Sexta-feira, 05.06.15

A posta no saber de experiência feito

Ao longo da vida aprendemos, entre outras informações inúteis, que é possível existirem crápulas com bom fundo. Claro que é bem fundo e coberto pelo lodo resultante da acumulação, permanente, de uma forma ignóbil de estar na vida. Mas é bom. Enfim, suficiente para distinguir os crápulas num espectro que vai desde o imbecil incapaz de discernir o bem do mal ao maquiavélico capaz de dar cabo da vida de alguém só porque sim.

 

Conheci imensos crápulas ao longo do caminho e nem posso certificar-me alheio a esta camada cada vez mais numerosa de uma população desprovida de valores que a protejam do abastardar do comportamento.

Partindo do pressuposto de que ninguém é absolutamente mau, podemos quase desculpar os momentos menos bons de alguém caracterizando-os como excepções.

Mas não são. O crápula típico reincide, por muitas velhinhas que ajude a atravessarem estradas para gáudio dos mirones que lhe possam atestar a bonomia. Ser crápula pode ser fruto das circunstâncias, mas na maioria dos casos é mesmo uma característica da pessoa e impossível de controlar.

 

Um dos mecanismos de defesa de um/a crápula é o branqueamento artificial do seu carácter, estendido depois às suas acções. Sim, a pessoa acha-se sempre intrinsecamente boa e consegue invariavelmente colorir os actos e palavras mais ignóbeis com o manto piedoso da mentira, do encobrimento e da distorção. O crápula molda a realidade aos seus olhos porque é também demasiado cobarde para se assumir na condição.

E claro, as vítimas das suas indignidades são sempre pessoas más. É fundamental para o crápula comum posicionar-se do lado certo, o do bem, na sua mente incapaz de processar verdades incómodas. Ou pessoas melhores.

 

Conversa de merda sem aditivos

 

A única medida de protecção cem por cento eficaz contra um/a crápula é a distância (leia-se saída abrupta e definitiva da vida dessa pessoa), pelo que o maior terror de quem rodeia essa gente é ficar sua refém. Um crápula em condições nunca desperdiça um bom flanco desguarnecido para exercer a sua arte.

Em desespero de causa, muitos alvos dos crápulas optam pela aprendizagem da coisa para eventualmente combaterem o filho da puta com filho da puta e meio. Mas isso é como alimentar uma discussão idiota com uma pessoa burra: esta última arrasta-nos para o seu palco natural e não tardamos a sentir crescerem-nos as orelhas.

 

Por isso os entendidos na matéria recomendam, no lidar com o crápula mais comum – a pessoa apenas estúpida demais para perceber o que se passa à sua volta - o desprezo, puro e simples. Nada pior para um/a crápula do que ver-se desprovido de atenção para com as suas exibições de brilhantismo mesquinho, de poder oportunista ou apenas de apelo interior para a má onda. Só mesmo a ausência de relevância desarma o crápula pela escassez de motivação. O crápula gosta que lhe dêem luta, não é um necrófago.

E aprecia imenso que lhe dêem conversa, para recolher dados que possam conferir mais tarde realismo às suas elaborações mentais tão difíceis de defecar pelo exagero de esterco acumulado nas suas presunções.

 

O único combustível para a locomoção das ideias e das iniciativas de um/a crápula é a conversa de merda que alguém lhe alimentar.

E mesmo um crápula acaba por tornar-se inofensivo quando a conversa com as paredes lhe acarreta a tomada de consciência da sua estupidez e da dimensão do seu equívoco e consequente solidão.

 

Quando a soma dos vários desprezos lhe matam a má onda pela subnutrição.

publicado por shark às 22:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sábado, 11.04.15

Da cobardia e outros pretextos da treta

Existem situações criadas por terceiros que me fazem hesitar entre o reconhecimento de uma limitação conjuntural (a cobardia que se sobrepõe ao paleio, por exemplo) e o diagnóstico leigo mas perfeitamente justificado de alguma forma de perturbação mental.

Das poucas pessoas que permitimos próximas esperamos, em condições normais, uma atitude inspiradora de confiança, que transmita a segurança que só os mais chegados nos podem garantir. E isto aplica-se qualquer que seja a natureza do vínculo estabelecido.

É precisamente esse detalhe no estatuto das pessoas (ditas) próximas que nos apanha sempre de surpresa quando é desmentido: se dos “de fora” esperamos tudo, dos “nossos” sabemos com o que contamos. E qualquer falha grave nesse pressuposto é quase sempre entendida como nada menos do que uma traição.

 

Para garantirmos alguma estabilidade emocional e até a valiosa sanidade mental tão ameaçada por hordas de gente chanfrada, se queremos de facto poder contar com alguém, há dois tipos de pessoa que devemos manter à distância: os cobardes, porque desertam; os malucos, porque são imprevisíveis. Pior de tudo, o misto destas duas categorias que garante, ao virar da esquina, uma reacção cobarde, deselegante e por isso hostil e, por via da loucura implícita, quando uma pessoa menos a espera.

 

É difícil identificar um/a cobarde, pois são sempre muito dados a pintarem-se capazes deste mundo e do outro e só se desmascaram quando confrontados/as com uma dificuldade ou um aumento da pressão.

Porém, uma pessoa desequilibrada acaba sempre por dar eco das suas perturbações. Aí o nosso mal está em acharmos sempre que a ligação alegadamente próxima nos permite dar a volta ao problema. Pois, tem um discurso incoerente com a acção e parece andar ao sabor do vento. Mas como gosto muito da pessoa vou ignorar esse sinal de demência e acreditar que a pessoa não negligencia a medicação. Erro crasso.

