Segunda-feira, 28.07.14

A gosto virá

Gosto de entender a brisa morna que sopra como provinda do céu, da sua boca quente que arrepia a terra no areal desprotegido como uma nuca acabada de destapar.

Gosto de imaginar o som das ondas como a reacção ofegante dessa terra excitada, excitante, arrebatada pela sensação, exacerbada pela emoção que o céu, tão persistente, insiste em estimular.

Gosto de sentir o vento soprar cada vez mais forte, já perto do ocaso que anuncia a noite trazida pelo céu para cobrir como um véu o momento de encanto privado, a troca de carícias clandestina entre a terra feminina e o seu amante celestial, madrugada fora, até ao regresso do sol que ilumina como um sorriso o rosto da terra por instantes adormecida.

E depois a brisa de novo soprada, de forma gentil, para lhe sussurrar um até já porque esta história não tem fim.

 

É fácil gostar assim.

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publicado por shark às 19:53 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Segunda-feira, 20.05.13

Até ver

Patético, caminhava sobre as brasas da fogueira acesa pelo sol no areal por debaixo dos seus pés. Parecia que dançava, na expressão alucinada do olhar. Parecia que planava, braços abertos em vão para o abraço que ignorava não passar de um fruto podre camuflado por entre um cesto cheio concebido pela sua imaginação.

Padecia de uma loucura com pele de camaleão, discreta, secreta, impossível de detectar no meio dos cadáveres amontoados daquilo que outrora apelidava de lucidez.

Sem conhecer a realidade da sua condição, avançava para um ponto distante no horizonte interminável que o seduzia com miragens, falsas imagens que se desfaziam em pó quando se aproximava demais.

Parecia tactear o mundo em seu redor, cego por dentro pelo excesso de luz no pensamento perdido em raciocínios circulares, arrastado pelo vento até paradeiros desconhecidos, os passos entorpecidos pelo calor, como uma marioneta do destino, sem conhecer o caminho ou um ponto de chegada para a sua caminhada solitária, interior.

Apenas não queria parar, movido por uma força qualquer para a qual não encontrava uma justificação.

 

Ridículo, marchava num campo de batalha ressequido, um terreno marcado pelas pegadas cobardes de um exército de desertores. E ele ali, desarmado, braços abertos com o peito oferecido às balas de um inimigo que mal conseguia identificar, dentro de si, passos perdidos no meio de um chão que ardia e ele já nem sentia, anestesiado pela distracção que os fantasmas do passado lhe proporcionavam enquanto o alucinavam com memórias falsas e visões adulteradas de um futuro repleto de oásis que não conseguia encontrar.

Caminhava sobre o fogo que o sol teimava em atear, ignorante da sua condição, ambulante embrenhado numa simulação que lhe testava a resistência e lhe incutia a persistência que o levara até ali.

 

Ao ponto de partida dentro de si.

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publicado por shark às 00:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 28.09.12

PÁGINA EM BRANCO

Quero ver-te como a uma mulher nua deitada na cama à espera de mim.

Depois quero aproximar-me e tactear o caminho certo para te preencher com tudo aquilo que faça sentido para ti que o descobres apenas nesses momentos de interacção a dois.

Quero ver-te disponível e sentir-te impossível de satisfazer sem todo o empenho que a tua generosidade bastaria para justificar. Quero também transmitir na perfeição tudo aquilo que me permites sentir, mais a minha gratidão pela forma como te entregas, vulnerável mas poderosa, o poder do fogo numa rosa dos ventos que me compete soprar.

Quero ver-te cheia de vida, a expressão completamente alterada pelo efeito que consigo provocar, o meu prazer e aquele que queres partilhar com terceiros, indiscreta, só tu conheces a receita secreta que confidencio aos poucos na intimidade dos nossos encontros casuais.

Quero ver-te assim, misteriosa. No silêncio da minha contemplação, mesmo antes de estender a mão para começar um novo capítulo da nossa história na tua pele como numa folha de papel dos primórdios desta nossa relação promíscua. Quero que me deixes tatuar-te com mensagens que transportes contigo para terras distantes onde as exibas a outros amantes que te saibam merecer, capazes de entenderem a magia desta nossa relação e de te olharem com tanta atenção que te faça sentir possuída sem o seres.

Quero ver-te assim, despida. À espera de mim e do que tenho para dar, ansiosa, a beleza serena de uma prosa ou o simulacro de um poema nas palavras e nas imagens que gravo na memória daqueles a quem te mostras depois de te sentires preenchida por mim, a pele marcada pelo registo do tempo em que foste minha, uma curta passagem, que exibas orgulhosa como um diamante que só eu saberia lapidar.

Quero saber que te dás a olhar aos outros porque te gostas cobiçada, não te aceitarias privada dessa emoção que acaba por ser a principal razão da tua existência, vaidosa, maquilhada por mim, esculpida a partir de um nada aparente que vale por um infinito à medida de quem queira e possa e consiga prolongar a exploração desse enorme ponto de interrogação que o teu silêncio induz e me lanças à cara em tom de desafio.

 

Sim, gosto de ver-te despida e incomoda-me a ideia de deixar-te à mercê do frio.

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publicado por shark às 16:37 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quinta-feira, 20.09.12

A POSTA QUE ELA ESTÁ A OLHAR PARA TI

A felicidade é frágil. Essa é a sua única debilidade, o defeito que podemos apontar para a livrar da ameaça da perfeição. As coisas perfeitas são como equipa que ganha e a felicidade precisa ser mexida, cultivada, regada como uma flor no canteiro que é a beleza que podemos e devemos nutrir para que sobreviva, feliz.

