Quinta-feira, 23.02.17

Imóvel

Cada saída uma miragem. Como numa espécie de labirinto em circuito fechado. Caminhar sem saber onde, respirar sem saber como, percorrer caminhos sem chão.

Uma estranha sensação de anestesia inoculada gota a gota, dia após dia, no frémito inicial da barata tonta buscando a salvação à cabeçada.

Cada saída uma entrada. No mesmo ponto de partida. Sem a ilusão de uma chegada.

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publicado por shark às 13:02 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 28.10.16

Em águas de bacalhau

Ao contrário dos peixes, nós humanos possuímos os mecanismos de defesa necessários para evitarmos o anzol. Ou melhor, temos apenas um: a inteligência. Mas coadjuvada pela memória que nos permite aprender lições pela lembrança dos nossos erros (ou dos outros), pela intuição que nos alerta para as ameaças latentes e pelo bom senso que, por exemplo, nos diz que não há almoços grátis e recomenda cautela antes de fincar o dente nas ofertas inesperadas.

Todavia, à semelhança dos peixes, nós humanos somos inevitavelmente atraídos por engodos de todo o género. Mesmo do género dos que já antes nos tramaram ou a alguém próximo. A inteligência que deveria proibir-nos o mergulho na asneira (ou mesmo na sua repetição) nada pode fazer contra a força tremenda dos iscos concretos ou imaginários que a vida nos proporciona.

Nem só as criaturas marinhas morrem pela boca. E os humanos somam à irreflectida dentada na minhoca milagrosa, estranhamente ali pendurada pelo acaso ou por um deus, o uso complementar da boca para, por exemplo, falarem demais. Ou seja, não é ao fecharem a boca mas sim ao abri-la que o anzol os apanha.

Nos seus momentos de lazer, ao destino basta sentar-se na margem com uma cesta e os peixes com pernas nela se enfiam mesmo sem se revelar necessária uma cana. De resto, o destino também pesca com rede, a social, como este blogue é prova. Quem não deixa que apelos como a tentação, a ganância, ou mesmo a estupidez conduzam ao anzol acaba muitas vezes por ser apanhado nas redes que são feitas de palavras e constituem por isso águas traiçoeiras para a maioria.

As palavras são um isco irresistível, mesmo para as pessoas avisadas. E têm a temível característica de funcionarem como uma armadilha bidireccional, funcionando com idêntica eficácia quando são cuspidas como quando são engolidas. Num caso ou no outro, até o peixe graúdo se deixa ludibriar e acaba a dar à barbatana em seco na doca da incoerência ou no cais do disparate.

Contudo, e ao contrário dos peixes, depois de apanhados não vamos parar ao tacho ou à frigideira e, salvo raras excepções, voltamos a mergulhar de cabeça na vida que, como o mar, tem correntes e tem ondas e tem marés.

E por vezes só nessa altura, com a cara esparramada na areia, percebemos que do arrojo da natação nas águas revoltas e mais profundas, sejam do mar ou de um rio, pode resultar darmos connosco encalhados num imenso baixio.

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publicado por shark às 19:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Sexta-feira, 29.07.16

Visto de fora

Os outros, cada vez mais ininteligíveis, optam invariavelmente pelo excesso nas reacções estapafúrdias ou pelo defeito na ausência de quaisquer umas.

Quase todos os outros, na quase totalidade das circunstâncias, parecem empenhados em surpreenderem pela negativa quem lhes cumpre fazerem sentir-se alienígena. E são bons nisso.

Quando, na fase imbecil da sede de integração a qualquer preço, participava sem questionar, sem prestar atenção, os outros pareciam iguais a mim. Ou eu a eles. Cada qual com as suas peculiaridades, mas capazes de orientarmos as condutas, os hábitos e até as opiniões que não arriscávamos extremar nesse esforço para preservar os elos de ligação. A ilusão da pertença.

Contudo, às tantas os outros, quase todos, começam a revelar a tal propensão para a atitude inexplicável ou para o desleixo implícito na respectiva omissão. E a pessoa sente o apelo, a tentação desastrosa, para tentar ver de fora. O risco imenso de observar e em seguida racionalizar o que se vê, agora sob outra perspectiva.

Está tudo doido, conclui-se.

