piedoso para o excesso de lucidez.

publicado por shark às 23:36 | linque da posta
Quarta-feira, 15.03.17

Portas de saída

No espaço de alguns dias, uma mulher e um homem suicidaram-se em Portugal por motivos cada vez mais comuns na nossa actual realidade. Ela, por estar na iminência de uma acção de despejo; ele, aparentemente por estar a sofrer o que sentia como uma humilhação no local de trabalho (acabando, de resto, por se matar na dependência do banco onde exercia funções).

Estes dois exemplos de uma modernidade indesejável, marcada por uma crise sem fim à vista, ilustram o grau de desespero que as pessoas, quaisquer pessoas, podem atingir quando submetidas à pressão esmagadora inerente a um trambolhão social.

 

Aquilo a que chamamos sociedade, corroída por algumas décadas de franca expansão do individualismo, está a tornar-se numa ameaça para os cidadãos apanhados em falso pela vida. Com ligações de amizade e até familiares cada vez mais reduzidas ao cumprimento de rituais, à manutenção de aparências, as pessoas interagem cada vez menos e fragilizam-se cada vez mais. Num contexto de crise, nomeadamente nos grandes centros urbanos onde as relações de vizinhança se resumem a encontros de raspão nos ascensores, indivíduos e pequenos núcleos familiares são triturados sem dó pelas eficientes máquinas públicas e privadas que tudo fazem para transformar cobranças difíceis em punições para quem, com ou sem culpa no cartório, fraquejou ou se tornou no dano colateral de uma redução de custos qualquer.

 

 

Na ressaca dos anos 90, ao longo dos quais foi incutido na população o sedutor conceito do empresário em nome individual, muitos abandonaram empregos para criarem o seu. Foi o tempo dos diesel com dois lugares, das urbanizações de luxo ao alcance do cidadão de classe média, dos empréstimos fáceis sob pretextos absurdos (até para as férias ou a compra de acções) e sempre sob o pressuposto de uma prosperidade futura, garantida por via do milagre comunitário dos euros aos milhões.

Esse numeroso grupo de arrojados empreendedores foi dos primeiros a sentir na pele o desabar das ambições desmedidas, quando os pequenos negócios construídos por amadores entusiastas com base no recurso ao crédito e/ou no esbanjar das suas poupanças empurraram boa parte de novo para o mercado de trabalho, já em queda, e deixaram os restantes em aflição e a empurrarem os problemas com a barriga ou mesmo a terem de recomeçar do zero. Ou do menos qualquer coisa.

 

A primeira década do século XXI conheceu, já perto do final, a explosão das várias bolhas que a bebedeira de uma prosperidade a qualquer custo criou. E custou, imenso, mesmo a quem, com emprego estável ou rendimentos elevados, assumira compromissos que a própria banca ou entidades para-bancárias filtraram como razoáveis antes de ser pela primeira vez divulgado o nojento chavão do viver acima das possibilidades. O bode expiatório da crise passou a ser o cidadão incumpridor, com consequências devastadoras não para quem é caloteiro ou malabarista mas sim para quem, com vergonha na cara, não possui estrutura emocional ou psicológica à altura da dignidade dos seus princípios.

A sociedade em aflição do cada um por si tolera sem esforço o fim social dos seus membros em desgraça, desertando sem cerimónia das vidas estragadas que são guerras perdidas e aceitando as desculpas de maus pagadores de quem em boa medida os criou: o sistema financeiro aldrabão e o Estado seu refém, com a parceria consolidada por vários políticos que, não por acaso, estiveram ligados à destruição da banca que tanto endividou o país. Desamparados e fragilizados pelas consequências nefastas desta conjugação de factores, milhares de cidadãos contagiaram os mais próximos com as suas perdas, quem a estes podia recorrer, enquanto outros, isolados, viram as vidas viradas do avesso pelo sistema criado para os pressionar e espremer ao primeiro sinal de incumprimento. Ou ainda antes, no posto de trabalho cada vez mais precário num tempo de flexibilidade laboral desmesurada.

 

É deste grupo de párias como nos fazem sentir que faziam parte o homem e a mulher de que vos falei à entrada. Escolheram uma das poucas portas de saída.

publicado por shark às 23:53 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Terça-feira, 04.10.16

São sombras

São sombras. Projectadas numa das paredes de um espaço hermético para distraírem a solidão, desenhadas por artistas da ilusão que vivem dos olhares alheios que lhes mitigam a sede de um protagonismo qualquer.

Histórias mal contadas, sombras de homem ou de mulher, disfarçadas de coisas a sério numa vida de realidades magoadas sem querer, porque tudo o que se faz de errado era só a brincar e cada sombra mal definida é apenas a culpa solteira de uma má interpretação.

Esboços grosseiros de uma representação na feira das vaidades escondidas nas entrelinhas de um argumento para o filme a preto e branco de sombras que não conhecem a cor e parasitam os arco-íris na ingenuidade da imaginação.

São sombras. Camufladas em paredes mal pintadas, reféns da escuridão.

publicado por shark às 09:44 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 03.08.16

Sem marcas de travagem

Ias na boa, pela vida fora, sempre a direito, mais curva, menos curva. Velocidade de cruzeiro, dentro dos limites que te impõem porque se calhar não sabes tomar conta de ti. E dos outros que podes arrastar nos teus despistes.

Estavas a atinar. Seguias o caminho sem te meteres em atalhos. Sem arriscares os becos sem saída no final das estradas que levam a lado nenhum, atento aos sinais, certinho mapa fora, sempre nas linhas traçadas por quem já lá chegou. Porque se calhar perdias-te, vida complicada, cheia de desvios, percalços e tentações. E os outros que podem desencaminhar-te para as vias secundárias, tresmalhados do rebanho imobilizado no meio do trânsito medonho da vida como dizem dever ser.

Sempre com o pé em alerta, em permanente carícia ao pedal do travão. E a aceleração controlada, a vida tem vigilância instalada para caçar os mais apressados, aqueles endiabrados corredores que não respeitam as regras da circulação adequada numa vida como dizem dever ser percorrida desde o ponto de partida até outro ponto qualquer.

Na boa, vida adentro, sempre a direito por onde for permitido pelo código seguido por todos e por um. E esse és tu, cumpridor, olhos bem abertos à sinalização vertical mais os traços contínuos que são as linhas que nem podes pisar, sempre a direito pelo troço mais recomendado para atingir um objectivo volante, uma miragem circulante parecida com uma cenoura motorizada. Um ponto de chegada repleto de reticências e de interrogações.

Na vida a circular, no eterno retorno ao caminho mais indicado para chegar a algum lado, sem saber onde nem porquê. O pára-arranca forçado, a ilusão de mudança que afinal está sempre engatada na mesma posição.

Distraem-te estas congeminações quando te confronta pouco adiante uma inesperada bifurcação. Abrandas a passada para tomares a decisão mais acertada, pela esquerda ou pela direita, por ali ou por além, rejeitas o impulso instintivo de seguires por onde te apetecer porque a vida como dizem ser está reflectida nas indicações de terceiros, nas opiniões prioritárias de quem já por ali passou.

 

Ninguém buzinou para te avisar da traseirada, tinhas a vida quase parada e ignoraste as lições reflectidas nas suas memórias do espelho retrovisor.

