Quarta-feira, 16.11.16

Ilha deserta

Cada quebra de confiança acrescenta uma etapa numa forma de tristeza permanente que conduz, inexoravelmente, ao degredo voluntário na segurança que só se sente garantida pelo refúgio na solidão.

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publicado por shark às 20:39 | linque da posta
Quinta-feira, 27.10.16

A posta na carapuça

Apesar de não ser dos mais antigos nisto das redes sociais, nunca o sou em coisa alguma, já possuo alguns cabelos brancos virtuais. Daí, os acontecimentos vão-se sucedendo, tal e qual a vida lá fora, e uma pessoa vai percebendo aqui e além as manhas, os padrões de funcionamento da coisa. Até ao ponto de quase se sentir em casa, ou no café com a malta, nesta ou naquela plataforma de convívio e comunicação.

De resto, em boa medida as redes sociais parecem espaços públicos como as esplanadas e até importamos algumas das regras de comportamento analógicas nesses meios. Algumas, não todas. A sensação de impunidade de que se queixam os caretas amuados por terem sido alvo da crueldade virtual, com cada um/a a fazer o que lhe dá na bolha mesmo sendo óbvio que o não faria sem a protecção de um monitor ou de um touch screen, espelha-se de diversas formas e acaba por denunciar as falhas de carácter de quem as maquilha nas redes.

É por demais evidente que, ao contrário do que dá jeito divulgar por parte dos/as artistas que se pintam fabulosos, as boas maneiras são uma característica inata da pessoa e transportam-se para qualquer meio de comunicação que, por ser virtual, continua a ser feito por pessoas e estas não passam a máquinas por falarem via teclado.

Ou seja, as redes apenas reflectem a verdadeira essência de quem as frequenta, desmascaram sonsos e/ou imbecis com ainda maior limpeza do que se consegue na tal mesa de café na qual, reprimidos/as pela presença física dos interlocutores, disfarçam melhor a natureza que online descuidam com base no falso pressuposto de impunidade acima mencionado.

Alguém incapaz de superar a sua futilidade lá fora arrasta consigo essa característica, porquanto se esforce por se pintar pessoa complexa e bem estruturada. Da mesma forma, quem não seja capaz de sentir emoções sérias ou respeitar ligações fortes e/ou duradouras na rua jamais conseguirá o contrário na net. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que somos é aquilo que exibimos e nem sempre o boneco nos apanha no ângulo mais favorável.

É um facto que só se ilude (ou deixa iludir) quem quer. Os sinais estão todos lá para quem escrutinar os outros como o faz na vida real (a outra presume-se fictícia, dá mais jeito às diversas espécies de acrobatas da personalidade). De surpresa, como em qualquer situação ou lugar, só é apanhado quem prefere não reparar nos pormenores nos quais o diabo se esconde.

E é por isso que nunca me sinto surpreendido quando alguém, por medo, por vergonha, por desgosto ou simplesmente por falta de consideração pelos outros, abandona uma rede social ao fim de anos, sem uma explicação e, na maioria dos casos, sem rasto que impeça esse desaparecimento de se tornar total e definitivo.

É que, no fundo, na vida vivida fora das redes são ainda mais as pessoas malcriadas. E também abundam cobardes e desertores/as.

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publicado por shark às 16:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sexta-feira, 05.06.15

A posta no saber de experiência feito

Ao longo da vida aprendemos, entre outras informações inúteis, que é possível existirem crápulas com bom fundo. Claro que é bem fundo e coberto pelo lodo resultante da acumulação, permanente, de uma forma ignóbil de estar na vida. Mas é bom. Enfim, suficiente para distinguir os crápulas num espectro que vai desde o imbecil incapaz de discernir o bem do mal ao maquiavélico capaz de dar cabo da vida de alguém só porque sim.

 

Conheci imensos crápulas ao longo do caminho e nem posso certificar-me alheio a esta camada cada vez mais numerosa de uma população desprovida de valores que a protejam do abastardar do comportamento.