E esse é o primeiro passo na construção daquilo que entendemos como barreiras protectoras. Para evitarmos a ameaça dos outros, aparentemente capazes de nos arrastarem para o turbilhão dessa loucura que pela proliferação assume contornos de generalizada, aumentamos a distância, restringimos a tolerância, entrincheiramos as emoções nesse lado de fora daquilo que, dia após dia, sentimos como uma agressão.

Simulamos a integração na teimosia dos rituais e das ligações cada vez mais apenas obrigatórias. Aturo-te isso porque és da família, desculpo-te aquilo porque és um amigo, vou ao funeral da tua tia que nunca conheci porque trabalhamos em secretárias contíguas.

Fazemos parte assim. Na encenação de uma aceitação do outro porque tem de ser ou ficamos isolados numa vida tantas vezes hostil. E depois os outros reagem mal nessas péssimas alturas ou nem se dignam reagir. Não observamos isso de forma imparcial e isenta, porque fazemos parte da mesma realidade que o acaso cruzou e porque tentamos sem sucesso entender os porquês com base naquilo que queremos ou acreditamos ser e na nossa percepção dos outros cada vez mais desfocada. Ingénuos, ainda fingimos fazer parte nesse momento em que nos provam que já só conseguimos ver de fora.

A partir do interior de uma fortaleza construída com paredes e telhados de vidro, assente num chão frio e opaco que mantenha oculta a precariedade das suas fundações.

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publicado por shark às 10:43 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 05.06.15

A posta no saber de experiência feito

Ao longo da vida aprendemos, entre outras informações inúteis, que é possível existirem crápulas com bom fundo. Claro que é bem fundo e coberto pelo lodo resultante da acumulação, permanente, de uma forma ignóbil de estar na vida. Mas é bom. Enfim, suficiente para distinguir os crápulas num espectro que vai desde o imbecil incapaz de discernir o bem do mal ao maquiavélico capaz de dar cabo da vida de alguém só porque sim.

 

Conheci imensos crápulas ao longo do caminho e nem posso certificar-me alheio a esta camada cada vez mais numerosa de uma população desprovida de valores que a protejam do abastardar do comportamento.

Partindo do pressuposto de que ninguém é absolutamente mau, podemos quase desculpar os momentos menos bons de alguém caracterizando-os como excepções.

Mas não são. O crápula típico reincide, por muitas velhinhas que ajude a atravessarem estradas para gáudio dos mirones que lhe possam atestar a bonomia. Ser crápula pode ser fruto das circunstâncias, mas na maioria dos casos é mesmo uma característica da pessoa e impossível de controlar.

 

Um dos mecanismos de defesa de um/a crápula é o branqueamento artificial do seu carácter, estendido depois às suas acções. Sim, a pessoa acha-se sempre intrinsecamente boa e consegue invariavelmente colorir os actos e palavras mais ignóbeis com o manto piedoso da mentira, do encobrimento e da distorção. O crápula molda a realidade aos seus olhos porque é também demasiado cobarde para se assumir na condição.

E claro, as vítimas das suas indignidades são sempre pessoas más. É fundamental para o crápula comum posicionar-se do lado certo, o do bem, na sua mente incapaz de processar verdades incómodas. Ou pessoas melhores.

 

Conversa de merda sem aditivos

 

A única medida de protecção cem por cento eficaz contra um/a crápula é a distância (leia-se saída abrupta e definitiva da vida dessa pessoa), pelo que o maior terror de quem rodeia essa gente é ficar sua refém. Um crápula em condições nunca desperdiça um bom flanco desguarnecido para exercer a sua arte.

Em desespero de causa, muitos alvos dos crápulas optam pela aprendizagem da coisa para eventualmente combaterem o filho da puta com filho da puta e meio. Mas isso é como alimentar uma discussão idiota com uma pessoa burra: esta última arrasta-nos para o seu palco natural e não tardamos a sentir crescerem-nos as orelhas.

 

Por isso os entendidos na matéria recomendam, no lidar com o crápula mais comum – a pessoa apenas estúpida demais para perceber o que se passa à sua volta - o desprezo, puro e simples. Nada pior para um/a crápula do que ver-se desprovido de atenção para com as suas exibições de brilhantismo mesquinho, de poder oportunista ou apenas de apelo interior para a má onda. Só mesmo a ausência de relevância desarma o crápula pela escassez de motivação. O crápula gosta que lhe dêem luta, não é um necrófago.

E aprecia imenso que lhe dêem conversa, para recolher dados que possam conferir mais tarde realismo às suas elaborações mentais tão difíceis de defecar pelo exagero de esterco acumulado nas suas presunções.