Já estavas com o pé no acelerador quando se produziu a ocorrência. Tinhas decidido arriscar uma abordagem diferente, uma escolha inconsciente e desprovida de orientação, pela tua própria cabeça, pelo teu próprio coração, estrada fora até ver.

De mãos na cabeça pelo que sentes como uma injustiça, questionas a vida: não fazes sentido algum e isto prova que tenho toda a razão!

E ela, de passagem, sussurra-te:

Esqueceste-te de ligar o pisca, cabrão…

publicado por shark às 11:46 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 05.03.15

A posta no fogo que arde

Uma das coisas que aprendemos logo ao início da nossa percepção das coisas é o facto indiscutível de a vida nos dar lições. Essa mestra invisível bem cedo nos ensina que devemos evitar as esquinas dos móveis com a cabeça, tal como explica de forma clara e sucinta o quanto é verdade aquilo que os progenitores dizem do fogo.

Queima a valer e dói que se farta, aprender assim. Mas o método de ensino é muito eficaz e existe progressão na aprendizagem, pois a mesma cabeça que nos avisa que devemos protegê-la das esquinas pontiagudas continua pela vida fora a relembrar-nos lições que deixamos escondidas nos bastidores da memória.

 

É disso que se faz a história da vida de alguém. De lições. De aprendizagem que podemos utilizar a nosso favor ou ignorar e cometer o maior dos erros que é repeti-los. Esse facto pode até, aliás, considerar-se uma raposa. O erro de palmatória clássico corresponde a uma reprovação, pois até a vida percebe que só um burro incorre na asneira de ir segunda vez à caixa de fósforos depois da primeira queimadura.

 

Contudo, e a vida é um permanente porém, as turmas dessa escola exemplar congregam multidões de asnos capazes de darem cabo da vida por não lhe respeitarem as lições. Somos, esse grupo de cábulas, eternos repetentes. Nem conseguimos interiorizar a diferença entre errar muito, mas diferente (aprende-se sempre qualquer coisa) e errar muito e sempre estupidamente igual.

 

Depois um dia a vida esfrega-nos nos olhos a matéria, a lição mal estudada no passado é repetida num qualquer agora. A ver se o aluno retém qualquer coisa e acorda.

Quantas vezes a aula onde estivemos mais desatentos vem a revelar-se a mais valiosa para ultrapassarmos os testes que a vida nos marca…

Marramos (contra o comboio de Chelas, se necessário) até conseguirmos fixar parte da matéria que possa, pelo menos, garantir a positiva. Fazemos cábulas como saída de emergência para uma branca daquelas que os nervos nos dão e mostramos ter aprendido a lição, concentrados o bastante para decifrar os sinais que nos recordam os erros do passado que urge não repetir.

 

E tantas vezes o único erro é insistir.

publicado por shark às 23:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sábado, 06.12.14

A posta que não ouves

O sentimento de revolta é um dos que mais mobilizam qualquer pessoa. Seja provocado por motivos plausíveis ou apenas fruto de um raciocínio mal formulado, ou mesmo de um erro de interpretação, desenvolve-se como um tumor maligno enquanto persistir a questão que lhe deu origem.

De entre as revoltas possíveis, a revolta surda é potencialmente a mais nociva. Sobretudo porque tende a emudecer.

 

O cliché da panela de pressão veste como uma luva qualquer descrição da revolta surda enquanto factor de perturbação. A pessoa acumula essa força interior mal contida, absorve cada sinal, cada confirmação, nem sempre fidedigna, da legitimidade da sua ira. A pessoa ou o país.

 

É sempre de estranhar quando alguém, ou um povo, sente na pele o efeito de injustiças que se somam às provocadas por um rácio desfavorável entre a sorte e o azar e opta por refilar em surdina.

Aos poucos, a revolta surda vai exprimindo o seu paralelo com um vulcão. São pequenos abalos sísmicos, desabafos soltos aqui e além, aumento da concentração de gases perigosos, a mente a abdicar da racionalidade sem se aperceber. Indicadores a que poucos atribuem relevância e afinal são gritos de alerta para a iminência de uma erupção.

 

A revolta surda não sabe falar. A sua linguagem é equivalente à de uma granada de mão. Aparentemente inofensiva até alguém lhe puxar pela cavilha e o inferno acontecer, o caos espelhado em estilhaços aleatórios que atingem quem estiver mais a jeito.

Alimenta-se a si própria, sem controlo, uma vez deixada à solta na razão. E é essa a primeira vítima do massacre subsequente à revolta engolida quando a sua natureza é ser cuspida nem que sob a forma de um palavrão.

 

São poucas as escapatórias encontradas por alguém, ou uma população, na lógica que noutras formas de revolta acaba por prevalecer.

A revolta surda, por se sentir amordaçada, é mais eficaz que as restantes na arte de ensandecer.

publicado por shark às 12:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Segunda-feira, 19.05.14

A posta que lá em baixo está o tiroliroló

O falhanço tem uma característica que lhe é indissociável: só acontece a quem tenta, seja o que for.

Já o fracasso, muito confundido com o outro conceito acima, pode cobrir os rostos da maioria dos que manifestam disponibilidade para apreciarem ou mesmo criticarem quem falha. Mas tenta. Isto porque só os fracassados reúnem o tempo e a motivação, na ausência de outras, para se dedicarem à avaliação do desempenho de outrem, quantas vezes por não ser possível avaliarem o seu, inexistente.

 

Por outro lado, a avaliação de terceiros peca sempre pela grosseira subjectividade implícita no patamar (pedestal?) no qual se coloca quem debita bitaites sem saber do que se trata. Quem nada faz não consegue avaliar quem faz alguma coisa, é uma lógica inevitável.

A maior debilidade do observador, fracassado, consiste precisamente na correcta avaliação da sua própria posição numa escala imaginária (normalmente substituída pelo rigor de quem topa o fracasso à légua e chama os bois ou as vacas pelos nomes). Uma vez errado o ponto de partida, a observação e subsequentes comentários desviam-se do alvo e, regra geral, acabam num ponto de chegada que são os próprios pés.

É o drama permanente da pessoa fracassada, quase sempre apanhada pela incoerência na argumentação, pelas partidas que nos prega a imaginação quando a inteligência falha nas contas. De si mesma, também.

 

O falhanço beneficia, por tudo o que acima afirmo, de uma maior compreensão por parte dos outros. A pessoa falhou mas (e porque) tentou. Outras nunca falham porque passam os dias entretidas a explorar os efeitos terapêuticos das falhas dos outros na camuflagem das suas eternas falsas partidas para um topo que vêem à distância, ao nível rasteiro de quem não arrisca falhar porque não tenta. Por ser cobarde, por ser medíocre ou apenas por ser incapaz.

O fracasso deve-se quase sempre à inércia ou à ilusão (a mania das grandezas é um clássico) que a legitima. A pessoa que se sonha no cume da montanha deixa sempre a escalada morta à nascença no sopé. Por isso mesmo quem falha volta a tentar e quem fracassa limita-se a observar o esforço alheio, numa busca doentia de vitórias nas derrotas de alguém para lhe somar pontos negativos e, alegadamente, deixar essa pessoa abaixo do zero absoluto que qualquer medíocre representa.