Partindo do pressuposto de que ninguém é absolutamente mau, podemos quase desculpar os momentos menos bons de alguém caracterizando-os como excepções.

Mas não são. O crápula típico reincide, por muitas velhinhas que ajude a atravessarem estradas para gáudio dos mirones que lhe possam atestar a bonomia. Ser crápula pode ser fruto das circunstâncias, mas na maioria dos casos é mesmo uma característica da pessoa e impossível de controlar.

 

Um dos mecanismos de defesa de um/a crápula é o branqueamento artificial do seu carácter, estendido depois às suas acções. Sim, a pessoa acha-se sempre intrinsecamente boa e consegue invariavelmente colorir os actos e palavras mais ignóbeis com o manto piedoso da mentira, do encobrimento e da distorção. O crápula molda a realidade aos seus olhos porque é também demasiado cobarde para se assumir na condição.

E claro, as vítimas das suas indignidades são sempre pessoas más. É fundamental para o crápula comum posicionar-se do lado certo, o do bem, na sua mente incapaz de processar verdades incómodas. Ou pessoas melhores.

 

Conversa de merda sem aditivos

 

A única medida de protecção cem por cento eficaz contra um/a crápula é a distância (leia-se saída abrupta e definitiva da vida dessa pessoa), pelo que o maior terror de quem rodeia essa gente é ficar sua refém. Um crápula em condições nunca desperdiça um bom flanco desguarnecido para exercer a sua arte.

Em desespero de causa, muitos alvos dos crápulas optam pela aprendizagem da coisa para eventualmente combaterem o filho da puta com filho da puta e meio. Mas isso é como alimentar uma discussão idiota com uma pessoa burra: esta última arrasta-nos para o seu palco natural e não tardamos a sentir crescerem-nos as orelhas.

 

Por isso os entendidos na matéria recomendam, no lidar com o crápula mais comum – a pessoa apenas estúpida demais para perceber o que se passa à sua volta - o desprezo, puro e simples. Nada pior para um/a crápula do que ver-se desprovido de atenção para com as suas exibições de brilhantismo mesquinho, de poder oportunista ou apenas de apelo interior para a má onda. Só mesmo a ausência de relevância desarma o crápula pela escassez de motivação. O crápula gosta que lhe dêem luta, não é um necrófago.

E aprecia imenso que lhe dêem conversa, para recolher dados que possam conferir mais tarde realismo às suas elaborações mentais tão difíceis de defecar pelo exagero de esterco acumulado nas suas presunções.

 

O único combustível para a locomoção das ideias e das iniciativas de um/a crápula é a conversa de merda que alguém lhe alimentar.

E mesmo um crápula acaba por tornar-se inofensivo quando a conversa com as paredes lhe acarreta a tomada de consciência da sua estupidez e da dimensão do seu equívoco e consequente solidão.

 

Quando a soma dos vários desprezos lhe matam a má onda pela subnutrição.

publicado por shark às 22:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sábado, 11.04.15

Da cobardia e outros pretextos da treta

Existem situações criadas por terceiros que me fazem hesitar entre o reconhecimento de uma limitação conjuntural (a cobardia que se sobrepõe ao paleio, por exemplo) e o diagnóstico leigo mas perfeitamente justificado de alguma forma de perturbação mental.

Das poucas pessoas que permitimos próximas esperamos, em condições normais, uma atitude inspiradora de confiança, que transmita a segurança que só os mais chegados nos podem garantir. E isto aplica-se qualquer que seja a natureza do vínculo estabelecido.

É precisamente esse detalhe no estatuto das pessoas (ditas) próximas que nos apanha sempre de surpresa quando é desmentido: se dos “de fora” esperamos tudo, dos “nossos” sabemos com o que contamos. E qualquer falha grave nesse pressuposto é quase sempre entendida como nada menos do que uma traição.

