Terça-feira, 20.09.16

Um velho incontinente a morrer sufocado por detrás das janelas fechadas

No momento em que escrevo estas linhas acabo de saber que começaram a construir mais um muro europeu, desta vez em Calais. Na fronteira entre duas antigas potências coloniais das várias que exploraram pessoas e recursos por todo o planeta, ao longo de séculos.

Ambas as nações, por coincidência ou não, estão directa ou indirectamente envolvidas nos acontecimentos que estiveram na origem do problema que decidiram emparedar, seguindo o exemplo de alguns países mais próximos dos locais de desembarque e de regimes extremistas tão desprezíveis como os que provocaram o último grande conflito europeu e mundial.

 

Toda a argumentação a que tive acesso até agora não justifica senão a realidade com que nos confrontamos: parte do Velho Continente está a mergulhar de novo nas mesmas políticas odiosas que quase o destruíram por completo num passado tão recente que ainda há gente viva para o contar na primeira pessoa.

O pretexto dos refugiados, perfeito para alimentar a trumpização europeia, surgiu em cena não como uma oportunidade para os europeus acertarem contas com o lado menos bonito da sua história, mas como um bode expiatório excelente para prolongar a negação da agonia dos sistemas democráticos ocidentais à mercê da crise financeira e social que nos atormenta.

Em vez de a Europa abraçar os valores de que tanto nos orgulhamos, acolhendo gente em aflição, estamos, a reboque de uma UE desorientada e em desmembramento, envolvidos na escrita de uma das suas páginas mais tristes.

A construção de muros, imbecil à partida, não é uma solução mas sim um tiro no pé daquilo que apregoamos representar. Nós, os bons da fita, os ocidentais que lutam para salvar o mundo do fundamentalismo, estamos a construir muros para impedir o acesso das suas maiores vítimas à respectiva salvação.

Muros. Com tudo o que representam para a Europa em particular, são, sempre serão, símbolos de um mal que aprendemos a identificar nessa condição. São ícones de tudo quanto os nossos avós juraram impossível de repetir nestas terras arrogantes e sobranceiras, depois de vencerem os bons, também à custa do sacrifício e da coragem dos antepassados dos maus como os tratamos agora e que lutaram ao nosso lado contra a ameaça nazi. São uma vergonha pelo que representam de negação de tudo aquilo que nos fez sonhar com uma federação europeia, pois muitos cidadãos europeus não se identificam com este acumular de pessoas nas fronteiras em condições miseráveis e ainda menos com este bater-lhes com a porta na cara.

Notem que não precisei até este ponto do texto de referir as questões religiosas que fundamentalistas dos dois credos se esforçam por enfatizar. Nem o islamismo professado pela esmagadora maioria dos refugiados, nem a cristandade de fachada dos que são cúmplices por omissão deste virar a cara a quem precisa.

E não precisei porque se trata de uma falácia. Fossem cristãos os refugiados e ficariam do lado de lá da vedação na mesma, por serem pobres, por serem muitos, por não fazerem parte deste eldorado que vamos destruir começando pelos alicerces, renegando a nossa cultura e a nossa forma de entendermos o mundo e entregando o poder às bestas incapazes de vislumbrarem um colapso associado a esta forma nojenta de proceder que nos dividirá, que arrasará a hipótese de um colectivo com base nas afinidades que os extremistas e os cobardes renegam por detrás dos seus paredões farpados.

A União Europeia é, neste momento da história, uma farsa. As divisões entre membros são cada vez mais óbvias e o Brexit é apenas um dos seus prenúncios, com tudo o que isso implica.

E os muros que agora permitimos erigidos no seu interior servirão, mais cedo ou mais tarde, para garantirem essa mesma separação.

publicado por shark às 22:20 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 21.08.16

A posta medalhada

Surpreende-me o tom exaltado que, na maioria dos casos, suscita a minha mania de considerar um fracasso a não obtenção de uma medalha por parte de atletas que, alguns deles legitimados pelos resultados já obtidos, se afirmaram candidatos às mesmas.

Dessa exaltação destaco os pressupostos de que quem está de fora não tem o direito de criticar, pressuposto bizarro,  o de que quem critica não entende o mérito dos atletas e o de que, por critérios que não as medalhas, temos a segunda melhor participação de sempre nas Olimpíadas.

Desmontando a coisa: qualquer atleta, seja de um país como a China ou de um como a Etiópia, tem igual mérito por ter conseguido um objectivo só ao alcance de uma escassa percentagem de seres humanos. Depois podemos ou não enfatizar as condições que lhes foram dadas para lograrem um mesmo propósito. Mas isso já são detalhes, neste contexto. Eu sei que seria incapaz de obter tal desígnio, tal como presumo que alguns dos que obtive, embora inexpressivos por comparação, não estariam ao alcance de alguns atletas. Soa irrelevante, esta comparação, e é. Mas é o que está na base da argumentação para me descredibilizarem até no direito à crítica.

Por outro lado, ao longo do tempo que antecede as Olimpíadas, toda a gente sem excepção concentra a atenção num objectivo que é tido como o mais importante no valorizar da participação colectiva nesta competição: a obtenção de medalhas. Em Olimpíadas do passado ninguém se preocupou com as participações honrosas dos não ganhadores mas apenas com a figura de quem regressou medalhado/a. E isso nada tem de errado, precisamente por existirem três realidades que distingo na Olimpíadas: a de lograr a qualificação – nesta todos são ganhadores e já não precisam provar nada seja a quem for -, a de dignificar o país e transcender as melhores marcas pessoais e a de vencer competições ou, neste caso, pelo menos atingir o pódio.

Porque me parece importante concentrar nas medalhas o balanço da nossa presença nestes Jogos Olímpicos? Porque sempre foi, de facto, o instrumento de “medição” do sucesso ou do insucesso das delegações olímpicas na percepção de quem interessa (o grande público e os media). Nesta perspectiva, todos quantos por um lado veneram o cumprimento apenas parcial dos objectivos propostos pelos próprios atletas e por outro criticam a falta de condições que lhes são dadas para conseguirem ir mais além estão a fazer o jogo do Estado se este quiser manter tudo como está. Se temos, aos olhos da multidão e dos critérios que não as medalhas, a segunda melhor participação de sempre, queixam-se de quê?

E este último aspecto deixa-nos conversados quanto ao argumento de que quem não fez nada ao longo de quatro anos para lutar por melhores condições não pode exigir agora medalhas.

Nunca as exigi, mas alguém as prometeu.

 E daqui a quatro anos conversamos outra vez.

publicado por shark às 16:37 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 05.08.16

Pela porta pequena

Li algures que a moral é o conjunto de regras aplicadas no quotidiano e usadas continuamente por cada cidadão. Essas regras orientam cada indivíduo, norteando as suas ações e os seus julgamentos sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau. E a ética será o resultado de uma reflexão acerca da moral.

Sempre entendi o exercício do poder como uma actividade na qual a ética deve ser prioritária, no sentido de certificar acima de qualquer suspeita a prática de uma moral intocável na sua definição de prioridades. Ou seja, uma função ao alcance de poucos/as.

Quando está em causa a gestão dos destinos de um país ou a representação dos seus cidadãos na defesa de uma causa comum que é, aos meus olhos, sagrada, qualquer violação da moral vigente, qualquer desvio ao eticamente aceitável é um acto de traição. Ao país e aos princípios que devem prevalecer nas decisões de quem o governa.

Vejo como uma desonra a leviandade dos que ocupam o poder quando, escudados na impunidade garantida pelos próprios com legislação feita à medida, se deixam tentar pelas ligações perigosas, pelas influências manhosas de outros poderes perante os quais pela cumplicidade se tornam reféns. Não há excepções, não há perdões, há o imperativo moral de preservar uma Pátria da falta de carácter, de Sentido de Estado ou apenas da imaturidade dos seus decisores.

Existe apenas um caminho a seguir quando um responsável político se vê exposto na imoralidade e ainda que protegido das consequências legais pelo atrás referido: a demissão do cargo que ocupa a fim de evitar o contágio aos restantes e para servir de exemplo aos seus sucessores.

Não há paninhos quentes capazes de devolverem a credibilidade perdida por via de um acto ou omissão potencialmente lesivos dos interesses do Estado e, por inerência, de todos os cidadãos. E à perda da credibilidade, nem que apenas pela ingenuidade admitida e comprovada, está associada a perda do respeito indispensável a qualquer liderança.

Enquanto os responsáveis políticos não interiorizarem a moral a que estão obrigados no exercer de cargos com tamanha responsabilidade e que deveria orgulha-los em vez de nos envergonhar, não há códigos ou mesmo leis que as imponham nos bastidores onde acontece, ás escondidas, aquilo que nem chega ao conhecimento público até ser tarde demais para evitar o prejuízo.

E o maior deles, quando não se aplica pulso de ferro às escassas situações que caem no domínio público, é a própria democracia quem o suporta.

publicado por shark às 18:44 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 08.06.13

A penas sem perdão

Tenho pena de pessoas inteligentes que em algum ponto do caminho optaram ou foram forçadas a render a consciência perante uma circunstância qualquer.

Lamento acima de tudo a condição dessas pessoas se essa inteligência é aplicada à memória e, pior ainda, sob a bitola da lucidez. Percebo-lhes o desconforto, a permanente inquietação, na forma como partilham sentimentos de admiração (por outras pessoas inteligentes que jamais se permitiram reféns) com um impulso instintivo para a inveja ou mesmo para o desdém.

 

A inteligência permite analisar os actos ou decisões e respectivas consequências sobre os outros e sobre nós próprios. É inevitável, porquanto cruel, que uma pessoa inteligente se veja forçada a contornar a consciência da sua cedência mais ou menos indigna a propósitos e objectivos cuja obtenção depende da violação de princípios universais. A honra, a dignidade, coisas assim. Perdidas para sempre no contexto de uma escolha com a qual terão sempre que viver.