 

O único combustível para a locomoção das ideias e das iniciativas de um/a crápula é a conversa de merda que alguém lhe alimentar.

E mesmo um crápula acaba por tornar-se inofensivo quando a conversa com as paredes lhe acarreta a tomada de consciência da sua estupidez e da dimensão do seu equívoco e consequente solidão.

 

Quando a soma dos vários desprezos lhe matam a má onda pela subnutrição.

publicado por shark às 22:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sábado, 11.04.15

Da cobardia e outros pretextos da treta

Existem situações criadas por terceiros que me fazem hesitar entre o reconhecimento de uma limitação conjuntural (a cobardia que se sobrepõe ao paleio, por exemplo) e o diagnóstico leigo mas perfeitamente justificado de alguma forma de perturbação mental.

Das poucas pessoas que permitimos próximas esperamos, em condições normais, uma atitude inspiradora de confiança, que transmita a segurança que só os mais chegados nos podem garantir. E isto aplica-se qualquer que seja a natureza do vínculo estabelecido.

É precisamente esse detalhe no estatuto das pessoas (ditas) próximas que nos apanha sempre de surpresa quando é desmentido: se dos “de fora” esperamos tudo, dos “nossos” sabemos com o que contamos. E qualquer falha grave nesse pressuposto é quase sempre entendida como nada menos do que uma traição.

 

Para garantirmos alguma estabilidade emocional e até a valiosa sanidade mental tão ameaçada por hordas de gente chanfrada, se queremos de facto poder contar com alguém, há dois tipos de pessoa que devemos manter à distância: os cobardes, porque desertam; os malucos, porque são imprevisíveis. Pior de tudo, o misto destas duas categorias que garante, ao virar da esquina, uma reacção cobarde, deselegante e por isso hostil e, por via da loucura implícita, quando uma pessoa menos a espera.

 

É difícil identificar um/a cobarde, pois são sempre muito dados a pintarem-se capazes deste mundo e do outro e só se desmascaram quando confrontados/as com uma dificuldade ou um aumento da pressão.

Porém, uma pessoa desequilibrada acaba sempre por dar eco das suas perturbações. Aí o nosso mal está em acharmos sempre que a ligação alegadamente próxima nos permite dar a volta ao problema. Pois, tem um discurso incoerente com a acção e parece andar ao sabor do vento. Mas como gosto muito da pessoa vou ignorar esse sinal de demência e acreditar que a pessoa não negligencia a medicação. Erro crasso.

 

A pessoa que não joga com a equipa toda não controla as emoções, da mesma forma que não tem mão sobre os instintos e os raciocínios. É capaz do melhor e, cedo ou tarde, do muito pior. Se ainda por cima é cobarde, é garantido que à primeira contrariedade se esgueira para debaixo de uma pedra qualquer no sentido de escapar ao excesso de pressão. É esse o apelo natural num/a cobarde, o da deserção. E fazem-no sempre à bruta, de surpresa, de uma forma invariavelmente deselegante e estapafúrdia.

 

Ao longo de quase cinquenta anos de vida, várias pessoas com o perfil e os actos acima descritos cruzaram o meu caminho e, sem excepção, traíram-me no que mais valorizo: a confiança nas poucas pessoas em quem a deposito. E quase sempre associaram, na deselegância da sua fuga mal justificada, a absoluta falta de respeito pelo tal estatuto de pessoa próxima que, posso afiançar, não garante coisa alguma em matéria de certezas.

 

Garante, isso sim, a combinação perfeita para que nunca mais queiramos ver essas pessoas pela frente enquanto ficamos, desilusão somada, entretidos a cicatrizar aquilo que nos deixaram nas costas.

publicado por shark às 00:08 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 01.06.13

A posta no nacionalismo induzido

Num país em queda livre os paradoxos multiplicam-se e as piruetas nos destinos de quem fica mais à mercê dos humores económicos criam lógicas de raciocínio tão distorcidas ao ponto de se criarem cenários de aparente esquizofrenia colectiva.

Em causa está um ponto de viragem que parece ter apanhado toda a gente com as calças na mão. A crise, como a chamamos, que parece ter-se instalado confortavelmente no ponto mais flat da onda sinusoidal dos ciclos económicos que dantes funcionavam como as montanhas-russas ou como os interruptores, escaqueirou isto tudo e parece eternizar-se em boa medida pelo desacerto dos decisores.