 

Para garantirmos alguma estabilidade emocional e até a valiosa sanidade mental tão ameaçada por hordas de gente chanfrada, se queremos de facto poder contar com alguém, há dois tipos de pessoa que devemos manter à distância: os cobardes, porque desertam; os malucos, porque são imprevisíveis. Pior de tudo, o misto destas duas categorias que garante, ao virar da esquina, uma reacção cobarde, deselegante e por isso hostil e, por via da loucura implícita, quando uma pessoa menos a espera.

 

É difícil identificar um/a cobarde, pois são sempre muito dados a pintarem-se capazes deste mundo e do outro e só se desmascaram quando confrontados/as com uma dificuldade ou um aumento da pressão.

Porém, uma pessoa desequilibrada acaba sempre por dar eco das suas perturbações. Aí o nosso mal está em acharmos sempre que a ligação alegadamente próxima nos permite dar a volta ao problema. Pois, tem um discurso incoerente com a acção e parece andar ao sabor do vento. Mas como gosto muito da pessoa vou ignorar esse sinal de demência e acreditar que a pessoa não negligencia a medicação. Erro crasso.

 

A pessoa que não joga com a equipa toda não controla as emoções, da mesma forma que não tem mão sobre os instintos e os raciocínios. É capaz do melhor e, cedo ou tarde, do muito pior. Se ainda por cima é cobarde, é garantido que à primeira contrariedade se esgueira para debaixo de uma pedra qualquer no sentido de escapar ao excesso de pressão. É esse o apelo natural num/a cobarde, o da deserção. E fazem-no sempre à bruta, de surpresa, de uma forma invariavelmente deselegante e estapafúrdia.

 

Ao longo de quase cinquenta anos de vida, várias pessoas com o perfil e os actos acima descritos cruzaram o meu caminho e, sem excepção, traíram-me no que mais valorizo: a confiança nas poucas pessoas em quem a deposito. E quase sempre associaram, na deselegância da sua fuga mal justificada, a absoluta falta de respeito pelo tal estatuto de pessoa próxima que, posso afiançar, não garante coisa alguma em matéria de certezas.

 

Garante, isso sim, a combinação perfeita para que nunca mais queiramos ver essas pessoas pela frente enquanto ficamos, desilusão somada, entretidos a cicatrizar aquilo que nos deixaram nas costas.

publicado por shark às 00:08 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 20.10.13

Eu também gosto de dar os meus bitaites

"Acreditem, o blogue só tenderá a melhorar porque estaremos mais focados no que realmente interessa: publicar conteúdo."


Já lá vão 3 semanas desde que o Bitaites, o meu blogue de eleição, não publica conteúdo algum. E entretanto, com razões plausíveis na perspectiva e circunstâncias dos autores, o blogue deixou de ter caixas de comentários (o trecho acima é parte da respectiva justificação).


Temo o fim da Blogosfera às prestações. O exemplo acima só contribui para cimentar esse meu receio.

publicado por shark às 01:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 17.02.12

A POSTA QUE A SORTE É DALTÓNICA

A nostalgia pode muito bem estar a tomar conta da ocorrência, mas eu gostava imenso daquela cena dos furos em que a escolha do furo certo podia implicar a libertação de uma bolinha com a cor certa, a da tablete colossal como parecia a quem não a podia comprar de outra forma. Claro que a bolinha prateada era agulha num palheiro de bolas verdes ou de outras, azaradas, que só nos permitiam um prémio de consolação doce que não bastava para compensar o amargo de boca no olhar para aquela que parecia sempre destinada a sair aos outros.

E claro que na essência as máquinas modernas que não se furam mas gira-se a manivela para sair sempre uma bola de plástico com um papel da cor dos chocolates mais farsolas do mostruário tentador são diferentes mas o resultado final acaba por ser o mesmo, a fava multiplicada por cem e o brinde a sério reservado, às tantas, para outro azarado convicto que nesse dia entende baralhar a sua estatística pessoal.