 

A pessoa que não joga com a equipa toda não controla as emoções, da mesma forma que não tem mão sobre os instintos e os raciocínios. É capaz do melhor e, cedo ou tarde, do muito pior. Se ainda por cima é cobarde, é garantido que à primeira contrariedade se esgueira para debaixo de uma pedra qualquer no sentido de escapar ao excesso de pressão. É esse o apelo natural num/a cobarde, o da deserção. E fazem-no sempre à bruta, de surpresa, de uma forma invariavelmente deselegante e estapafúrdia.

 

Ao longo de quase cinquenta anos de vida, várias pessoas com o perfil e os actos acima descritos cruzaram o meu caminho e, sem excepção, traíram-me no que mais valorizo: a confiança nas poucas pessoas em quem a deposito. E quase sempre associaram, na deselegância da sua fuga mal justificada, a absoluta falta de respeito pelo tal estatuto de pessoa próxima que, posso afiançar, não garante coisa alguma em matéria de certezas.

 

Garante, isso sim, a combinação perfeita para que nunca mais queiramos ver essas pessoas pela frente enquanto ficamos, desilusão somada, entretidos a cicatrizar aquilo que nos deixaram nas costas.

publicado por shark às 00:08 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 06.03.15

Diz farsa

Mascara as emoções com palavras que prometam ilusões das que encantam quem queiras embalar numa navegação sem rumo traçado, leva quem quiseres a qualquer lado em sítio nenhum, aplica à verdade um rigoroso jejum e tenta desviar a atenção do que te vai na alma ou no coração com um sorriso ensaiado, com um assunto preparado para camuflar tudo aquilo que pretendas ocultar nos bastidores do cenário por ti criado, desse perfil por ti desenhado em traços toscos nas palavras e nas acções que te permitem preservar a realidade na segurança máxima da discrição.

E se a tua privacidade sofrer uma violação com uma pergunta complicada que alguém te faça, não digas mais nada. Disfarça.
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publicado por shark às 22:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quarta-feira, 18.02.15

...Até ti

Tacteio o caminho às escuras, no ponto de partida para um caminho feito incógnita cheia de pontos de interrogação. Avanço com os pés bem assentes no chão, cauteloso. Um passo atrás e dois adiante, como dizem melhor. Desconfiado, receoso pelos inúmeros esconderijos possíveis no meio da escuridão, da ignorância acerca da pretensão de quem surja nos cruzamentos.

A hesitação em todos os momentos abalados na coerência pela força da evidência que o raciocínio inventou, os olhos como bode expiatório inocente por pouco ou nada conseguirem ver assim. Às cegas naquele troço do caminho até um ponto indeterminado, um sonho acordado que se confunde com uma miragem no espaço desconhecido, no tempo desprovido de luz.

A penumbra de uma madrugada prestes a expulsar pelo sol que insiste nascer a cada dia que passa, em passo acelerado e sem vontade abrandar. Deixar o tempo passar e acender um cigarro com o isqueiro que explode num clarão. Sombras desenhadas naquele chão mais tangível, iluminado e por instantes visível enquanto solo firme para pisar. Monstros e fantasmas, assombrações alucinadas pelo efeito devastador de uma qualquer obsessão. Desenhadas as sombras naquele chão, ilustrados os medos patéticos de equívocos hipotéticos que podem até nem existir naquele dia tão prestes a surgir sem pressas. Podem ser fruto de uma relação incestuosa entre a cabeça temerosa e o coração bravio.

Uma vela de curto pavio que se transforma no rastilho para uma explosão de emoções quando o vento que a apaga provém de respirações ofegantes de clandestinos amantes na tela da imaginação.

Em cada descoberta o impacto de uma revelação, mais um troço percorrido a direito rumo a um destino incerto, a travessia do deserto humedecida pelo desejo à solta no som da folhagem agitada no oásis a surgir no horizonte cada vez menos distante na realidade como na percepção.

A surpresa e o encanto quando o sol começa a nascer e o dia não tarda em romper os laços com a madrugada que lhe compete expulsar. A luz que permite desvendar mistérios, os pontos de referência agora visíveis à distância num futuro não planeado à partida para aquela estrada que percorro agora quase a correr…

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publicado por shark às 22:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Terça-feira, 27.01.15

Desencontro

A figura patética de um homem apaixonado com o desalento estampado no rosto de quem se sente apanhado na armadilha da ilusão. Um ramo de flores espalhado pelo chão, ao longo do caminho até ao ponto de partida depois de lhe falhar uma chegada que, na verdade, para ele nunca aconteceu. Os passos arrastados de um homem cabisbaixo, rua fora, torpedeado pelo inferno das melhores intenções.

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publicado por shark às 22:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Segunda-feira, 10.02.14

A posta que há só uma

Arrogantes, julgamos ter uma noção acerca da forma como enfrentaremos um dia determinado acontecimento. Acreditamos até que estamos preparados, que fomos capazes de interiorizar uma qualquer defesa construída com a racionalidade de quem, ingénuo, se pensa capaz de gerir as emoções. E é mentira, é ilusão, é uma triste tentativa de construção de barreiras de papel, de sacos de areia patéticos que nem uma enxurrada de lágrimas interiores conseguem conter.

 

Surge sempre na existência da maioria de nós um momento capaz de fazer desmoronar todas as veleidades acerca dessa pressuposta resistência ao que a vida trouxer. Porque a vida também sabe levar, também sabe roubar os dados adquiridos em que se transformam as realidades e as presenças que tomamos por eternas, tanto quanto nos presumimos de alguma forma imortais. Contudo, não depende da nossa vontade a capacidade de resistir, a habilidade para reagir de acordo com aquilo que afinal não passa de uma previsão infantil.

 

As emoções, selvagens, nunca se deixam domesticar.

 

A lei da vida, talvez a única que não conseguimos desrespeitar, impõe regras simples, ciclos inevitáveis com um princípio e depois um meio a galope rumo ao fim que rejeitamos, ao longo do tempo tolo em que acreditamos num para sempre que não passa de uma armadilha, de uma fantasia absurda que o tempo se encarrega de desmantelar.