 

Ainda dava para esticar mais um nadinha a corda ou atar um tudo nada o nó. Mas no fundo isto está tudo ligado.

publicado por shark às 22:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Quarta-feira, 09.10.13

A posta na plástica

É fácil rotular o cuidado (que se tem por excessivo) que algumas pessoas dedicam à sua aparência. Basta considerar coisas como o botox, o silicone ou o branqueamento anal.

É fácil porque é excessivo. Porém, é impossível traçar uma linha a partir da qual já podemos catalogar um excesso, salvo raras excepções, sobretudo num domínio em que cada um/a sabe de si e todos têm o direito a não levar com considerações de terceiros acerca de opções tão pessoais.

Claro que isto é muito claro na teoria. Na prática, apontamos o dedo a quem acrescenta as mamas enquanto reparamos que está na altura de cortar as unhas.

 

Onde quero eu chegar com isto? As tais linhas que todos gostamos de traçar relativamente às escolhas dos outros são imaginárias e subjectivas (quase mitológicas, portanto) e nunca coincidem com as das pessoas visadas.

Definimos os nossos próprios limites mas isso não nos impede de os alterar ao longo do caminho, nem que pelo efeito tramado da passagem do tempo no nosso visual.

Alguns dos que se chocam com o excesso de maquilhagem de outrem pintam o cabelo de outra cor que não a sua, deitando às urtigas o tal conceito do artificial que, bem vistas as coisas, veste os dois exemplos em causa ainda que com diferentes (e hipotéticas) gradações.

 

É o tal piso escorregadio dos limites e das avaliações quantitativas, nos outros como em nós. Às tantas, mesmo os que se afirmam alheios a essas coisas da aparência acabam um dia confrontados com a realidade da sua. E lá vão por água abaixo os argumentos “para fora”, na reacção hostil à verdade que qualquer espelho insiste reflectir.

A aparência, que não conta para ninguém, é lixada quando constitui uma clara desvantagem na interacção com os tais outros que também afirmam não ligar coisa alguma e depois a pessoa cai do céu quando percebe que falar é fácil e que toda a gente vai concentrar a atenção na borbulha feia por cima do nariz.

 

Para felizes contemplados com um visual agradável de origem o problema pode assumir proporções mais sérias, pela novidade da perda de confiança em si mesmos, o abanão num dado adquirido tão fácil de tombar pelo efeito da perda de um dente frontal ou de largas porções de cabelo. Ou das primeiras rugas. Ou de outra coisa qualquer que se imponha como um handicap potencial e seja demasiado óbvia para dissimular.

É nessa altura que a aparência passa de figurante a protagonista e o filme é quase de terror.

 

Tudo é muito relativo e de estanque já nem se safam as verdades ditas universais como, por exemplo, a que dizia que as pessoas e os livros não se julgam pela capa.

Nas bibliotecas como no resto da vida, são instintivamente escolhidos os mais apelativos, os mais perfeitos, os mais bonitos, os mais jovens e depois do que a vista selecciona, só depois, podem eventualmente impor-se outros detalhes a que chamamos “as coisas importantes” ou assim.

E o resto, perdoem-me a franqueza, não passa de mais um politicamente correcto folclore das boas intenções.

publicado por shark às 00:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Terça-feira, 24.09.13

O outro lado da picareta

Uma das maiores vulnerabilidades de um desbocado é ter que manter o silêncio quando outros, por exemplo numa posição mais confortável em dado momento, nos matam com o mesmo ferro. Pela emoção, colocamos de imediato o dedo no gatilho verbal e as palavras que são munições até se atropelam na garganta. Mas pela razão vemo-nos obrigados a desculpabilizar o discurso excessivo, a aplicar o mesmo critério que gostaríamos nos fosse aplicado em iguais circunstâncias embora saibamos que assim não é.

 

O desbocado parece merecer todos os castigos possíveis em matéria verbal. Tens a mania que podes falar com o coração? Nesse caso pega lá mais esta pancada nesse sítio onde mais te dói. Ou no orgulho, embora dê menos luta porque, lá está, o desbocado tem sempre uma mania qualquer, um complexo de superioridade ou assim, que o leva a acreditar-se livre para falar demais. E é fácil desequilibrá-lo por aí, com uma rasteira do mesmo veneno, com uma ferroada valente no lombo quando a ocasião se proporciona porque quem fala sem prudência tem (que ter) bom lombo para acolher umas bandarilhas.

 

Por isso o desbocado é alguém menos explosivo do que o esperado pela maioria dos observadores. Ou já disse ou está para dizer (ou fazer) algo de que tenha que se arrepender depois, talvez no momento em que lhe explodem nos tímpanos e no peito as palavras irreflectidas de outra pessoa a quem, por acaso, até já lançou granadas iguais. Ou ainda piores.

Depois acaba por ter que calar, perde sempre a razão por ir longe demais e no fundo até percebe, ou intui, que as outras pessoas também merecem o seu momento sem travões. Ouve e engole em seco enxovalhos ou simples desconsiderações, enfia a viola no saco e sorri amarelo ou baixa a crista em sinal de deserção de parte de si próprio que entende amordaçar para não se ver de novo em maus lençóis de uma cama que faz a toda a hora para nela o deitarem. Como no cliché da sepultura, a do próprio, que se cava quase sem perceber a natureza do trabalho executado.

 

É essa a cruz do desbocado. Nunca mete na cabeça que só ladra alto o cão a quem podem dar nozes porque tem dentes para morder. O outro rafeiro, desmotivado pelas coças do passado ou apenas sem solo firme debaixo das patas para defender qualquer argumento ou posição, refém da conjuntura ou da situação, ladra sempre baixinho.

 

Ou abdica até de rosnar.

publicado por shark às 23:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Sábado, 04.05.13

A posta alta num cavalo perdedor

Um gajo senta-se diante do monitor e nem sempre lhe apetece cumprir um qualquer ritual, como na televisão nem sempre nos apetece o mesmo canal, e depois dá-lhe para ir dar uma voltinha pelos corredores mais ou menos iluminados do casarão em que a net se tornou.

Naturalmente, que passados alguns anos sobre o advento da coisa isto da nostalgia também já pode acontecer em ambiente virtual, uma das tentações é a de sacudir o pó aos “favoritos”, essa ferramenta que tínhamos como imprescindível quando jovens e imberbes exploradores do fenómeno.

E embora raramente nos dê para aí, é ponto assente que perdemos a vontade de tão cedo repetirmos a graça.

 

Como qualquer pessoa que bloga desde o início da década passada, vivi os dias intensos da fase pós chat e pré facebook. A sede de comunicação era imensa e os computadores substituíam quase por completo as televisões que pouco ou nada transmitiam para nos prender a atenção. Passávamos horas diante do monitor, descobrindo nova gente e apreciando os talentos extraordinários (como nos pareciam) de desconhecidas/os, acabando cedo ou tarde por estabelecer contacto com as pessoas por detrás das realidades virtuais que nos esforçávamos por construir.

 

Era giro, admito, e mexia com uma pessoa. Era quase como um regresso à adolescência, pelas emoções de geração espontânea suscitadas por alguém cujo rosto, cuja voz, cujo género desconhecíamos e que nos surpreendiam pelo seu vigor.