A felicidade é um bem raro e precioso porque depende de factores externos, cruzamentos de caminhos, sorte nos destinos, mas também da capacidade intrínseca para alguém a sentir e sobretudo para conseguir preservá-la das permanentes agressões a que se vê submetida, em alguns casos apenas por existir e com isso incomodar quem não a consiga experimentar. E a felicidade é sensível, até a inveja ou o ciúme a beliscam porque uma felicidade a sério não consegue entender essas coisas, más vontades deliberadas ou mesmo as situações azaradas que a afastam do sítio onde gosta de estar, perceptível, omnipresente em cada sopro de vida de quem a possa albergar.

A felicidade precisa de se sentir defendida, reclamada a todo o tempo por quem com ela tenha trocado um olhar. É frágil, desprotegida perante tudo quanto acontece para a perturbar, mais a ignorância ou a distracção de quem nem a consegue distinguir por entre as cortinas de fumo do que mesmo sendo acessório atinge as pessoas como essencial.

A felicidade é possessiva e não gosta de ver a pessoa distraída com as outras, as emoções negativas que são proibidas numa felicidade como deve ser. Ela queria ser a única mas exige mesmo é ser a principal, a rainha plenipotenciária da atenção dos seus súbditos felizardos por inerência, quer que todos aceitem o seu cariz indispensável para uma existência como todos dizem querer, saudável e feliz.

É a própria felicidade quem o diz, quase o grita, quando por entre os medos de uma pessoa aflita, por entre a tristeza temporária, passageira, que tolera apenas por ser um bom termo de comparação consigo mesma, favorece o seu esplendor de fonte de sensações positivas e clareza de raciocínio no aproveitar do melhor que uma vida nos dá, afirma-se indispensável para as coisas correrem melhor.

A felicidade é generosa pela influência do amor na sua forma de estar. O amor gosta imenso de dar e a felicidade respeita essa vontade e até fica satisfeita com o resultado obtido pela sua intervenção, aquilo que recebe de volta quase não conta porque amar já quase basta para se ser completamente feliz.

 

E a pessoa acredita, por ser a própria felicidade quem o diz.

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publicado por shark às 14:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Quarta-feira, 22.08.12

O ÚLTIMO COMÍCIO

As palavras cambaleavam como que embriagadas pelo cheiro nauseabundo das ideias exumadas no nexo de uma causalidade arbitrária, predestinada ou não, de uma constante aleatória, que as arrastava a custo pela pista feita palco de danças que todos em volta rotulavam de imenso intelectuais.

Mal se endireitavam, as palavras circunstanciais que se atropelavam pelo desespero de causa, perdida a deixa na memória que restava da história de vida de um péssimo orador, porque eram palavras perdidas, palavras cuspidas no momento de êxtase de um exorcismo qualquer praticado naquele palanque improvisado do qual emanavam uns sons que as palavras dançavam sobre as pernas vacilantes das mentiras que não as tinham para andar.

Piruetas extraordinárias e cambalhotas involuntárias, sem atenção ao ritmo marcado pelo que, à distância, parecia o rufar de tambores na exigência de dias melhores por parte da audiência que escutava as palavras atiradas à parede como barro que não colava porque a parede parecia ter ouvidos e rejeitava também ela, estupefacta, a lógica putrefacta das ideias exumadas da sepultura onde as arquivavam, nas valas (dos lugares) comuns, tantos enganados por apenas alguns que se revelavam agora desastrados com as palavras a utilizar.

 

As palavras tropeçavam sem cessar nas raízes da insensatez plantada mesmo à beira daquela estrada sem fim que se impunha percorrer, naquela terra deitada a perder num jogo com regras a fingir, muito pouco no entanto na cotação dos aprendizes de espertalhão cuja música ecoava em fundo como a banda sonora de uma comédia sem vontade alguma de rir.

O som de palavras desequilibradas pelas ideias desenterradas à pressa para cavarem afinal a própria sepultura, escravas da lucidez que lhes matava à nascença a ilusão da confiança que pretendiam inspirar.

O ruído assustador de um comboio de palavras a descarrilar, carruagens atafulhadas de palavras desperdiçadas na viagem sem regresso a uma terra prometida no baile de uma história encantada onde a música de fundo não deslustraria em velórios, ou mesmo em funerais.

Palavras tristes demais com a sua desdita, na expressão oral que depois era escrita e as envergonhava e parecia que cada ideia as embriagava para as ajudar a esquecer o lado abjecto da sua condição de reféns daquele grupo de artistas, prodigiosos malabaristas de modelos e de conceitos, de planos que pareciam perfeitos quando o barulho das luzes se sobrepunha ao de cada palavra que se expunha ao embaraço daquela humilhação porque a demagogia as transformava numa cacofonia sem sentido algum.

 

Tantos enganados somente por um, o mais convincente no poleiro, tantos atraiçoados pelo poder do dinheiro que comprava aquelas palavras malditas que eram palavras desditas em função do tamanho da ondulação no mar onde o naufrágio já acontecia mas a bordo ninguém parecia saber.

Mesmo quando, à vista desarmada, já mal se avistava o último salva-vidas ao dispor.  

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publicado por shark às 00:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 15.08.12

JUÍZO FINAL

A razão deu consigo aprisionada, para sua própria protecção. Deslocada para um espaço livre da perturbação que se apoderou daquele mundo interior. Vigiada a todo tempo como se fosse valiosa, algum tempo depois, quando algo lograsse a estabilização daquele lugar.

A razão tentava entender, como lhe competia, tudo o que estava a acontecer e não conseguia porque a loucura a galope na pressão demasiada espalhava informação que deixava desorientada a razão agora detida, para sua própria protecção, num derradeiro bastião de lucidez.

Cercada pela insanidade que acreditava temporária, a razão que restava era mantida isolada do caos que reinava em seu redor e que contagiava raciocínios até não fazerem sentido algum. Mas o sentido era único e obrigatório para a razão que de outra forma perderia a razão de ser, perdia o estatuto de fonte permanente de um saber mais organizado, quiçá mais controlado do que aquele pandemónio instalado no centro das emoções, em todo o lado, o pensamento arrastado para um ritmo impossível de processar em tempo útil para evitar decisões desastradas, iniciativas tresloucadas que a razão jamais poderia tolerar.