Uma máquina que alguém irá desligar à hora predestinada ninguém sabe porquê.

 

A minha mãe acreditava ser possível conquistar, pelas boas acções e pela fé, um lugar no céu.

A mim, resta lidar com os vários infernos à solta nesta cabeça fraca que não os adivinhou, incapaz de entender aquilo que o coração agora lhe grita, desorientado, por saber que o dela, tão fatigado, entretanto parou.

publicado por shark às 02:02 | linque da posta
Terça-feira, 27.08.13

O que restará

Nunca perdem o sentido, as palavras que exprimem emoções. São palavras de um tempo, daquele momento que aconteceu como as palavras de quem as escreveu testemunham. Apenas envelhecem, como as pessoas, ficam mais maduras e portanto mais sábias na panóplia grisalha das interpretações alternativas que a própria passagem do tempo lhes acrescenta e com isso proporcionam as lições de vida que às palavras também compete oferecer.

 

São sinceras, as palavras, mesmo depois de aparentemente vazias de conteúdo por falarem de realidades alteradas, de emoções disparatadas quando as observamos algum tempo depois à distância de um tempo entretanto passado que foi um presente da vida se traduzido em palavras que no futuro nos permitem recordar. Histórias que só as palavras sabem contar, como anciãos num círculo à volta de uma fogueira, sabedoria de experiência feita para que outros possam aprender ou apenas partilhar recordações de um tempo feito de emoções à flor de uma pele que enruga como as páginas de um livro podem amarelecer.

 

O tempo pode até erradicar as emoções por elas contadas, mas as palavras jamais se deixam morrer.

 

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publicado por shark às 23:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 14.07.13

A posta que do tempo perdido ninguém sai vencedor

Parece difícil, no meio de tanto ruído que as coisas desagradáveis provocam, ruído amplificado pela tensão de uma correria sem nexo numa pista sem destino algum em concreto. Sobrevivência, medida pela bitola do nível de vida que conseguimos alcançar.

A luta que abraçamos para mantermos o estatuto que percepcionamos naquilo que nos serve de referência, bens de consumo, tranquilidade financeira que nos ilude porque nos afasta do que parece sempre tão difícil, mas não é.

 

A felicidade ambicionada, mais do que qualquer uma das coisas, coisas(!), que nos foge por entre os dedos como a areia na ampulheta imaginária que mede o tempo perdido que descobrimos tarde demais não ser possível recuperar, é instantânea, imediata, percebida em instantes fugazes da mais benigna lucidez.

 

O abraço sincero de um amigo, as gargalhadas de um filho, o olhar reconhecido de uma mulher que num momento qualquer descobriu o prazer de se sentir especial.

Felicidade genuína, daquela que nos passa quase despercebida na porra de uma vida que a vê passar de raspão. Coisas simples, de todo pequenas, que nos marcam de forma indelével em pedaços de memória que agarramos com sofreguidão.

 

Parece difícil, no meio de tanta distracção que nos afasta do que teorizamos importante mas praticamos irrelevante no contexto de uma luta interminável pelos objectivos materialistas que nos propomos concretizar. Pois parece.

E a vida quase nos adormece o instinto protector daquilo que mais nos interessa, atarefados na guerra pelo que acreditamos ser uma vida melhor, alienados pelo ritmo que acaba por nos impor essa obsessão permanente de chegar mais longe, mais alto, mais distante do que intuímos importante ao ponto de constituirmos pretexto para justificar qualquer ausência, qualquer abstinência da felicidade que adiamos sempre para depois.

 

Afastamos-nos do que interessa sem disso darmos conta (e às tantas despertamos à bruta) do que vale a pena na existência, o tempo passa depressa, e caímos em nós porque sabemos a cada instante em que consiste ser feliz e insistimos no caminho errado como se fosse uma obrigação, como um falso cego que faz de conta que não vê.

E nessa altura o mais difícil é percebermos porquê.

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publicado por shark às 21:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 09.10.12

MUNDO CANALHA

Imagino-me na pele dos pais de uma miúda tão brilhante como a Malala Yousafzai, catorze anos de idade, e percebo o orgulho que deverão sentir.

Malala é muito jovem para uma pessoa capaz de intervir de forma tão retumbante a nível mundial. É uma pessoa especial, capaz de se destacar da multidão num país onde as mulheres lutam o triplo por um terço do reconhecimento e o acesso ao conhecimento é difícil para ambos os géneros.

 

Foi essa miúda brilhante que a Reuters informou há pouco ter sido atingida a tiro e transportada em condição crítica para um hospital.

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publicado por shark às 10:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Domingo, 07.10.12

EXPERIMENTA ACREDITAR

Experimenta parar por um instante para sentires o poder latente nas tuas veias e na tua convicção.

Experimenta escutar por momentos o bater do teu coração e fica alerta enquanto a tua consciência desperta para chamamentos que nunca antes permitiste porque tudo aquilo que sempre ouviste te dizia para calares essa voz.

Experimenta juntares-te a nós, os outros como tu, numa estranha ligação com o desconhecido que sentes como um irmão bem vindo a essa luta que percebes nesse preciso instante já estar a acontecer.

Experimenta soltares ao vento tudo aquilo que precisas dizer, nas ruas onde haja quem precise de ouvir, como tu, o protesto que sabes sentir abafado num contexto de censura mansa em que conquistam a tua desconfiança com mentiras e com omissões.

Experimenta libertares as emoções em gritos coloridos pelo coro com a multidão, todos unidos para combater a repressão manhosa, subreptícia e insidiosa, que vês nascer no medo estampado no olhar de cada um dos medíocres que te esmagam com a força das ilusões que te impingem, das decisões que te atingem enquanto cidadão isolado à sua mercê.