A alma latina fazia-se sentir através de um computador, nas discussões acaloradas como nos flirts à descarada que partilhávamos com quem passou a viver parte da existência naquele mundo à parte que fomos construindo com a mesma expectativa de uma relação a dois, com a esperança da eternidade que qualquer paixão consegue alimentar.

E isso aplicava-se a qualquer tipo de relação que nascia desse contacto distante que se transfigurava próximo pelo exagero nas revelações protegidas por um anonimato que aos poucos começou a desaparecer.

 

Foi essa a mudança que deitou tudo a perder. Jantares, convívios, encontros marcados sob a pressão da curiosidade que sempre matou gatos e na internet vitimou imensos corações.

Amizades de aparência sólida e amores clandestinos de caixão à cova brotavam como cogumelos a partir das caixas de comentários, dos emails e do messenger, enxurradas de palavras sentidas e acreditadas que nos faziam presumir uma intimidade e laços tão fortes que o impulso da proximidade física acabou por vencer.

Sim, foi isso que deitou tudo a perder. Ou pelo menos arrefeceu o entusiasmo juvenil que nos prendia à cadeira, como hoje é fácil de constatar na triste decadência da blogosfera enquanto rede social e a que o facebook apenas deu o golpe de misericórdia.

Ao vivo e a cores, há um brilho qualquer que se extingue e as emoções (como as imagens) artificiais sucumbem à verdade dos factos que os olhos nos olhos não conseguem disfarçar.

 

Os meus favoritos não passam de um extenso rol de blogues extintos ou ligados à máquina da teimosia dos poucos que como eu ainda vão aparecendo para fazer a cama e mudar os lençóis. Das pessoas que faziam o meu quotidiano virtual nos dias loucos de 2004 e foram entrando aos poucos na dimensão analógica restam apenas vagas memórias e um ou outro contacto esporádico, residual, distante como seria suposto neste ambiente. E isso abrange amizades “para a vida” como paixões que nos faziam chorar.

 

Contudo, e nisso a vida tem sempre a última palavra, dou comigo a navegar pelos restos dos meus rastos dessa etapa que tanto coloriu a minha entrada na crise da meia-idade e a constatar o quanto de ilusório se constrói nestes canais de comunicação modernos.

Mas no balanço desta nostalgia de pacotilha também descubro o pragmatismo que a passagem dos anos nos traz quando percebo que aquilo que me ocorre no final do périplo virtual é uma conclusão de SEO: o contacto pessoal com gente que bloga tem um preço a pagar, uma espécie de castigo para as nossas ilusões, e é a forma mais desastrada de dar cabo da popularidade dos nossos espaços virtuais.

 

Quem nos conhece pessoalmente e por algum motivo desatina é garantido que não nos linca mais.

publicado por shark às 22:48 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Sexta-feira, 15.02.13

Sinceridade absoluta: um privilégio para excêntricos ou imbecis

Custa sempre a aceitar que mesmo o que entendemos por bom, por positivo, naquilo que nos faz enquanto gente possui limites e deve ser usufruído com prudência e com moderação. Coisas que dependem muito da forma como as sentem e interpretam os outros, as pessoas com quem interagimos e por isso acabam destinatárias das características que nos definem e dos comportamentos que esses traços de carácter acabam por condicionar.

A sinceridade, louvada como um valor universal, mais do que uma característica inata é uma opção individual que todos gerimos em função da importância que lhe atribuímos mas também das características das pessoas a quem a dedicamos e até das circunstâncias com que nos vemos confrontados quando chega a hora de ponderar esse recurso ao nosso dispor para, bem vistas as coisas, justificarmos laços de proximidade e de confiança com quem lidamos ao longo de uma existência que prefiramos alheia à solidão.

 

Nenhuma pessoa pode afirmar-se absolutamente sincera, pois o bom senso recomenda e a sensibilidade exige uma gestão cuidada, um doseamento sensato da verdade em estado puro para com os outros e até para com nós mesmos, sob pena de se obterem reacções que se entendem como inesperadas apenas aos olhos de quem não possua o discernimento necessário para respeitar os tais limites e para medir as consequências por vezes devastadoras de uma postura demasiado frontal.

Demasiado. Um termo que soa desajustado quando olhamos para a verdade despida de todos os condicionalismos, de todos os factores endógenos ou exógenos que podem transfigurar esse conceito aparentemente cristalino e de uma bondade intrínseca, transformando-o numa arma de arremesso que pode destruir uma relação sólida ou uma pessoa fragilizada na sua estrutura emocional.

Complicado. Outra palavra que parece desenquadrada da definição de sinceridade, sem dúvida, mas que se torna incontornável quando da teoria sempre tão benévola passamos à dura realidade da respectiva aplicação.

 

A sinceridade, porquanto louvável, jamais poderá ser absoluta fora do âmbito do monólogo ou da introspecção. E mesmo aí requer alguma contenção, tão frágeis se revelam as nossas defesas às verdades mais perturbadoras, ao ponto de um raciocínio sincero se poder transformar num complexo exercício de negação. Depende apenas do calibre do próprio, do poder de encaixe que todos reclamamos mas nem sempre se mostra à altura da situação. Quando está em causa o arcaboiço dos outros este detalhe assume proporções ainda mais relevantes e é quase instintivo o recuo, o adornar da verdade perigosa com uma inócua mentira piedosa ou com uma estratégica omissão, parcial ou total, dos pormenores mais ameaçadores.

 

Jogamos à defesa e hipotecamos sem hesitar esse valor alegadamente tão grato apenas porque percebemos (ou aprendemos à bruta) que tem mesmo que ser. Não faltam atenuantes bem intencionadas para justificarmos o perigoso resvalar para uma hipocrisia bondosa que o medo nos induz.

 

Quase sem darmos por isso abdicamos com tanta frequência da sinceridade digna desse nome que nos habituamos a contornar as verdades incómodas e depois de aberto o precedente, de quebrada a espinha dorsal do conceito original, perdemos a capacidade de distinção da verdade na sua essência e acabamos por encaixar a mentira na rotina da nossa interacção.

 

Acabamos encurralados pelo inferno de uma lógica traiçoeira nas nossas melhores intenções.

publicado por shark às 22:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Segunda-feira, 07.01.13

A posta que o superficial tende para o efémero

Aos vinte anos de idade o apêndice para números telefónicos da minha agenda tinha letras que esgotavam o espaço, ao ponto de acabarem muitos nomes arrumados na letra que era sempre a menos utilizada.

Hoje, quando olho para esses contactos, sinto aquilo como uma lista de fantasmas, meras referências de um passado que não conseguiu aguentar-se até este presente envenenado das relações precárias que o fenómeno das redes sociais, por exemplo, ilustra sem contemplações.

 

Sou do tempo dos amigos para toda a vida. Era assim na amizade como no amor.

Claro que nem sempre as coisas corriam de feição, a vida é trapaceira e coloca-nos muitas vezes em posições insustentáveis perante os outros e vice-versa. Mas essas eram as excepções à regra. Bem ou mal, as ligações amorosas conseguiam resistir às inúmeras pressões que uma vida a dois acarreta. Bem ou mal, as amizades sobreviviam aos maus momentos e prolongavam-se no tempo à custa, quantas vezes, de cedências e de compromissos que nunca nos passaria pela cabeça tolerar. De simples pedidos sinceros de desculpa.