Terão acima de tudo que maquilhar essas vergonhas, essa inevitabilidade de pisar o risco como precisam de a acreditar, com pretextos inventados ou apenas enfatizados que a inteligência se esforça por processar mas sem conseguir que se desmintam os factos na origem. Terão que mentir, ou pelo menos omitir, aos outros como a si mesmos, a parte da realidade que a memória sempre guarda e a lucidez se encarrega de despir diante do que reste de integridade na pessoa inteligente que abdicou de uma parte importante de si.

 

O mundo caminha num sentido mais favorável para estas pessoas de que vos falo, vivemos um primado da futilidade, da estupidificação, do renegar de valores que nos foram incutidos pelas gerações anteriores mas que agora atrapalham o caminho dos que nos vendem como bem sucedidos, como ganhadores.

Contudo, milionários, famosos ou qualquer outro tipo de gente inteligente capaz de se destacar da multidão precisam da felicidade e essa depende sobremaneira da paz interior que, temos pena, não existe quando a inteligência se evade da sua redoma de sorrisos artificiais e a pessoa recorda outros tempos em que se sonhava capaz de chegar lá com base no mérito, no talento, na capacidade que todos precisamos reconhecer nos feitos alcançados e essa não se compadece das subidas a pulso com a ajuda batoteira de um esquema ou de uma jogada oportunista, da corrupção da verdade dos factos com a anestesia de uma bebedeira de poder. Coisas assim.

 

A vaidade parece nunca bastar a essas pessoas inteligentes que simulam a felicidade com uma máscara arrogante de cidadão superior. A vitória da esperteza, da habilidade para a manipulação, da vontade indómita de chegar mais longe sem olhar onde (quem) pisam os pés, nada disso parece lograr, excepto nos mais pobres de espírito, uma substituição lucrativa dos princípios por meios indecentes para se atingir um qualquer fim.

A inteligência, nem que seja a dos outros mais a sua coragem para a denúncia de embustes, de farsas, de desonestidade intelectual, possuem-na também os que se vêem obrigados a defender o impossível, a encobrir num invólucro de fantasia a história de vida cujo julgamento todos fazemos no balanço do que uma existência já se fez. E é nesse esforço que se perdem aquilo a que chamamos de almas, a essência do que somos e a ilusão do que gostaríamos de ser enquanto pessoas.

 

A cedência a tentações ligadas à influência sobre as coisas e sobre os outros, aos jogos de poder egoísta, faz parte do a qualquer preço de que todos ouvimos falar e sabemos de que se trata. Faz parte de uma troca em que muito se ganha mas sempre contrapõe algo a perder e a balança não é imutável, o tal balanço depende muito de como a consciência desperta em função de diversos factores e dos dramas eventualmente associados às acções, as más, que se praticam.

E quando esse momento não ocorre, denunciando uma natureza intrínseca desprovida de escrúpulos, de mecanismos de defesa contra a cegueira na ambição temos pena, mas é imperioso manter essas pessoas, mesmo que inteligentes, tão longe quanto possível dos centros decisores mais determinantes.

 

Acima de tudo de qualquer proximidade com a governação de um país.

publicado por shark às 12:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quarta-feira, 29.05.13

E o brio que está?

Leio quase todos os dias desabafos por parte de quem teme, com alguma razão, o fim dos jornais na sua versão em papel. Os mais pessimistas estendem esse receio a qualquer versão, dada a aparente incapacidade de muitas publicações lograrem a sua viabilização financeira em suporte digital.

Se muitos apontam o dedo a erros de gestão, à falta de pedalada dos decisores para acompanharem a passada do progresso, outros optam por responsabilizarem os próprios jornalistas pela sua inépcia em marcarem a diferença, no rigor e na deontologia, relativamente à concorrência “desleal” da informação em bruto que a internet disponibiliza e o público parece cada vez mais privilegiar em detrimento dos media tradicionais.

 

A questão tem sido debatida um pouco por todo o Mundo e não é, de todo, irrelevante para o cidadão comum. Qualquer pessoa com consciência do papel da Comunicação Social na própria construção de um sistema democrático digno desse nome percebe o que está em causa nesta progressiva degradação das condições em que o Jornalismo se faz.

A queda parece, em muitos aspectos, irreversível por estarmos perante uma típica pescadinha-de-rabo-na-boca: com os órgãos de CS na mão de magnatas e de empórios, o critério economicista dita as regras e à diminuição das tiragens sucedem-se os despedimentos e a degradação ao nível do próprio recrutamento por via da redução das contrapartidas salariais e outras. Isso sente-se na qualidade do que é publicado e ao empobrecimento dos conteúdos corresponde a perda de ainda mais leitores para a oferta alternativa que a Blogosfera, por exemplo, constitui.

 

Uma das reacções instintivas de parte dos jornalistas directa ou indirectamente afectados pelo advento do suporte digital e do acesso à informação sem regras que a internet proporciona foi a tentativa de descrédito indiscriminado dessa alternativa. Nessa perspectiva, seria o meio a separar as águas e não o talento e/ou a competência dos seus protagonistas.

Contudo, a manifesta falta de brio e de critério em muito do que hoje é publicado em jornais e revistas (ou mesmo na tv, embora esse seja outro campeonato) acaba por tornar óbvia, por comparação, a maior qualidade de alguns conteúdos disponibilizados de forma gratuita em páginas do facebook ou nos blogues.

Esta é a armadilha da arrogância que afasta alguns profissionais da realidade nua e crua: só fazendo melhor conseguem marcar a diferença.

 

Porém, a questão da credibilidade que um órgão de CS deve assegurar também entra nas cogitações e essa não é da exclusiva responsabilidade dos jornalistas. Quem pretende lucrar com as empresas do ramo tem a obrigação de garantir uma gestão de conteúdos criteriosa e livre de condicionalismos e de pressões várias, de tudo quanto possa afastar os profissionais da comunicação das funções que lhes competem, sendo esse o único caminho para salvaguardar o interesse de leitores/assinantes e, por inerência, dos anunciantes a quem os números influenciam decisões.

 

Sem a devida atenção a estes aspectos o fim estará de facto garantido e poucos poderão descartar para o acaso aquilo que em boa medida depende apenas da rejeição de um factor chamado negligência.

 

publicado por shark às 12:37 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Terça-feira, 23.10.12

A POSTA QUE O FUTURO ESTÁ A RESOLVER O PROBLEMA

Nunca achei muita piada à mania de impor quotas de participação de determinados grupos seja no que for. Por norma são as mulheres as supostas beneficiadas com essas medidas alegadamente proteccionistas, mas eu não consigo vislumbrar a vantagem competitiva obtida por via desta imposição de um número mínimo de pipis, quaisquer pipis, nos centros decisores onde as pilas predominam.

 

A boa intenção é óbvia e não a contesto nesse plano, é sempre bonito a sociedade preocupar-se com os seus desequilíbrios.

Todavia, questiono os moldes. Impor quotas soa mal logo na parte do impor, como se o grupo beneficiado só pudesse safar-se à força e não pelo reconhecimento do seu mérito.

Se a ideia é dar cabo do humor aos machistas, acho que peca pela base: eles vão sempre olhar para as quotas como um favor às coitadinhas das gajas. E elas vão sempre ter que provar a sua capacidade sob maior escrutínio do que aquele a que é submetido um colega do mesmo ofício ou função.

É aqui que a coisa me parece desvirtuar a tal boa intenção, pois a descriminação pela positiva acarreta riscos como qualquer outra forma de descriminação. Nem que seja pela janela de oportunidade para a inferiorização de quem precise de tais benesses.

 

A igualdade entre géneros, como entre raças ou credos, começa em casa com a educação que é dada e com os exemplos que se mostram para os mais novos seguirem.

E no caso em apreço, tendo em conta os factos que os números traduzem num tempo em que a divisão de tarefas se consolida e a igualdade de circunstâncias se acentua, qualquer homem que se oponha hoje às quotas mínimas para mulheres vai provavelmente evitar que no futuro estas lhe sejam aplicadas.

publicado por shark às 15:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Domingo, 23.09.12

A POSTA QUE BLASFÉMIA É INVOCAR O NOME DE QUALQUER DELES EM VÃO

No meu quotidiano não há espaço para Maomé e por isso tenho que confessar o meu profundo estar-me nas tintas para esse, como para outros profetas. Compreendo a importância de um profeta, vivo num país forrado a crucifixos, mas para fazer humor nem me passaria pela cabeça recorrer a tais figuras, tanto pela falta de piada que por norma esse tipo de estatuto implica nas pessoas e nos profetas como pelo respeito que me merecem as crenças dos outros. E também porque o meu conceito de bom senso não abarca os picanços a extremistas, fanáticos e afins.

 

Contudo, e porque o Marco do Bitaites me informou acerca de mais um sinal de insanidade por parte de um governante de um país tão aliado dos EUA como o CDS do PSD na actual coligação, quando as coisas chegam ao ponto de envolver ataques a embaixadas, assassinatos encomendados e outras formas de intimidação a pessoa sente-se algo forçada a tomar partidos. Nem que seja para não dar abébias à estratégia do medo tão necessária à imagem de força por parte dos gabirus que aproveitam qualquer pretexto para agitarem a turba.

Se o que está em causa é um choque ou mesmo uma guerra de civilizações, mesmo estando a minha a rebentar pelas costuras em variadíssimos aspectos basta-me uma vista de olhos rápida sobre a alternativa e o meu lado da barricada fica definido com enorme clareza.