Experimenta o sabor da revolta que se vê eclodir em pequenas explosões de pessoas como tu, desesperadas, e sente no peito as palavras gritadas onde haja quem as ouça e consiga perceber porque há algo que precisa mudar e bem depressa.

 

Experimenta meteres na cabeça de uma vez por todas que a mudança, a revolução necessária, não vai acontecer, se todos ficarmos a vê-la encenada pela televisão.

Imaginária.

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publicado por shark às 15:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Quinta-feira, 27.09.12

PORQUE UM SILÊNCIO CRESCIDO NÃO CHORA

Tentou em vão, vezes sem conta, deixar o coração falar pela ponta de cada dedo, com a boca no teclado e o som no monitor, embutido no falso silêncio das palavras que queria escrever em vez das lágrimas que não conseguia verter e afogavam aos poucos uma parte de si que tanto gostaria de preservar.

Também tinha vontade de gritar, mas não podia. Gritava com o olhar mas ninguém entendia essa linguagem, procurou outra abordagem e lembrou-se das palavras que tudo diziam às pessoas que as liam e quis acreditar que podia assim desabafar sem permitir que o desespero pintasse uma imagem de calimero que não correspondia a tudo aquilo que sentia e precisava comunicar.

Com palavras que queria escrever, sentidas, palavras tão parecidas com as lágrimas que não podia verter e que explicassem tal e qual a intensa carga emocional que precisava aliviar no vagão das tristezas e das aflições, nesse comboio de emoções que percorria uma linha no coração que às vezes lhe doía, revoltado por não conseguir dizer tudo quanto diria cada uma das lágrimas por verter naquelas palavras que tentou em vão, vezes sem conta, oferecer ao coração como uma porta de saída para toda a pressão acumulada.

 

Mas essa porta de fantasia, como uma pálpebra que não humedecia, permaneceu trancada.

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publicado por shark às 11:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Segunda-feira, 03.09.12

LUGAR CATIVO

Tinha lugar cativo ao fundo do balcão e todos os dias fazia questão de por lá passar, nem que fosse para marcar o lugar que era o seu naquele espaço onde vivia uma parte do seu dia em função de como o dia viesse a acontecer.

Se corria mal abancava ali a beber, horas perdidas, olhar alucinado a vaguear pelas garrafas nas quais projectava as imagens que o consumiam. Sempre discreto, deixado em paz ao fundo do balcão na sua privada solidão que não dispensava a companhia da rotina daquelas paredes imutáveis que lhe lembravam algo de seu que algures perdera.

E nos dias melhores comportava-se como um forasteiro. Entrava, sentava-se e bebia. Depois pagava e saía em silêncio, como se mais ninguém frequentasse aquele bar. Nem mesmo com o proprietário do estabelecimento, o mesmo há mais de dez anos, trocava uma palavra.

Bebia e no fim pagava e até então saíra sempre pelo seu pé e nunca desatinava senão com ele mesmo, zangado como parecia nos gestos que fazia e nas expressões perturbadas dos dias menos bons.

Ninguém sabia sequer o que os distinguia, pois afinal ninguém conhecia o homem grisalho que em cada dia marcava presença ao fundo do balcão, na zona menos iluminada, na zona menos frequentada por quem pudesse interferir naquele momento que era só seu.

Sentado, com o olhar concentrado num copo quase vazio. Sempre apresentável apesar da barba de dias, elegante na forma de se movimentar, cinquentão.

Acenava com a cabeça quando se deixava dominar pela boa disposição, bom dia, boa tarde e boa noite sempre dessa maneira, um aceno ligeiro com a cabeça como se via no filmes do tempo do Errol Flynn. Nunca falava para os outros mas não era mudo pois falava imenso para si, em voz baixa quanto bastasse para ninguém o conseguir entender.

E ninguém o entendia, pois ele entrava e ele saía sem deixar pistas a seu respeito. Era um cliente de pleno direito e vivia algum do seu tempo como se fizesse parte do cumprimento de um estranho ritual.

Ninguém levava a mal a sua forma de estar a sós nas bordas do grupo que ali se reunia, alguns passavam ali boa parte do dia a entreterem o tempo desempregado, e só por uma vez um carapau de corrida, brincalhão, fizera de conta que ia sentar-se ao fundo do balcão quando ele entrou.

No olhar que lhe lançou voavam ameaças e quase se conseguia afiançar-lhes a solidez na convicção. E o outro, calmeirão, ficou sem jeito e só lhe ocorreu ajeitar o assento para o cliente habitual que não recolheu o olhar no coldre até finalmente se sentar à espera do costume, servido de forma automática pelo barman consoante o período do dia em que lá parasse o freguês.

E a vida continuava à sua volta mas para ele era como estar numa sala vazia, alheio a tudo quanto se passava em seu redor, estava ali para beber e para trocar umas impressões consigo próprio acerca daquilo que o atormentava e era ali que a vida continuava ligada a um ponto fixo de paragem qualquer.

Ninguém lhe conhecera alguma mulher, nem endereço ou outro paradeiro que não o bar onde um dia entrou e simplesmente apontou para uma garrafa pousada sobre o balcão, na outra ponta daquela que a partir daí ocupou como sua, sem voz e sem nome que o pudessem identificar ou pudessem até criar laços de alguma espécie com todos quantos o ignoravam e pelos vistos já o consideravam parte integrante do mobiliário.

Tal como o cabide dos anos 70, gasto por tanto uso, também ele era uma constante daquele lugar.

Todos os dias sem falhar, como um pistoleiro entrado no saloon, caminhava sem pressa, às vezes acenava com a cabeça, e depois sentava-se sozinho na ponta mais distante do balcão onde debatia a solidão em surdina, perante testemunhas que era como se não estivessem lá, naquele lugar só seu e ninguém se atrevia a disputar tal território, sem que alguém conseguisse explicar com clareza porquê.