 

Eu preferia as caixas dos furos, confesso. Logo à partida porque inspiravam um ritual de conexão entre fornecedor e cliente, um momento mágico que nascia da cautela do dono da taberna ou do café para impedir que os mais atrevidos furassem mais do que pagavam a ver se no meio da confusão podiam reclamar a mais favorável das bolinhas às cores saídas mas parecia brotar daquela ligação imediata entre o furador esperançado e o  comerciante que tomava partidos e torcia, porque lhe era igual ao litro.

É pá, calhou-te outra vez um rebuçado! Ainda há bocado veio a chata da Ernestina e tirou uma Comacompão…

Logo essa, a minha preferida e que se esteve alguma vez próxima de um pão foi de passagem para o seu destino solitário no meu interior. Aquilo doía fundo, mas uma pessoa acreditava-se capaz de vencer as ernestinas do mundo inteiro na próxima, naquele furo de sorte que um dia, pela insistência, haveria de acontecer.

 

As novas máquinas automáticas não permitem a batota e retiram à coisa uma parte da sua mística, pois o dono não precisa de controlar a situação excepto quando a moeda encrava.

Mas o dono da papelaria, mesmo com a atenção repartida pelos apostadores do euromilhões a quem ia registando as fezadas, arranjava sempre um instante para o esgar de contrariedade por ter calhado outra vez um chocolate minúsculo de entre os Milka gigantescos reservados para os mais felizardos na escolha feita pela máquina (outra das perdas que o progresso implicou).

E às vezes até contava a história da senhora do cinco rés-do-chão que tinha tirado um chocolatão que os nossos olhos nunca viam sair a alguém.

 

O senhor da papelaria, marido, pai e avô, tentava à sua maneira recriar o tal ritual do tempo jurássico das caixas dos furos, parecia um tipo porreiro.

E tenho a certeza de que hoje iria torcer o nariz quando lesse na sua banca a notícia do homem, marido, pai e avô que ontem apareceu morto na Bobadela junto à linha do comboio, por entre o seu olhar de esguelha para o tom do papel calhado em sorte a alguém.

 

Mas foi mesmo ele a quem saiu desta vez a pior cor.

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publicado por shark às 17:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Domingo, 03.04.11

PARABÉNS FCP!

No final do jogo entre o Benfica e o Porto no qual a equipa da Invicta deixou bem claro qual é a melhor equipa portuguesa nesta época desportiva e quando os portistas festejavam um título bem merecido dizem que foram apagadas as luzes do estádio e ligados os aspersores de rega do relvado.

Sou benfiquista e, para o bem e para o mal, assim morrerei. De pouco interessa quantas derrotas a equipa sofrer.

Porém, jamais poderei subscrever atitudes imbecis, mesmo justificadas como retaliação, quando está em causa o fairplay que o futebol deve fomentar, a segurança dos presentes no interior do estádio e a mensagem transmitida aos que apenas precisam de pretextos para desencadearem a violência gratuita que espanca o próprio futebol e torna ainda mais indigna e dolorosa a derrota sofrida.

 

Porque a transforma numa completa humilhação.

publicado por shark às 22:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Domingo, 06.03.11

O REGRESSO À NORMALIDADE

O Porto ganhou e o Benfica perdeu.

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publicado por shark às 22:33 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quinta-feira, 25.11.10

UM TRISTE NATAL LAMPIÃO...

...E um Jesus nas palhinhas chicoteado.

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publicado por shark às 01:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 07.11.10

CINCO SECOS

Se já aconteceu no meu tempo de vida felizmente esqueci-me, mas só espero que no tempo que ainda me resta não tenha que passar por isto outra vez.

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publicado por shark às 22:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)
Segunda-feira, 20.09.10

IMAGENS DE MARCA

Sempre que alguém de quem gostei me desapontou com sinais evidentes do cariz postiço das suas alegadas emoções concedi oportunidades de sobra para se redimirem com um simples assomo de sinceridade que jamais utilizaria como arma de arremesso.

