Terça-feira, 04.04.17

Um luxo de condição

Num país “de Esquerda”, um residente em Sacavém viu-se obrigado a dirigir-se a Loures para se inscrever no centro de emprego (o de Sacavém foi encerrado tempos atrás).

Um desempregado, sobretudo sem direito ao subsídio de desemprego, pode não possuir um meio de transporte próprio, pelo que tem de recorrer aos transportes ditos públicos. Custa 3,30€ a ida e outro tanto a volta, pois fazer tantos quilómetros a pé com uma serra de permeio é coisa para dar cabo do único par de sapatos em condições da pessoa.

Ou seja, o desempregado paga 6,60€ (parece pouco, mas em certas condições não são trocos) para aguardar cerca de uma hora a ouvir os dramas pessoais de outros inúteis presentes na sala, enquanto aguarda que saia o seu número na rifa. É um espectáculo caro, tendo em conta.

No final desse mergulho no que a sociedade tem de mais desanimado, o desempregado de Sacavém fica a saber que, desde Fevereiro, para se inscrever na qualidade precisa de fazer marcação prévia.

Fica também a saber que vai ficar mais uma semana sem soluções à vista, finda a qual terá de pagar mais 6,60€ de viagem para proceder à referida inscrição que, de resto, não lhe garante coisa alguma.

São 13,20€ ao todo, num país “de Esquerda”, só para alimentar uma pequena esperança.

E depois os cidadãos com emprego dizem que é caro ir ao cinema.

publicado por shark às 20:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Quarta-feira, 21.10.15

A posta no nacionalismo sem tretas

Detesto quando algum português fala mal do seu país. Enoja-me.

Um país não é uma realidade instantânea e está, como cada um dos seus cidadãos em cada um dos grupos em que se integram, à mercê dos erros de quem gere os seus (nossos) destinos ou apenas os partilha e pode, em dado instante do tempo, padecer das consequências desses erros ou omissões.

Contudo, uma Pátria não é feita de instantes mas de todo um percurso que, no nosso caso concreto, tem muito mais do que nos orgulhemos do que o contrário.

 

Portugal não é uma merda, como leio e ouço com demasiada frequência. Pode estar uma merda, em determinados períodos da sua História, devido ao desacerto das suas lideranças temporárias, mas isso não é a mesma coisa. Isso é um problema pontual que devemos identificar e utilizar os meios ao nosso alcance para corrigir se entendemos o país como o nosso.

 

Não é, por vezes está.

 

E se para quem afirma que está existe a obrigação moral de lutar para o devolver à sua devida condição, para quem afirma que é só resta a porta de saída para as mais de duas centenas de alternativas.

publicado por shark às 18:48 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Segunda-feira, 02.03.15

A posta na questão dos princípios

Todos temos limites para o que estamos dispostos a aceitar. Sendo uns mais flexíveis que outros, tentamos ainda assim preservar intactas algumas fronteiras que nos protejam das agressões do exterior como as entendemos quando violam de forma grosseira a tal linha que separa o aceitável do impossível de tolerar.

É um direito que temos por adquirido, o de impormos um ponto a partir do qual não estamos dispostos a ceder por nada e por ninguém. Sob pena de abdicarmos de nós mesmos num processo de cedências excessivas.

 

Raramente os outros sabem respeitar esses limites, preferindo esticar os seus até para lá da linha invisível a partir do qual nos perturbam. É comum e só não assume proporções desastrosas quando quem vai longe demais reconhece o seu lapso ou abuso e repara o mal feito. Com um simples pedido de desculpas, depois de corrigido o erro assumido, qualquer pessoa acaba por esquecer o sucedido.

Todavia, não é esse o caminho seguido pela maioria. Fingem não entender o que está em causa, preferindo defender a bonomia das suas intenções. Nada de mais errado, pois ao fazê-lo pretendem legitimar, por exemplo, faltas de respeito que alguns não encaixam.

Essas pessoas negligentes só percebem a dimensão do equívoco quando sentem na pele o mesmo ferrão que antes tentaram desvalorizar por ser o seu.

 

Esse esfregar da realidade dos factos na cara de quem os subestima quando lhe convém não é uma vingança mas uma reposição do equilíbrio necessário nas relações. Os limites passam a ficar claros nas palavras e nos actos de quem fingia não perceber a dimensão da sua asneira. Ou então as relações soçobram por falta de sustento, por falta do respeito que deve presidir em qualquer domínio das relações humanas.

A leviandade na atenção a estes detalhes que a todos nos compõem tem sempre um preço: a humilhação da pessoa desrespeitada nos seus limites mais sensíveis. E depois há quem engula em seco e se deixe ir adulterando no carácter, pelo amor a algo ou a alguém ou apenas por obrigação, como há quem reaja de forma mais enérgica.

Há aqui uma relação clara de causa-efeito cuja ordem não é arbitrária: há quem lança a primeira pedra e quem leva com ela e a devolve como troco.

 

No cerne da questão está a dificuldade em alinhar comportamentos com a tolerância de quem pretende fazer parte de uma outra existência que não a sua. E o equilíbrio é sempre a resposta.

E quando essa falha só restam perguntas difíceis e, logicamente, relações muito mais desequilibradas.

 

Ou nenhumas.

publicado por shark às 22:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Domingo, 20.04.14

A posta numa traição à tua medida.

Traição é um conceito medonho. Tanto pelo que implica como pela sua evolução enquanto metástase de algo ruim que germina em quem trai.

É como uma erva daninha filha da puta que é uma outra bem enraizada no que alguém tem em si de pior. É descendente directa da cobardia, como se comprova pela sua tendência para acontecer de surpresa. Ou melhor, pela inevitabilidade do seu sucesso por via da maior vulnerabilidade das vítimas desse autêntico golpe de estado numa relação próxima.

No entanto, nem sempre a traição (como qualquer outro crime, que o é) compensa. Muitas vezes a pessoa que trai aponta para as costas dos outros mas o karma dirige a seta para os seus próprios pés, pois até uma besta aprende facilmente a trair.

 

Como qualquer das evidências das múltiplas falhas no carácter de muitos de nós e respectivas aplicações práticas na arte de prejudicar outrem, a traição expõe na autoria os medíocres e no resultado, quando menos bom, desmascara os imbecis.

De resto, esta combinação imbatível de rabos de palha (ring a bell, isto da palha?) na personalidade arrasta o/a pequeno/a traidor/a para um nível ainda mais rasteiro do que possa presumir quando quase se esvai na congeminação de um esquema traiçoeiro para torpedear alguém.

 

A pessoa, já de si pequena na intenção, vai trilhando um rasto enquanto serpenteia pelo areal e acaba por se denunciar de forma involuntária, sem capacidade para abarcar tudo o que um plano inteligente engloba, acabando por reduzir o seu gesto malévolo ao estatuto infame da pequena traição.

A pequena traição, assumidamente a mais óbvia na mesquinhez de entre o alargado leque de opções na matéria, é quase um rótulo de “estúpido/a” na testa seja de quem for que a pratique. Se é traição é indigna, se ainda por cima é pequena (quando se caracteriza pelo efeito bombinha de Carnaval – só assusta um nadinha e em nada interfere com o rumo dos acontecimentos senão pelo facto de irritar a pessoa pequeno-traída) então ficamos perante uma triste figurinha que se vê exposta na dura realidade da sua irrelevância até no âmbito da malvadez.

 

Uma pequena traição pode assumir muitas formas e nem sempre nasce de um impulso hostil. Pode traduzir medo, despeito, insegurança e outras fraquezas que se somam à do cérebro limitado em apreço, como é natural despontar como dano colateral da inveja, do ciúme ou simplesmente de um complexo de inferioridade mais extrovertido nas suas manifestações. Nunca implica ódio sequer, de tão modesta nas emoções. É uma espécie de desabafo encharcado pela impotência de quem falha porque não tem por hábito tentar (em sentido lato). E quando a pessoa arrisca não sabe nem consegue aprender como se faz.

De facto não se faz, a ninguém, porque é feio e é mau e tem uma hipótese de sucesso proporcional à da inteligência de quem escolhe trair pequeno porque não chega lá (seja onde for) e instintivamente reconhece a menor valia que o espelho só disfarça no reino da fantasia que é o mundo como gostam de o pintar consigo na pele de protagonistas.

E são, mas de um filme marado, categoria B, tão ilusório que só atrai nuvens de ridículo para cima das cabeças vazias das actrizes e dos actores, ou mesmo o desprezo de quem às tantas já não lhes suporta a representação.