 

Um dia ele não apareceu.

E no dia seguinte, quando no noticiário da uma falaram de um sem-abrigo, encontrado sem vida num descampado a alguns quilómetros dali, muitos engoliram em seco mas nem um arriscaria ser o primeiro a falar do assunto desde esse sepulcral momento de televisão.

Tal como ninguém voltaria a ocupar a cadeira sempre vazia, mesmo ao fundo do balcão.

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publicado por shark às 17:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 29.06.12

A POSTA CONSTRUÍDA EM BETÃO DESARMADO

Isto de a pessoa ser pai é um processo de construção. Um gajo vai construindo os alicerces enquanto aguarda a hora agá, pedra a pedra, numa mentalização prévia dos requisitos a que se obriga para o cabal cumprimento da função, sem fazer ideia do que o espera.

Depois eles nascem e a pessoa já tem uma porta aberta, construída para os acolher, e vai erguendo à pressa as mais sólidas paredes para proteger a criatura pequena e indefesa que ocupa todo o horizonte, todo o espaço existente em nós mais aquele que for preciso arranjar.

E depois o telhado, improvisado à medida das possibilidades, coberto com os materiais que a conjuntura disponibiliza, telhas boas aqui, remendos de madeira mais além, para impedir que nem do céu possam surgir as ameaças exteriores à redoma à prova de bala que tentamos em vão impor em redor do centro absoluto da nossa atenção.

Mas um dia eles começam a falar e depois provam que sabem pensar e chega a hora de nós, pais em construção, providenciarmos as janelas.

E é aí que no horizonte coberto das cores garridas de um mundo perfeito de fantasia em que os tentamos manter até para lá do razoável começam a surgir os remendos incolor, pintados pelo nosso pequeno grande amor a partir da paleta das suas interrogações e da sabedoria que nos escapa, adquirida lá fora ou a partir da dedução permitida pela inteligência em desenvolvimento acelerado.

As janelas que abrimos de par em par aos nossos filhos são sempre enormes, panorâmicas, aos olhos de quem as constrói reprimindo a tentação do gradeamento ou de qualquer outra forma de impedir que um filho possa cair enquanto espreita as vistas que partilhamos para ajudá-lo a perceber melhor o caminho que irá percorrer depois. Vistas de curto alcance, claro, um passo de cada vez para evitar os tropeções, e o filho a tentar espreitar pelo óculo que disponibilizamos de facto em vez da janela que se abre à nossa imaginação e nós, os pais em construção, a falar das coisas da vida, tijolo a tijolo mais o revestimento a azulejo para essas revelações soarem mais bonitas, para parecerem melhores do que são.

E nós, construtores em construção, muito liberais, somos apanhados desprevenidos com o trabalho de grupo na escola acerca de contraceptivos e com uma simples e prática questão lançada sem malícia no meio do nosso discurso encurralado no tempo das abelhinhas e das flores:

 

- Ó pai, para que é que há preservativos com diferentes sabores? 

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publicado por shark às 17:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quarta-feira, 25.04.12

25 DE ABRIL? SEMPRE!

Quando uma estrela nasce é garantido que acabará por morrer, acabando nesse processo do fim por gerar o material de que a própria vida, a nossa vida, é feita.

Na prática, tudo o que nos rodeia já fez parte do núcleo de uma estrela e por isso somos todos um pedacinho de céu e nem a transformação que a morte implica nos retira esse estatuto.

O legado de uma estrela, a vida nascida a partir do resultado da sua explosão, corresponderá ao que cada um de nós consiga deixar aos que ficam e aos que virão a seguir, reduzindo a coisa à escala da nossa inquestionável pequenez.

 

Pouco mais fará sentido numa existência, depois de peneirado o essencial, a própria sobrevivência, do que esse rasto que deixamos, como cometas, feito das lembranças mais marcantes desse percurso que, tal como o das nossas antepassadas quentes e luminosas, não tem hora determinada para o fim.

Cultivamos a História que é o registo de rastos de outros e da influência da sua passagem nos percursos de todos e do resultado como o interpretamos deriva o legado colectivo que é a soma das partes, a forma como nos encaixamos no registo do tempo à luz da nossa visão subjectiva mas que outros irão avaliar sem filtros emocionais.

Por isso identificamos hoje um período da História como a Idade das Trevas, reduzindo séculos de existência à relação de forças entre os poderosos cruéis e prepotentes da altura e a imensa multidão de miseráveis oprimidos em nome de um deus menor e de uma organização social inquinada.

Por isso deveríamos preocupar-nos a todo o tempo, estrelas que somos, não com aquilo que outros hoje dizem de nós mas com aquilo que deixaremos para gerações futuras aprenderem amanhã.

 

Dos muitos legados de que nos podemos orgulhar enquanto grupo (grupo de pessoas que calhou coexistirem), o da liberdade parece ser dos mais apreciados pelos que acreditam poder reclamá-la. É esse pelo menos o ensinamento dos tais apontamentos que tomamos acerca do que está a acontecer para que os factos perdurem. E a lógica diz-nos que sem liberdade nem mesmo essas notas podem ser levadas a sério, se desconfiarmos da autenticidade das motivações, se percebermos que se trata da versão imposta por ser mais favorável à imagem de uma besta qualquer que por algum acaso chegou ao poder de abusar que a liberdade e a democracia sua aliada nunca permitirão tolerar.

 

Há pouca volta a dar quanto a alguns valores que hoje podemos, na nossa arrogância de meninos mimados a sós no topo de uma cadeia alimentar, apelidar de universais. Nenhum regime, em tempo algum, conseguiu legitimar a privação da liberdade como um conceito duradouro, como uma alternativa para a vida das pessoas ser uma realidade melhor. Cedo ou tarde alguém se revolta e não raras vezes esta alastra como que por contágio e a maioria acaba por derrubar qualquer poder que sinta errado de raiz.