 

Sou cristão, mas a minha proximidade ao lado mais praticante da coisa é nula (se exceptuarmos, uns casamentos, uns baptizados e até um ou outro funeral) e a minha ligação ao divino, o nosso ou o deles, jamais bastaria para alimentar o meu empenho em qualquer tipo de cruzada. Até porque não consigo mesmo distinguir as pessoas em função das suas crenças religiosas, excepto quando me deparo com as diferenças mais óbvias das suas opções de vida relativamente às minhas e num contexto de me tentarem impor regras que não aceito nem reconheço nessa condição.

É uma mania comum a muçulmanos e a cristãos, embora estes últimos já não tenham reunidas as condições para a evangelização à bruta nas masmorras e um lote significativo dos primeiros tentem precisamente reuni-las.

 

Mas estas caldeiradas só têm de religioso o estandarte preferido dos fundamentalistas islâmicos, o nosso Deus não é chamado para o assunto mas sim o líder deste mundo a Este do paraíso (que é para onde vão os mártires deles) mais os judeus em geral e os israelitas em particular.

Nós, ocidentais, não somos todos sunitas ou xiitas. Mas como até bebemos álcool e comemos porco à fartazana e deixamos as miúdas descascarem-se à grande, para além de permitirmos (mesmo sem achar piada) que os criativos debochem com os temas tabu para eles, os radicais aproveitam para juntar tudo no mesmo ramalhete para poderem fazer-se explodir em Madrid, em Londres ou na Pampilhosa e isso constituir uma grande vitória contra os infiéis americanos na mesma.

 

Afinal não são os deuses que devem estar loucos...

 

Aquilo é gente chanfrada, nisso acho que até os nascidos em terras muçulmanas mas tão agnósticos como eu concordam. Se os valores ocidentais, ou os excessos que eles permitem, começam a servir de pretexto para crimes (outra designação é eufemismo) praticados ou encorajados em nome de Alá no intuito de nos levarem a, por temor, aceitarmos que definam por nós os limites da liberdade de expressão ou outras temos o caldo entornado. Sejam Alá, Buda ou mesmo o nosso, não há pão para malucos mesmo que isso implique termos que passar revista diária às carruagens do metro ou aceitarmos que os nossos países permaneçam aliados militares de quem possa travar de alguma forma tal ameaça, sem olhar aos danos colaterais (como aliás é apanágio dos terroristas e seus mandantes).

 

É esse o erro de palmatória dos instigadores destas revoltas populares anti caricaturas ou anti filmes ou anti o raio que os parta a todos: os actos concretizados e as ameaças veladas têm um efeito na opinião pública ocidental que é contrário aos interesses dos próprios, pois reagimos mal à coação e abrimos mais a pestana aos verdadeiros propósitos dos que tentam dividir as tendências, aproveitando o pluralismo que cultivamos e a liberdade que o fomenta, para reinarem as trevas medievais.

Gostamos dos tais valores, mesmo com as suas fraquezas, quem não gosta que não consuma e que nos desampare a loja em matéria de obscurantismo, de intimidação e de censura.

Ninguém pode negar que, embora de inspiração cristã, já demos quanto baste para esse triste peditório...

publicado por shark às 01:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quarta-feira, 19.09.12

A POSTA NA SEPARAÇÃO DAS ÁGUAS

Quando o Fernando Nobre entendeu embarcar no suicídio da sua imagem, afundando-se como se viu nas tormentas eleitorais, certamente a AMI comeu por tabela.

Muitas instituições acabam coladas à figura dos seus líderes mais empenhados, mais competentes ou simplesmente mais carismáticos e acabam dependentes do desempenho pessoal dessas figuras de proa que dão rosto à missão que visam cumprir. É algo de compreensível, justo ou não, até porque quando o rosto da causa está na mó de cima isso acarreta resultados positivos directos e mensuráveis, o que implica a aceitação tácita do reverso da medalha.

 

Tendo isso em mente, Isabel Jonet também deveria ter ponderado previamente as suas declarações ao DN a propósito do Estado Social. E ainda que dessa ponderação não resultasse uma coerente (com o cargo) mudança de opinião, teria sido boa ideia poupar o Banco Alimentar às consequências de uma sinceridade política que fica bem a qualquer cidadão mas, como o outro exemplo mais acima tão bem ilustra, o preço a pagar pelo usufruto de um direito de liberdade de expressão e de opinião que ninguém pode limitar é o de lesarem seriamente os interesses das instituições que os notabilizam.

 

O contrário também pode acontecer e não raras vezes figuras públicas deixam-se apanhar por esquemas, por organizações e por pessoas que julgam bem intencionadas e depois descobrem tratar-se de embusteiros. Acontece e pode manchar a popularidade de quem dela mais precisa.

Por isso todos os cuidados são poucos na gestão das intervenções públicas por parte de quem possui a fama (e o proveito) e a influência capazes de fazerem a diferença na divulgação de uma causa ou de um projecto de índole humanitária, da mesma forma que devem usar de extrema prudência na selecção das causas pelas quais dão a cara.

 

Isabel Jonet tem feito um trabalho notável no BA. Tem desempenhado a sua função com tamanho sucesso e mestria que os resultados estão à vista, com reconhecimento internacional incluído, ao ponto de ser ela o rosto da instituição.

Claro que isso não invalida que eu discorde imenso das suas posições acerca do Estado Social e que até as ache contraditórias relativamente ao cariz da causa que abraçou. Mas isso são outros quinhentos: existe a Isabel Jonet do BA e existe a Isabel Jonet de si mesma, pessoa com opiniões, com inclinações políticas, e sem dúvida com todo o direito a expressá-las.

Por isso não acho justa ou sequer inteligente a reacção de quem já afirma nas redes sociais a sua intenção de suspender a generosidade para com o Banco Alimentar como retaliação pelas opiniões da respectiva responsável.

E porquê?

 

Porque se aceitarmos que pessoas (que ocupam cargos de forma sempre transitória) possam de alguma forma denegrir e ou mesmo destruir uma qualquer causa ou instituição a que estejam ligadas vou querer que me expliquem o que vamos fazer em relação à instituição Parlamento, à instituição Governo e mesmo à instituição Presidência da República depois de por lá terem passado os que sabemos…

publicado por shark às 15:18 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 15.09.12

AS MAMAS DA PRINCESA KATE

Há malta que acha piada, ver partes desnudas do corpo de pessoas famosas. Comem com os olhos e não se ralam com quaisquer consequências sobre as pessoas visadas, as pessoas como atracções de circo para os palhaços de uma multidão ávida de segredos e de imagens que sabem proibidas ou não as valorizariam desta forma ignóbil.

A princesa Kate casou com o filho de uma figura pública que morreu a fugir aos que tentavam violar a sua privacidade para obterem lucro à conta de uma interpretação idiota do que liberdade de Imprensa significa. Ninguém pode adivinhar as repercussões de um episódio destes na estrutura emocional de uma pessoa, figura pública ou não, e cada um/a dos que compram essas bodegas a que chama revistas é culpado/a pela manutenção destes abusos, não podendo olhar para o lado como se nada tivesse a ver.

 

Eu gosto de mamas, imenso. Desde que lhes descobri o encanto tenho apreciado com deleite as que a minha vista consegue alcançar. Mas vejo as de quem gosta de as mostrar, a mim, em privado, ou ao público em geral. E bastam-me essas, pois reconheço a qualquer pessoa, famosa ou não, o privilégio de tomar decisões acerca do seu corpo, da sua vida, da sua intimidade a que tem direito como qualquer abutre com uma máquina fotográfica que ganhe a vida dessa forma desprezível, tentando ultrapassar todas as barreiras que lhes tentem impor a fim de que percebam a verdadeira intenção da pessoa visada.

Essa intenção, preservar a intimidade para os mais íntimos, é um direito para mim mais legítimo do que aquele de que se servem os canalhas, paparazzi e quem os remunera, para justificarem os seus excessos.

 

Só existem duas formas de acabar com esta ameaça à privacidade das pessoas: endurecimento radical a nível legislativo, a fim de dissuadir os oportunistas que lucram com estas indignidades, ou um boicote por parte dos consumidores deste material obsceno na motivação.

Se a primeira hipótese depende de factores que já todos percebemos estarem associados acima de tudo às ligações perigosas entre o dinheiro e todos os outros poderes, a segunda só requer um pingo de vergonha nas trombas de quem acha piada a pousar a vista em algo que nunca estaria ao alcance das suas mãos tão nojentas como o carácter incapaz de distinguir certo ou errado, acéfalos, merdosos, gente pequenina que só serve para alimentar os que montam as arenas onde sacrificam seja quem for para gáudio da turba de mirones cretinos.

 

É assim que vejo as mamas da princesa Kate, como a imagem de mais uma vítima de uma das características que mais me enojam na maioria dos meus semelhantes que renego como iguais: a capacidade de ignorarem (na maioria dos casos, a ignorância é inata) ou de justificarem perante si próprios esse desejo mesquinho de absorver tudo aquilo que não é para ver mas uma corja de sanguessugas disponibiliza na mesma a um preço acessível ao mais miserável dos palermas.

Sim, gosto imenso de mamas. Por acaso até me fascinam mais os traseiros, mas qualquer porção de um corpo feminino é um retalho de paraíso e a respectiva visão é para mim um prazer.

Mas é fácil distinguir, mesmo numa tola sem qualquer frequência escolar, o certo e o errado, a oferta generosa de um peito ao nosso olhar e o buraco de fechadura por onde podemos espreitar como cobardes aquilo que sabemos instintivamente não estar ao nosso alcance ou não precisaríamos dessa figurinha triste para usufruir.

 

É assim que me fazem sentir todos os asquerosos que se babam como ogres sobre as fotos proibidas que valorizam com a compra dos pasquins que as publicam porque qualquer outra publicação o faria.