Porém, a razão parecia já não mandar e o controlo estava entregue a uma espécie de anarquia, pelas palavras que produzia e pelo comportamento anormal de tudo o resto que não a testemunha estarrecida, a razão que estava detida para sua própria protecção, perto da cabeça mas distante do coração demasiado acelerado nas curvas, salvaguardada do acidente inevitável que tamanho desnorte iria certamente provocar.

 

A razão não podia arriscar a sua integridade, era a última oportunidade de inversão para um rumo infeliz, para um regresso à lucidez infiltrada na multidão desorientada de fogos de artifício mentais, de pensamentos prejudiciais à estabilidade de todo o sistema.

Tentou ponderar um esquema de recuperação do poder, a razão forçada a aprender uma nova linguagem para a comunicação com toda aquela confusão que reinava onde a ordem deveria presidir.

A razão não podia deixar fugir nem mais um pedaço de si, já fragilizada pela força utilizada na sua providencial detenção, o presídio como salvação da lógica esgotada de argumentos, dos valores tão obsoletos que mais pareciam adequados à exposição num museu, da derradeira resistência à voz de uma consciência revolucionária, de uma insanidade que julgava temporária mas insistia em perdurar sem a razão conseguir criar os limites necessários, as barreiras que impediam os impulsos mais temerários de irem longe demais, para lá do território cartografado nos arquivos do conhecimento empírico e fora do alcance dos mecanismos de controlo impostos pela razão cada vez mais impotente e à mercê daquele motim.

 

A preocupação já não pensava assim, aparentemente aliviada da pressão pelo efeito da loucura que se apoderava aos poucos do juízo que restava e dessa forma baralhava por completo o raciocínio antes insuspeito daquela a quem competia a primeira linha de defesa contra as ameaças do exterior.

Parecia querer demitir-se das suas funções, livre das preocupações que a justificavam, relegada para segundo plano onde seria figurante na balbúrdia que as forças de segurança da razão tentavam a custo impedir de ultrapassar as fronteiras do senso comum, à solta num ambiente que era terreno hostil para a razão sem reforços nem protecção para lá daquela jaula onde não podia voar como os pensamentos enlouquecidos, como os humores descontrolados que tão má imagem forneciam de uma razão condecorada por tanta ameaça evitada no passado pela razoabilidade sua intervenção.

 

A razão, prisioneira da sua condição, observava à distância (como aconselhava a prudência) e percebia, aos poucos, que os sãos e os loucos já conseguiam conviver com a insanidade a prevalecer, enraizada ao ponto de parecer natural aquela loucura cada vez mais global que a razão, aprisionada numa masmorra de solidão, adivinhava vencedora a menos que acontecesse um milagre qualquer.

E esse conceito a razão nunca conseguiria entender, quanto mais acreditar...

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publicado por shark às 16:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Quinta-feira, 12.07.12

A ULTIMA PEDRA

A passagem do tempo parece limpar, como o vento, o rasto deixado, na areia da memória, por algo que não terá passado de uma história das que nem valem a pena recordar.

Com a ajuda das ondas do mar, a brisa soprada pelo tempo vai apagando, vai varrendo do solo os resquícios da desilusão remanescente, vai tornando irrelevante a marca indelével de um momento que se deseja impossível de repetir.

O passado cheio de vontade de partir para o esquecimento absoluto, abandonado no edifício devoluto onde se acumula o entulho, perdido num canto ocupado pelo barulho da cacofonia de sons imaginários de muitos acontecimentos secundários deixados para morrer num espaço afectado pela surdez.

O presente dominado pela lucidez que no passado falhou a sua missão e deixou turvar a visão da realidade ao ponto de quase justificar uma saudade disparatada nesta altura em que já pouco resta, pois nada dura para sempre quando não presta, quando se usam materiais de construção aldrabados.

E no futuro restará apenas a última pedra, poupada aos trabalhos de demolição entretanto desembargados.       

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publicado por shark às 14:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 07.05.12

A POSTA LAURO ANTÓNIA

É fácil depararmos-nos com becos sem saída quando percorremos o labirinto da introspecção, uma espécie de aventura em corredores armadilhados ao estilo Indiana Jones e a Razão Perdida com a subjectividade a fazer o papel do vilão daqueles com muito bom coração mas um nadinha desviados, todos nós, do caminho melhor.

É uma metragem que queremos longa e por isso nos deixamos perder no decorrer de mais uma deambulação pelos tais corredores que parecem parados quando não interessa, afinal, avançar porque podemos encontrar, nós todos, as respostas tão explosivas que podem estragar o final feliz para o herói atrevido e mesmo para o mau no interior, o agente sabotador das melhores intenções a que chamamos, enquanto batemos em retirada, um mecanismo de defesa natural e por isso mesmo absolutamente desculpável.

 

As culpas são um dos rostos malévolos que trocam as voltas, que perturbam o sentido de orientação racional e nos deixam à toa como ratos de laboratório numa experiência desenhada à medida de chimpanzés. A inteligência acaba sempre atingida pelo fogo cruzado, tão natural, dos mecanismos de defesa, protecção instintiva da pessoa, contra a artilharia pesada da consciência que pode mudar o lado da barricada consoante o alvo a abater.

É uma guerra talhada para ser perdida, o rato à toa nos labirintos da vida em busca de um queijo sempre a mais porque dizem fazer mal à memória e os caminhos que não encontramos, lojas de conveniência racional, são os pontos de fuga ideais para uma desculpabilização montes de esquecida e por isso reconhecidamente eficaz.