 

É desconfortável constatar a dimensão exígua de uma traição quando a pessoa é alvo da mesma. Isto porque no conflito pela primazia entre sentimentos negativos que tal inspira é sempre a ligeira náusea que acaba por se sobrepor.

publicado por shark às 00:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Domingo, 03.11.13

A posta na proliferação dos maus sinais

Desde pequeno ensinaram-me que o dinheiro dos impostos serve, entre outras coisas, para pagar a construção de infra-estruturas vitais como, por exemplo, as estradas.

Essa aprendizagem servia para me preparar para vir a ser, à semelhança das gerações anteriores, um contribuinte exemplar e só isso explica a necessidade de ensinarem tal coisa a um adolescente nas escolas.

 

Aprendi a respeitar essa forma de organização do Estado, da Nação que igualmente me ensinaram a amar, sobretudo antes do 25 de Abril, como uma Pátria pela qual valia a pena morrer nas colónias ultramarinas.

Contudo, existiu de facto uma Revolução que, entre outras coisas, me ofereceu a liberdade de questionar a forma como são conduzidos os destinos no meu Portugal democrático mas nem por isso menos vulnerável a um retrocesso radical ao tempo em que teria que pagar sem um pio tudo quanto o Estado considerasse legítimo para o seu sustento.

E é nesse contexto que abracei a hipótese que me foi dada de pertencer a uma geração livre dos espartilhos próprios de uma ditadura e de poder contestar aquilo que me pareça susceptível de violar os limites da intervenção dessa máquina poderosa à qual confiamos a gestão do essencial no funcionamento do país.

 

A extorsão institucionalizada

 

Voltando ao exemplo dos impostos e das estradas que acima refiro, um exemplo daquilo que considero abusivo é o dos sistemas de controlo de parqueamento na via pública, vulgo parquímetros, precisamente por se tratarem de uma dupla tributação.

O pavimento que todos custeamos permite duas utilizações: a circulação de viaturas e o respectivo estacionamento. Tarifar o mesmo é algo de absurdo e só um lorpa aceita a coisa com base na argumentação hipócrita do controlo do estacionamento abusivo (os impostos também suportam a vigilância nas ruas) e, ainda mais nojenta, a que invoca a protecção do ambiente que, sendo assim tão prioritária, bastaria incidir na própria motorização dos veículos impondo-lhe regras simples mas firmes de limitação do seu efeito poluente.

 

Essa é a minha perspectiva enquanto cidadão quase falido e ainda assim sem fugas aos impostos e por isso sem pés de barro na base das minhas afirmações. Os parquímetros não são mais do que uma indevida fonte complementar de financiamento das maiores autarquias que, sendo legal, não possui qualquer tipo de moralidade ou de ética subjacente. Chamo-lhe mecanismo de extorsão.

Por isso aqui há dias, quando fui prestar a assistência possível a alguém acamado por cerca de quinze minutos e me deparei com uma pequena multidão reunida em torno do meu carro já com um reboque preparado e uma carrinha/escritório da Polícia Municipal a postos para o saque, fiquei indignado e não o escondi e por isso não obtive perdão para os 141 euros que me exigiram para impedir que me levassem o carro para um parque qualquer.

Acabei, no entanto, por me perceber estúpido na atitude para com a meia dúzia de operacionais ali destacados para o raid ao automobilista incauto.

 

Em causa está um troço da rua Maria Brown, perto do Colombo, que possui estacionamento reservado a residentes identificados por um dístico nos seus carros, facto de que eu deveria ter tomado conhecimento através de um sinal de trânsito plantado ao lado de uma árvore cujos ramos o cobrem de forma parcial e muito conveniente para a brigada cuja rapidez denuncia a sua proximidade do local transformado numa ratoeira ignóbil.

 

O povo é quem mais abusa

 

Porém, a minha contestação foi mal direccionada quando por fim me explicaram que aquela situação fora exigida pelos próprios residentes, gente fina em apartamentos dispendiosos que se sentia incomodada com as enchentes em dias de bola ou nas épocas altas da área comercial vizinha.

Ou seja, foi um grupo de cidadãos com poder económico e social que impôs ao município a criação daquela armadilha, legitimando o esquema de uma forma que me deixou esclarecido quanto à reeleição de um indivíduo como Cavaco Silva para chefe de um Estado que os cidadãos parece quererem direccionado para caminhos que colidem em absoluto com os que eu preconizaria.

 

Agora reparem: se eu desenvolvi para com os parquímetros um asco especial, como posso ter numa conta decente qualquer tipo de gente capaz de utilizar a sua influência para defender o conforto do seu feudo local à custa de um esquema tão óbvio na distorção que representa de valores simples como o da partilha do espaço público e que afinal entendem como seu, ao ponto de reclamarem a imposição de um privilégio tão mesquinho?

 

A minha desilusão, semelhante à que enfrentarão alguns bem intencionados da nossa classe política quando confrontados com estas hordas de ovelhas com tiques de lobo no meio do rebanho, tirou-me a força para contestar no momento em que teria de tomar uma decisão relativamente ao pagamento da coima em causa. Paguei e parei de refilar porque me senti envergonhado pelos meus concidadãos daquela artéria da capital.

 

E desde então tenho tentado reparar em mim os estragos em matéria de confiança e de respeito pelos outros que, queiramos ou não, são a maioria reflectida a cada novo pleito eleitoral e que tem confiado de forma desastrosa o leme de um navio que, enquanto passageiro da classe económica, não consigo deixar de temer apontado a icebergues tão ameaçadores como o da entrega do poder a crápulas capazes de aplicarem o mesmo critério, o mesmo princípio medonho em causa neste exemplo da rua Maria Brown a todo o território nacional e com ramificações bem mais complicadas ao nível da relação que queremos manter com quem manda demais e afinal deveria, acima de tudo, apenas organizar.

publicado por shark às 18:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Segunda-feira, 20.05.13

A posta que o desculpo na boa e até lhe pagava um café.

O Carlos Abreu Amorim, no que me respeita, é uma pessoa como outra qualquer das muitas que só entram no meu quotidiano através da Comunicação Social ou pelo computador. Não é um amigo, nem um conhecido sequer. E carrega a dupla cruz de ser laranjinha e portista, o que abre enormes perspectivas de antagonismo em qualquer tipo de contacto que algum dia pudéssemos manter.

 

Esse contacto, a acontecer, poderia resultar de uma troca mais ou menos azeda no Twitter, provavelmente acerca de política ou de futebol.

Foi este último o mote para uma tirada imprópria do CAA, um tweet onde apelidava os benfiquistas de magrebinos a quem mandava curvar perante o poder do Grande Dragão em pleno rescaldo de mais esse desgosto lampião.

Deu o corpo às balas, o Amorim. Errou no momento e ainda mais nos termos. Sobretudo por não ser um Carlos qualquer mas sim um cidadão com cargos políticos relevantes e prestes a enfrentar uma prova de fogo eleitoral.

 

No vespeiro em que as redes sociais se tornaram, implacáveis no triturar da imagem de quem meta o pé em falso, a tirada eufórica do CAA suscitou de imediato reacções coléricas que arrastaram outras reacções indignadas e a partir daí tornou-se no alvo fácil da turba.

Eu também manifestei a minha ira perante o insulto nortenho como o senti, benfiquista, agarrando-me à fragilidade da sua condição de figura pública que, como todos nas redes sociais bem sabemos, torna implacáveis os que pousem a vista num qualquer momento infeliz dessas pessoas com responsabilidades e com um estatuto que parecem (e se calhar até são) a todo o tempo obrigados por inerência a justificar.

 

Não tardei a hesitar nas minhas invectivas quando o tom das críticas começou a descambar para o deboche, o insulto fácil com base na característica física mais evidente do CAA. Da minha fúria lampiona fui recuando até quase à solidariedade para com alguém a quem a multidão perdeu o respeito ao ponto de enveredar pela baixeza, como a sinto, de pegar pelo ponto fraco como o entendem de forma cruel e imbecil, o gordo, o trinca-espinhas, o zarolho, a meia-leca.

 

E agora que o Carlos Abreu Amorim, laranjinha e portista, teve a dignidade suficiente para publicar um pedido de desculpa pelo seu impulso palerma mais uma justificação para o mesmo, gesto de que a esmagadora maioria das pessoas que acompanho nas redes sociais seria incapaz, já olho com desprezo para as hienas que se revelam demasiado estúpidas e insensíveis para pararem de tentar morder os calcanhares a um homem que não é meu amigo, nem meu conhecido, mas soube merecer de mim pelo mea culpa em causa um respeito que a canalha mesquinha e embirrenta jamais me conquistará.

publicado por shark às 22:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Segunda-feira, 13.05.13

A posta no ponto de não retorno

“Quando alguém compreende que é contrário à sua dignidade de homem obedecer a leis injustas, nenhuma tirania pode escravizá-lo.” – Mohandas Ghandi

 

Embora as tiranias sejam, grosso modo, caracterizadas e identificadas pelos abusos de poder de índole política, de acção governativa alheia aos princípios democráticos que subscrevemos, elas podem acontecer sob outras formas, sob pretextos diferentes dos tradicionais, e até desenhar-se nos bastidores das ideologias, à revelia das mesmas, que se constituem como simples linhas de rumo para a imposição de um sistema prepotente, hostil ou mesmo desumano de gestão dos recursos para além das pessoas, das populações que na prática os geram.