E só o faria porque não escasseiam as bestas ansiosas, consumidores de qualquer trampa mediática, para as enriquecerem como prémio pela sua generosidade com aquilo que nunca lhes pertenceu.

publicado por shark às 15:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sexta-feira, 14.09.12

A POSTA NA PRUDÊNCIA DE ACTIVISTA DE SOFÁ

Perante a confrangedora falta de alternativas no panorama eleitoral, entre os partidos da coligação que nos governa, um maior partido da oposição com o menor líder da mesma e conotado com o descarrilar das contas, um PC à antiga portuguesa a quem só falta a clandestinidade para estar verdadeiramente na sua praia (a praia de há umas décadas valentes atrás) e um syriza light com um líder de saída e dois por entrar, a pessoa acumula a vontade de gritar bem alto o protesto com a impotência inerente à ausência de propostas alternativas credíveis.

E é assim que se fica sem saber o que fazer perante uma manif como a de amanhã.

 

O dilema é óbvio: se não faltam pretextos para irmos para a rua gritar, sobejam as ausências de soluções, de hipóteses alternativas ao que se quer combater. A estratégia de ir derrubando governos e depois logo se vê é arriscada, porque a instabilidade política é terreno fértil para o caos, além de ser inócua em termos de resultados práticos.

O protesto é necessário e entendi o impulso dos que contribuíram nas ruas para o derrube de Sócrates. Contudo, comparando uma e outra iniciativas, se entendo ainda melhor o impulso dos promotores do Que Se Lixe a Troika compreendo ainda menos os seus objectivos e ambições.

 

Uma manif é sempre um sinal de pujança democrática, se há povo nas ruas é porque existe liberdade e existe força para lutar contra o que esteja mal e precise mudar, sobretudo quanto se trate de protestos pacíficos e com objectivos concretos em vista e alternativas para propor.

É neste último aspecto que a porca torce o rabo, pois começam a tornar-se numa moda (correndo a passos largos para a vulgarização) as manifes cheias de gente com vontade de demitir alguém mas vazias de gente com vontade de fazer ou de propor algo de melhor.

Para mim a questão coloca-se de forma simples: temos que pagar o que devemos e nos termos que nos impuserem. A alternativa, mais abébia menos abébia da troika, resume-se ao abandono do Euro e depois logo se vê.

Não vejo seja quem for a sugerir a alternativa mais radical, o papão do fim da classe média confortável a acobardar tudo e todos por falta de, lá está, um programa concreto de salvação nacional em tais circunstâncias, a saída voluntária (ou não) do Euro com todas as consequências que isso iria acarretar.

 

Não querer sair mas sem saber como ficar

 

Mas se a saída do Euro implica o pandemónio instalado no dia imediatamente a seguir à ocorrência, a permanência parece caminhar para o mesmo resultado mas com uma agonia mais prolongada no tempo. E parece-me ser essa percepção das coisas que mais gente levará às ruas no dia 15, a de que estamos todos a penar para chegarmos todos a lado algum. Ainda assim, se ninguém faz peito com o orgulhosamente sós e pelintras, também não vejo quem seja capaz de encimar a manif com uma proposta alternativa (a que passa por continuarmos no Euro e por isso pagarmos as dívidas nos termos dos credores) que garanta aquilo que o actual Executivo parece não lograr com as suas opções.

Temos pois mais um levantamento popular contra os que lá estão sem que alguém se preocupe com quem lá vamos meter depois, ou mesmo o Presidente da República por nós, caso a coisa até resulte na demissão do Governo.

 

É aqui que a lógica me trai na vontade, mesmo sem acesso ao Facebook onde agora tudo parece acontecer, de ajudar a engrossar fileiras. Não me revejo em iniciativas capazes de provocarem um efeito que ninguém pelo menos se afirme capaz de controlar, em climas de instabilidade política que ainda fragilizam mais as nações em aflição, como os exemplos grego e italiano tão bem ilustram.

Vejo imensa vontade de desfazer coisas, governos e assim. Mas não noto indícios de alguém saber como recompor as mesmas coisas depois.

 

E as lições da História, tão ignoradas, confirmam que são sempre uma péssima ideia os becos sem saída políticos quando se circula nas ruas da amargura financeira e social.

publicado por shark às 17:33 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Segunda-feira, 04.06.12

(S)EM SENTIDO

Sem poder assumir-me pacifista no sentido restrito do termo, consigo ainda assim odiar qualquer guerra. Não existe pretexto válido para acontecer uma, embora depois de iniciada por uma parte seja inevitável o mesmo recurso pela outra, a legítima defesa que é reconhecida aos indivíduos como às nações.

Odeio tanto a guerra como desprezo quem dirige esse ódio a quem as combate, ignorantes do facto de a maioria das guerras serem provocadas pelos políticos e não pelos generais.

Os militares, sobretudo os que pisaram um campo de batalha, são pessoas cuja coragem, espírito de sacrifício e abnegação merecem todo o respeito daqueles a quem salvaguardam desse cenário de terror, oferecendo a própria vida na defesa de quem não a pode assegurar.

 

Num combate, onde quer que ele aconteça, essas pessoas fardadas são quase sempre obrigadas a experimentarem em simultâneo a maioria das emoções mais fortes que conhecemos, levadas ao extremo que o instinto de sobrevivência induz.

O medo, paradoxo, só serve quando devidamente encaminhado para a prudência que sob fogo pode fazer a diferença entre matar ou morrer.

A coragem pode até implicar o risco excessivo, pois é sabido que os heróis acabam quase sempre tombados na sequência de um gesto típico de uma pessoa de bem.

Essa é uma das matérias odiosas que uma guerra tem, os melhores são os mais vulneráveis porque as balas inimigas não respeitam valores.

 

Em nenhum conflito militar alguém pode no fim sentir-se vencedor, tamanha a perda sofrida por cada parte envolvida nessa solução radical. Ninguém ouse ambicionar uma guerra sem vítimas, com uniforme ou não, e a simples existência destas perdas já constitui uma derrota para quem as enfrentou, qualquer que seja o desfecho no tempo e na conjuntura em que ele se verificar.

O tempo pode apagar todas as cicatrizes de um campo de batalha onde ocorra a maior carnificina, da mesma forma que os ventos da História mudam repentinamente de direcção.

E um dia no futuro, o exército, o país, o bloco vitorioso de hoje poderá vestir a pele do derrotado sem ser disparada uma arma sequer, apenas na sequência de um processo de evolução que pode alterar de forma significativa os equilíbrios que sustentam, na prática, os benefícios obtidos a partir de uma vitória relativa em dado momento e em circunstâncias que podem ser alteradas em menos de uma geração.

 

Mas seja como for, muito acima dos sarilhos arranjados por políticos e diplomatas de mãos dadas com os poucos que entendem as guerras como um ganho pessoal e raramente as disputam onde deve ser, estão os soldados que no passado empunharam armas e no futuro, tudo indica, continuarão alerta à espera das ordens que lhes compete cumprir sem dúvidas ou hesitações.

Não existe para um guerreiro qualquer espaço de manobra para a indisciplina e uma ordem, por quão absurda, não é coisa passível de questionar quando existem outros homens dispostos a matar o pensador distraído ou o rebelde atrevido mais os camaradas de armas que dependem da execução perfeita de um plano, do cumprimento escrupuloso das regras de um jogo onde a parada é sempre a mais alta que se pode conceber.

A ideia é matar e não morrer e esse tipo de pressão não é identificável no conforto de um sofá a partir do qual é tão fácil criticar os que andam aos tiros quanto é exigível que se entenda primeiro o sacrifício em causa por parte dos que, como na nossa guerra ultramarina, a mais recente, arriscam uma vida estropiada ou perdida de vez.

 

A guerra é sempre uma estupidez e ninguém melhor para o afirmar do que quem nela participou, alguém que enfrentou horrores impensáveis, que viveu tormentos virtualmente impossíveis de esquecer. Um civil pode sentir-se traumatizado para a vida pelo momento em que atropelou um cão na estrada, por isso não é assim tão complicada a compreensão do que está em causa para quem escolhe ou é obrigado por ser apanhado por uma armadilha da política externa, uma mina que explodirá em primeira instância sob as botas daquelas e daqueles que enviamos para lutar sem perdão para os desertores.

 

A guerra é um palco de horrores cuja intensidade pode conduzir à insanidade dos menos capazes, dos menos preparados, dos mais sensíveis ao sofrimento de outros seres humanos que, no meio da refrega, podem ser os melhores amigos que o soldado conheceu e a quem jurou proteger, com a vida se o destino o quiser.

E por isso, ao meu ódio pela guerra sobrepõe-se o respeito e a admiração por todos quantos algum dia a tiveram (ou terão) de enfrentar.

Isso é algo de que no meu conjunto de valores e no reconhecimento dos que se exigem aos combatentes de qualquer tempo e em qualquer lugar jamais poderei abdicar.

publicado por shark às 22:33 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 07.08.11

A POSTA NAS DECISÕES MARGINAIS

Descobriram meia dúzia de armas, provavelmente pertencentes a um filho emigrado, em casa de uma sexagenária e o juiz entendeu aplicar-lhe prisão preventiva.

O autor confesso de andar a fotografar miúdas nuas entre os oito e os doze anos de idade, alunas da escola onde o bandalho era o porteiro, e que possivelmente terá abusado de algumas crianças foi igualmente apanhado e o juiz aplicou a prisão domiciliária.

 

Se a medida em causa é uma espécie de bitola do grau de gravidade da violação da lei e for consensual que é melhor estar preso na própria casa do que numa penitenciária qualquer é fácil perceber que para os tribunais é mais ameaçadora para a sociedade uma sexagenária com armas em casa, mesmo não sabendo sequer como usá-las, do que um badalhoco que não hesita em usar a sua, a função de porteiro numa escola, para se aproveitar de crianças no deleite bizarro de qualquer porco com sérias perturbações mentais.