 

A película não anda para trás e cada cena tem que resultar à primeira ou pode ficar uma vida inteira às escuras dentro da caixa metálica, opaca, de uma bobina, uma imagem muito mais intensa e dramática do que a obtida com o argumento fácil da cópia digital. É analógica a batata quente a crepitar no colo desertor da mentira piedosa ou de qualquer outra jogada manhosa à maneira para salvar no último instante a pele imaginária do amor (im)próprio de cada actriz ou actor, corta como um cutelo no filme de terror em que passamos a vítima quase inocente, tão nua e desprotegida à mercê de uma condição que funciona como uma mina anti-pessoal, a verdade crua e malvada que pode tornar inviável a mudança de cena suave no processo de transição para a absoluta negação da imagem que nos perturbou.

 

Insistimos na certeza de que aquele filme já acabou e por isso não faz sentido a obrigatoriedade de realizar uma espécie de sequela onde o mau da fita é mesmo a cara chapada daquele que antes, numa reacção mais a quente, protagonizava a pessoa muito boa mas apanhada na fogueira ateada pelas circunstâncias, essas incógnitas, essas variáveis que funcionam como contexto ideal, como cenário mutante em função do ângulo mais interessante, mais favorável da actriz ou do actor. São truques de realizador experimentado, de produtor bem sucedido de fitas que servem apenas para desviar a atenção, tão bem resulta a prestidigitação que a mente aponta de imediato o míssil do ilusionismo contra as fileiras desguarnecidas de vontade a sério de vencer.

A guerra é travada para perder, nem que a bala nos atinja apenas de raspão, porque avançamos com as certezas assentes num alçapão automático, redentor, à prova de bala e mesmo de amor disparado à primeira vista, rajadas de setas lançadas por um cupido moderno que faz de fuzileiro zarolho nos momentos de comédia que a vida acrescenta só mesmo para o público desanuviar.

 

A saída airosa para escapar do tal beco que a perdeu, no labirinto onde não se esqueceu a deixa que facilitava a fuga milagrosa para o prémio de consolação, o túnel escavado no subsolo da prisão onde urge deixar a verdade encarcerada, por troca com uma sósia, a dupla na realidade maquilhada como uma tábua de salvação no mundo faz de conta das térmitas que gritam acção mas a pessoa entende que já rascunharam no guião o seu happy

 

(THE) END.

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publicado por shark às 01:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Sábado, 03.03.12

SEXTO SENTIDO

Abre os teus olhos como janelas de uma casa no topo de uma montanha e deixa fugir o olhar pelo mundo tão belo como o vês, segue-o de perto e percorre de lés a lés a paisagem de cortar a respiração.

Escuta o bater mais acelerado do coração que rufa como um tambor no silêncio em teu redor e decifra a mensagem que o vento vai entregando a cada momento dessa tua pausa observadora e percebe como a vida melhora só pelo prazer de conseguires absorver em pequenas porções de imagens e de sons as mais poderosas sensações que esses sentidos podem oferecer.

Saboreia nos lábios a memória de um beijo, deixa-te abraçar pelo desejo e liberta da caixa de pandora numa manhã radiosa de Primavera a anarquia da imaginação, o gosto salgado da paixão na tua boca, o corpo deixado à solta numa aventura arrojada que te sabe a amante beijada quando te lembras assim, sem amarras, de tudo aquilo que desejavas e às tantas ainda podes ter.

Aspira a brisa da madrugada que te faz recordar o odor de uma noite passada a amar sem reservas, abre de novo a gaveta onde encerras tudo aquilo que constitua evocação do que renegas sem querer, apenas no sentido de prevenir uma recaída, o descontrolo de uma doença mal curada que te possa ensandecer, quando amas isso pode doer, inspira fundo agora esse ar que transporta de fora o que escondes dentro de ti.

Sente a pele que reage por si num arrepio que sabes não ter nascido do frio porque no interior da tua mente há um corpo incandescente alojado no teu e agora abres os olhos para veres no céu desenhados pelos rastos de aviões os contornos dos amantes e o calor das emoções que te envolvem com a suavidade de braços feitos de cetim.

 

Pensa nas coisas postas assim e utiliza acima de tudo a intuição, concentra nela a tua atenção e deixa-te arrastar pela estrada que o instinto traçar enquanto tudo te é permitido pelo tempo que se faz esquecido de nos avisar que continua sempre a passar porque é como uma locomotiva sem travões que ignora apeadeiros ou estações, a vida não pode esperar pelo que se possa deixar para amanhã logo se faz e o tempo recusa andar para trás para recolher os atrasados para usufruírem da permanente celebração que é uma vida com a sede de paixão que tenhas reprimido.

 

Segue as pegadas desnudas do teu sexto sentido.

 

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publicado por shark às 23:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 02.08.11

A POSTA SOBRE CARRIS

Realidades imutáveis, verdades impossíveis de alterar para diferente, para melhor, são sinónimo de derrota para quem se queira agarrar à mentira representada pela ilusão.

Não importa quantos são os obstáculos que não se logra transpor e enfatizar os ultrapassados constitui não mais do que uma panaceia para o desconforto que sentimos quando a verdade é a doer e é daquelas que nos fazem perder quando pouco mais resta do que empatar para adiar a constatação.

A vida pode revelar-se obstinada, persistente, particularmente motivada no sentido para nós proibido, aquele que queríamos perdido para sempre nos confins da desorientação das coincidências que se vestem de sorte ou de azar.

A vida pode não achar que devamos ter uma pequena palavra a dizer no rumo escolhido e depois opta pela falta de sentido que é como uma lição de humildade extraída de uma realidade imposta pela teimosia do destino traçado por uma força superior ou apenas pela maior relevância de um factor que terá escapado ao nosso controlo ou simplesmente à nossa atenção.