 

É impossível olhar este país no estado em que se encontra e reconhecê-lo nas proezas impensáveis que nos ensinavam nas escolas antes de acontecer Abril. Afonso Henriques demolidor, um condestável que até era santo, uma padeira de Aljubarrota indómita, caravelas de partida para um mundo enorme por descobrir.

Éramos nós, sim. Os garbosos herdeiros do sangue lusitano, a Metrópole de um império colonial, um país pequeno sobrelotado de heróis, de patriotas, de conquistadores. Até tínhamos o Camões, para dar o toque intelectual a uma nação de campónios como a quiseram e fizeram ao longo de 48 anos, mais o orgulho pela Pátria capaz de impressionar-se a si própria na falta de reconhecimento dos que nos olhavam com indisfarçável desdém.

 

Veio Abril e veio a Europa a seguir, na ressaca do lado menos bom de uma liberdade que também serve para desgovernar. Foi uma reviravolta de sonho e de repente já sonhávamos olhar para países como a França ou a Alemanha de igual para igual.

E depois alguém meteu água e começaram a surgir à tona maroscas, disparates, alarvidades inconscientes daqueles a quem entregámos o poder e, pior ainda, daqueles a quem eles o renderam depois.

De repente, o sonho esboroou-se como uma miragem para uma generosa fatia da população.

 

Leve já, a gente empresta, tudo aquilo que pagará bem caro depois

 

É assim que se destrói uma ilusão. Com ela abate-se sobre muitos uma realidade tão crua como a passagem súbita para uma outra dimensão. Avós reformados a sustentarem os netos e os filhos desempregados sem saberem como liquidarem uma catrefada de prestações. Era inimaginável poucos anos atrás, enquanto os mais poderosos desbaratavam milhões em seu benefício num equilibrismo sem rede para as camadas mais desfavorecidas da população, esta inversão dos papéis.

E depois o anúncio mil vezes repetido da iminência de uma catástrofe tão imensa como a falência cujo espectro se instalou sobre todo um país.

 

É complicado lidar com estas quedas abruptas depois de crescermos a ouvir contar as histórias dos nossos avós emigrados ou mesmo dos que por cá ficaram a construir as lendas familiares de self made men. Parecemos tartarugas tombadas de costas, incapazes de reagir à pressão deste fracasso em câmara lenta que vai arrastando aos poucos cada vez mais de nós, pelo efeito dominó de uma conjuntura aziaga amplificada pela ganância de uns poucos e pela inépcia dos líderes que elegemos para a enfrentar.

Parecemos baratas tontas no cimo de um icebergue em pleno hemisfério sul para o qual, surpresa, a Europa antes generosa anfitriã do nosso pequeno mercado nos quer empurrar.

 

Uma soma de traições muito acima das nossas possibilidades

 

Somos nós como o país. Acusados de preguiça, de desleixo, de incapacidade para gerirmos os nossos destinos, de desgoverno, de falta de tudo aquilo que enchia de orgulho patriota a geração que sabia o que a deixavam de um passado sem mácula, historicamente expurgado de tudo quanto o pudesse questionar. Um fracasso, como nos querem pintar, enquanto povo no seio de uma Europa dos ricos e dos louros e dos sempre melhores que todos os outros burros e calões.

É difícil de engolir um rótulo assim, depois de tantos de nós terem investido umas décadas em carreiras ou em negócios que acabaram hipotecados por malabarismos na alta finança que lhes competia também, a esses europeus bem sucedidos à nossa custa, os europeus de segunda com salários de gente inferior, controlar.

 

Assistimos assim ao desfalecimento colectivo de um país com séculos de História, impotente para travar uma decadência provocada a meias por factores tão externos como uma bolha imobiliária e tão internos como o pontapé eleitoral em falso que a maioria deu nuns alegados arrogantes e incompetentes para confiar o poder a uns comprovados incapazes e imbecis.

 

Arriscamos assim o nome gravado nos anais como fazendo parte de um grupo de portugueses de merda que algures num ponto do tempo permitiram que uma conjuntura marada mais a soma resultante de uma caótica conjugação de factores, nomeadamente as motivações interesseiras aquém e além fronteiras, nos arrasasse o que de mais nos pode valer nesta fase para darmos a volta à situação, os meios de produção indispensáveis para a recuperação, quase a partir do zero em caso de desagregação do projecto europeu, da soberania, do controlo efectivo do nosso país.