Essas oportunidades ofereço-as muitas vezes sob a forma de indirectas, de insistências cada vez mais claras num determinado aspecto que aos meus olhos desmascarou quem preferiu fazer de mim parvo em vez de aproveitar a minha capacidade de ultrapassar as questões com base nessa forma de redenção tão simples que é a frontalidade sem tretas. Até porque não sou um menino de coro eu próprio e há muito desisti da utopia da perfeição seja em quem for.

 

Apenas duas pessoas em toda a minha vida não quiseram agarrar essa opção e por isso ficarão para sempre aos meus olhos como indignas de terem partilhado fosse o que fosse de mim e o seu papel na minha vida resumir-se-à ao de exemplos concretos de tudo aquilo que sempre temi por parte de quem comigo se cruza no caminho.

 

E por inerência justificam a crescente cautela com que me vejo obrigado a gerir qualquer tipo de aproximação aos outros para me poupar ao somatório de desilusões recíprocas.

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publicado por shark às 21:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 25.07.10

TRAGÉDIA ALEMÃ NO LOVE PARADE

Afinal estas coisas não acontecem só em países do Terceiro Mundo...

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publicado por shark às 18:15 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 03.05.10

UMA DIRECTA COM MARIA E OUTRA COM JESUS

Os jovens católicos, uns radicais, passaram a noite acordados em Fátima numa irreverente exibição da sua fé.

E eu, que tenho vindo a dedicar muito deste espaço aos temas religiosos (em honra da visita papal ou assim...), não podia deixar de referir esta demonstração de vitalidade da Igreja para desviar as atenções para canto num contexto aziago que inclui uma derrota no Dragão, muito difícil de digerir, mesmo de fazer perder o sono aos mais fiéis da causa benfiquista.

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publicado por shark às 00:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 13.04.10

PRIMA QUÊ?

Lá fora já chove há horas...

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publicado por shark às 18:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sexta-feira, 12.02.10

A POSTA POLAROID

Há acontecimentos, bons ou maus, que constituem os momentos mais marcantes de uma vida ou de uma relação entre as pessoas. São episódios que constituem tema de conversa no futuro, no qual queremos sempre rever-nos com uma imagem à altura da situação e das pessoas envolvidas.
Contudo, quando por algum motivo a nossa participação em tais momentos fica marcada pela negativa não há esponja que apague o rasto permanente que nos associa em má figura.
E cedo ou tarde, essa impressão, que na altura quase nos faz sentir estranhos a toda a situação, acaba por corroer a própria ligação entre quem a viveu.

 

É difícil, em determinados contextos, cumprir sem mácula alguns papéis. E é proporcionalmente fácil dar o passo errado, não dizer as palavras certas ou ser apanhado num qualquer conjunto de coincidências infelizes ou de circunstâncias extraordinárias.
Por isso, mesmo quando estamos cheios de boas intenções e, mais ainda, de vontade genuína de não fazer asneira por querermos de facto ficar associados pelas melhores razões aos tais momentos que sabemos importantes e mexem connosco de alguma forma, sentimos sempre como uma injustiça as pequenas partidas que o acaso nos prega. E quase como uma traição a leviandade de alguém que entenda aproveitar um melindre pontual para exercer o tipo de poder que faculta uma qualquer forma de retaliação.

 

Claro que as varas têm sempre dois bicos nestas coisas e nem que seja numa reacção a quente é um instante enquanto vamos longe demais ou, na sequência de uma bronca nas piores circunstâncias possíveis (as tais que se gravam para mais tarde recordar ou apresentar a factura) acabamos por descobrir que afinal o papel que julgávamos vestir não correspondia ao outro guião.
Descobrimos a sensação de sermos dispensáveis, meros figurantes à mercê dos humores de quem realiza de facto a película e gosta de finais com melodrama.
E lá está, ficamos condenados a ser o rosto contorcido num esgar momentâneo no canto de uma fotografia onde os outros parecem brilhar.

 

Quando uma situação desta natureza decide proporcionar-se no mesmo dia em que outros azares muito foleiros ou exibições de falta de carácter das pessoas nas organizações nos confrontam, a vontade que dá é a de desistir das fotos em grupo e optar pelas individuais.