E entretanto a vida passa destravada pela estação onde nos deixamos ficar, à espera dos milagres sem a bagagem de fé que os possa sustentar em teoria, depois de afastada tal hipótese pela franqueza brutal da lucidez, e só quando a vemos ao longe percebemos que a vida não espera por passageiros apeados pelos seus dilemas intrincados, pela sua desistência mal disfarçada por tentativas débeis de alterar as realidades imutáveis que o tempo transforma aos poucos em folhas secas arrastadas pelo vento no espaço mais recôndito das recordações que bem podíamos dispensar.

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publicado por shark às 15:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sábado, 30.07.11

ROSTO ABAIXO

A emoção escapou da alma sob a forma de uma lágrima que traçou rosto abaixo o percurso para a enxurrada das restantes foragidas que aguardavam a sua hora de fugir.

A nascente começou a libertá-las aos poucos mas não tardou a perder o controlo ao caudal, qualquer barragem seria ultrapassada pela força da corrente poderosa daquela torrente chorosa que corria, rosto abaixo, para longe de onde não queriam estar porque não faziam falta alguma.

Todas seguidas, unidas pelos grilhões das pretensas emoções que as produziam afinal. Rosto abaixo, dali para fora. Era tempo de partir, de ir embora, para nivelar a pressão que atormentava o presídio onde cada lágrima aguardava a sua vez para fugir ao frio e mergulhar no vazio que lhes parecia mais aliciante do que uma alma emocionada de forma artificial, apenas mais um embuste emocional que aquele rosto com pele de crocodilo acabou por absorver, canalizando esse depósito para futuras utilizações.

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publicado por shark às 21:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 20.07.11

A TODO O TEMPO

Sou de um tempo em que o amor se dizia, mais do que se escrevia, olhos nos olhos da emoção que tanto intimidava na enorme luta que travava com o medo da rejeição.

Sou de um tempo em que a amizade se vivia, mais do que se prometia, mão na mão da força que tanto consolidava a confiança que se depositava sem temer a traição.

Também sou de um tempo em que a paixão acontecia, mais do que se fingia, lábios nos lábios da atracção poderosa que tanto nos acelerava a pedalada do coração.

 

Sou de um tempo que passava com vontade de avançar vida fora até ao tempo que é agora sem desistir de sonhar.

E por isso também sou de um tempo que ainda está por chegar.

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publicado por shark às 11:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)
Sexta-feira, 20.05.11

AQUELA PESSOA

Aquela pessoa parecia emparedada pelas vicissitudes da vida, tentava impedir a vitória da insanidade temporária que se queria instalar de vez naquele olhar perdido nas imagens de um passado para onde fugia, sempre que se sentia à toa, em busca de um santuário para resguardar a lucidez.

 

Aquela pessoa parecia encurralada por uma situação lixada, tentava em vão procurar uma solução até que desistia, por algum tempo, e fechava-se num tormento muito seu, olhar aparentemente perdido num qualquer ponto mas na verdade olhava para dentro, alucinado pela pressão, abraçado a uma solidão que defende a pessoa do sufrágio dos outros nos momentos menos bons.

 

Aquela pessoa parecia isolada numa causa perdida, numa ilha deserta de alternativas que era um pouco como um naufrágio aos bocadinhos, afogada a pessoa em problemas da vida que a sufocavam, emparedada por detrás de muros que construíra pedra por pedra na sua mente alucinada, por detrás daquele olhar perdido num espaço profundo que a loucura, com a vontade que evidenciava de ali se instalar, nunca parava de escavar.

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publicado por shark às 13:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 27.04.11

HISTÓRIA BREVE DE UM GAJO QUE, DIZIAM, FALAVA DEMAIS

Viu que ele sabia do que falava quando o ouviu afirmar que o silêncio, se fosse visível, não passaria de uma sombra negra no meio da escuridão.

Por isso falava tanto, dizia, sempre na esperança de que as palavras pudessem funcionar como tochas, que lograssem clarear todos os recantos onde o silêncio pudesse esconder os seus segredos, o preto do vazio nos espaços em branco onde congeminava os equívocos inevitáveis da interpretação de textos cortados, de trechos censurados que o silêncio aproveitava para substituir por palpites, por meras suposições.

Ele falava dos enganos que o silêncio fabricava, aproveitando a cegueira de quem se deixava tentar pela mudez. Como surdos, no meio de uma caverna onde os morcegos pendurados eram pontos de interrogação disfarçados, vagueavam ignorantes das coisas que não podiam saber porque alguém as não queria dizer e o oportunista aproveitava essas lacunas como sustento para os seus filhotes de dúvida que a confiança abalada paria sem querer.

Ele falava do que ficava por dizer como bordas de um precipício, como armadilhas camufladas para as palavras silenciadas que se transformavam em monstros horrendos quando lhes era impossível converterem-se em som na melodia de uma voz, privadas de esclarecimento, privadas de luz.

Nunca se calava, mesmo sabendo que penava depois com o excesso de iluminação sobre verdades incómodas, os melhores panos manchados pelas nódoas de culpas confessadas e, utopia, pensava que isso lhe garantiria o perdão.

A realidade dizia-lhe que não, transformados os amigos de outrora em desertores depois de o ouvirem falar de amores que consideravam proibidos, relatos que preferiam escondidos nas trevas que o silêncio oferecia, piedoso, salvaguardada a lógica que esclarecia que uma mentira não equivale a uma omissão, sendo feio mentir, e as palavras por dizer nem conheciam a luz do dia e a mentira assim não existia e era-lhes mais fácil viver assim.

Ele falava sem parar, para a maioria eram monólogos cansativos, saturava os ouvidos dos outros com a sua arma sonora contra o silêncio de que se afirmava inimigo mortal. Era para ele uma luta entre o bem e o mal e nunca baixava a guarda, não admitia a existência de silêncios comprometedores nem permitia o embaraço de não haver algo para dizer quando houvesse algures um receptor.