 

Neste contexto que acima desabafo, sinto-me preparado para enfrentar a saída da moeda única mais o diabo que carregue quem nos deixou atolar assim.

publicado por shark às 22:26 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 15.05.13

A posta que pró ano é que é

Ser adepto deste ou daquele clube é resultado de tantos factores aleatórios e acontece em tão tenra idade que raramente nos lembramos do momento, do tempo e das circunstâncias, em que decidimos abraçar para a vida um emblema e uma cor.

Não nascemos adeptos, mesmo quando nos inscrevem como sócios ainda antes de nos imporem outra canga que é a do baptismo. Fazem-nos adeptos ou apenas embicamos para este ou aquele amor à camisola porque sim.

 

Podemos questionar ou mesmo alterar a nossa opção partidária, a nossa relação amorosa e repensar inúmeras escolhas de caminhos ao longo da vida. Porém, o clube que é o nosso agarra-se à pessoa como uma cor de olhos ou um sinal de nascença.

Perca ou ganhe, é o nosso clube. Por ele gritamos, por ele choramos, por ele torcemos uma vida inteira. E a cada novo jogo, a cada nova época, a cada nova etapa, a esperança de vencer é renovada e não existe martírio suficiente para nos vergar nessa paixão.

 

É impossível de explicar este apego a uma colectividade de forma racional. É mesmo de um amor que se trata, braço dado com uma fé tão inquebrantável que mais facilmente a pessoa deixa de acreditar em Deus. Sobretudo quando este último nos prega partidas tão dolorosas como as duas seguidas que o meu Benfica sofreu.

Tivemos dois pássaros na mão e ambos os casos a ave, mesmo à beira de uma daqueles voos dignos de uma águia, morreu.

Dói imenso, por quão ridículo possa soar a quem passe ao lado destes fenómenos tão estranhos como a loucura da paixão por um clube e acima de tudo, numa hierarquia inquestionável, pela sua equipa de futebol. É coisa para fazer um homem chorar, de alegria como de tristeza, sem que alguém ouse questionar por isso a sua dureza e masculinidade como ainda acontece e muito quando essa manifestação surge associada a outro tipo de emoções.

 

Ser benfiquista, o meu drama pessoal, é coisa de uma intensidade quase insuportável de tão perturbadora do estado normal de consciência de uma pessoa. É toda uma montanha russa de emoções arrebatadoras, jornada após jornada, taça após taça, títulos conquistados e outros, sempre demasiados, a escaparem para um qualquer dos rivais do costume.

 

Ser benfiquista é uma pessoa deitar as mãos à cabeça mergulhada num desalento esmagador quando se enfrenta uma derrota.

Mas também é uma constante renovação desse amor que tanto nos trai, é um renascer das cinzas, permanente, depois de perdoados todos os desgostos, de ultrapassadas todas as arrelias. Cerramos os punhos numa gana danada de pró ano é que é e defendemos a nossa dama contra tudo e contra todos, sem ponderar sequer a hipótese de uma desistência por muitas que sejam as ocasiões em que saímos a perder.

 

Há casamentos que resistem com muito menos do que isto para dizer.

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publicado por shark às 23:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Segunda-feira, 17.09.12

A POSTA NO ESTADO TRAIDOR

Mais por inerência do ofício do que por vontade própria, sou daqueles profissionais a quem é retido o IRS na fonte e infelizmente sou daqueles que têm sempre algo a receber de volta.

Isto implica que o Estado utiliza dinheiro meu durante uns meses, pois é retida sempre uma quantia superior à que o meu rendimento implica tributar. Por mim, tudo bem. A coisa funciona assim há anos e nunca foi minha intenção fugir ao fisco, pela paz de espírito que isso implica mas também porque sempre considerei ser meu dever cumprir com as obrigações fiscais.

Contudo, em tempo de crise cada cêntimo conta. E este ano, pela primeira vez, percebo o que implica ficar refém do Estado quando este entende aplicar a máquina trituradora nos números de contribuinte sem ter em conta que cada um desses números equivale a uma pessoa.