 

Mesmo que isso implique passarmos ao lado dos momentos e das oportunidades que entendamos especiais.

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publicado por shark às 23:25 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 07.01.10

FORA DO REDIL

Um dos conceitos aparentemente mais confusos para o entendimento da maioria das pessoas é o da desconsideração. Este palavrão, que traduz um gesto (ou respectiva ausência) que cai mal a alguém, exprime um sentimento negativo que deriva de esse alguém se sentir de alguma forma reduzido à sua mínima expressão por parte de outrem.

 

Uma desconsideração pode manifestar-se sob as mais variadas formas. Do enxovalho inerente ao insulto subjacente, a panóplia de consequências como as sofrem as pessoas desconsideradas depende acima de tudo da natureza do vínculo que liga os protagonistas.
Por exemplo, entre dois parceiros comerciais uma desconsideração pode resultar da negação de um fiado habitual. Ou seja, um dos intervenientes resolve esquecer a ética da coisa e o valor relativo do outro e muda de atitude sem aviso prévio. Acontece imenso quando um dos parceiros é um banco.

Contudo, entre duas pessoas a desconsideração pode ser originada pelo desleixo de uma delas. Seja um compromisso não respeitado, uma data importante esquecida ou ignorada ou a simples ausência de um contacto que se impõe, é fácil de perceber o quanto a desconsideração acaba por oscilar em função do elo em causa: quanto mais próximas as pessoas, mais grave a situação.

 

Dificilmente se encontram inocentes nessa matéria. De uma forma ou de outra, a desconsideração acaba por estar presente no percurso de qualquer pessoa nem que seja por descuido ou distracção.
No entanto, a forma mais indecente passa pela desconsideração intencional, deliberada,
como recurso para amansar alguém (atenção que não resulta com animais ferozes), como meio de punição ou de represália ou apenas como uma forma tortuosa de marcar território, de evidenciar o poder, o ascendente que (supostamente) se tem sobre a pessoa desconsiderada.
Estas últimas são as desconsiderações mais abjectas, pois à atitude negligente corresponde uma motivação hostil. Cai mesmo muito mal e só santos, anjos ou alimárias não reagem à bruta.

 

Pior ainda é o caso da pessoa que depois de denunciar uma desconsideração como a sentiu se confronta com uma variante, com a reincidência que pode resultar, por exemplo, da ausência de uma reacção que agrava a desconsideração original com o pesado fardo da postura malcriada.

É um ponto sem retorno, o da desconsideração reiterada, e regra geral só deixa três caminhos ao dispor da pessoa desconsiderada: ou insiste na manifestação da sua indignação perante os factos em apreço expondo-se a mais um enxovalho (esta é a versão tótó da coisa); ou reage à bruta deixando pouco espaço de manobra para futuras conciliações (esta é a versão colérica da coisa) ou, em alternativa, pura e simplesmente não reage nem deixa portas abertas para arrependimentos tardios da treta. Esta é a versão definitiva, separando sem apelo nem agravo as partes envolvidas.

 

E é também esta última que explica boa parte das minhas dissidências.

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publicado por shark às 18:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Sábado, 21.11.09

JORGE FERREIRA - UM DOS NOSSOS

O nosso colega blogueiro Jorge Ferreira, do Tomar Partido, cedeu esta manhã à doença que o atormentava.

Postou pela última vez na passada quinta-feira.


Vamos sentir-lhe a falta.

 

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publicado por shark às 22:19 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 19.03.09

DISCO RISCADO

Gostava de poder dizer-te que tudo permanece intacto tal e qual o cristalizaste na memória, sempre a mesma velha história dos tempos bons como os viveste enquanto tudo parecia tão simples para ti.

Um disco gasto, riscado pela agulha que insistes colocar sempre no mesmo lugar que é a única referência capaz de te transmitir a ilusão de uma proximidade que só nesse teu tempo tão antigo existiu. Fotos a preto e branco de momentos normais que são os dias especiais que deixaste algures de cultivar, perdido noutro lugar onde a tua lembrança se perdeu por caminhos que te afastaram de muito daquilo que, dizes agora, te fazia sentir feliz.