 

É esse o meu retrato da situação vivida em Portugal, como na Grécia, ou em qualquer país cujas circunstâncias o subordinem em demasia a um pulso de ferro financeiro que estrangula a economia até a exaurir e acaba a saquear os cidadãos, sem qualquer nojo perante a ruptura de pressupostos de confiança entre estes e os seus Estados que deveriam ser tidos como sagrados pelos seus eleitos e mesmo pelos seus credores em dado momento da História.

 

Na verdade, uma tirania pressupõe um governo instituído de forma ilegal, o que, é certo, não se verifica por ter sido eleito, ou que seja ilegítimo, o que nesta altura é uma realidade factual perante o evidente divórcio entre eleitos e seus eleitores.

Porém, o abuso de poder torna-se cada vez mais evidente e vai aos poucos revelando os contornos da sua motivação, o móbil de uma actuação mais do que impopular: a inflexibilidade de um poder financeiro aparentemente insensível ao impacto das suas regras conjunturais na vida do cidadão comum e, numa fase a que agora assistimos, na própria essência do Estado que só faz sentido enquanto espelho de uma realidade colectiva e nunca como uma ameaça a direitos individuais que dela brotaram.

 

A legislação que, em desespero de causa, um Governo manietado por acordos e compromissos que parecem sobrepor-se aos legítimos interesses da população entende aplicar pode constituir, aos olhos dos governados, uma verdadeira traição quando viola os pressupostos de confiança que acima refiro e transforma o país numa fonte de pesadelo que já roubou o emprego a quase um quinto da sua força de trabalho e empurrou para o estrangeiro mais de um por cento da sua população em poucos anos.

E não há margem para flores: é de tirania que se fala, quando se priva alguém de rendimentos tidos como certos, as pensões de reforma, no final de vida de pessoas que cumpriram a sua parte no contrato com o Estado sem temerem que este, em qualquer circunstância, o pudesse renegar. Sobretudo numa altura em que para lá da sua subsistência a geração mais idosa se vê obrigada a acudir à da geração que a sucedeu.

 

Envergonha-me, esta falta de honra, esta privação da dignidade imposta a quem acreditou que uma vida honesta de trabalho lhe garantiria um futuro de merecido sossego.

E sinto-a, não há volta a dar, como uma ditadura mansa, imposta pelo poder financeiro, que destrói pedra por pedra as bases do sistema democrático e do próprio Estado, corroendo-o com o descrédito das instituições, conspurcando-o com o desprezo pelas suas obrigações, impondo regras sem respeito pelas pessoas que fazem uma Nação como se esta pudesse dispensá-las.

 

Acredito cada vez mais que estamos já no ponto sem retorno, nomeadamente pela ausência de perspectivas de um futuro melhor a curto prazo.

E tal como na citação com que abro esta posta, estou receptivo a meios cada vez mais radicais que não apenas para combater esta forma de escravatura moderna, mas mesmo para aboli-la.

publicado por shark às 23:36 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 02.04.13

Obsolescência planeada: o lucro fácil undercover

É impossível não reparar no facto de a minha máquina de lavar roupa, com mais de 20 anos, ainda cumprir o seu papel na perfeição enquanto a da louça, a caminho do seu terceiro aniversário, já ter precisado de várias intervenções técnicas para manter o seu desempenho medíocre.

Isto a propósito também de um documentário ontem transmitido pela SIC Notícias a uma hora de baixa audiência acerca de um fenómeno chamado obsolescência planeada que, de resto, é apenas mais um indicador do quanto as empresas se tornam aos poucos numa ameaça séria. E já não somente para o bom senso.

 

A obsolescência planeada, resumindo, é um expediente utilizado no fabrico de equipamentos de grande consumo para que estes durem menos tempo do que poderiam e deveriam. Dos exemplos oferecidos no dito documentário destaco um de um condensador xpto alegadamente inventado pela Samsung para em simultâneo reduzir o tempo de funcionamento dos seus LCD e impedir a respectiva reparação (por se tratar de componente exclusivo e impossível de substituir). Mas parecem não faltar exemplos desta iniquidade que para muitos se compreende à luz do funcionamento da economia, embora eu não consiga interpretar a coisa como algo diferente de um gigantesco embuste para rentabilizar a inércia dos consumidores papalvos em que o mercado é fértil.

 

Quando falo em ameaça, tendo em conta os milhões em causa, recordo a atitude cada vez mais hostil por parte das grandes corporações quando instadas a propósito destes esquemas marados de pura intrujice. Se forem consumidores atentos e persistentes ao ponto de recorrerem a tribunais com as evidências do logro, as empresas compram-lhes as almas para assim os dissuadirem. Mas a coisa engrossa quando se trata de jornalistas e disso o tal documentário dá bem conta (deixando de fora a pressão que os gigantes da indústria podem exercer sobre as redacções quando possuem um estatuto de anunciantes poderosos nos media que os submetam a trabalhos de investigação comprometedores para a imagem de glamour que a publicidade se esforça por criar).

 

E quando falo de embuste falo de ameaça também, pois o consumidor acaba por esmifrar a existência para sustentar os vícios de um tecido empresarial mal habituado a lucrar com base no pressuposto de que os fins justificam os meios e determinado em enraizar o conceito de que tudo isso é normal no regular funcionamento do mercado que, como se sabe, é cada vez mais voraz nos seus apetites

Escrúpulos, ética ou moral são termos de um passado empresarial já quase perdido no tempo, tornados obsoletos pela combinação da falta de brio e de vergonha de empresários obrigados a satisfazerem accionistas ou apenas para sustentarem os seus próprios excessos sem olhar à indignidade subjacente a esta vigarice global que mesmo estando na moda não podemos permitir branqueada na sua essência ignóbil.

publicado por shark às 11:48 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Terça-feira, 19.02.13

A posta que não é só fogo de vista

Embora tudo pareça desenhado para banalizar os muitos horrores que as pessoas protagonizam por esse mundo fora, numa discreta mutação das emoções feita à conta da paulada mediática, continuam a brotar aqui e além nesse terreno fértil da insanidade generalizada alguns episódios capazes de nos obrigarem a transcender a estupefacção (a derradeira etapa antes da indiferença) e a redescobrir o choque emocional que alguns dramas, felizmente, ainda provocam.

 

Só quem sente ou sentiu na cabeça a pressão que um colapso financeiro individual implica pode ter uma ideia do destrambelhamento que isso pode causar a uma pessoa mais sensível ou debilitada.

São vários os pesadelos associados à queda no mundo canalha do incumprimento, um sítio estranho e hostil no qual uma pessoa cuja matriz é a do cidadão certinho e cumpridor descobre de repente o quanto a vida pode mudar quando as contas entram no vermelho por um motivo qualquer ou por uma mera sucessão de imponderáveis.

 

As instituições financeiras são as primeiras a sinalizar essa mudança para pior no estatuto social. Do oitenta de um tratamento VIP com cartão gold ao menos oito de uma frieza a roçar o desprezo com que se distinguem os párias do sistema, do sorriso hipócrita ao franzir do sobrolho, vai uma distância tão curta quanto uma prestação em atraso de um crédito qualquer. Esse sinal de alarme dos engravatados sem alma nem vontade para simpatia, paciência ou mesmo comiseração desencadeia um furor de cobrança que, em pouco tempo, se converte numa estratégia desenhada para enxotar o mau pagador em causa sem apelo nem agravo, depois de esgotados os seus recursos para adiar o problema.

É embaraçoso e é, para quem leva a sério a cena das relações sociais, uma tremenda desilusão para quem se supunha resguardado por um passado isento de mácula e recheado de momentos lucrativos para a mesma instituição que lhe tira o tapete debaixo dos pés.

 

E depois, impossível evitar, o calvário das portas fechadas na cara por aqueles que se tinham por próximos e que afinal apenas somam a uma variante do hoje não pode ser, tenha paciência a divulgação de um problema que se queria confinado ao círculo mais chegado.

Esgotado o roteiro da pedincha, o cidadão entalado percebe-se a sós no centro do furacão e soma ao pânico as raízes de um desespero que cresce em função dos contornos da bronca e do grau de debilidade entretanto atingido.