 

Quando se entra no estranho mundo das dificuldades financeiras a primeira constatação, a primeira emoção associada, é a da vulnerabilidade. Percebemos de imediato o quanto o sistema está pensado apenas em função das pessoas bem sucedidas quando vestimos a pele das excepções que o sistema afinal pretende apenas expurgar, como a um grão de areia no mecanismo. Essa vulnerabilidade sentimo-la perante as multas, as taxas, as penalizações que são aplicadas a quem está numa aflição, agravando ainda mais a situação de quem a viva.

A segunda emoção que nos suscita, o aperto financeiro, é a de impotência. Depressa aprendemos que tudo está feito e pensado no sentido de nos arrastar para becos sem saída ainda mais esconsos do que aquele em que nos sabemos de antemão.

 

Essa foi uma lição que na repartição de Finanças da minha área de residência reaprendi, agora que percebi que quando o Estado quer o Estado consegue. E para meu galo o Estado quer ficar com o meu reembolso de IRS deste ano.

Não adianta protestar. É a Lei que manda e a Lei diz que o contribuinte tem que esperar, sem prazo marcado, sempre que o Estado entende adiar a devolução do que não lhe pertence de facto.

Calhou-me ser um dos apanhados pela tal máquina trituradora e agora não posso honrar compromissos porque o Estado decidiu não honrar o seu para comigo, com base num expediente legal e na dificuldade de comunicação com quem decide, os todo-poderosos a quem nem mesmo uma chefe de repartição pode colocar uma dúvida pertinente. Apenas o contribuinte, mediante requerimento que provavelmente nenhuma resposta obterá.

 

É assim que o Estado nos convida a sair do sistema, a preferir as soluções da economia paralela que nos livram de uma despesa cada vez mais elevada e ainda nos poupam estas pequenas traições que em tempo de crise podem implicar o fim da vida normal de uma pessoa, depois de iniciada a espiral de contenciosos e por muito que se tente contrariar a queda.

 

É assim que o Estado, esse papão, tantas vezes se transforma no verdadeiro problema e raramente numa solução.

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publicado por shark às 12:09 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Terça-feira, 28.08.12

A POSTA NO SORRISO AMARELO

Encontro nas declarações de muitos figurões um humor daqueles que suscitam, nos que os rodeiam ou lhes prestam demasiada atenção, uma reacção muito semelhante à provocada pela flatulência: quase toda a gente se ri, mas ninguém sabe explicar onde está a piada.

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publicado por shark às 10:25 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 26.03.12

A POSTA NAS CONTAS DE SUMIR

Tempos atrás, quando ainda mal adivinhava a pancada do facebook, afirmei aqui que deixaria de blogar no dia em que o contador me provasse que teria mais leitores se distribuísse as postas nas caixas do correio do edifício onde moro.

Hoje venho aqui assumir que na altura menti.

Ou enganei-me a fazer as contas, tanto faz.

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publicado por shark às 22:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (18)
Quarta-feira, 15.02.12

PALAVRAS CLANDESTINAS

Aprendi à minha custa que até a liberdade de expressão é sempre relativa, já que depois de descoberto o efeito bumerangue das palavras até um olhar indiscreto pode funcionar como mordaça.

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publicado por shark às 14:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quarta-feira, 18.05.11

A POSTA NA CRISE DE PACOTILHA E NO PATRIOTISMO TRÔPICÁU

Para além de desconchavarem as finanças às pessoas, as crises provocam um dano colateral que é o de desconchavarem as próprias pessoas. Isso é fácil de constatar em dois ou três dias de maior atenção às conversas de café, nas quais se expurgam as emoções violentas provocadas pela dificuldade em escolher o destino de férias ou em jantar todos os dias ou em encher por completo os recintos de diversão, nomeadamente os centros comerciais e os estádios de futebol.

 

Se a pobreza envergonhada é constantemente denunciada por tudo quanto é organização de índole humanitária presume-se que os mais aflitos não falam da crise, antes a calam bem fundo e tentam disfarçá-la a custo perante os olhares atentos da vizinhança habituada a topar esses indicadores de oscilação no estatuto social que tanto pesam nos moldes de relacionamento a adoptar.

Quer isto dizer que as conversas de café são alimentadas precisamente por quem não faz ideia do que é a falta de dinheiro para pagar a prestação ou a renda da casa, apenas ouve falar, e não quer dar nas vistas pela positiva.

 

Quem fala da crise acaba sempre por denunciar o seu alheamento às respectivas consequências. Claro que não falta por onde pegar, os dramas do quotidiano nos telejornais, o problema dos outros, e o inevitável malandro do Sócrates que provavelmente foi o responsável até pela crise financeira mundial.