Aqui parece-me existir uma dúvida no ar: ou a pedofilia não é uma doença e os bandalhos devem ser encarcerados, sem excepções, para protecção das crianças ou, antes pelo contrário, estamos perante um problema de saúde pública e a pessoa doente deve ser de imediato confinada a um hospital psiquiátrico.

Por outro lado existe também a dúvida acerca da regulação da balança que a Justiça deve simbolizar, pois o peso parece pender de forma sistemática para o lado oposto daquele que o senso comum da população aponta.

 

Não gosto da ideia de a minha vizinha do segundo ter o guarda-fatos atulhado de espingardas, admito. E gostaria que os agentes da autoridade lhe confiscassem tal mercadoria para segurança de todos, embora seja inadmissível para mim vê-la presa por guardar pertences de outrem, sobretudo de um filho a quem custa sempre dizer não e no caso concreto até pode estar em causa o instinto maternal de evitar complicações legais à sua cria.

Contudo, a ideia de ter um vizinho qualquer, pedófilo assumido, “aprisionado” na sua fracção do mesmo condomínio onde mora a minha filha é simplesmente insuportável e só fico a torcer para que se tal acontecer ninguém me identifique o canalha.

 

A opinião de um cidadão vale o que vale, mas esta é a minha.

A Justiça em Portugal parece estar a viver um período de desnorte que se reflecte na própria conduta pessoal de alguns juízes e de aspirantes à função mas se faz sentir de forma estrondosa nesta divergência crescente entre as decisões dos magistrados e a sensibilidade da população que ali representam.

E qualquer defensor do Estado de Direito não pode, a menos que se queira enganar a si próprio, fazer de conta que não sabe que ao desacerto e à brandura excessiva da Justiça acaba por corresponder um aumento exponencial da probabilidade de se multiplicarem os casos de justiça pelas próprias mãos que, mais do que pela sede de vingança, nascem pela necessidade de percepção de segurança para a qual as decisões estapafúrdias e desadequadas constituem uma das mais concretas ameaças.

 

publicado por shark às 19:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Quinta-feira, 04.08.11

A POSTA NO DIREITO DO CONSUMO (2)

Um conceito que se vulgarizou e ganhou novos contornos por via da sua aplicação corrente, amplamente divulgada na Comunicação Social pela sucessão de excessos cometidos em matéria de ligações perigosas, é o da promiscuidade.

Esta palavra tão em voga visa atribuir um cunho negativo a algo que embora generalizado não passa de uma prática daquelas que desvirtuam o funcionamento das pessoas e das instituições, podendo até minar a sua operacionalidade por lhe adulterarem a missão.

 

Quando o professor Mário Frota, indignado (também) pela confusão entre a associação de consumidores que lidera e uma outra organização alegadamente com os mesmos objectivos mas de génese empresarial, desabafa essa realidade bizarra a primeira coisa que me ocorre é o absurdo implícito em ser atribuído tanto destaque a uma empresa que escolheu os direitos do consumidor como mote para a sua obtenção de lucro e tão pouco a uma associação propriamente dita e com provas dadas naquilo que é o seu objectivo único.

O absurdo, de resto, abraça-se ao ridículo quando percebemos que faz tanto sentido ter uma empresa a zelar pelos direitos dos consumidores como termos uma associação de defesa do consumidor a representar os interesses de comerciantes ou de industriais.

 

É confusa, esta coisa da promiscuidade, precisamente pelo evidente contra senso destas misturas de narizes em matéria de tentações demoníacas que resultem destes pactos com o diabo da sede de poder ou de lucro (que é quase a mesma coisa).

Contudo, facilmente imaginamos o anjinho no gerente de uma empresa que defende os seus consumidores das restantes em rota de colisão com o diabinho que na sua consciência de gestor alerta para a receita extraordinária que uma simples omissão pode providenciar.

 

E é aí que percebemos a existência de um risco óbvio, o de prevalecer, nem que seja por uma questão de sobrevivência do projecto (para todos os efeitos) comercial, o apelo financeiro sobre a questão dos princípios.

 

publicado por shark às 15:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Segunda-feira, 25.07.11

A POSTA QUE O NORUEGUÊS É CHANFRADO E BASTA

Mais um chanfrado, sozinho ou acompanhado, entendeu aplicar a inteligência num plano brilhante para defender a Europa não se sabe muito bem do quê. Matou dezenas, convicto de que servia uma causa que parece ser só sua, cada maluco sua panca, armado em paladino, em templário distorcido ao ponto de matar cristãos para proteger os restantes dos mouros ou de outro papão não ariano que lhe tenha andado a suprimir (ou pelo menos adulterar) neurónios.

 

Bom, uma pessoa nem sabe por onde começar perante um cenário assim.

Começo talvez por lamentar que a sociedade esteja tão insana que já não consegue topar os mesmo muito malucos de entre os moderada a declaradamente doidinhos que se cruzam connosco nas ruas, talvez com a mesma pintinha de anjinho deste trintão louro de olhos verdes que decidiu libertar o caos interior.

Da sua caixa de pandora brotou um esquema simples, porque não seria preciso mais num país tão pacato que nem os polícias andam armados no giro, mas eficaz no único objectivo deste tipo de psicopata: chamar para si os holofotes da ribalta.

 

Embora o conceito de fundamentalista cristão me pareça justo para equilibrar a parada (gostava de saber quantos já apontavam o dedo e olhavam com desconfiança os suspeitos adoradores de Alá ainda o norueguês marado andava aos tiros sobre os miúdos), não consegui até agora vislumbrar o fanatismo religioso por detrás da armadura virtual deste dom quixote hardcore.

Da mesma forma não me parece que a sua ideologia de direita possa ter influenciado de forma determinante a evolução do plano deste assassino em série, excepto talvez em ter escolhido a juventude trabalhista para o executar e um Governo da mesma cor para atacar.

Fosse de esquerda, desequilibrado como se revelou nos actos e na respectiva preparação, e teria encontrado outros pretextos e talvez outras vítimas para levar a cabo a sua cruzada indigna.

 

Mas o que me irrita mesmo é a colagem ao apelo nacionalista, uma estupidez tão flagrante quanto o terrorista ter atacado o poder político do seu país tão louro e jovens compatriotas seus. Nenhuma abordagem ao nacionalismo pode de forma coerente fazer a apologia da chacina dos nossos conterrâneos.

Defender a Nação implica tanto a bandeira, como o território, como o respectivo povo. Nenhum nacionalista sério poderá advogar o contrário e por isso o crápula tanto podia ter pegado pelo estandarte nacionalista como pelo da corporação de bombeiros local.

 

Onde quero eu chegar? Não vale a pena tentarem rotular o bandido disto ou daquilo. Um assassino maluco, ou pelo menos avariado o bastante para se sentir à vontade para fazer o que aquele fez, não precisa de ideologias, de causas. Basta-lhe o apelo interior para a sensação de prazer que um poder tão... divino proporciona a estas ameaças latentes, dormentes, que de vez em quando se notabilizam pelos seus feitos aterradores.

A criatura é uma verruga, uma aberração das que desde o início dos tempos foram aparecendo para nos tentarem vergar pelo terror que será sempre um instrumento de poder ao alcance de qualquer incapaz com ambições mal medidas ou interpretações corrompidas de ideais que lhes ornamentam as intenções.

 

Conotá-los com causas ou com ideologias não passa de uma glória que os seus actos infames não podem de forma alguma sustentar, esses cobardes oportunistas sem lei nem escrúpulos que agem movidos por uma natureza macabra e uma frieza cruel.

É disso que se trata. O resto é folclore, munição para futuros macaquinhos de imitação tresloucados com o mesmo instinto facínora mas sem uma orientação das que estas colagens fornecem mesmo antes que aqueles que as promovem percebam sequer de raspão o que motivou de facto aquilo que as suas conclusões precipitadas fingem explicar.

publicado por shark às 23:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Domingo, 03.07.11

A POSTA MUDA PARA MELHOR

A maior ameaça para a coerência, essa aparente bitola da idoneidade e até da inteligência de uma pessoa, é a passagem do tempo.

Claro que podemos equacionar um cenário de absoluta imobilidade e ausência de comunicação por parte de alguém maníaco da coerência, quem não tem a sua (a mania)? Mas aí temos a coerência tão posta em causa, filosoficamente se quiserem, pela incoerência óbvia entre a humanidade de quem liga a essas coisas e a postura inerte de um vegetal, como pelos efeitos da dinâmica de qualquer existência sobre as melhores intenções e as mais firmes convicções de que sejamos capazes.

 

A coerência é um ideal utópico, como qualquer outro dos que abraçamos para podermos manter viva a luta pelo absurdo a que chamamos perfeição.

É uma cenoura como outra qualquer para nos obrigar a combater a preguiça mental, bute lá ser coerentes para alguma coisa nesta vida feita de incógnitas e de imprevistos fazer sentido.

E a malta entretém-se assim, nem que seja a debater a incoerência dos outros para reforçarmos a fé na que julgamos dominar mesmo quando os factos nos obrigam a inventar desculpas para as falhas inevitáveis.

Ah e tal, virei à esquerda quando devia ter virado à direita mas foi só para não atropelar a velhinha que ia atravessar na passadeira. A incoerência esbate-se assim na obrigação de arrepiar caminho por força das circunstâncias, mesmo que a tal velhinha estivesse apenas a espreitar a montra do outro lado da rua e sem qualquer intenção de atravessá-la.