A vida só tinha valor quando contada, desaparecia se silenciada sob um falso pretexto qualquer, o medo ou a vergonha, o segredo que se impunha para preservar a imagem pública de alguém. E ele de imediato a referir, olhar perturbado, o facto de só uma imagem existir, a da pessoa real que não conseguia afinal esconder para sempre o desconforto por tal distorção, o suposto branqueamento por omissão que não passava, quando a verdade a desmascarava, de uma versão hipócrita, apenas menos descarada no seu progressivo escurecer.

 

Um dia ele parou de falar. Morreu.

E no alívio dos que o não conseguiram esconder, o seu inferno interior, ficou esclarecido o quanto ele terá merecido um lugar reservado no céu.

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Segunda-feira, 18.04.11

A SENTINELA DE PAPEL

De vez em quando espreitava as memórias que guardava durante o tempo que queria acreditar suficiente para as tornar inofensivas, anestesiadas, dormentes como os braços onde sentia agora o formigueiro do sangue na sua circulação, a alma em ebulição que fechava na mesma gaveta, esse pedaço incandescente que tentava apagar no rescaldo por acabar como o percebia sempre que abria o peito à análise irracional daquele resíduo de emoção perigosa dentro de si.

 

Ficava sempre por ali, no silêncio compartimentado, estanque, de uma casa-forte sem oxigénio que pudesse alimentar aquela chama que não conseguia apagar e queimava a cada inspecção as pontas dos dedos do coração que queria vencer o combate quando tocava a rebate o sino de alarme, o alerta geral de que algo poderia correr mal com aquela labareda à solta.

Fechava à pressa a porta de acesso para se poupar ao risco de se queimar outra vez, uma saudade inflamável que servia de combustível para o lançamento de um foguetão que lhe atingia o coração como uma seta de cupido tresmalhada no meio do fogo cruzado com a cabeça que se esforçava para impedir a ocorrência, não perdia a consciência do perigo que representava a abertura daquela caixa de pandora interior.

 

De vez em quando tentava extirpar o amor, a paixão teimosa que se revelava ardilosa quando se fingia uma bela adormecida de pacotilha para montar uma armadilha, uma emboscada à traição com a sua força de emoção poderosa e sabedora das fraquezas, dos remendos aplicados como certezas de uma segurança afinal tão titubeante como a indiferença aparente que constituía a primeira linha de uma defesa formada por castelos de areia à mercê de sopros mais fortes do vento.

 

Ou de uma inexorável subida da maré.

publicado por shark às 00:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Sexta-feira, 18.03.11

NAS LINHAS DA VIDA

As palavras a preencherem o espaço branco vazio, como o ar nos pulmões nas maiores inspirações que até podem nem passar de suspiros.

Uma a uma, ou várias de sopetão, a boca que respira em forma de mão que as solta, as palavras, espalhadas ao acaso pelo pensamento a arfar angústias ou aflições, alegrias ou emoções confusas, perturbadoras, aceleradoras do ritmo do coração e da cabeça, como as palavras depois de libertadas, palavras expiradas para diminuírem a pressão do autor que alimenta a fornalha interior como maquinista de uma locomotiva das antigas, cansada de trilhar um caminho predestinado nas linhas desenhadas por carris imaginários que traçam o destino no chão.

 

Que podem ser lidas pela sua alma cigana na palma de uma mão.  

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publicado por shark às 15:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Terça-feira, 08.03.11

A POSTA MAIS ACIMA

Escuta o som distante do trovão e decide nesse momento se preferes temer um tormento na tempestade vindoura ou acreditar na vontade indomável, salvadora, que te leva a ouvir a borrasca anunciada como uma mera despedida do temporal que já partiu.

 

Fixa o olhar no horizonte e decide nesse instante se aceitas recear o cinzento muito escuro que te ensombra no presente o futuro ou se antes desafias a sorte e te exiges forte o bastante para concentrar a determinação desse olhar no céu azul que te transmite a confiança necessária para abraçares a esperança de veres desaparecer ao longe a ameaça, mesmo que antes te vejas forçado a enfrentar um dilúvio, resguardado pelo abrigo que tiveste o bom senso de à cautela construir.

Enche o peito de ar e permite-te acreditares-te capaz de transformar a adversidade em apenas mais uma oportunidade de transcenderes as expectativas, de contrariares as energias negativas que drenam a tua para o impulso desertor.

Aprende a entender o amor como a couraça de cetim que te torna invencível, uma barreira invisível onde se esmaguem como insectos num pára-brisas os obstáculos que tu mesmo acabas por criar quando te deixas manipular pelo desespero de uma causa que não podes dar por perdida porque essa causa és tu mais quem tenhas a felicidade de te querer.

 

Abana com os safanões do vento no cimo desse rochedo de onde respiras o mar e opta entre o medo de naufragares ou a coragem de içares as velas do pensamento que serão asas para te elevar a um ponto ainda mais alto onde consigas vislumbrar o objectivo por alcançar e nada ou alguém te desviem dessa rota de colisão com os sinais da perdição que renegas.

 

Então concluirás que por muito que abanes nunca vergas.

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publicado por shark às 19:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Segunda-feira, 07.03.11

PESOS E MEDIDAS

Como no espaço, flutuando, celebrando a ausência de gravidade naquele lugar distante, imaginário, isolado de um outro onde a responsabilidade assumida se ameaça incumprida e aos pés de chumbo não é permitido perder o contacto com o chão.

A mente em pós-ebulição, arrefecida de forma artificial naquele refúgio, naquele local inexistente onde nada acontecia que pudesse prejudicar directamente a realidade da situação.

Flutuando em cima de uma bóia de sinalização dos perigos afiados, a tormenta dos rochedos por cartografar, armadilhas daquele mar revolto, desassossegado pelo sopro forte do vento no cenário construído pela vida a acontecer onde a sorte pode morder, raivosa, pintada cor de rosa para nos enganar e afinal ser mesmo um azar daqueles que não existem no mundo faz de conta.