 

Vives agora numa outra dimensão, tão distante que já nem mesmo a ilusão consegue alcançar. Vives agora num outro lugar onde apenas te resta o conforto das recordações cada vez mais difusas, das emoções estapafúrdias porque dedicadas a alguém que deixaste de conhecer quando deitaste tudo a perder com o desmazelo que te arrastou para longe, como o mar o faz aos corpos estranhos, mergulhado em enganos que a tua mente inventou para preencher os espaços em branco que o teu coração acumulou.

Perdido numa ilha deserta onde te refugias agora de tudo a que a realidade não te poupou, sempre que te viste forçado a pousar os dois pés no chão que pisas sem cuidares, como sempre, de acautelar o que de mais importante deveria existir para ti.

Ausente, sempre mais e mais distante a bordo desse tempo que vives em constante repetição e há muito perdeu o sentido que ainda hoje tentas atribuir ao pouco que consegues sentir nos intervalos desse teu coma emocional.

 

Gostava de poder dizer-te que apesar de tudo quanto correu mal existe uma porta de saída para uma qualquer forma de reconciliação. Mas infelizmente não. Cuidaste até de transmitir como legado, a herança que negas, esse teu triste fado que empurras para as costas dos outros com a leviandade de quem não reconhece culpas e se enclausura numa cadeia de certezas absolutas que te anestesiam a consciência quando enfrentas a consequência inevitável, esta distância incontornável que aumentas a cada passo que dás enquanto tentas olhar para trás em busca de uma bóia de salvação, com a praia mesmo ali.

 

Gostava de poder dizer-te que ainda gosto de ti como dizem ser a minha obrigação, mesmo depois de consumada a abdicação que acabas por forçar com a displicência da tua forma de agir que se resume à ausência de qualquer acção digna desse nome. Sujeito passivo, sem nada de substantivo para oferecer.

E assim permaneces, o tempo quieto, até deixar de doer por completo a ti como a mim esta verdade que já nem sentimos vontade de encarar porque nunca a quiseste falar do lado de fora dessa pele que sinto como uma couraça impenetrável à razão, ao amor.

 

Esta verdade cada vez menos desagradável e mais fácil no trato porque o tempo, sensato, acaba por cumprir o seu papel (alegadamente) redentor.

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publicado por shark às 12:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)
Quinta-feira, 20.11.08

PORTUGAL 2 - BRASIL 6

(E não, não estou a falar de um jogo de hóquei em patins de há mais de 50 anos...)

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publicado por shark às 09:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sábado, 11.10.08

AS SUECAS SÃO TRAMADAS...

...O Cristiano Ronaldo não marcou.

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publicado por shark às 20:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Segunda-feira, 15.09.08

MORREU UM DOS FUNDADORES DOS PINK FLOYD

Foi vencido pelo cancro o teclista da minha banda de culto.

Richard Wright foi um dos fundadores dos Pink Floyd e com a sua morte chega provavelmente o fim definitivo da banda que me cativou para o sons mágicos dos anos 70, até aos dias de hoje.

 

Era por isso alguém importante para mim, ligado à maior parte da minha existência.

E por isso lamento a sua perda.

 

 

 

 

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publicado por shark às 23:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)
Sexta-feira, 04.07.08

RUGAS DE EXPRESSÃO

Não foi no teu olhar que consegui descortinar a amargura que tão bem disfarças, mas sim na tristeza do sorriso que desenhaste à pressa no rosto quando te perguntei por nós.

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publicado por shark às 16:18 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 19.06.08

AFINAL NÃO...

abanderada

Foto: Shark

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publicado por shark às 21:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (18)
Sábado, 12.04.08

O CHALANA NÃO MERECIA

Mas mais vale assim, a ver se a malta abre a pestana.
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publicado por shark às 14:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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