 

São as nossas decisões tomadas em função das conjunturas que muitas vezes nos obrigam a reconhecer (nem que seja pela crueldade de todos os outros a identificá-la) a incoerência que nos faz sentir tão desorientados por constituir um dos pilares da nossa estrutura de funcionamento básico. Digamos que se fossemos um barco à deriva a coerência funcionaria como uma espécie de farol à vela e com um GPS programado para estar sempre à nossa vista mas sem que alguma vez o pudéssemos alcançar.

A tal cenoura que referi acima...

 

Não julguem que não tenho a noção de que estando desse lado que é o vosso, a ler os dislates de um marmanjo qualquer que nesta ocasião sou eu mesmo, pensaria de imediato: olha o cabrãozinho a tentar dar a volta à coisa a ver se passa despercebido nas toneladas de incoerências que este mesmo blogue regista...

É essa a nossa reacção instintiva contra qualquer ameaça à coerência pela qual tanto pugnamos e nos permite, por exemplo, apanhar os intrujas com a boca da mentira na botija da estupidez. Sim, a coerência é valiosa também como mecanismo de defesa contra a incoerência que possa trair quem nos queira ludibriar. E por isso, há que defendê-la a todo o custo mesmo que isso possa revelar-se incoerente relativamente à nossa firme disposição de confiar no próximo e assim.

Lá está, a legítima defesa sobrepõe-se à coerência como aliás qualquer pretexto o consegue tendo em conta a tal necessidade imperiosa, visceral, de garantirmos a tal luz que nos guia ao fundo de um túnel sem paredes que atravessamos quase às escuras numa existência minada por pontos de interrogação que, de resto, são outra ameaça letal para a coerência.

 

Se ninguém perguntar nunca corremos o risco de responder errado, da forma incoerente que, como todos sabemos, é meio caminho para a pessoa, mais depressa do que o coxo, ser apanhada a mentir.  

publicado por shark às 17:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sábado, 02.07.11

A POSTA INVERTEBRADA

Se há osso, ou conjunto de ossos, que queremos manter inteiro esse é sem dúvida a coluna vertebral.

Tudo indica que é mesmo a mais importante das nossas preocupações em matéria de impactos sofridos por esta frágil estrutura que nos alberga a existência.

Sem a coluna vertebral seríamos provavelmente criaturas rastejantes com um horror ancestral a bichos com patas e às tantas é daí que provém o sentido figurado que atribuímos ao que muita gente apelida de espinha (claro que a mim isso não aflige, sobretudo nesta pele de esqualo virtual).

 

A dignidade é o conceito mais associado, nesse sentido figurado, à coluna. Alguém que tenha abdicado de uma terá desistido da outra por tabela, nos meandros da sabedoria popular que nos ensina a valorizar por instinto aquilo que uns renegam por simples ambição e outros numa dolorosa cedência.

E aqui abrem-se dois caminhos para a terrível perda de algo que nos transforma, em sentido figurado mas nem por isso menos concreto, numa espécie de vermes que só não reconhecemos no espelho quando conseguimos atordoar a consciência com pretextos, por norma os valores mais altos que se erguem.

Podemos perder a coluna vertebral por doença ou por acidente, em qualquer dos sentidos que possamos atribuir à espinha que impede a cabeça de se afundar pelo tronco até aos intestinos.

Se virmos a coisa pela tal analogia entre os ossos e os princípios, a ganância pode representar a doença e a aflição vestirá bem o acidente.

 

Em ambos os casos acima podemos lidar com o problema: muitas doenças têm cura e para a ganância até existem vacinas, bastam as lições do passado acerca das vidas de quem optou de livre vontade entre a tal coluna a fingir e o proveito a sorrir ali mesmo à mão, o pecado da tentação que leva as pessoas a acreditarem que vale a pena essa troca que se pode revelar fatal para quem não consiga eliminar os escrúpulos e outros resquícios da pessoa de bem lançada ao chão para uma existência reptilínea. Por outro lado, as mazelas do tal pseudo-acidente, as consequências de decisões condicionadas pela conjuntura de uma ausência de escolhas, podem ser tratadas até só restar a cicatriz que, lamentavelmente, acaba por exercer no acidentado um efeito idêntico ao da lucidez no adoentado.

As hipóteses de esse tumor maligno surgido no percurso de alguém que jamais o seguiria de forma voluntária entrar em remissão ficam assim reduzidas à respectiva insignificância, pelos efeitos perniciosos da combinação do remorso, do possível arrependimento, da inevitável vergonha e consequente perda de auto-estima, de imensos factores aos quais os crápulas, os vermes propriamente ditos, são imunes.

 

Neste contexto a coluna vertebral acaba por ter a importância que lhe queiramos atribuir, partindo do princípio de que há quem consiga abdicar dos seus por inteiro e ainda assim apertar os atacadores dos sapatos com os quais caminham, homo erectus, por entre muitos dos lesados pela sua actuação, da mesma forma que podemos acreditar que outros sobrevalorizam a coisa em qualquer sentido possível e passam a vida a penar pela defesa da integridade quase figurada porque tão facilmente esmagada pelo peso dos fardos que às vezes o destino nos impõe.

As colunas dos que delas abdicam apenas porque sim, porque podem e a vida lhes oferece de bandeja uma cenoura, um isco apetecível para fincarem as dentolas sem olharem a meios para morderem os fins não sofrem esse tipo de pressão esmagadora. E nunca vergam, tal como não partem, porque isso não acontece a algo que não se tem.

 

O maior dilema dos que agonizam com a noção de terem dobrado em demasia a espinha e se apercebem da verdadeira dimensão das lesões na sua imagem de si próprios é precisamente o que resulta da certeza da irreversibilidade dos factos, sobretudo quando se vêem chantageados pelo azar mas entendem a factura da cedência.

A perda da coluna nessas condições é irreparável, pois por mais que o lesado tente endireitar o tronco sobre a estrutura fragilizada esta ficará para sempre estigmatizada por uma cicatriz externa.

E essa marca indelével do momento decisivo agarra o perdedor a uma cadeira de rodas psicológica da qual dificilmente conseguirá levantar-se um dia.

publicado por shark às 00:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 27.06.11

O DESTINO DIABÓLICO DO ANGÉLICO

Diz o povo que o diabo pode estar por detrás da porta e essa possibilidade implica uma atitude mais prudente por parte de quem pretenda dificultar-lhe a vida quando queira dar cabo da nossa.

O Angélico, jovem com estatuto de figura pública e por isso mesmo com um futuro risonho no horizonte em termos de condições de vida para dela gozar, ignorou a estatística e arrastou consigo mais três para um acontecimento que já matou um e ficará com toda a certeza marcado no corpo e na mente dos que lhe sobreviverem.

 

De pouco servem os moralismos de pacotilha na sequencia deste tipo de circunstância, excepto se servirem o propósito de chamarem a atenção dos que ainda podem escolher entre facilitar a vida ao azar por lhe amplificarem as consequências.

É essa a única saída para algo de bom resultar de algo tão mau para quem se viu envolvido no pior momento do Angélico.

De acordo com os dados revelados pela Comunicação Social, o acidente de viação em causa terá resultado do rebentamento de um pneu. É um azar.

Contudo, igualmente têm vindo a lume as negligências e os excessos que aumentam sobremaneira as hipóteses de algo não correr apenas mal mas ainda pior.

 

A tragédia do Angélico resultou do azar e de uma conjugação dos tais factores que o potenciam e o amplificam: alguém entendeu confiar a um grupo de jovens um bólide com mais de 250 cavalos e nem se preocupou em acautelar a existência do seguro obrigatório; desse grupo de jovens apenas um, o que escapou incólume, teve o bom senso necessário para usar o cinto de segurança mais do que imprescindível num carro que atinge velocidades que em caso de simples travagem brusca transforma os passageiros em mísseis humanos; o excesso de velocidade, quase inevitável naquela conjugação malta nova/carro potente, fica confirmado pelo estado lastimável em que ficou a máquina.

Só ficou de fora, até ver, a eventual condução sob o efeito de substâncias que possam alterar a capacidade de reacção do condutor para estarem reunidas as condições para o azar ter vida fácil.

 

É essa a mensagem que vale a pena reter desta situação da qual já resultou um morto e dois feridos graves (a gravidade das lesóes sofridas pelo Angélico não permitem grande euforia quanto ao futuro). A legião de admiradores do Angélico deve concentrar-se mais no mau exemplo transmitido e que pode servir de alerta prévio para situações análogas e menos no azar que afinal tanto fizeram para atrair.

 

O Angélico, que tanto cuidou do corpo, deveria ter cuidado da cabeça também pois quando esta falha é sempre o outro que paga.

publicado por shark às 14:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 31.05.11

A POSTA NO NACIONALISMO ANFITRIÃO

Ao longo do diálogo o gajo deixou-me várias vezes surpreendido com o detalhe do seu conhecimento acerca da história recente do nosso país. Porém, revelou-me igualmente uma noção clara da realidade portuguesa no contexto da União Europeia e desta crise medonha que nos faz vermo-nos gregos para pagar as contas.

E ainda lhe somou o conhecimento empírico, o saber de experiência feito que lhe abriu a pestana para a verdade do que nos entala afinal enquanto povo, a nós, eu e ele, que temos em comum apenas o facto de ser esta a terra onde escolhemos investir o presente e o futuro da nossa existência.

 

Deixou-me impressionado, pela bagagem que revelou acerca de coisas tão díspares como a história da vida dos milionários portugas ou as fragilidades da nossa esquerda perante um cenário de crise financeira.