 

Talvez fosse apenas o instinto que nos levava a preservar essa ligação com quem se cruzava o nosso caminho e de alguma forma prendia a nossa atenção. Ou então seria a lógica que nos avisava que cada pessoa saída da nossa vida era mais um pequeno passo rumo a uma inevitável solidão. Nem arrisco presumir que era a natureza das emoções a fazerem a diferença. Certo é que conseguíamos manter a ligação com as pessoas ao longo de anos, muitas vezes apenas com base num telefonema anual a propósito de uma efeméride qualquer.

E agora isso não acontece, como o provam as minhas agendas sistematicamente vazias e a minha falta de empenho para voltar a preenchê-las.

 

Assumo o meu quinhão nesta mudança de paradigma, deixo cair os outros com a mesma ligeireza e leviandade com que o fazem comigo. Basta um pretexto, às vezes nem isso, para determinada pessoa sumir da minha vida. Basta algo tão simples como o desaparecimento de um telemóvel sem cópia dos contactos lá gravados, pois é quase certo que poucos, muito poucos, desses contactos voltarão a ligar. Por não estranharem a ausência ou por se estarem nas tintas para a minha falta no cenário.

É assim, preto no branco, que a coisa se processa em ambos os sentidos das ligações de merda, displicentes, descomprometidas, indiferentes, que estabelecemos entre nós em qualquer das dimensões que uma relação pode abranger.

 

É assim na amizade como no amor: temos meros conhecidos em vez de amigos a sério e amantes ocasionais em vez de amores duradouros. Apenas nos esforçamos para colorir a realidade, para a maquilhar para parecer como era dantes, no discurso e apenas. Fingimos acreditar que é coisa para durar, mas depois desertamos uns dos outros e das imensas maçadas que as relações mais próximas podem implicar. Queremos apenas um grupo que possamos integrar para não andarmos sozinhos na paródia, só para a reinação, e depois estranhamos quando nos momentos de maior aflição não faz sentido recorrer a qualquer uma dessas pessoas com quem não temos laços fortes o bastante para abusarmos da sua confiança que, de resto, é pouca ou quase nenhuma.

 

Isto a propósito desta prosa que li e recomendo a quem tenha pachorra para ler em inglês. É um texto corajoso de alguém que fala na primeira pessoa acerca da verdade dos factos, muito melhor do que eu seria capaz de o fazer.

publicado por shark às 11:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Terça-feira, 13.11.12

A posta que alguém tem que fazer

Embora as culpas costumem morrer solteiras e existam prioridades mais prementes do que a atribuição das mesmas (as culpas, não as solteiras), talvez esteja na altura de chamarmos os bois pelos nomes quanto ao estado da Nação em vez de apontarmos baterias às Jonet, às Merkel e outros alvos de circunstância que se coloquem a jeito para umas vergastadas.

De todos os problemas que o país enfrenta, o maior deles é não haver quem os resolva. Ou seja, os problemas estão cá, a malta identifica-os com clareza, mas depois a coisa arrasta-se.

E é aqui que se levanta a inevitável questão que o povo refilão coloca sempre em cima da mesa, seja em casa ou na esplanada: Alguém tem que fazer qualquer coisa!

 

O povo é sábio e topa com a precisão de uma mira telescópica os alvos camuflados por entre as figuras do momento que, de resto, para o efeito têm a mesma utilidade dos treinadores de futebol: a catarse colectiva da chicotada psicológica.

O povo acha que tá mal a sua equipa perder e é logo mata e esfola. Rescindir contratos com o plantel quase por inteiro é inviável, o povo sabe, e Pinto da Costa só há um (por muito que o presidente do Sporting de Braga tente apanhar-lhe o jeito). Resta o malandro, o incapaz, o imbecil do treinador. O povo exige o sacrifício de um cordeiro mas tem em conta a crise e as associações de defesa dos direitos dos animais e consola-se com um bode expiatório, de preferência tenrinho.

 

Contudo, nas raras excepções em que se percebe que a coisa não se resolve com petições virtuais inócuas ou movimentos espontâneos de indignação nas redes sociais o povo também não se atrapalha: Alguém tem que fazer qualquer coisa!.

Pois é. Não há fuga possível para essa entidade sem nome, essa arma secreta que tanto pode encontrar-se com um simples recuo no tempo (o cliché mais corrente envolve nevoeiro, mas a malta prefere uma repescagem mais contemporânea e vem logo à ideia um “grande português” eleito na tv – os mais crentes contam ainda com Deus) ou na inapelável nomeação de uma alternativa.

É aqui que entra em cena o tal Alguém.

 

Melhor que rachar lenha é poder mandar bitaites, mas de fora na mesma

 

O povo não gosta de greves, são uma maçada, tal como tem ideia de que as manifestações destes dias não levam a lado algum. Por outro lado, o povo não confia na classe política.

Postas as coisas nestes termos, o povo arregaça as mangas da palheta e recruta de imediato Alguém. Alguém que só possui uma missão: fazer qualquer coisa. E essa coisa qualquer implica a resolução rápida e definitiva do problema, seja qual for.

O povo aprecia a ideia de ser quem mais ordena e começa por pôr ordem na lógica de funcionamento nacional: se não há volta a dar, por faltar quem e como, alguém terá que dar um passo em frente. E fazer qualquer coisa, no mínimo o milagre de fazer acontecer coisas sem ninguém mexer uma palha porque é para isso que alguém é pago.

O povo prefere aguardar com serenidade e sem fazer fitas como os outros pelintras lá de fora.

 

Com a firmeza estampada no rosto e no vigor do cruzamento dos braços, aguarda-se que alguém pegue ao serviço para fazer o que lhe compete. Sem chatices como eleições, revoluções, intervenção directa nos mecanismos da Democracia e outros transtornos que fazem a pessoa perder o dia de praia, o jogo da bola ou a noite das nomeações na casa dos segredos.

É esta a convicção do povo, denunciada pela sua postura perante uma das maiores aflições que Portugal já enfrentou no nosso tempo de vida.

Amanhã havemos de encontrar uma solução para qualquer problema, basta ter um pouco mais de paciência e o milagre acontecerá.

Mas convém que alguém seja mesmo Deus a tratar do assunto, pois se alguém possui alguma certeza é a de que de outra forma ninguém o fará.

publicado por shark às 15:37 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Domingo, 07.10.12

A POSTA QUE BASTA SOMAR DOIS MAIS DOIS

A Natureza é um manancial de lições para a única espécie que se vangloria da sua inteligência, a nossa. Observar o comportamento dos outros animais e saber processar os ensinamentos que daí derivem deveria ser uma (mais uma) vantagem competitiva sobre os desgraçados seres vivos que lutam para sobreviver à intervenção da tal espécie inteligente que se comporta de forma tão burra.

Mas não é.

Insistimos em repetir erros, em trair princípios, em seguir líderes violentos ou simplesmente imbecis.