E são-no todos, quando a liberdade é reprimida de alguma forma pois só pela mentira e pela omissão um poder excessivo consegue prevalecer. A verdade liberta e enquanto existirem pessoas que pensam e que falam para lá dos limites artificialmente impostos por quem tenha algo a esconder não haverá tréguas nem sossego para nenhuma forma de poder que queira arvorar-se de imutável. Ou de eterno, ainda pior.

 

Uma das forças da vida, um dos seus motores, é a evolução e compete-nos a todos fazer força no leme para a encaminhar num sentido bom, num rumo que sentimos perfeito para nós e não hipoteca um futuro diferente, se possível melhor, para os filhos que são nossa responsabilidade e fazem parte do tal legado que deixamos e são quem mais queremos felizes para usufruir.

E qualquer vislumbre de um amanhã que possamos pensar para os descendentes de todos os que andamos por aqui agora, qualquer previsão, inclui a liberdade por inerência como componente fundamental.

 

É isso que está em causa quando celebramos este dia, estrelas que somos, na constelação da democracia.

E essa brilha sempre como um imenso farol no firmamento da esperança.

publicado por shark às 20:15 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 28.03.12

A POSTA AMIGA

Qualquer conceito, mesmo o mais simples de entender, possui a flexibilidade intrínseca das coisas susceptíveis de se submeterem à lotaria da interpretação individual. Ou mesmo colectiva, pois existem conceitos cuja interpretação e consequente aplicação prática variam de acordo com a localização de quem os adopta.

Quando por detrás de um conceito existem emoções entramos no domínio do aleatório nas interpretações e o consenso torna-se impossível.

A amizade pertence a esse grupo e isso torna-a passível de variar de pessoa para pessoa enquanto conceito ao ponto de qualquer semelhança entre as percepções de cada um/a não passar de pura coincidência.

 

Já li, já ouvi e já vivi a amizade, no melhor e no pior, o bastante para me sentir capaz de defender a minha definição pessoal e infelizmente intransmissível desse conceito tão moldável como a plasticina de que parecem construídas algumas relações rotuladas com esse selo de garantia de qualidade na ligação entre pessoas.

Aqui já começo a esboçar o cepticismo que caracteriza o meu saber mais de experiência feito do que fruto de algum tipo de teorização que, bem vistas as coisas, é tão infrutífera como a do sexo dos anjos.

A amizade séria, como gosto de lhe chamar, implica à partida alguma sintonia na interpretação do conceito ou pelo menos o respeito necessário pela inevitável diferença na forma como a sentimos, a entendemos e decidimos abraçar.

 

O abraço constitui, de resto, um excelente indicador para o calibre da emoção associada à amizade e essa não dispensa, na minha versão da coisa, uma ligação de tal forma forte e inequívoca que a transforma, a par com a frequência de contacto, quase numa relação familiar.

A amizade é amor, é o amor possível entre duas pessoas que não o podem ou não o querem viver e até pode (e deve) fazer parte de uma relação amorosa.

Por isso não pode ser entendida de forma leviana, aligeirando algo que qualquer pessoa sabe ser assunto sério quando dá pela falta ou quando percebe a diferença que um amigo de qualquer género pode fazer em bons ou maus momentos da existência da pessoa.

 

Um amigo é leal e de absoluta confiança.

Um amigo conhece-nos bem porque contacta connosco com a frequência suficiente para se manter a par e poder assimilar as nossas grandezas e as nossas misérias.

Um amigo está sempre presente nas aflições de forma voluntária e nos momentos especiais por inerência.

Um amigo chora por nós e faz das fraquezas forças para nos ajudar, nem que seja por se disponibilizar para ouvir, mesmo levando grandes secas.

Um amigo é indispensável, é um conselheiro, é uma referência que guiamos e nos guia ao longo de um caminho difícil de percorrer a sós e eu não tenho.

 

Mas também não sou.

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publicado por shark às 15:24 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Domingo, 27.11.11

DE LÁGRIMAS NOS OLHOS

Vi reconhecida a nível mundial a máxima expressão do meu sentir português.

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publicado por shark às 13:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Terça-feira, 26.07.11

(MARA)FILHA DE PEIXE

filha de peixe2

Foto: Shark

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Sábado, 02.07.11

ANOITECER

anoitecer no cais

Foto: Shark

 

 

Deixa que a noite te cubra devagar com a luz pálida do luar que te fascina e por breves instantes oferece-te em silêncio à escuridão que as estrelas suas amantes rompem discretas e tenta ouvir as histórias secretas que a madrugada tem para te contar.

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publicado por shark às 20:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quinta-feira, 07.04.11

GLORIOSO ÉSSEÉLEBÊÊ!!!

 

ésseélebê

Foto: Shark

 

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publicado por shark às 22:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 03.04.11

A POSTA QUE JÁ TE MORDI AS MANHAS

A tristeza, sorrateira, invade a alma como uma cegueira que lhe crava as mãos no rosto e lhe desvia o olhar para tudo o que possa aumentar-lhe a influência e desorientar-nos a passada num mundo da escuridão.

 

A tristeza, matreira, tolda-nos a visão uma vida inteira se lhe concedermos uma hipótese de manipular a realidade, omitindo a verdade paralela a qualquer momento menos bom e que não passa apenas por ter podido ser pior.

Ela esconde tudo, até o amor, que possa desviar a nossa atenção da sua prioridade que afinal é a própria existência, ameaçada pelo conforto que nos traz o discernimento quando pousamos o olhar nas contrapartidas que a vida sempre nos dá.