Telefonemas insistentes, mesmo em horas impróprias. Mensagens repetidas no telemóvel. Cartas frias e ameaçadoras no meio da publicidade a coisas que já não se podem comprar. Isso mais o silêncio de cada vez mais gente de confiança total que se revela relativa quando está em causa essa doença contagiosa da aflição.

 

Dia após dia, semana após semana, os meses contados pelo número de prestações em atraso, a vida cada vez mais vivida numa solidão imposta pelos outros que preferem evitar a maçada e pelo próprio sem forças para reagir.

As consequências, a apropriação compulsiva de tudo quanto possam os credores deitar a mão, fazem-se sentir na perda da dignidade, na vergonha de cruzar o olhar com os vizinhos que lêem o drama afixado na porta do edifício sob a forma de aviso de execução da penhora que, depois de levada a cabo, empurra seja quem for para a rua sem que alguém pergunte se a pessoa dispõe de um tecto alternativo para se abrigar.

 

É este, em resumo, pois pode envolver por acréscimo a degradação do ambiente familiar, o percurso das pessoas apanhadas pelo cilindro compressor da cobrança difícil.

Esmagadas, sim.

 

Tão espalmadas contra o chão que deu uvas, tão pisadas no orgulho, tão privadas de esperança em dias melhores que são capazes de coisas como imolarem-se no interior de uma dependência bancária, como tibetanos.

 

E isso, por quantas vezes se repita nas parangonas, será sempre para mim uma tragédia alheia que sentirei com a tristeza profunda e a revolta solidária de quem jamais perdoará uma sociedade capaz de tolerar que um dos seus possa ser conduzido a um desfecho assim.

publicado por shark às 00:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Sábado, 12.01.13

A posta que quando voltar a acontecer dirão que foi apenas um azar

Dificilmente alguém poderá contestar a capacidade e a competência de um domador para treinar animais. De resto, os domadores conseguem criar laços de proximidade extrema com animais selvagens ou mesmo ferozes e espantam multidões ao enfiarem a cabeça na boca de leões sem que nenhum mal lhes aconteça.

Ainda assim, não há muito tempo, o próprio Hugo Cardinalli acabou internado num hospital e os ferimentos sofridos na sequência do ataque imprevisto por parte de uma das suas feras domesticadas acabaram por ser um mal menor, pois sobreviveu.

A criança alentejana que, aos 18 meses de idade, foi atacada por uma fera de estimação numa casa de família teve menos sorte, pois morreu.

 

O paralelo entre ambas as situações é simples: seres humanos forçaram a barra da natureza e entregaram a sua segurança ao pressuposto de que tudo correria pelo melhor, confiando no bom senso de animais perigosos para saberem lidar com situações imprevistas. Contudo, tanto o felino que marcou o domador com unhas e dentes como o canídeo que fincou estes últimos no crânio de um bebé defraudaram as expectativas criadas em torno da alegada eficácia do treino ou da domesticação de criaturas cuja evolução natural ou man made lhes incutiu um instinto predador ou simplesmente agressivo em matéria de domínio territorial.

 

Um leão pertence tanto à arena de um circo como um pit bull pertence à cozinha de um apartamento. Criticar o dono de um cão de raça perigosa por ser incapaz de controlar o animal a todo o momento equivale a criticar o dono de uma metralhadora por esta se disparar sozinha por encravamento do gatilho ou defeito não descoberto no mecanismo de bloqueio da arma em causa.

O problema continua a ser o mesmo: muitos cidadãos comuns são incapazes de prevenir as coisas que só acontecem aos outros quando tomam a seu cargo responsabilidades que envolvam o risco de vida para si e para quem esteja por perto.

Essa é a lógica expressa na Lei quando proíbe os cidadãos comuns de terem metralhadoras ou morteiros em casa e é o mesmo espírito da que não autoriza a adopção de tigres da Sibéria ou de serpentes venenosas como animais de companhia.

 

Quando milhares de cidadãos se aprestam a assinar uma petição para impedirem o abate de um animal que, por incúria dos donos mas também dos adultos que deixaram uma criança entregue a si mesma num espaço sem luz, já se provou constituir uma ameaça para os seres humanos, com base no argumento de que a fera assassina não é culpada do que se passou e pode ser treinada para não repetir a façanha, apetece-me levar o raciocínio ao extremo a ver se entendem a base imbecil do seu impulso salvador.

Se confiam em absoluto na capacidade de treino de um animal que matou alguém, porque não arriscam promover o animal a cão de guarda numa creche frequentada por filhos dos subscritores da dita petição? Seria uma questão de coerência e desmentiria até os que como eu defendem a proibição absoluta da permanência de cães de raça perigosa em casas de habitação e, acima de tudo, nas mesmas ruas onde a minha filha merece circular sem temer perigos mais habituais numa savana.

 

A referida petição pode até ser subscrita pelos mesmos cidadãos defensores dos animais que as assinam contra as touradas ou, ironia, contra o cativeiro de animais selvagens nos circos deste país. Ou seja, podem estar carregados de boas intenções e centrados apenas no interesse dos bichinhos. Porém, ao seu gesto adorável que promove o indulto para um monstro potencial que matou porque o deixaram e não porque quis corresponderá uma ainda maior permissividade legislativa para com as máquinas assassinas (contra factos e números não há argumentos) que nada pode impedir de reagirem como tal em determinadas circunstâncias que, cedo ou tarde, acabarão por se repetir e somarão mais morte e mutilação ao triste registo destes cães que matam mais só em Portugal do que matam os tubarões no mundo inteiro.

 

O resto é folclore mais a ingenuidade e a estupidez tradicionais dos que deixam manipular as suas emoções pelos interesses de criadores abastados e de donos incapazes de aceitarem a evidência de que muitos cães mordem as mãos que os alimentam até ao dia em que são surpreendidos à dentada nas suas ou nas de quem se torna vítima da negligência ou apenas do azar de ir a passar quando a verdadeira Natureza se impõe.

publicado por shark às 17:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Segunda-feira, 31.12.12

O esperado regresso do fumo de artifício

O Governo já está à procura de boas ideias para desviar as atenções dos problemas principais e, como quem não quer a coisa, os movimentos de índole pseudo cristã afiam as suas naifas proibicionistas para ajudarem à festa na preparação de um 2013 tão imbecil quanto qualquer ano desta Legislatura já se provou capaz.

 

O tabaco, esse malvado, voltará a preencher as prioridades daqueles a quem interessa mudar de assunto e dos papalvos que compram o politicamente correcto com um entusiasmo tão ingénuo quanto despropositado.

O despropósito reside na asneira do costume: relegar para segundo plano a prevenção junto daqueles que ainda não adquiriram o vício, crianças e adolescentes, para concentrar energias na guerra ao consumo com medidas que visam apenas hostilizar os fumadores que ainda restam.

Imagens chocantes nas embalagens de tabaco, o dito por não dito relativamente aos espaços da hotelaria destinados aos fumadores, aumento do preço com base no agravamento da carga fiscal. São essas as medidas inteligentes do Ministério da Saúde que sabe quantificar os custos provocados pelas consequências nefastas do fumo dos cigarros mas, por outro lado, não nos confronta com os custos provocados, por exemplo, pelos acidentes de viação. Porque não proíbem a condução em vias rápidas para os prevaricadores, não obrigam a pintar imagens chocantes nos veículos nem aumentam ainda mais os impostos ligados aos veículos automóvel? Simples: os fumadores, já devidamente pintados como marginais, são um alvo mais fácil porque a opinião pública alinha na boa com a perseguição a quem está dependente ou apenas aprecia fumar.

 

O risco implícito nesta segmentação dos grupos a combater é o de se tornar num hábito, como a aparente mobilização dos tais movimentos anti aborto, anti casamentos entre pessoas do mesmo género, anti legalização das drogas leves e anti tudo quanto não lhes agrade mesmo que não lhes seja imposto por terceiros, denuncia.

Hoje são os fumadores, amanhã serão os bebedores e depois passaremos aos homossexuais seguindo o exemplo de alguns países africanos. A eliminação sistemática dos transtornos com pernas, por terem escolhas que não agradam à maioria que aplaude a imposição de proibições, serve, sempre serviu, os interesses das lideranças em apuros a quem convêm as questões fracturantes, dividir para reinar, para ninguém se concentrar naquilo que mais interessa nesta altura.

 

O Ministério da Saúde tem ainda muito por onde exibir a sua capacidade para o corte na despesa que os partidos no poder prometeram a quem os elegeu, apenas segue o mesmo critério de todo o Governo paupérrimo: o de apontar baterias às falsas questões para caírem no esquecimento as mais prementes.