Aliás, ainda mais impressionado fiquei com tudo o que o gajo teve para me dizer, neste magnífico diálogo entre compatriotas, quando finalmente me revelou que só há nove anos abraçou a nacionalidade portuguesa, este homem nascido na Roménia que se provou bem mais conhecedor do país que agora é o nosso do que a esmagadora maioria dos que cá nasceram e certamente muito mais inteligente do que aqueles que adoptam a generalização no seu discurso quando se referem aos de fora que querem mandar embora, tudo farinha do mesmo saco, por acharem que essa forma de ver as coisas representa o nacionalismo que alegam defender.

 

Este homem de que vos falo conseguiu em escassas dezenas de minutos mostrar-se mais patriota e esclarecido acerca do país do que qualquer dos que até hoje me tentaram impingir a xenobofia e o racismo quase como consequências naturais do pensamento nacionalista.

E eu, que amo a minha Pátria e por ela morreria se disso dependesse a sua defesa, envaideço-me sempre que alguém de outra terra adopta a minha para viver e constituir família.

 

Independentemente dos casos foleiros isolados que servem de sustento para a argumentação pacóvia de quem ama mais os dogmas e o culto do ódio do que a Pátria que os extremistas que se arvoram arautos do nacionalismo apregoam defender, o homem com quem hoje tive o privilégio de conversar bastaria para consolidar a razão das minhas convicções.

publicado por shark às 18:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Domingo, 15.05.11

A POSTA NA DEMOCRACIA MAIS FILTRADA

Há muitos anos atrás estive empenhado na obtenção de um lugar numa força da autoridade. Fui submetido a umas quatro ou cinco provas (psicotécnicos) e duas entrevistas pessoais que eliminaram sucessivamente mais de cinco mil candidatos até restarmos pouco mais de noventa para a prova final, os testes de aptidão física.

Tenho a plena consciência de que se algo de impeditivo houvesse na minha carola ou na minha atitude seria impossível essa falha ficar por descobrir naquele crivo apertado ao qual só faltava submeterem-nos a um detector de mentiras. Não havia nada na minha personalidade que pudesse afastar-me do cargo pretendido, o que muito me orgulhou na altura e foi, de resto, o que restou dessa aventura de meses que culminaram comigo a tentar arrastar um calmeirão, sob um sol incandescente em pleno Verão, até ao final de um teste cooper e acabarmos ambos eliminados por menos de um minuto acima do tempo máximo de duração da prova.

Este episódio estritamente pessoal partilho-o convosco por achar que vem a talhe de foice por causa da notícia da detenção do presidente do FMI por abuso sexual de uma empregada de limpeza do hotel onde pernoitou.

E agora perguntarão: que raio de associação de ideias vai na carola marada deste bacano?

 

É inegável que enquanto existem povos na fase de reclamarem e instaurarem a democracia nos seus países temos a sorte de já estarmos na fase de a renovarmos, de a expurgarmos de todos os males que a atormentam e levam alguns a questioná-la ou mesmo a abandoná-la à sua sorte.

Um dos problemas de que a democracia padece é o fraco nível dos seus protagonistas. Os líderes nacionais (e mundiais) inspiram cada vez menos respeito e confiança.

Episódios como este que me fez recordar a dureza e o rigor das provas a que me submeteram para depois me negarem o lugar por um minuto a mais e nas circunstâncias que refiro, sem terem em conta, por exemplo, os 150 quilogramas que levantei num halter quando 120 teriam bastado ou o facto de ser muito mais importante o meu calibre mental e moral do que o jeito para as correrias, são golpes letais na credibilidade daqueles a quem confiamos a gestão das mais importantes decisões para as nossas vidas.

Em causa está a personalidade dos mandantes e o quanto é determinante podermos confiar nessa gente com tanto poder e afinal capaz de cometer crimes como o que pode levar o Dominique do FMI a umas décadas de céu aos quadradinhos.

 

A tal associação de ideias nasceu do facto de para um lugar numa força de segurança uma pessoa ser escrutinada até aos artelhos e, apesar de ser cada vez mais óbvia a necessidade de filtrar o sistema nos topos da hierarquia para salvaguardar os interesses comuns, ser possível um fulano com nítida propensão (existe um histórico de antecedentes neste caso concreto e existem exemplos como o de um antigo presidente israelita, provado na mesma culpa, para vermos que a coisa é possível de acontecer) para os excessos na conduta.

Não acredito numa divisão entre o público e o privado quando estão em causa líderes de nações ou de instituições multinacionais poderosas que possam estar envolvidos em actos criminosos ou mesmo que possam indiciá-los.

Assumo: exijo saber se um líder político é pedófilo. É um direito meu. Jamais votaria em tal criatura ou lhe admitiria sequer o acesso aos corredores do poder. Se é crime deixa de ser privado e passa a público por inerência.

Da mesma forma, e porque não advogo caças às bruxas com base naquilo a que grandes economistas da nossa praça chamariam pintelhices, não acho ser meu direito conhecer as preferências sexuais de um político. Não tenho nada a ver com isso até ao momento em que possa interferir de forma directa no exercício da função desempenhada.

Ou seja, a linha que traço entre o público e o privado passa pela que distingue um crime de um acto normal, partindo do princípio razoável de que se um político favorece qualquer grupo de interesses apenas por coincidirem com os seus a título individual isso é criminoso e lá temos que arrastar algo do foro privado para o domínio público.

Assim sendo, não vejo porque os políticos não são submetidos a provas ainda mais rigorosas do que aquelas com que tentaram perceber-me capaz de utilizar uma arma com bom senso ou de tomar uma decisão racional sob circunstâncias extremas. O princípio é o mesmo, evitar que pulhas e outros indesejáveis possam ter acesso a poderes que interfiram de forma directa no quotidiano dos cidadãos.

 

E gostava de conseguir dar um palpite acerca de quantos líderes restariam no activo depois de submetidos a tais provas de admissão, mas porque preciso de acreditar nos mecanismos democráticos acho que iria sempre pecar por excesso...

publicado por shark às 21:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Terça-feira, 15.03.11

A POSTA QUE NÃO ESTOU A FALAR DE POLÍTICA

Quando um gajo sofre as pressões externas e internas que ele tem aguentado, sabendo que não terá mais dificuldades na vida depois de ter sido Primeiro-Ministro de um país, com toda a gente a apontá-lo como bode expiatório de tudo quanto corre mal, responsabilizando-se directamente por uma equipa por si escolhida mas de entre as opções que já toda a gente percebeu são escassas e mesmo assim tem-os no sítio para afirmar que se houver eleições recandidata-se outra vez esse gajo mostra os tomates necessários para liderar um país em crise e isso eu não consigo distinguir em nenhum dos seus potenciais sucessores.

publicado por shark às 21:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Sábado, 12.03.11

A MAIORIA SÓ LÁ ESTÁ PARA FAZER COMPANHIA

A esta hora está na rua a manif da geração à rasca e até parece compostinha nos écrãs da televisão.

Contudo, tenho estado atento às entrevistas de rua (as que verdadeiramente definem o calibre de um movimento desta natureza) e fico cada vez mais boquiaberto perante a ausência de credibilidade tanto da causa como, e acima de tudo, da juventude que hoje a protagoniza.

 

A verdade é esta: a maioria das pessoas na rua não sabem ao que vão. E as que sabem só têm um objectivo e verbalizam-no: fazer cair este Governo, como se estivéssemos a falar do Sporting e estivesse em causa mudar de treinador.

O problema é que não faltam treinadores melhores do que aquele que o Sporting deixou sair, mas as alternativas de poder escasseiam e nenhuma das pessoas presentes na manif faz a mínima ideia ou tem a menor intenção de apresentar a sua.

 

Cada vez mais é nítido que a malta à rasca quer apenas o sangue de um bode expiatório, procuram a vitória possível de criarem as condições ideais para derrubarem um Executivo cheias de esperança no senhor que se seguir. Mas sem o nomearem, sem soluções para os problemas que os movem e que, quem tem visto o que eu vejo não pode negar, acabam por nem estar directamente ligados ao que serve de mote para esta contestação popular porque sim.

É mesmo, como alguém já referiu, a geração tiririca (tirem os que lá estão porque pior do que está não fica) e utilizam a sua capacidade de mobilização virtual e mediática para algo que feito assim, sem norte, não passa aos meus olhos de uma fantochada.

 

Das pessoas entrevistadas quase metade dificilmente se podem apelidar de jovens e apresentaram justificações quase sempre ligadas à mobilização de ordem familiar ou se tratava de pequenos grupos representativos de classes que ali se juntaram por oportunismo descarado, para aproveitarem os holofotes dos media e dizerem de suas razões.

Uma manif assim só pode ser um sucesso, chamando por uns (os jovens) mas reunindo outros que se aproveitam do pretexto para darem mais um empurrãozinho na ansiada queda do Governo que, como já se percebeu, dará lugar a um outro capaz de dar a volta a isto numa pressa do camandro.

 

Eu nem percebo porque insiste o actual Governo em manter-se em funções. Se for verdade que têm garantidos tachos magníficos cá fora não sei o que estão a fazer lá dentro. E se o povo (venham eleições e logo se tiram as conclusões) diz que os que lá estão são maus é porque acredita que os próximos farão melhor e eu sinceramente gostava de ver isso, mas por outro lado tenho que privilegiar os interesses do país e desses não faz parte substituir um Governo baseado num partido que, mal ou bem, está unido em torno de um líder por um outro Governo formado pelo partido alternativo cujo presente (mas sobretudo o passado) esclarecem acerca da forma como se entendem entre si.

Num clima de crise financeira e com vários abutres externos com o cerco montado à espera do safanão que constitui o seu sinal de entrada no castelo, não consigo entender a lógica da malta supostamente tão à rasca que lhes quer abrir os portões com esta sua intervenção queixinhas que continua a dar-me a razão que eu preferiria perder:

 

Não fazem a mínima ideia do que querem fazer a seguir.