 

Apesar de ser recorrente a imagem dos rebanhos quando observamos o comportamento da maioria dos que caminham sobre dois membros, os fenómenos de massas que protagonizamos, nós humanos, fazem-me lembrar as manadas de gnus.

Igualmente numerosos, esses cornúpetos primam pela determinação. Insistem nos mesmos trilhos, nas mesmas rotinas seguidas por gerações ao longo dos tempos mesmo depois de conhecidos os perigos da jornada. Parecem estúpidos, vistos de fora.

Contudo, eu não gostaria de saber a opinião de um gnu acerca do comportamento dos humanos. Os gnus são fisicamente muito mais fortes e em matéria de inteligência (aquela que os comportamentos traduzem) deveria verificar-se o oposto, ao ponto de o raciocínio superior poder explicar o que nos coloca tão acima dos gnus na hierarquia animal como a definimos e que às vezes parece não ser a que a Natureza tinha previsto quando se viu a braços com esta espécie estranha, com este fim anunciado da macacada que somos nós e quem estiver por perto.

 

Os gnus são bichos dependentes da integração num grupo, a sua sobrevivência está ligada à coesão de um colectivo. Porém, esse grupo funciona como uma aglomeração de indivíduos com cornos nas tintas uns para os outros: se os mais fracos acabam isolados da manada e à mercê dos predadores, problema deles.

Apesar da sua força intrínseca e da que os números lhe poderia acrescentar, os gnus só entendem o grupo como uma multidão que lhes compete seguir, sempre na esperança de passarem despercebidos no meio da confusão e de poderem aí ocultar os pontos fracos que os possam tornar em presas fáceis. E não mexem uma palha em conjunto para defenderem os seus, por vezes nem mesmo as próprias crias em aflição.

Seguem o seu caminho de sempre, enfrentam desafios seculares que muitas vezes os matam, cometendo sempre os mesmos erros, arriscando seguir o mesmo farol para a potencial perdição.

 

As ovelhas não são diferentes nesse aspecto, mas quando comparamos um gnu com um ovino tomamos consciência da lição de desperdício que a Natureza nos ensina. Cem ovelhas não conseguiriam reunir a mesma força combinada de meia dúzia de gnus, caso possuíssem a inteligência dos humanos que lhes permitisse discernir que a união faz a força, mas talvez mil pudessem dar conta do recado e acabava-se o domínio do pastor.

E meia dúzia de gnus talvez não dessem conta de um grupo de leoas famintas, mas os estragos que iriam provocar, se a memória dos restantes pudesse processar a lição da Natureza que sempre as dá, ficariam como uma prova cabal de que a resistência é possível quando se combinam forças em torno de um objectivo comum.

 

Perceberam o trocadilho?  

publicado por shark às 13:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Terça-feira, 10.07.12

A POSTA QUE APRENDEMOS SEMPRE À NOSSA CUSTA

Na minha actividade profissional de agente de seguros acabo por ter contacto directo com uma faceta da realidade empresarial portuguesa que explica alguma da sua debilidade perante esta crise ou qualquer outra.

É arrepiante perceber a quantidade de empresas sem seguros facultativos como o das instalações ou mesmo obrigatórios como o de acidentes de trabalho.

No fundo, o empresário português típico é uma pessoa de fé. Se a coisa corre bem compra o tal BMW em leasing e se correr mal, logo se vê

 

O exemplo dos seguros, que é porreiro porque estou na minha praia, apenas ilustra uma forma de estar sem rede que requer muito equilíbrio. Se um empreendedor entende que nas suas preocupações os seguros são coisa secundária acaba por entregar o futuro da sua iniciativa aos caprichos do destino, o que explica como de repente quase toda a gente parece ter sido apanhada com as calças na mão, mesmo no meio de uma crise em câmara lenta como nunca vivemos uma.

A malta acha sempre que vai correr tudo bem. Da mesma forma que acreditam piamente que aquilo do euromilhões é mais uma questão de tempo, também confiam na mesma conjugação astral favorável para darem emprego a uns quantos desgraçados que não vislumbram, por entre a fezada de terem um posto de trabalho, o quanto abraçam a mesma política do logo se vê quando nem por curiosidade tentam perceber se existe um seguro para lhes valer se tiverem um acidente no exercício das suas funções.

 

Parece coisa de somenos importância, mas acaba por ser uma forma de precariedade quase tão clara como a de um trabalhador a prazo ou mesmo temporário.

Há direitos dos quais não podemos abdicar apenas para facilitar a vida dos que negligenciam as suas obrigações.

Um trabalhador com o azar de cair de uma escada no horário de trabalho e ficar sem capacidade para prover ao seu sustento e ao da sua família não pode só nessa altura descobrir que a sua vida futura está nas mãos da habilidade dos advogados do patrão para o pouparem ao encargo imprevisto em causa.

 

Essa fé no logo se vê está na origem de boa parte da caldeirada em que o país mergulhou, confiado a gente incapaz de se preocupar a sério precisamente por desconhecer o conceito de preocupação, gente capaz de reclamar o doutor antes do nome depois de completar uma licenciatura sem esforço, sem mérito e mesmo sem moral. Entendidos na matéria que é precisamente aquela que contornaram à custa da mesma esperteza saloia dos empresários que poupam na prevenção para esbanjarem nos sinais exteriores de uma solidez tão aparente como a sua capacidade para liderarem seja o que for.

 

Se há lição que Portugal precisa de aprender desta provação em lume brando é a de que é preciso fiscalizar quem manda, pois a vida, como o ciclo económico, é como os interruptores e a qualquer momento as luzes do sucesso dos figurões de circunstância deixam de cintilar.

E quando a festa deles acaba sobram sempre espalhadas pelo chão as canas dos foguetes para outrém apanhar.

publicado por shark às 14:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 26.01.12

GET REAL...

Isto já só lá vai com uma ditadura.

 

O bom funcionamento de uma ditadura depende da eficácia dos seus mecanismos de repressão.

O bom funcionamento de uma democracia depende da eficácia dos seus mecanismos de fiscalização.

 

Com qual desses mecanismos preferes lidar, cidadão desencantado?

 

 

publicado por shark às 16:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Domingo, 12.06.11

A VIDA COMO ELA É

a vida como ela é

Foto: Shark

publicado por shark às 00:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Quinta-feira, 02.06.11

SENTIDO CONTRÁRIO

Vês o caminho cortado e de repente és o animal ferido, o animal encurralado que desvia toda a sua força, toda a sua energia, para a melhor defesa possível, o ataque imprevisível sem perder tempo a tentar distinguir a mão amiga da que possa desferir mais um golpe e seja esse o da misericórdia que acabaste de desacreditar.

Vês o beco sem saída a surgir, de repente, no rumo da tua vida e percebes que não podes avançar sem inverteres o sentido obrigatório, sem perderes tudo o que é necessário para ser possível retomares a passada no futuro que entretanto se alterou de forma radical. Não estavas bem e vais de mal a pior, sentes o cerco apertar e queres dar luta mas há um exército de filhos da puta preparado para te esmagar, o animal ferido que te sentes agora, que metes as unhas de fora e arreganhas a dentuça porque estás farto de lavar na fuça sem ripostar.