 

Até pode dar-me na mona deixar de fumar entretanto. Mas nem por isso passarei a papar grupos.

publicado por shark às 12:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Sexta-feira, 07.12.12

A posta que este não é o meu país de origem

Talvez por ter nascido antes do 25 de Abril aprendi a encarar o meu país mais do que como simples local de nascimento mas como uma Pátria. Era essa a educação que nos davam porque era a que melhor servia os propósitos do regime de merda da altura, embora eu tenha aprendido a distinção entre o que implica o amor a uma Pátria e o fanatismo inerente ao nacionalismo exagerado e me acredite capaz de não trair qualquer das minhas convicções por abraçar esse amor que nos incutiam.

Contudo, essa Pátria que amo é uma realidade completamente alheia à que vivo nesta altura enquanto português porque está a ser gerida por gente sem qualquer tipo de semelhança com pessoas que identifico na condição de meus conterrâneos.

E dessa gestão apátrida por gente canalha estão a resultar coisas tão indignas como o absoluto desprezo pela fase terrível que a maioria de nós atravessa.

 

Tempos atrás tomei a desconfortável decisão de me desfazer de um bem imóvel, tentando remediar o impacto da crise no meu quotidiano, não sem antes me dirigir à repartição de Finanças para me informar acerca das questões fiscais associadas.

Nessa altura referiram-me que dois anos depois seria tributado pela mais-valia. Mas, para minha surpresa, constatei à posteriori que seria no ano seguinte ao da transacção que a martelada me atingiria.

Foi mesmo uma surpresa e virou do avesso todas as contas e expectativas para o ano em causa, a ponto de nem ter conseguido reunir a quantia necessária para liquidar o montante de imposto que me era exigido.

Percorri então o calvário do pedir batatinhas e lá fizeram o obséquio de me permitir a liquidação do imposto surpresa (por erro de informação prestada por um funcionário público) em prestações nada suaves quando somadas a outros compromissos assumidos.

 

Um Estado canalha, de má fé

 

Dessa aparente compreensão do Estado perante o mau momento dos cidadãos que o sustentam caiu-me mal a exigência de uma garantia, bancária ou outra, para acautelar a dívida em apreço. Note-se: uma garantia só pode aplicar-se a um bem que a possa salvaguardar e se a pessoa está em aflição por ter vendido esse bem só pode recorrer a duas alternativas: um seguro de caução quase impossível de subscrever ou uma garantia bancária igualmente dispendiosa e naturalmente dependente do estatuto da pessoa em crise junto da instituição. Ou seja, um beco sem saída típico dos presentes envenenados que um Estado de má fé oferece a quem lhe dá os flancos por não optar por uma existência não contribuinte à conta da economia paralela.

 

Claro que não pude obter a garantia em causa e disso dei conta na mesma repartição de Finanças onde antes me tinham induzido em erro mas que, azar, é a da minha área de residência (Sacavém). Que estava tudo bem, interessa é que nunca falhe com alguma prestação, o único problema da falta de garantia será o de não poder voltar a receber reembolso do IRS enquanto a dívida não estiver liquidada por inteiro. A custo, não falhei uma única prestação até à data mesmo sentindo na pele a ausência do tal reembolso relativo às retenções na fonte das quais não posso e até hoje não quis escapar.

Ou seja, nesta fase já me tinham entalado com uma informação errada que implicava mais um compromisso mensal que só me dificultava a vida num momento particularmente difícil.

 

Um Estado sem escrúpulos, chantagista

 

Hoje, para meu espanto, aprendi que vale a pena exigir prestadas por escrito todas as informações prestadas pelos funcionários das Finanças ou gravar as conversas com os mesmos. Aprendi que o Estado é incompetente, é aldrabão e é perigoso quando munido de poderes acima dos que lhe devemos conceder sobre a vida dos cidadãos contribuintes.

Aprendi que esse Estado sem palavra, pelo menos na boca de diversos dos seus funcionários públicos, pode acordar mal disposto e chegar a qualquer conta bancária, individual ou conjunta, e penhorar o que lá houver. E isto com base em alegados avisos prévios que nunca chegam a acontecer: recebi uma carta (que referia ser a terceira) no mesmo dia em que a penhora aconteceu.

Descobri entretanto que, mesmo não falhando com o compromisso assumido de pagamento em prestações, enquanto a situação da penhora se mantiver, enquanto a dívida não for liquidada na totalidade, perderei o direito a qualquer tipo de dedução fiscal.

É essa a chantagem descarada com que o Estado acabou de me confrontar, depois de me induzir em erro com uma falsa compreensão do problema que me permitiu diluir em prestações mensais.

 

Só me falta perceber se os montantes penhorados de várias contas farão a diferença entre conseguir manter sob controlo os meus vários compromissos mensais ou entrar num incumprimento provocado, nem mais nem menos, pelo Estado que se tornou na maior ameaça à nossa existência social, substituindo-se à banca nesse particular.

Mas já percebi que esta gente que se apoderou do destino da Pátria que amo está a transformá-la numa realidade bem distinta de tudo aquilo que representa o sentir português que, como os hipócritas que elegemos tanto elogiam, é reconhecido como solidário nos momentos de maior aflição.

 

E por isso mesmo a partir desta data declaro guerra sem quartel, sob todos os meios que a Lei e a Democracia me concedem, aos miseráveis bandalhos que estão a destruir nos princípios mais elementares a alma da minha Nação.

publicado por shark às 16:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sábado, 10.11.12

A POSTA NUMA VIDA DESPEJADA

Uma cidadã espanhola não suportou a pressão durante uma acção de despejo e suicidou-se, lançando-se da janela. Esse gesto desesperado, infelizmente não inédito, é o último degrau de uma escadaria que se desce aos trambolhões. A banca, inflexível, assume as regras normais de funcionamento do mercado perante circunstâncias excepcionais da existência de pessoas e de nações, mobilizando todos os recursos ao seu dispor em nome de valores que se colocam no patamar superior de uma hierarquia que, na prática, esmaga as vidas de quem comete o supremo pecado do incumprimento.

Os valores de topo são patrimoniais. E perante essa verdade que estas mortes nos gritam, saímos aos poucos de uma espécie de coma induzido e despertamos para uma realidade feita de monstros financeiros que formatam seres humanos ao ponto de estes desprezarem, escudados por uma obrigação profissional, os dramas pessoais dos seus semelhantes.

Números. Lucro ou prejuízo. Sentimentos proibidos num jogo onde não cabe a palavra perder, mesmo que isso implique alguém ter que morrer de desgosto, de aflição. Pessoas. Lucro ou prejuízo. Contratos para cumprir, execução de hipotecas, sem tempo a perder no cumprimento da Lei que protege os interesses superiores, os da maioria do capital que não chora porque não vê. Porque não precisa, escudado pela definição de prioridades que contraria o pressuposto do bem comum que é traído pela soma dos males que o sistema dispara quando chega a hora de se defender.

Parece que mais vale alguém morrer do que abrir os precedentes que possam corromper a afinação do mecanismo cobrador, o bom funcionamento de uma máquina impiedosa e sem margem de manobra para excepções.

Frieza capitalista que se assume terrorista por saber que o medo é um método eficaz. E as forças da ordem avançam como aríetes, mais os legítimos representantes de um poder conferido pela Lei que não protege os cidadãos mas sim as instituições mais sagradas, os símbolos mais destacados de um sistema desenhado para benefício de uma minoria sem escrúpulos. Arrombam as vidas dos que entendem prejudiciais, não cumpridores daqueles que são afinal os valores que nos tiranizam, que aos poucos nos escravizam pelo temor da exclusão social dos que apenas lutam pela sobrevivência.

 

E depois de acossados por todos os meios, sem escrúpulos ou consideração, alguns já nem a força para essa luta conseguem reunir.

publicado por shark às 01:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sexta-feira, 09.11.12

SATTAR BEHESHTI

A Blogosfera deve honrar os seus mártires.

publicado por shark às 09:25 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 04.11.12

BULLRICH

O BPI consegue aguentar muito mais crédito malparado? Ai aguenta, aguenta.

publicado por shark às 00:27 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 16.10.12

A POSTA SEM PANINHOS QUENTES

Os filmes e documentários acerca da II Guerra Mundial e do terceiro reich divulgaram alguns arquétipos das figuras sinistras que o nazismo produziu.

Uma das que primam pelo realismo é a da típica guarda-prisional alemã, sempre uma personagem repelente, autoritária, fria, desumana, capaz de abusar do seu poder sem qualquer espécie de escrúpulo com base na eterna desculpa das ordens para cumprir. É um clássico, de resto profusamente ilustrado e documentado para podermos identificar o tipo de gente que não queremos voltar a ter perto de qualquer tipo de poder, de qualquer ascendente sobre seja quem for.

Esse cliché do autómato humano, de uma criatura isenta de emoções perante a exigência de cumprir uma lei, uma norma ou apenas uma teimosia pessoal, não é uma caricatura.