Como no espaço, à deriva, a mente prisioneira, cativa do medo que a leva a fugir para um sítio que não pode existir em paralelo com a verdadeira dimensão da ameaça concreta ou do simples papão que por instantes assusta a lucidez e a intimida o bastante para se fazer esquecida da necessidade de sentir o chão sob os pés. De chumbo, para não poder flutuar sem rumo na insensatez. Ou para bater mais depressa no fundo.

 

Para poder recomeçar outra vez.

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publicado por shark às 15:55 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 12.02.11

EM (P)ARTE INCERTA

O músico que verte pelos dedos emoções para o teclado de um piano que chora uma lágrima sonora e a deixa fugir pela janela, disfarçada de som.

O pintor abandonado que olha para uma tela e projecta a imagem de um sentimento feliz, palhaço pobre, o cinzento da sua alma que chove a tinta no papel, filtrado para fluir pelo pincel luminoso e colorido no tom.

O escultor que decidiu renegar o amor, desiludido, e investe o seu carinho na forma grosseira de uma pedra moldando-a como o barro de um seu acto falhado, algo parecido com um jarro onde escondeu as memórias que quase sem querer imortaliza agora no rosto de uma deusa talhada à imagem da sua amada que não consegue esquecer.

O escritor que pretende contar uma história sua como se nada tivesse a ver, os sons, as sensações e as imagens que precisa escrever na esperança de que as suas palavras consigam reproduzir tudo aquilo que acaba de sentir, imiscuindo-se de forma discreta numa trama que sente como ficção mas lhe brota do coração como uma lágrima descrita, como uma paixão proscrita, clandestina, imensa, que escreve de uma forma intensa em palavras que entram pelos olhos de quem as lê como um vermelho ardente, rubi, lapidado em versos tão reais que se percebem tridimensionais quando processados pela imaginação de quem abre o coração às emoções contadas que se deixam apalpar pela profundidade de um olhar atento que absorve naquele momento tudo quanto o autor sentiu e num assomo de inspiração decidiu deixar fugir por entre as palavras pintadas nas folhas brancas que se fazem ouvir quando sopradas pelo vento inesperado numa madrugada estival com um céu fascinante pintado pelo sol nascente e a pele arrepiada pelo frio de uma pedra trabalhada na mente pelas mãos de outro artista para servir de lápide da cor do giz no túmulo do herói imaginário a quem decide não oferecer um final feliz.

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publicado por shark às 19:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 31.01.11

VERÃO NO SEU OLHAR

Uma borboleta no seu voo irregular, difícil de seguir com o olhar prisioneiro da beleza que o hipnotiza, entretida no seu tempo, na sua vida, asas pintadas a rigor com o empenho e o amor que a Natureza aplica nas suas criações.

 

O vento suave, rasteiro, sobre o campo espigado no pino do Verão, e o olhar enfeitiçado a seguir a ondulação de um mar diferente desenhado a cada instante por uma brisa a soprar, de passagem, a meio do caminho na sua viagem para um destino qualquer.

 

O contorno difuso de uma mulher, bela apesar de desfocada pelas ondas de calor que turvam o olhar maravilhado a acompanhar o movimento gracioso de uma mão que acaricia as espigas, feliz, o amor diante do seu nariz cada vez mais próximo da boca no rosto onde o olhar, apaixonado, por momentos desligou.

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publicado por shark às 23:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Terça-feira, 18.01.11

CRIME NA FOLHA EM BRANCO

A pontuação aglomerou-se em redor do local do crime, com os habituais mirones a darem palpites e as forças de segurança a criarem um perímetro para impedir demasiados avanços por parte da turba.

 

As reticências limitavam-se a levantar hipóteses que deixavam a meio, penduradas, horrorizadas como estavam com a visão daquele pobre travessão inerte na calçada.

Os pontos e vírgula não adiantavam nada à conversa, caducos, intervalando aqui e além as intervenções dos restantes, alguns absolutamente impávidos perante o triste cenário.

Junto à margem da folha, o agente ponto de interrogação questionava os principais suspeitos e as testemunhas da ocorrência, tomando notas acerca dos factos mais relevantes enquanto o detective parêntesis deixava em aberto todas as possibilidades até que um seu homónimo pudesse encerrar o processo.

 

O tempo ameaçava chuva e os assentos circunflexos, intimidados pelos olhares de cobiça da pontuação desprevenida, seriam os primeiros a bater em retirada perante o ar contrariado dos dois pontos que já procuravam com o olhar um ponto de exclamação, à falta de um jota, para fazer de cabo para o improvisado chapéu.

E foi então que os sorrisos trocistas da imensa pontuação ali reunida desapareceram, perante a chegada do filho da vítima, o tracinho lavado em lágrimas a quem as aspas trataram de imediato de afastar para o rodapé no sentido de lhe prestarem o apoio psicológico que a situação requeria.

 

O ambiente era de consternação quando chegou a ambulância com o hífen-legista e o cadáver do travessão foi retirado do piso da folha branca manchada com o borrão que assinalava de forma macabra a tragédia ali ocorrida, uma pancada de algo semelhante a um bastão em cheio no inocente travessão que passeava descansado.

 

E ainda se desconhecia o culpado, embora constasse que o ponto de exclamação seria submetido ao teste do polígrafo, quando o ajuntamento foi dispersado pelo ponto final parágrafo.