Nessa altura já nem tens medo de perder uma batalha, ou várias, nessa guerra suja que é feita de histórias onde a coragem e a honra não desempenham qualquer papel, assinaste folhas besuntadas de mel que afinal eram cartas armadilhadas, um somatório de causas perdidas no futuro que está a acontecer agora, numa sucessão de explosões que te despertam para o conflito iminente, surgido de repente no percurso que entendeste traçar, leviano, sem pensar, quando pactuaste com o falso amigo que a conjuntura mais a sua natureza desleal viraram contra ti.

Vês o horizonte logo ali, ao virar de uma esquina, imediato, o beco sem saída no rumo da tua vida, cinzento temporal, não estavas bem e agora só resta o mal menor, a fraca consolação de que há quem esteja pior, incapacitado, e tu afinal apenas encurralado, como um animal que renega toda a esperança por perder a confiança no ambiente que o rodeia e que sente, ferido de morte, como hostil.

 

Perdido por um, perdido por mil.

publicado por shark às 17:13 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Terça-feira, 31.05.11

ESTÁ A REGRESSAR O CALOR

E por isso é normal que fique cada vez mais fino o gelo sob os nossos pés.

publicado por shark às 17:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 06.02.11

A POSTA QUE PELO MENOS FOME HÁ MUITOS QUE NÃO PASSAM

Sim, uma crise endiabrada, os menos abastados a terem maior dificuldade para orientarem a vidinha, muita gente a perder o emprego principal mas a manter a actividade paralela, pois alguém anda a vender os produtos avon, tupperware e outros à pazada, bem como diversa mercadoria de outra natureza que não vou aqui dissecar de forma exaustiva mas que passa ao lado dos números que traduzem esta enorme aflição e não pagam impostos, o que ainda nos enterra mais, sim, uma crise tramada e ninguém me pode oferecer lições nesse particular.

 

Contudo, a pessoa vai finalmente dar uma voltinha até Almeirim para matar anos de saudade de uma sopa da pedra a sério (sim, com pedra e tudo) e espera quase uma hora pela vaga num dos muitos, mesmo muitos, restaurantes da localidade, mesmo à grande e à americana, e das duas uma: ou o plafond dos cartões de crédito está a subir ou a grossura dos colchões está a minguar...

publicado por shark às 22:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Sábado, 05.02.11

DE LA PALISSE (OU PALICE, SE VOS SOAR MELHOR)

E no fundo a felicidade é mesmo um estado de espírito e nós só complicamos porque sim, porque é essa a nossa natureza, esse impulso idiota que até pode nascer como reacção primária à constatação de que só estamos a atrapalhar-lhe o caminho, a essa felicidade genuína que como qualquer estado de espírito só não faz mais porque escolhemos mal o centro nevrálgico das nossas atenções.

 

Dito assim parece simples, eu sei, e até compreendo que o cepticismo tome conta de cada um de vós perante este discurso tão na boa que até a felicidade quase parece outra coisa que não a utopia como a entendemos tendo em conta a forma como vivemos no avesso daquilo que mais a beneficiaria.

Mas é, bem vistas as coisas, mesmo assim que a coisa se faz. Simples, sem merdas, alheia às contrariedades de merda que inventamos para a relegar para segundo plano quando afinal bastam pequenos instantes de lucidez para ela se abrir toda ao nosso olhar.

 

Sim, logo ali, na mente que nos diz estarmos livres dos impedimentos a sério, tão lógico, nenhuma doença impeditiva e nenhuma tragédia terrível para servir de pretexto para escoarmos o tempo como carpideiras justificadas nesse contexto mas absurdas, intoleráveis, quando está em causa apenas a nossa capacidade de abrir os olhos à realidade que nos rodeia com tudo aquilo que tem para nos oferecer quando temos a humildade suficiente para não cedermos à tentação de abraçarmos a ambição desmedida como um caminho a tomar.

Mais e melhor, sempre amanhã ou depois, e ela ali, a felicidade, sorridente, complacente, a observar a nossa incapacidade de olhar para ela como único objectivo possível para uma existência digna desse nome, soberana na verdade que negamos com os pretextos que inventamos para nos azucrinar as paciências e nos esgotar as vontades de lutar por aquilo que intuímos estar mesmo ali, ao alcance da mão. Momentos em que nos entregamos sem reservas ao prazer, qualquer que seja, cientes da nossa condição perecível de simples mortais.

 

A verdade translúcida que baila trocista diante da nossa consciência e até do nosso olhar apenas aguarda esse clique na nossa cabeça que nos diz que amanhã talvez não aconteça e nesse caso tudo é hoje valioso para usufruir, com um sorriso, com uma alegria a que temos direito e a simples comparação com a realidade de alguns dos outros transforma numa obrigação.

Tão simples, afinal, aos gritos diante da nossa atenção, a felicidade tangível, a vontade inadiável de querer mais apenas no que concerne ao tempo que sobra para dela beneficiar.

 

Como a bofetada nas ventas que tantas vezes merecemos apanhar.

publicado por shark às 16:53 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Terça-feira, 25.01.11

A POSTA NO FIM DA MACACADA

Depois de dias a fio a levar com temas tão maçadores e, a avaliar pelos números da abstenção, perfeitamente dispensáveis como política e eleições e essas chatices todas, achei que deveria optar por um tema mais profundo para debitar umas larachas.

E como ainda não tive pedidos para me debruçar sobre a Fossa das Marianas decidi ir mais além e empoleirar-me nessa importante questão que é da vida para lá da morte. Só de raspão, claro...

 

Bom, o próprio conceito de vida para lá da morte soa disparatado se optarmos por tradução literal e isenta de religiosidade. Bem vistas as coisas, teríamos um ciclo vida-morte-vida outra vez e é difícil de aceitar a ideia de que um ente superior cria pessoas e mata-as para depois as fazer viver outra vez, ainda que sob outra forma e/ou noutra dimensão da existência.

É que isto da morte é uma gaita, pois atemoriza a malta toda (mesmo a que acredita na tal ideia de que depois do fim acontece um princípio num sítio ainda melhor e atafulhado de virgens – nenhum paraíso é perfeito, enfim…) e as pessoas não gostam nada de viver com esse tipo de canga às costas.

 

Na verdade, isto do medo da morte (uma consequência lógica da consciência de que existe, acontece e não é só aos outros) é um dos preços a pagar por nos termos posto em bicos de pés diante dos nossos irmãos chimpanzés, uma mazela própria da evolução da espécie que por vezes enfrenta os caminhos da existência com o mesmo sentido de orientação de uma barata tonta mas sem a resistência dessa prima afastada.

Para os restantes símios a morte pouco diz, embora façam o possível por evitá-la. No fundo gozam enquanto podem e não se fiam em virgem alguma, ao contrário de nós, os inteligentes da família, que mesmo perante a hipótese realista de sermos tão ressuscitáveis como uma sardanisca e de ser improvável transitarmos para um paraíso acabamos por desperdiçar o tempo a recriar uns para os outros o verdadeiro inferno e sempre com a displicência de quem se julga, no mínimo, eterno.

 

Essa mácula na superior capacidade intelectual que nos distingue do resto do macacal pode ilustrar-se, por exemplo, com aquele cliché ancião do ai se eu pudesse voltar atrás. Não se pode, é outro dos dramas a abordar um destes dias na ressaca da provável vitória do Passos Coelho no próximo recorde de baixa afluência às urnas, porque já conseguimos clonar ovelhas mas ainda não sabemos como recuar no tempo para podermos clonar as respectivas bisavós.