A falta de escrúpulos das guardas-prisionais da Waffen SS e derivados não é um exclusivo de outro tempo e de outro país. A crueldade também não.

A prova está AQUI.

 

É difícil reprimir o apelo ao insulto perante este tipo de casos que provam existir mais do que uma espécie humana, a que possui algum mecanismo de protecção contra a desumanização e a outra.

Essa outra, que inclui crápulas das mais variadas proveniências, só varia na dimensão da sua repugnante interpretação da existência (a sua e a dos outros) e em função das circunstâncias, da conjuntura em que se podem permitir libertar a besta interior. Vão tão longe quanto mais solta a rédea e maior a fragilidade daqueles que possam dominar de alguma forma.

São pessoas sem um entendimento dos limites do razoável, sobretudo quando nos pratos da mesma balança estão os seus interesses pessoais e os das vítimas potenciais de consciências equivalentes às de um predador faminto.

 

Obrigar uma criança com fome a assistir à refeição de outras crianças com base numa dívida de 30€ contraída pelos pais em plena crise financeira é um crime contra a humanidade e, no meu entender de leigo, deveria implicar uma pena de prisão efectiva a somar à exoneração definitiva em matéria de funções ligadas aos mais jovens ou a seres humanos menos capacitados para se defenderem dos/as canalhas capazes de coisas assim.

É nojento, é imperdoável, não tem justificação possível e deve constituir-se exemplo de punição severa como aviso à navegação para outros répteis quanto à capacidade de reacção da sociedade a estas aberrações.

 

Se não levarmos a sério estes fenómenos de crueldade latente e os expurgarmos de alguma forma, quanto mais a crise nos debilitar mais esta gente sem princípios ou emoções nos poderá ter, qualquer um de nós ou os nossos filhos, nem que por um infeliz acaso do destino, à sua mercê.

publicado por shark às 20:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Terça-feira, 25.09.12

A POSTA QUE NINGUÉM VAI ESPERAR SENTADO

Uma das motivações que me levaram a entrevistar o Dr. Mário Frota tempos atrás foi a de ser fácil adivinhar o quanto se multiplicariam, num contexto de crise, os desleixos e os abusos até por parte de empresas e de marcas insuspeitas (por construirem uma reputação baseada na alegada qualidade dos seus produtos ou serviços).

Curiosamente, vejo desenhar-se no horizonte comigo a protagonista, contracenando com uma dessas empresas com um ar publicitário muito chique mas sem produtos com qualidade e resistência a condizer, um filme típico dos que movem o meu ilustre entrevistado e a Associação que em boa hora criou.

 

Por enquanto é só um mau pressentimento, mas se for caso disso logo vos darei conta de mais um produto a evitar. E porquê.

publicado por shark às 16:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Sexta-feira, 14.09.12

A POSTA WANTED DEAD OR ALIVE

Há cerca de três anos fui assaltado. Roubaram-me um telemóvel caro, para além de que até este episódio sempre achei que valia a pena apresentar queixa para não permitir que aldrabem a estatística, e só por isso me dirigi à esquadra da PSP mais próxima (a menos de 100 metros do local da ocorrência…).

Nessa ocasião tive oportunidade de levar com a primeira demonstração de brilhantismo do sistema, quando o agente que recolhia o depoimento entendeu estranhar o facto de eu, a quem tinham acabado de roubar o telemóvel, não ter de imediato telefonado para a polícia

Ainda assim, porque conseguiria identificar o gatuno sem dificuldade em qualquer lugar, avancei com a queixa formal e fiquei a aguardar o que se seguiria.

Em má hora o fiz

 

Só dois anos depois do sucedido, e quando o equipamento roubado já estaria quase obsoleto, fui contactado pela PSP. Teria que me dirigir a Odivelas, uns bons quilómetros do local onde resido e o crime aconteceu, para ver umas fotos e identificar o gatuno.

Lá fui e lá identifiquei, ficando a saber na altura que desconheciam o paradeiro do meliante e caso não chegassem à fala com o rapaz o processo acabaria arquivado.

Algum tempo depois recebi uma carta que me dava conta disso mesmo: o bandido andava em parte incerta e a partir daí nada mais a fazer.

 

Fiquei desiludido, admito. Mas mesmo tendo que abdicar da justiça fiquei de consciência tranquila por ter cumprido o que achava o meu dever de vítima de tais circunstâncias e por isso deixei cair o assunto sem mais.

Contudo, vários meses passados, voltei a receber uma convocatória para me dirigir à esquadra onde tinha apresentado a queixa no ano de 2009.

Estranhei mas fui.

Queriam apenas entregar-me um papel que constitui um dos maiores insultos com que o sistema judicial e o Estado Português me confrontaram em 47 anos de vida. Tratava-se de uma espécie de intimação para estar presente de novo em Odivelas para fazer nem sei bem o quê, ainda de volta da tal averiguação que me foi dada por encerrada por escrito.

O problema, o insulto, não reside no facto de me quererem voltar a fazer perder horas de trabalho em deslocações a um local sem nada a ver com aquele onde tudo aconteceu, reside sim no facto de nessa espécie de intimação constar uma ameaça de detenção em caso de falta injustificada.

 

Ou seja, fui assaltado a menos de 100 metros de uma esquadra de polícia, o gatuno foi por mim identificado na qualidade sem que isso acarretasse a sua detenção, o objecto roubado já não possui qualquer utilidade ou valor mesmo que fosse possível a sua recuperação, só perdi tempo nas deslocações associadas ao processo em causa e têm a lata de me ameaçar com detenção, a vítima, caso me recuse a prosseguir com uma perda desnecessária de tempo e de dinheiro que ainda agravam o prejuízo por mim sofrido? E querem ser levados a sério?

 

Claro está que me baldei e da mesma forma não reagi a outra convocatória deixada na caixa do correio pela PSP. Posso ser até um foragido da justiça sem o saber, mas assumo a desobediência a esta deselegância disparatada que me torna presa mais fácil do sistema do que o próprio criminoso a quem tentei fazer pagar pelo que fez.

Espero sinceramente que alguém acabe por cair em si e deixe prescrever o assunto ou outra treta qualquer daquelas que vão safando os poderosos, que esta justiça a que não pretendo recorrer no futuro em ocasiões similares me desampare a loja e aguarde outra oportunidade para prenderem alguém (para variar).

Mas se quiserem insistir, terei todo o gosto em usufruir dos meus 15 minutos de fama perante as testemunhas de qualquer tribunal e da Comunicação Social que não deixarei de informar, com cópias de toda a papelada, para que de uma vez por todas acabem os absurdos deste país refém de pessoas inaptas em sistemas imbecis. 

publicado por shark às 16:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quarta-feira, 05.09.12

A POSTA QUE DEVIA QUEIMAR-LHES A REPUTAÇÃO

 

verão escaldante

 


Foto: Shark


Portugal está de novo a arder, muitos hectares depois de muitos palpites acerca das causas e da forma de dar a volta ao problema. Ou seja, vários governantes e responsáveis da Protecção Civil enfrentaram a mesma coisa e a coisa ficou na mesma.

Arde tudo quanto resta para arder, excepto a carreira política ou outra de todos quantos deveriam, no mínimo, sofrer a consequência do descrédito que um fracasso destes acarreta para a credibilidade de todos os intervenientes.

Nem as medidas legislativas, nem o investimento em meios, nem qualquer das iniciativas tomadas obteve sucesso e qualquer devaneio nesse sentido está a arder todos os dias de norte a sul de Portugal que as ilhas também levaram que contar.

 

Para uns é a limpeza do mato, para outros é a política para as florestas, para outros ainda é a impunidade dos pirómanos. E ainda há os que se queixem da falta de meios, da própria (des)coordenação do comando das operações de combate aos incêndios.

Mas Portugal continua a arder, pessoas continuam a morrer ou a verem-se privadas dos seus bens e absolutamente ninguém vê sequer o prestígio abalado por tão óbvia inépcia.

Poucos países europeus arderam mais que o nosso nas últimas décadas e não vale a pena apontar o dedo a um clima nem mais quente nem menos húmido que o dos outros: a questão passa mesmo pela incompetência de todos quantos estão ou estiveram ligados às decisões nacionais nessa matéria.

E nessa como em muitas outras, o castigo pelo insucesso que possa abrir a pestana aos sucessores é nenhum. Nem criminal, nem político, nem mesmo em termos de progressão na carreira ao longo da qual podem repetir exibições de incapacidade.

 

Se nas finanças os erros podem em parte, e com alguma boa vontade, ser atenuados pelo pretexto do impacto da crise internacional, quando falamos de incêndios a coisa cheira a esturro sob qualquer ponto de vista.