 

E eu, como muitos outros à rasca propriamente ditos, tenho um presente concreto para gerir e não me compadeço da ameaça de um futuro feito pelos que não sabem por, nem para, onde querem ir.

publicado por shark às 17:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Segunda-feira, 07.03.11

A POSTA NUMA MANIF À RASCA MAS MONTES DE BUÉ

A sério que gostava de poder levar a sério o levantamento popular (virtual, até ver) que a música dos Deolinda, a crise financeira ou a simples sede de protagonismo de uma geração maioritariamente constituída por gente mimada, arrogante e demasiado umbiguista para reunir o arcaboiço necessário a um movimento colectivo espontâneo como os que viram na televisão e pretendem reproduzir na versão limpinha de um país democrático onde não existe um mauzão para lhes soltar as feras aos calcanhares suscitou.

Mas não posso. E explico-vos porquê.

 

Nunca fui um entusiasta dos rebels without a cause, excepto na sua componente lúdica. Uma revolução não acontece só porque sim, tal como uma manifestação não faz sentido quando se aliam a futilidade de um objectivo imbecil e despropositado, típico de quem não percebe pevas do que se passa à sua volta porque nunca esteve lá para ver, e a motivação dispersa por queixas que não passam da denúncia de problemas que todos conhecemos mas sem qualquer bitaite acerca de hipotéticas soluções.

O Sporting está mal e perde demasiados jogos? Expulsem todos os jogadores. Já agora, como a nossa Liga é muito inferior à espanhola e à inglesa acabem com o futebol no país.

O Ensino não corresponde às expectativas? É correr com o Corpo Docente no seu todo.

O país está em crise? É correr com toda a classe política.

E depois logo se vê.

 

Claro que o entusiasmo vai crescendo, há a popularidade da gaja parva que ela é, as mais de 20 mil clicadelas numa página revolucionária do Facebook e agora até já ganharam o festival da canção.

Os sinais multiplicam-se perante o olhar deslumbrado das gaiatas e dos gaiatos que depois de uma vida burguesa e sem dificuldades parecidas sequer com as que mobilizaram os seus pais e avós décadas atrás descobriram a pólvora sem fumo da contestação popular, da tenda armada na praça, do insulto impune ao agente de autoridade porque viva a liberdade e o people tá todo na rua a gritar.

Mas afinal vão gritar o quê, estes fedelhos que nunca mostraram interesse sequer em conhecer o funcionamento das instituições que querem agora, na prática, confiadas ao vazio?

 

Claro que muitos já sentem na pele as consequências do mau bocado que estamos a passar e juntarão a sua voz aos paladinos da moda contra o monstro de contornos difusos que é a classe política no seu todo, livres do jugo de partidos e outras organizações expiatórias de uma culpa que não assumem na sua birra mediática, tal como ninguém os ouve falar acerca de tomarem o seu posto nos bastiões tomados pela força do berreiro inconsequente na sua utopia abastada de meninas e de meninos que concordam na ideia de que estudar não serve para nada e por isso é certo e sabido que vão todos aprender os ofícios que dão futuro à pessoa, uma geração inteira a trabalhar no duro, pasteleiros, carpinteiros, serventes da construção civil e sem um canudo que só serve para atrapalhar.

 

Sentem-se poderosos, como os bandos de chimpazés, assim todos unidos num grupo grande quanto baste para impressionar os mais cépticos e para os contagiar com o impacto de uma imensa mole de carolas nos ecrãs de televisão. E nos monitores dos seus portáteis, as armas que esgrimem com a mestria de quem acha que sabe tudo e se habituou a vergar com chantagem emocional os adultos pelo ponto fraco do remorso pela sua falta de disponibilidade para os criar.

Cresceram na convicção de que berrar, como faziam em pequenos (ainda mais pequenos), sempre acaba por resultar numa vitória qualquer, tanto lhes dá.

 

Razões de queixa legítimas existem e talvez um dia até justifiquem que o poder caia na rua quando de entre os que gritam sobressaiam os líderes do futuro, inteligentes, consequentes, animados por uma convicção e dotados de um projecto alternativo que sirva melhor o país como o anseiam.

Mas do que já sei desta agitação das águas, aposto que a montanha não irá parir nem um rato de pedra.

Irá apenas abortar os delírios patetas de uma ínfima parte de uma geração que, como qualquer outra, engloba no seu seio um pequeno séquito de jovens calhaus.

publicado por shark às 21:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (28)
Sábado, 19.02.11

SEM TALÕES, CARTÕES, PROMOÇÕES E BOAS MANEIRAS

O Presidente da Jerónimo Martins constitui por si próprio um excelente argumento para eu continuar cliente do Modelo e do Continente.

publicado por shark às 20:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Sexta-feira, 28.01.11

A POSTA NAS ESQUIZOPENAS

Li as duas notícias de seguida, o que foi bom porque muitas vezes só nos prendem a atenção quando as abordamos assim, aos pares, e podemos por comparação extrair o sumo noticioso da coisa (um exercício tão complicado nestes dias que se explica assim o declínio do interesse nas palavras cruzadas).

 

Em causa estão dois crimes que quase estranhamos ainda serem notícia, burlões apanhados pela Justiça. Bom, claro que a parte chamativa da notícia, pelo quase insólito, é as autoridades terem desmantelado mais dois esquemas vigaristas mas uma pessoa acaba por prender a atenção no crime em questão, até porque outro exercício mental porreiro consiste em tentar perceber, num país onde um assassino raramente passa mais de quinze anos dentro, até onde o crime compensa nisto das fraudes (não estou necessariamente a aludir ao BPN).

 

E é aqui que entra o factor surpresa, a notícia à qual um tipo deita um olhar desleixado entre duas sorvedelas no café da manhã e de repente inclinamo-nos para a frente na cadeira ou no sofá para termos a certeza de que percebemos bem.

Os crimes de que vos falo são o de um esquema que envolvia mecânicos, bate-chapas e mais uns profissionais de outros ramos associados para embarretarem as seguradoras (um pequeno pecado que o povo estupidamente aplaude mesmo tendo que pagar depois a factura) e um outro esquema que envolvia farmacêuticos, medicamentos para a carola e comparticipações a 100% dos contribuintes para o fundo de maneio da rapaziada (e cuja operação de desmantelamento a polícia baptizou, com grande pinta, de esquizofarma).

 

Onde está a tal surpresa que me fez olhar com mais atenção? Curiosamente não está no facto de uma das burlas, a dos seguros, estar directamente relacionada com o meu ganha-pão.

O que realmente me surpreendeu foi o facto de o Ministério Público propor como pena para esta burla que alegadamente terá causado dezenas de milhar de euros em prejuízos para as companhias de seguros nada menos do que vinte-anos-vinte de prisão efectiva para os artistas em causa.

 

Depois olhei para os milhões de euros em que a malta das farmácias terá burlado o Estado Português com as suas receitas ganhadoras e fiquei curioso para saber que punição, para além das 50 chicotadas e da amputação das falanges, o MP terá em mente para estes abomináveis malfeitores.

publicado por shark às 10:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quinta-feira, 13.01.11

O FIM DO MUNDO? DESCULPE, MAS NÃO SOU DE CÁ...

Uma das coisas que sempre estiveram na ordem do dia e nas cogitações de muitos pensadores é a sensível questão do fim do mundo. Compreende-se, pela complexidade do que está envolvido nessa tragédia potencial que nos nossos dias só precisaria da confirmação absoluta da Lei de Murphy para passarmos definitivamente do se ao quando.

 

Eu não costumo pensar muito no fim do mundo, sobretudo porque na qualidade de catastrofista amador tendo a levar demasiado a sério as minhas conclusões e essa é a receita ganhadora para uma pessoa passar a temer, como na pequena e irredutível aldeia gaulesa, que o céu nos caia na cabeça.

E aqui entro directamente numa das ameaças impossíveis de ignorar, nomeadamente por causa da mnemónica dos esqueletos de dinossauro: os asteróides.

Não há como dar a volta a esse receio justificado, estamos a falar de calhaus do tamanho de países que andam por aí à solta, no espaço, no céu, algures sobre as nossas cabeças. Temos aí um bom exemplo de uma hipótese plausível (até porque dinossauro escaldado…) do fim do mundo sem apelo nem agravo. Não há naves espaciais, super-heróis ou mesmo mísseis xpto que nos valham se um desses pedregulhos embicar para a bolinha azul.

 

Contudo, o fim do mundo (que até já tem diversas datas marcadas) parece estatisticamente mais assegurado por via da intervenção humana, em particular quando em parceria com calamidades à escala global.

Ou seja, não é preciso um asteróide para garantir o armagedão. Basta um qualquer anti-cristo mais atrevido, bem armado e com a localização geográfica mais adequada para se juntarem no panelão outra vez os ingredientes a que nos cheirou durante a Guerra Fria.

Aliás, o frio também começa a assumir um papel de destaque nos cenários apocalípticos e curiosamente num contexto paradoxal, o do aquecimento global que toda a gente discute acaloradamente na origem mas ninguém parece levar a sério na consequência.

 

E poderia estender-me num lençol a perder de vista acerca do assunto, mas a coisa é tão densa que só se digere por fascículos. Além disso, onde eu queria chegar era à utilidade, à repercussão da teorização do fim do mundo, aconteça como acontecer.

É que por definição isso do fim do mundo leva a noção de fim ao seu extremo.

E nesse caso, mesmo que alguém consiga acertar no dia, hora e contornos invariavelmente dantescos da ocorrência, no máximo um tipo fica a saber se terá ou não tempo suficiente para fazer a mala e, pelo sim pelo não, à cautela, preparar umas sandochas para o caminho até lá.

publicado por shark às 14:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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