As cores alegres quando olhamos para lá, para o lado oposto ao que a tristeza nos impinge, tão reais como o cinzento que finge ocupar a totalidade do horizonte quando o céu azul impõe a sua vontade algures com a ajuda iluminada do sol.

 

A tristeza, certeira, sabe aproveitar à sua maneira cada percalço, cada agrura, cada curva descendente da conjuntura para instalar a sua cortina de ferro diante do olhar que funciona como uma janela aberta na cela mais escura de uma prisão e a liberdade impõe-se, a de ser feliz, e essa vontade de escolher contradiz a triste apatia que se instala quando a própria esperança sucumbe à mercê do pessimismo oportunista que se traveste realista para a lógica lhe dar uma mão e recomendar a solidão como panaceia que não passa de outro fio numa teia de cumplicidades emocionais entre a tristeza e seus iguais na cruzada interior pela vitória final sobre os sorrisos e sua influência nefasta no desfecho de uma história que às emoções negativas não convém, pela mesma lógica que as fundamenta, possa acabar bem.

 

A tristeza, foleira, é uma velha carpideira que pinta tudo em seu redor com os tons de uma viuvez encenada de cada vez que precisa disfarçada a culpa que nunca assumirá.

 

Mas essa, embora igualmente solteira, jamais morrerá.

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publicado por shark às 16:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 17.03.11

NOUTRO MUNDO

Sentei-me debaixo das arcadas do sumptuoso edifício para enrolar o meu cigarro. Mal acabei de o acender, um vulto passou por detrás e foi encostar-se ao recanto para comer o que não cheguei a perceber se eram bolachas ou batatas fritas, enrolado numa manta fina.

Voltei-me para trás, olhei-o e sorri e disse boa tarde. A sua reacção foi, e não tenho forma de dourar esta pílula, a mesma do cão abandonado e maltratado que era o meu até ao dia em que o recolhi e aos poucos consegui devolver-lhe uma parte da confiança e da sensação de segurança que o início da sua existência lhe roubou.

Sem emitir um som, olhou para mim com uma expressão no olhar que não conseguia disfarçar o medo que justificava a reacção instintiva de afastar do meu alcance, potencial predador, aquele alimento que terá roubado ou alguém lhe ofereceu.

 

Acabei de fumar e antes de seguir olhei de relance para o sem abrigo, um homem pouco mais velho do que eu, enrolado a um canto, mergulhado num pesadelo que não sonhei porque estava lá e vi.

E enquanto seguia o meu caminho apercebi-me da realidade perturbadora da minha dualidade de critérios, quando se tratou de um cão nem hesitei, e do quanto isso me diz do mundo indigno que estamos a construir.

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publicado por shark às 15:02 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Terça-feira, 15.03.11

A POSTA QUE A RICO NÃO CHEGO NESTA VIDA DE MERCADOR

Todos temos um estilo próprio. Em parte deriva daquilo que somos e noutra parte tem a ver com o que queremos ser, variando de pessoa para pessoa nas proporções como na motivação.

Avaliar esse estilo, a nossa imagem aos olhos de terceiros, constitui um exercício inquinado à partida pela carga subjectiva que emprestamos sempre à auto-avaliação.

 

Um dos riscos mais evidentes da escolha de determinado estilo é o de abraçarmos não o que nos assenta melhor mas o da nossa preferência e embora o risco de que falo possa ser para uns algo de determinante na construção da sua auto-estima e para outros apenas uma questão de pormenor uma escolha menos acertada pode acarretar precisamente o efeito oposto ao que ambicionamos.

Um caso típico, e particularmente enervante para mim, é o do refinado labrego. Ou vice-versa.

Este estereótipo é dos mais populares num país de pavões onde a imagem é a pessoa e tudo o resto só serve para atrapalhar as contas de uma avaliação sumária, em boa medida feita logo à partida, no primeiro contacto visual que, de resto, é um dos filtros mais em voga para medir a importância, a relevância, a consistência de alguém.

 

O labrego refinado pode ser aquele gajo que investe fortunas na aparência e visto ao longe conquista de imediato uma reputação de homem abastado ou, no mínimo, de doutor. Depois aproxima-se, abre a boca para libertar a sonoridade intensa da sua própria convicção no tal pressuposto que os outros aceitam e é como destapar uma magnífica terrina de cristal da Boémia recheada de comida estragada há vários dias.

O volume é alto e a pose é elevadíssima. Esbracejam, fixam o olhar no horizonte como se vissem mais além ainda e falam. Falam sempre demais.

Aliás, esse parece ser um dos segredos do sucesso do refinado labrego comum: o chorrilho é tão imparável que os outros, mesmo percebendo-lhe a falta de formação pessoal, concentram-se na sua certeza no cagar e desculpam qualquer coisinha com o relance ao seu Rolex ou à viatura magnífica que o fulano estacionou. A partir daí a popularidade é garantida e por isso, não raras vezes, estamos perante um bem sucedido empresário ou um ambicioso vendedor.

 

O lugar cativo no camarote do estádio, a casa de praia na Quarteira ou em Lagos (alguns destes exemplares já toparam que não podem ser demasiado óbvios), a última versão da Audi ou da BMW, a multiplicação dos sinais exteriores que funcionam como uma intensa camada de verniz sob o qual até a caca de cão consegue brilhar.

Esses são os cartões de visita habituais no estilo que vos tento definir, outros acabam por surgir em função da maior proximidade que estejamos dispostos a permitir com esses espécimes que, por norma, são um bocado abusadores da confiança que lhes dão, precisamente porque se acham superiores num mundo onde as pessoas se avaliam assim.