A cada ano batem-se recordes e a paisagem muda de cor, tal como as vidas de muitos cidadãos apanhados pelas chamas que, na maioria, não nascem de combustão espontânea mas de asneiras imbecis, de actos criminosos sem um enquadramento penal proporcional aos danos causados e à ameaça sobre a vida de quem os tenta evitar ou da incúria que engloba a falta de actuação de quem para tal, supostamente, possui competências.

É triste, é revoltante, é insustentável, esta repetição do mesmo filme em cada Verão que cada novo responsável enfrenta sempre com aparente surpresa, mesmo quando a falta de empenho na prevenção se expõe à luz das labaredas que destroem um país e podem arrasar vários modos de vida.

 

Por isso este filme passado em sessões contínuas sempre que se reúnem os ingredientes essenciais para este permanente churrasco da Nação é um daqueles que todos sabemos e alguns na própria pele, enquanto não for levado a sério o problema jamais poderá ter um final.

E se esse vier a acontecer, depois de tanto arvoredo queimado jamais poderá ser um final feliz.

publicado por shark às 00:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Segunda-feira, 03.09.12

A POSTA NA CARGA DA BRIGADA LIGEIRA

Da imagem do dia, um cavaleiro tauromáquico a investir contra a multidão de manifestantes anti-tourada, só tenho a dizer que à eloquência da imagem só faltou um gajo mais teso no meio de todos aqueles pacifistas que lhe cravasse os garfos na fatiota e o fizesse estatelar-se ao comprido no pó.

Isso sim, teria merecido da minha parte o mais sonoro olé.

publicado por shark às 17:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 30.08.12

A POSTA NOS PEQUENOS E MÉDIOS ALDRABÕES

Da mesma forma que me revolta a tentativa torpe de descartar para cima dos cidadãos um descontrole das contas do país por, alegadamente, andarmos todos a viver acima das nossas possibilidades, uma falácia digna de gentinha sem vergonha nem maneiras se tivermos em conta o despautério generalizado por parte da banca que usou e abusou do vínculo de confiança com os seus clientes para os endividar em larga escala, não posso deixar de reparar no desaparecimento súbito de mais de cem mil crianças das declarações de IRS quando passou a ser obrigatório o número de contribuinte para a miudagem.

 

No momento de enfrentarmos todos as consequências de uma crise internacional que destapou o covil da multiplicação de asneiras, de maroscas e de excessos cometidos ou apenas permitidos por quem nos governou nas últimas décadas toda a gente se vira contra os políticos, e com razão, como responsáveis pelo estado a que as coisas chegaram.

Todavia, se aos governantes se podem imputar responsabilidades e culpas óbvias é preciso uma grande lata por parte de boa parte da população para apontar o dedo aos de cima e passar a esponja sobre os seus pecados individuais.

A trafulhice do cidadão comum, sem dúvida com o beneplácito ou pelo menos a distracção por parte de quem tem por missão legislar e fiscalizar, é multiplicada por milhões e tem muito, mas mesmo muito, peso no desequilíbrio das contas deste Estado em aflição.

 

É isso que se revela em cada uma das iniciativas destinadas a acabar com o regabofe: são sempre aos milhares os beneficiados por baixas fraudulentas, por subsídios injustificados, por pensões ilegítimas, por uma lista infindável de esquemas, de truques, de aldrabices como esta invenção de falsos dependentes a cargo que poupa uns trocos no IRS a pagar. É o Estado que estão a lesar, para além de falsearem o jogo da vida por ganharem de forma ilegítima mais do que os seus colegas de trabalho decentes e que não aldrabam o país.

E não cola a ideia de que o mau exemplo vem de cima, pois venha o exemplo de onde vier só o segue quem quiser.

 

Por isso já nem levo a sério as conversas de café nas quais os inocentes aos magotes se queixam dos maus, dos poderosos que enganam o povo, quando lhes conheço de ginjeira as múltiplas jogadas em que envolveram ou ainda envolvem os seus quotidianos.

Os outros é que fazem, os outros é que são e tudo de errado que fazemos é lavado com a água benta das coisas com justificação. Há sempre uma há mão, tal e qual os tais outros malandros, os lá de cima, nos oferecem as suas que são quase sempre para o bem do país.

Essa carga não pode ser aligeirada dos lombos de todos quantos se comportaram como burros, tão cegos pela ganância como os mandantes que criticam e invejosos do sucesso de outros larápios (burla equivale nas consequências a roubo). Venderam a alma por trocos, no fundo, e não têm moral para apontar o dedo seja a quem for.

 

Um país que não consiga encontrar defesas contra estas mentalidades mesquinhas, estas manias egocêntricas de egoístas munidos de esperteza saloia bem sucedida em tempo de vacas gordas, é ingovernável. Qualquer outra interpretação do fenómeno é um investimento irresponsável numa forma de estar que antes não nos servia e agora é quase uma traição.

 

E essas não se medem em função do tamanho do prejuízo causado a uma Pátria à qual já pouco resta para roubar.

publicado por shark às 23:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Terça-feira, 14.08.12

A POSTA NO VIDRO DO CARRO DA TUA SOGRA, PALERMA!

Existem uns autocolantes amarelos que podemos colar nas caixas do correio para assinalar a nossa intenção de não deixar atafulhar a caixa com as inevitáveis lembranças dos nossos amigos dos supermercados e das caixilharias de alumínio.

A ideia é permitir ao cidadão comum uma palavrinha a dizer quanto ao abuso na papelada num espaço que é seu e pelo qual até deve dizer a última. Faz sentido, por muito antipática que soe aos distribuidores de folhetos e similares em particular e aos publicitários em geral.

Então eu, proprietário de um veículo automóvel, devo ou não ter igualmente algum tipo de legislação, um selo para o vidro ou coisa que o valha, que garanta o mesmo direito consignado quanto à caixa do correio no caso dos limpa pára-brisas do carro?

 

A chuva de Verão é a cereja no topo do bolo em matéria de exibição do absurdo da publicidade escarrapachada nos vidros dos automóveis, nessa altura transformada numa pasta que deixada a secar quando regressa a bonança, acaba colada e difícil de limpar.

Contudo, essa iniciativa publicitária de eficácia duvidosa e por norma associada a negócios geridos por amadores implica ainda um aumento significativo do lixo provocado pelo aumento de papéis amarrotados no asfalto, completamente inúteis e na maioria arrancados em fúria pelos condutores que nem a vista passam pela mensagem que o anunciante burro pretendia divulgar.

É uma fonte de irritação permanente e em casos extremos (quando por exemplo aproveitam o vidro traseiro e a pessoa só repara em andamento) pode até comprometer a segurança na condução.

 

Esta forma de publicidade constitui para mim um abuso ainda maior do que o implícito no recurso à caixa do correio a que a lei entendeu pôr cobro, pois se a uma caixa de correio ainda se pode alegar a fragilidade na argumentação inerente ao facto de ser um receptáculo destinado a mensagens externas, no caso do vidro de um carro nem essa característica se pode invocar.

É uma pura e simples estupidez, tão estupidamente óbvia na ineficácia que não consigo lembrar, sem nomes ou referências de localização, mais do que umas clínicas dentárias barateiras, uns restaurantes orientais com entregas ao domicílio e umas seguradoras telefónicas. Isso mais os fulanos que compram qualquer carro usado, mesmo sem inspecção...

 

Considero abusiva essa utilização do meu carro estacionado como veículo publicitário não autorizado e não entendo a dualidade de critérios expressa na permissividade quanto a esta distribuição de lixo em propriedade alheia por contraponto com o espírito da lei que criou os tais autocolantes amarelos.

Trata-se de um abuso e como tal deveria ser liminarmente proibido porque viola regras elementares de bom senso e porque, extremando a coisa para lhe perceber a natureza, constitui-se precedente para um dia os distribuidores de panfletos em vidros de carros começarem a olhar para os óculos das pessoas com uma expressão gulosa e que nada prenunciará de bom.

publicado por shark às 21:43 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 08.08.12

A POSTA NOS QUE JÁ DEVIAM TER EMIGRADO HÁ MUITO

Revolta-me ouvir portugueses ilustres, ou simplesmente mediáticos o bastante para serem entrevistados por jornalistas estrangeiros, falarem com enorme desdém do nosso país.

Mais do que me revolta, repugna-me esse destilar das fraquezas circunstanciais de uma Nação que acaba por ser vítima do fraco nível das suas figuras de proa que tanta trampa soltam pela popa ao longo do seu percurso privilegiado no país que enxovalham perante os de fora.

Numa fase tão dramática em que até a soberania foi amputada pela gangrena provocada por medíocres que, regra geral, fazem parte da mesma elite que agora insulta o país com o seu desprezo mal contido, cai mal, muito mal, esta sede de protagonismo daqueles que apontam dedos acusadores a uma Pátria que nada fizeram para proteger dos males que a afligem.