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publicado por shark às 17:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)
Terça-feira, 11.01.11

TODOS OS DIAS

Sobem apressados, olhares alienados pelo pensamento que os acompanha no caminho, preocupações e afazeres, desilusões e deveres, distraídos de tudo quanto os rodeia como aqueles que se cruzam agora em sentido contrário, alguns num esforço que acreditam necessário, visível dificuldade para caminhar mas determinados em não parar a corrida que a deles é a do final de vida que precisam sentir de pé e avançam habituados às dores enquanto recordam antigos amores ou organizam na cabeça o tempo que para eles é já tão curto mas sentem em cada dia como tempo demais, um aceno de cabeça aos restantes transeuntes que os ignoram na sua passada arrogante, na mesma direcção apenas mais depressa, olhar brilhante com a certeza de um horizonte repleto de amanhãs, ouvido no telemóvel ou dedos no teclado para responderem à mensagem, tudo bem e uns bjs, atarefados a todo o tempo como se fosse essa a medida do seu viver, uma vida a correr, a estrada atravessada sem olhar para o lado e depois a calçada igual, olhar perdido pelas montras ou pelo chão, às vezes para o céu por questões meteorológicas, adiante que a pressa é permanente e, paradoxo, parece que vai acabar quando o sol se puser e nem dão por quem vacila no percurso, à procura do número de uma porta qualquer, um homem ou uma mulher estranhos ao local que tentam reler a morada num pedaço de papel como se ele pudesse transformar-se de repente num mapa do tesouro que é chegar ao objectivo traçado, o caminho interrompido para pedir ajuda a alguém, onde fica Sacavém?, e afinal não era por ali e voltam para trás seguindo agora o mesmo rumo das crianças que passam a correr perante o olhar do ancião comerciante que lhes sorri, vassoura na mão para varrer a calçada por causa do pó no estabelecimento onde entra a senhora do bairro, cliente habitual, para a sua compra normal que ele já conhece de cor e salteado, gente que caminha para todo o lado enquanto o dia não se esgota, exausto pela rapidez que lhe é imposta pela vida a acontecer, passagem fugaz, enquanto o sol não se encosta na linha do horizonte para espreitar por um instante o que nesse dia a noite lhe traz.

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publicado por shark às 16:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 07.01.11

DEIXA-TE AMAR

Deixa-te espalhar, pelo vento, pelo ar, voa até a um tempo onde possas descobrir a essência que deste por perdida, a inocência que dizes esquecida mas que te retrata no olhar a menina que nunca te quis abandonar e sempre que ris se manifesta, aproveita aquilo que te resta depois do desperdício que às tantas se tornou num vício que a preguiça te impôs.

Deixa-te flutuar, sem pressa, pela superfície do mar, como se fosses uma mensagem enviada por alguém, embarca numa viagem que te faça bem e aproveita para esqueceres ao longo desse rumo os deveres a que te obrigam os outros, soprados como fumo pelo vento, pelo ar, até um tempo em que conseguias acreditar no amor verdadeiro e te permitias suspirar um dia inteiro a lembrança de um rosto capaz de te fazer sentir feliz, aceita o que te diz quem te recomenda que te deixes ir, espalhada em partículas tão pequenas que ninguém consiga perceber que és tu quem o vento transporta, talvez até à porta de um castelo no passado ou de um refúgio que sintas sagrado no futuro que deves abraçar como o único sentido para onde apontar a tabuleta que sabes trazer inscrita no teu coração adormecido, para onde o vento te levar, a bem contigo e com os outros para poderes distinguir os poucos que te sirvam na difícil tarefa que na verdade terás que aceitar, a felicidade por encontrar e tu parada à espera de uma coincidência afortunada, devagar, quase parada nessa promessa adiada de que tudo se resolverá por si.

 

Deixa que se apodere de ti uma energia imensa, liberta essa vontade intensa que te quer arrastar, pelo vento, pelo mar, até um momento em que te percebas renascida enquanto mulher com amor pela vida e possas por fim reagrupar tudo aquilo que deixes agora espalhar como semente e que te fará regressar nesse preciso instante à forma original de uma flor exactamente igual àquela que um homem apaixonado terá com a sua mão abraçado com a gentileza devida.

 

Pouco antes, ou mesmo no momento de te ser oferecida.

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publicado por shark às 14:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (22)
Quinta-feira, 30.12.10

NU(M) INVERNO

Árvores despidas, raras as folhas penduradas à espera de um sopro mais forte do vento de Inverno para as levar até ao chão.

Árvores desnudas, aparentemente envelhecidas nessa calvície temporária que a natureza entende necessária para garantir a sua eterna renovação.

Árvores esquecidas, as suas sombras apetecidas no pino do Verão mas sem utilidade na função quando o frio até mendiga alguns raios de sol nos intervalos da chuva, água dura em árvore mole, que se assume cabeleireira quando pesa na folhagem derradeira e corta como tesoura os escassos sinais que a Primavera deixou à sua passagem por aquele ponto da sua viagem, eterno retorno, e as folhas não são andorinhas para fugirem ao Inverno e as árvores, despidas, limitam-se a dançar ao sabor do vento o ritmo dos caprichos do tempo que lhes restar.

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publicado por shark às 11:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 20.12.10

CORTE E COSTURA

A tesoura imaginária que corta ligações mantidas de forma precária, dez vezes mais depressa do que a mão sorrateira que tenta reparar à sua maneira os elos perdidos, muitos cortes definitivos, de forma atabalhoada, improvisando uns nós, atarefada a cortadora apressada que se acredita melhor caminho para a salvação no estranho conforto que a solidão parece prometer, talvez algum órgão vital a morrer por falta de irrigação das veias separadas pelas lâminas afiadas de uma tesoura imaginária que tenta alterar a história e prevenir a infecção recorrendo à amputação das ligações associadas a más emoções ou apenas teoricamente ameaçadoras, essas relações comprometedoras para o sossego das tesouras que reagem de forma automática a qualquer sensação menos simpática, o corte radical para separar o bem que somos do mal que os outros podem representar.

 

A tesoura imaginária a cortar, cem vezes mais depressa do que a mão piedosa que vê as coisas em tons de rosa e se esgota num esforço inglório para (re)atar alguns nós.

A ver se consegue evitar que acabemos completamente sós.

publicado por shark às 17:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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