E apesar de sucessivas gerações a chorarem os atrás a que voltariam para fazer tudo diferente, os que ainda lá estão, no seu ponto do percurso, olham adiante e agem como se fosse indiferente estarem hoje em Alcochete e amanhã numa nuvem a tocar harpa para matarem o tempo que alegadamente não mais se esgotará. Ou seja, preparam o caminho para repetirem o choradinho dos mais velhos quanto ao desconforto de espreitar uma vida pelo retrovisor.

 

Ou seja, isto só para concluir depressa pois detesto não ter sempre a resposta ou a solução na ponta da língua – embora aprecie mantê-la atarefada, a existência da vida para além da morte não aquece nem arrefece mesmo que venha a ser provada ou então a fé não passa de um embuste para manter a malta entretida. E mesmo para os que acreditam no fim absoluto excepto talvez numa vertente ecológica da reciclagem natural que nos torna em adubo de primeira para couves lombardas, a avaliar pela amostra pouco os distingue entre si na atitude e na capacidade de desbundar isto tudo com a alegria que os nossos antepassados distantes encaravam o milagre (não é fé, é fezada) que é viver cada dia.

 

Não faças de conta que não é nada contigo, ó tu que lês: há quanto tempo não catas uns piolhos ou saltas de árvore em árvore pendurado/a numa liana ou dás uma queca só porque te apetece e sem complicações e constrangimentos de toda a ordem enquanto és capaz, seguindo o bom exemplo de qualquer chimpanzé?

 

Acreditas que vais poder fazê-lo mais tarde ou na tal outra vida, não é?

publicado por shark às 17:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Segunda-feira, 27.09.10

VOANDO SOBRE UM RELÓGIO SUÍÇO

Às vezes o mundo à minha volta soa tão nonsense que quase me sinto na pele de figurante de uma película dos Monty Pithon ou do Mel Brooks.

publicado por shark às 16:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quinta-feira, 10.06.10

CONTAS COMPLICADAS

Se fizermos as contas nunca são muitas as pessoas que ao longo de uma vida nos amam ou são amadas por nós. Claro que depende de muitos factores, alguns tão aleatórios como o simples acaso de cruzarmos caminhos com este alguém e não com outra pessoa qualquer.

Sorte ou azar. É essa a primeira opção com que a existência nos confronta, sem nos dar muito a escolher.

A sorte de encontrarmos pessoas que nos amam e são amadas por nós.

Ou não.

 

São poucas, nem façam as contas para não desanimarem e para não chorarem os que ficaram por viver, os amores que nem chegaram a acontecer ou aqueles que deixamos extinguir de forma leviana, são mesmo poucas as pessoas que esbarram connosco e descobrem em nós algo de diferente, de especial.

É que a janela de oportunidade começa tarde e para a maioria acaba cedo demais ou nem chega a abrir-se de par em par. É assim que muita gente acaba por se instalar numa relação morna mas duradoura ou opta pela solidão. É o azar de aparecer sempre a pessoa errada ou nem chegar a surgir alguém digno de nos merecer o amor que queremos oferecer e receber em troca.

São poucas as pessoas capazes de nos acelerarem o coração, de nos prenderem a atenção como focos de luz no meio de uma madrugada sem luar.

 

Contudo, as pessoas, todos nós, acabam por não agarrar as oportunidades que surgem. Deixamo-las escapar por entre os dedos no meio do fino pó de um capricho ou de uma birra qualquer, como se não fizesse falta um amor quando é possível substituí-lo, em teoria, por imensas e excitantes presenças que só trazem o que uma relação oferece de melhor. Tudo menos o amor, claro, mas esse já o assumimos dispensável quando dele abdicamos por não querermos ou não sabermos como lutar.

Ou apenas porque desaprendemos de amar, também é capaz...

 

E nem quando fazemos as tais contas percebemos a dimensão da falta que essa emoção nos faz.

publicado por shark às 16:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Quarta-feira, 26.05.10

POIS, É A MATURIDADE E ASSIM...

Tenho saudades do tempo em que tudo acontecia, como que por magia, quando tinha mesmo que ser. Obstáculos e contrariedades ultrapassados, reduzidos a pó, sempre que se tornava necessário, indispensável, um milagre a acontecer.

 

Só quando somos muito jovens ou, depois de adultos, muito apaixonados conseguimos mover montanhas. Ou pelo menos assim parece, quando nos confrontamos com os sinais da resignação dos outros e da nossa também, quando nos apercebemos que a partir de certa altura já nem lutamos contra aquilo que nos possa limitar de alguma forma a felicidade que achamos sempre merecida. Passamos pela vida mas ela passa-nos por cima, cilindra aos poucos a resistência, o entusiasmo, a ousadia até.

E assim acabamos por perceber o que é afinal isso de envelhecer, de perdermos a combatividade de outrora, a força da paixão pelas coisas, pelos momentos, pelas pessoas, diminuída ao ponto de já nem sentirmos que vale a pena protestar mas apenas aceitar como factos consumados os azares ou as trocas de voltas que antes atacávamos com o desespero de quem não abdica das oportunidades tão raras de ser feliz com algo ou alguém.

 

Baixamos os braços, ainda que o reneguemos com meia dúzia de exemplos gastos pelo tempo até darmos conta de que abraçamos sem hesitar os pretextos que nos permitam sentar o rabo na preguiça e no conformismo que nos defendem das reacções de quem já nem tenta disfarçar a perda do brilho no olhar ou das consequências de insistirmos na crença de que é sempre possível ir mais além seja no que for, contra ventos e marés.

 

Metemos as mãos pelos pés nas tentativas atabalhoadas de explicações alternativas para o fenómeno porque queremos adiar a resignação. Mas acabamos por seguir adiante, com um encolher de ombros ou o engolir em seco que traduzem precisamente a aceitação passiva que afinal escolhemos para nos poupar e aos outros à batalha permanente por coisas que tínhamos como garantidas mas o tempo se encarrega de desmentir, depois de acabar de demolir quaisquer veleidades que a coragem ou a vontade ou outra cena pudessem, noutro tempo, alimentar.

 

Sim, acabamos por desistir.

E quando o percebemos, quando o sentimos na pele, por norma é quase sempre tarde demais.

publicado por shark às 19:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

Postas mais frescas

Para cuscar

2017:

 J F M A M J J A S O N D

2016:

 J F M A M J J A S O N D

2015:

 J F M A M J J A S O N D

2014:

 J F M A M J J A S O N D

2013:

 J F M A M J J A S O N D

2012:

 J F M A M J J A S O N D

2011:

 J F M A M J J A S O N D

2010:

 J F M A M J J A S O N D

2009:

 J F M A M J J A S O N D

2008:

 J F M A M J J A S O N D

2007:

 J F M A M J J A S O N D

2006:

 J F M A M J J A S O N D

2005:

 J F M A M J J A S O N D

2004:

 J F M A M J J A S O N D

Tags

A verdade inconveniente

Já lá estão?

Berço de Ouro

BERÇO DE OURO

blogs SAPO