 

Uma das regras mais razoáveis do funcionamento das organizações é a que recomenda que os assuntos delicados sejam tratados em sede própria, dentro de portas, e não discutidos na praça pública. É uma lógica fácil e aplica-se a organizações de qualquer dimensão, desde pequenos grupos de cidadãos ao conjunto dos que partilham uma Pátria.

Existe, por outro lado, uma diferença clara entre o impacto negativo do alardear de verdades inconvenientes para europeu ver (e atenção ao tom utilizado) e a mensagem positiva que se pode transmitir a partir dessas mesmas realidades desconfortáveis, transmitindo uma imagem colectiva muito mais favorável aos interesses do país.

Mas não são esses que preocupam os queixinhas (piegas?) mais desbocados, sempre tão deslumbrados com o destaque garantido pela presença de microfones ou de câmaras de televisão.

 

Afirmar o descalabro de Portugal perante os estrangeiros, denegrir a imagem do país ao enfatizar as suas misérias em detrimento das muitas grandezas ao alcance de um povo bem liderado, como este já provou, é impossível de defender enquanto gesto patriota. É um exercício desnecessário de lavar de roupa suja aos olhos de estranhos, de observadores facilmente impressionáveis por estas impressões deixadas por pequenos traidores que ocupam, neste período difícil, posições de (demasiado) relevo e (ab)usam-nas na excitação do momento, sem equacionarem sequer o efeito que as suas palavras (volto a chamar a atenção para o tom) provocam em quem não possui dados suficientes para as interpretar, para as enquadrar num contexto que possa ser benéfico, em termos de opinião pública europeia, para o nosso país.

Estes factos tornam-se ainda mais relevantes, reitero, por serem produzidos por quem possui voz e influência reconhecidas o bastante para merecer tal destaque. E essa voz e influência possuem-nas igualmente na sociedade que em nada conseguiram melhorar mas denigrem sem hesitar quando a oportunidade lhes é, inexplicavelmente, concedida.

 

Com o país tão necessitado de gente de bem que dele se orgulhe e queira acima de tudo libertá-lo da actual condição, revolta-me, repugna-me que os comprovadamente incapazes andem a dar a cara aos de fora como denunciantes de males a que se consideram alheios, preocupando-se mais em sacudir água do capote do que com a imagem já de si fragilizada que a situação financeira sempre implica, para os indivíduos como para as nações, como os gregos já sentem na pele.

E não, ainda não somos a Grécia no grau de aflição.

 

Mas parece ser esse o desejo secreto desta seita sem vergonha, desta elite impostora que tenta desesperadamente, prioridades bem definidas, descartar-se das suas responsabilidades directas ou por omissão no estado de um país do qual só lhes interessa defender uma zona restrita: a periferia apátrida dos próprios umbigos.

publicado por shark às 00:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quinta-feira, 07.06.12

A POSTA QUE ESTÁ NA HORA DE ACORDAR ANTES QUE TENHA DE SER À BRUTA

Ver um porta-voz de um partido político de um Estado de Direito agredir alguém no meio de um debate televisivo não é inédito, mas nunca deixa de nos surpreender.

Mas ver esse deputado de um partido político a esbofetear uma deputada de outro partido sem que nenhum dos homens presentes no estúdio mexa um dedo para o evitar, ou mesmo para punir a besta, é algo que sinceramente não estou preparado para engolir.

 

Em Portugal permitimos a indivíduos como Duarte Lima o acesso ao poder, pelo que não devemos estranhar que na Grécia, onde também estão mais longe do abismo porque continuam a avançar para o subsolo, seja possível eleger como deputado da nação um grandessíssimo cabrão que eu muito desejaria apanhar a sós num espaço qualquer.

O porco que fala pela extrema-direita grega não é diferente dos porcos que falem por qualquer outra organização ou ideologia. Os porcos não se distinguem tanto pelas ideias sujas mas sim pelas acções badalhocas que protagonizam.

E este suíno personificou ao vivo e em directo o tipo de dejecto que não podemos permitir nas instituições que nos governam e representam.

 

Não gosto da extrema-direita nem da maioria das pessoas que perfilham tal ideologia. Desprezo cobardes capazes de permanecerem sentados quando uma mulher é agredida. Mas odeio bandalhos cuja baixeza conduz a este tipo de comportamento. Odeio, sim, e não renego a minha vontade de os deixar incapazes de se moverem ao longo de meses numa cama de hospital. Ou pior.

Sou (tento ser) uma pessoa de bem até onde as minhas limitações o permitem, mas perante estes cenários o meu único instinto é conseguir ser pior, ainda mais violento e desprezível do que os canalhas como aquele porco que não vejo como de esquerda ou de direita, apenas porco.

E eu não avalio os porcos pelas respectivas tendências políticas, até porque nem lhes reconheço capacidade intelectual para as distinguirem. Um porco segue por onde calha, embora tenda a optar pelo maior chiqueiro e parece-me ser o caso.

 

Contudo, para lá do nojento que as imagens em causa representam está o sinal de alerta para aquilo que espera os gregos no futuro próximo e que, em circunstância alguma, poderemos tolerar no nosso país.

Mais vale arriscarmos a democracia do que a entregarmos de forma indigna a gente que queremos longe de todo e qualquer tipo de poder, pois a ameaça que representam não é um mal em potência mas sim um facto ignóbil que precisamos afastar ou mesmo abolir.

Cada vez mais não escolho partidos ou ideologias mas sim pessoas. Pessoas de bem sabem sempre escolher em função da sua consciência, sabem definir prioridades, têm mecanismos naturais de defesa contra instintos ou ideias hostis ao que entendemos como decência.

São essas as que quero no poder, qualquer que seja a sua visão do mundo, e nunca as bestas como o suíno grego ou qualquer versão menos espalhafatosa mas igualmente perniciosa que possamos albergar por cá.

 

A Democracia está em profunda agonia e não é com escolhas ao estilo Sporting ou Benfica, o meu clube é para sempre, o meu partido é igual, que podemos defendê-la ou dar a volta aos cacos em que imbecis e incapazes de esquerda ou de direita ou de nem se sabe bem o quê deixaram a Pátria que temos o imperativo moral de proteger, pelo voto, pela intervenção directa nas decisões importantes.

 

E se está em causa impedir os porcos de qualquer raça, ideologia ou pretexto de poderem aproximar-se sequer dos mecanismos de poder, perante a ameaça que representam nenhuma arma me parece excessiva.

publicado por shark às 13:01 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 20.05.12

A POSTA NO DIABO QUE OS CARREGUE

Uma das hipóteses mais terríveis que me acudiram à ideia quando pensei em alvos mais vistosos para um atentado terrorista foi, pela conjugação perfeita dos factores que tornam relevante o acto de profunda ignomínia em causa, a Eurodisney.

Acabei por concluir, tão fofo, que não, nem mesmo o mais tresloucado operacional de um qualquer grupo de cobardes seria capaz de apontar às crianças a mira do seu ódio.

Porém, a explosão que em Itália ceifou a vida de uma estudante com dezasseis anos de idade e provavelmente desfigurou ou incapacitou mais algumas jovens com o azar de frequentarem uma escola secundária que, na demência assassina de coisas parecidas com gente, foi escolhida para palco de mais um marco na descida ao inferno que cada vez mais os outros podem ser, trocou-me as voltas.

 

Neste caso, sejam quem forem, esses outros não se enquadram naquilo que defino como ser humano. Um acto terrorista não joga certo com a maioria dos instintos primordiais mais significativos e em nada se relaciona com a racionalidade como a conseguimos interpretar, é uma pura e simples aberração.

Mas não estamos a falar de um gato que ladra como um cão, em causa está a natureza dos vermes capazes de acharem boa ideia fazerem explodir um engenho a poucos metros de um estabelecimento de ensino à hora da entrada, algo cuja crueldade supera os limites suportáveis para os seres humanos propriamente ditos e que nenhuma causa ou justificação poderá, enquanto existir uma réstia de humanidade em alguém, atenuar enquanto exibição do Mal na sua forma mais cristalina.

 

Nesta altura, e depois de levantada a suspeita sobre a Máfia, ainda não se conhece o móbil da proeza tal como não foram identificados os respectivos autores, mas a baixeza do crime torna irrelevantes quaisquer outros pormenores: perante o conjunto de traições implícitas a alguns dos valores mais importantes para nos distinguirem enquanto pessoas nada mais interessa do que arreganhar o dente sem medo a estes bastardos da Criação e devolver-lhes em coragem e desprezo o ódio desumano e a cobardia mais nojenta que a sua presença no mundo só serve para representar.

publicado por shark às 16:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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