 

Contudo, e garanto-vos que em momento algum questionei as minhas próprias escolhas nessa matéria por ter a plena consciência de que o meu estilo padecerá sempre de mácula e de ridículo aos olhos de alguém, às vezes é requerida uma imensa dose de pachorra para aturar papo de galito de Barcelos armado em capão e mesmo quando  é absolutamente necessária a intervenção de um desses cromos no nosso caminho dá-nos ganas de lhe esburacar a película, de escarafunchar o paleio de vencedor até começar a verter o visco pelas lacunas e redescobrir o gajo simples e parolo por debaixo da capa de super-herói, o tal que coçava os tomates por instinto nas ruas da aldeia ou do bairro pobre e acaba sem querer por acudir às claras a qualquer tipo de comichão ou falava das vacas que comia, e eram todas as que lhe permitiam a proeza e ainda mais as que se negavam mas faz de conta que não, com o mesmo respeito e consideração que dedicam ao hamburguer que lhes besunta as beiças enquanto fazem o seu charme nojento para cima das infelizes que por algum azar caíram sob a alçada do seu poder enquanto contactos influentes ou mesmo patrões.

 

E eu perdi algures a capacidade de cruzar os braços e fazer de conta perante indivíduos assim.

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publicado por shark às 22:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 21.11.10

OLHAR MARAFILHOSO

 

umolhar da marafilha

Foto: Shark

 

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publicado por shark às 19:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quinta-feira, 07.10.10

CAPA DE ESQUALO

 

capa do livro
Foto de capa: Espelho do Outono, by Jorge Shark

Como já tinha referido algures, uma foto minha voltou a servir de capa para um livro (para minha enorme vaidade, sim...).
Desta vez foi, como mostra a ilustração acima, uma obra acerca de Nietzsche assinada pela Prof. Scarlett Marton e editada pela Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil).
Partilho-a convosco apenas porque fico insuportável quando me conferem qualquer tipo de distinção.
E esta, considerando o meu estatuto de fotógrafo-amador-que-só-expõe-em-blogues, sinto-a como tal.
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publicado por shark às 20:54 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (18)
Segunda-feira, 04.10.10

NÃO NOS OBRIGUES A IR PARA A RUA GRITAR

Avança sem medo para o exílio, para o degredo, a que te condenem alegadamente por traíres a Pátria que sentires atraiçoada e pretendas defendida em nome dos que a construíram e daqueles que a irão usufruir.

E depois, mais tarde, regressa. Sem medo, sem pressa, para pegares de novo nas armas de que dispões para combateres os cabrões que a destroem, que a corroem com a sua infestação, a praga sem perdão que a estraga, cada umbigo um sorvedouro, um buraco negro onde desaparece o maior tesouro que uma Pátria nos pode oferecer, o amor que lhe é devido.

 

Regressa e arrasta um amigo para poderes combater na tua terra a canalha, defende quem a estima, quem trabalha para a ver crescer, gente que espera o teu grito para avançar para uma luta sem tréguas que deixe os parasitas a léguas dos centros decisores.

Reúne os melhores e apela à sua consciência do que está a acontecer pela preguiça, o país a perecer em lenta agonia às mãos de quem dele se servia no passado e insiste em preparar o caminho para cúmplices e aliados, um ninho de ratos emparceirados para a rapina silenciosa por parte de uma elite habilidosa que se instala como um vírus, aos poucos, numa cada vez mais descarada apropriação individual de um bem que é comum.

 

Nada temas, ameaças, pois tudo aquilo que faças em nome da Nação será símbolo da coragem necessária para a preservar, salva o que conseguires salvar e corta o passo aos oportunistas, a Lei blindada aos seus truques, artistas, e gente de bem a fiscalizar-lhes cada acto ou omissão.

Arrasa-lhes a tentação com pulso de ferro, democracia musculada, na defesa de uma Pátria que queremos resguardada de vigaristas e de ladrões.

 

Depois pugna para a tornares grande entre as Nações como antes de ti outros fizeram e os seus descendentes quase esqueceram, decadentes, ao longo de tempo perdido que já é tempo demais.

Avança sem medo, intocável, com a tua vontade indomável de purgar o sistema dos podres instalados, dos feudos alimentados pelo compadrio que alastra como uma nódoa que todos tentam esconder e por isso calam o que lhes é dado a ver e baixam a guarda do orgulho por troca com a vergonhosa rendição ao que apelidam de ambição e não passa de ganância sem pudor.

 

Alimenta a tua força com o amor a uma realidade secular, a Pátria que te procura sem parar por entre o fumo, o nevoeiro, do incêndio que lavra no coração dos que ainda recusam a conspurcação por parte do polvo hediondo que fixa ventosas que vão sugando a energia do país e se aproveita da letargia de quem só diz não haver nada a fazer.

Ataca-os onde mais lhes doer com a couraça da dignidade e da justiça liminar. A honra e uma imensa vontade de restaurar um poder isento de mácula, sem medíocres, confiado por escolha do povo a quem se prove digno de o merecer.

 

Pega nas armas que a razão te confere e elimina um a um os problemas criados pela erva daninha, a coisa que não é tua nem minha mas é nossa que do todo fazemos parte, a Pátria que enfrenta a morte certa às mãos de traidores que transcendem os ditadores no abuso e se camuflam por detrás de um regime confuso pelas suas manhas de bastidores, as suas mentiras, conspiradores, que se infiltram pelas brechas criadas pela fragilidade que só aos próprios convém.

 

Reúne o povo que hoje se abstém e luta por Portugal nos campos de batalha modernos, sem medo.

E se tiveres que enfrentar o degredo conta com um exército civil, cidadãos, para te oferecerem as suas mãos limpas de traições como as devemos entender, os esquemas, as burlas, tudo aquilo que faz sangrar a Nação que vemos de rastos no chão pisada por gente de dentro e de fora, o lixo que é nosso dever limpar.

 

E o momento certo é agora. Ou já nada restará para salvar.

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publicado por shark às 16:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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