E um gajo fica calado a mexer o açúcar na chávena, a ouvir a multidão de entendidos acerca disto das crises, gente de gerações recentes, de camadas da população que não fazem ideia da dimensão que a coisa assume no quotidiano de quem precisa de pedir batatinhas na mercearia porque no hiper ninguém as fia.

É gente que numa altura em que a Pátria mais precisa de força e de coragem para dar a volta prefere rosnar que mais valia entregarmos esta merda aos espanhóis (ou aos filipinos, tanto faz desde que sejam mais abastados).

E um gajo continua calado a mexer o açúcar na bica que já é um luxo enquanto os entendidos nesta coisas das dificuldades de uma pessoa, a prestação do leasing do carrão, a reparação do plasma, a mensalidade do colégio privado, as férias que já não podem ser na Tailândia mas, a muito custo, talvez no Peru ou assim.

 

E só dá ganas de um gajo romper o silêncio com algo mais do que a pancada da colher na chávena, de lhes chamar estúpidos com as letras todas por não saberem do que falam e por exibirem a estupidez numa coisa tão óbvia como virarem-se para Espanha, preguiçosos, quando toda a gente sabe, ignorantes, que não faltam argumentos para justificar como melhor escolha para a entrega do país, sobretudo em termos de futuro na única preocupação que os move, uma potência emergente como a China.

 

Ou, na que seria a minha alternativa de eleição (para aproveitarmos o acordo ortográfico e assim, sua gente burra e sem visão estratégica global), o mais ensolarado dos novos-ricos, o nosso irmão Brasil…

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publicado por shark às 11:01 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Quarta-feira, 20.04.11

UM TÍTULO E UMA TAÇA. E AINDA PODE HAVER MAIS...

Em vinte jogos disputados com o FCP esta época, o meu Benfica ganharia um.

Azar, a época nunca mais acaba e já ganhámos o tal que havia a ganhar...

 

Não vale a pena dizer mais do que isto: a diferença entre o Porto e o Benfica é maior do que a que existe entre o Benfica e o Rio Ave, por exemplo.

Omeletas sem ovos, são a eterna ambição do meu Glorioso. E esforçamo-nos, e até ganhámos um título no meio da confusão e tudo, com uma equipa de jogadores medianos e dois ou três magníficos que jogam sempre em desvantagem numérica.

 

Para um benfiquista é muito desconfortável constatar, no nosso "inferno", que os diabos são azuis e brancos e irem lá buscar-nos o título e a taça são factos contra os quais não há mesmo conversa de treta de dirigentes fraquinhos que consiga disfarçar.

O FCP joga noutro patamar e por esta época já chega de folclore verbal e mais vale assumirmos de novo a velha e cada vez mais habitual máxima do "pró ano é que é...".

publicado por shark às 22:54 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quinta-feira, 07.04.11

A POSTA DESENCANTADA

A pessoa adormece, embalada pelo som de palavras tranquilizadoras, democracia, liberdade, e até se permite sonhar com um futuro cada vez melhor, o seu e o de gerações vindouras, os filhos que vemos crescer e a quem transmitimos o legado da confiança que entorpece a passada, bêbedos de sono, entregues a organizações por si sustentadas para garantirem, pelo menos, o essencial.

A máquina que se quer funcional para que a sociedade aconteça sem engulhos ou travões, sem as mesmas limitações de um passado que se viu rejeitado quando o povo se fartou daquilo que agora regressou por uma série de asneiras anedóticas e as ameaças hipotéticas ganharam corpo e tornaram-se tangíveis todas as coisas impossíveis como as pintavam nas histórias de encantar ou nas músicas de embalar no som de palavras prometedoras, garantias de prosperidade, enquanto por detrás do véu vigaristas e especuladores, alquimistas amadores, enriqueciam à custa de um balão que um dia rebentou sobre as nossas cabeças e os pedaços do céu começaram a cair.

E a pessoa entretida a dormir, mesmo depois, com os arquitectos da farsa impunes salvo raras excepções e os restantes (ir)responsáveis por tabela, cúmplices por omissão, ou mesmo por intervenção directa num esquema que nunca souberam interpretar nas repercussões se algum dia corresse mal, com os dedos apontados entre si denunciando culpados de segunda categoria, desviando as atenções dos verdadeiros burlões à escala global, mesmo depois de publicamente expostos na sua condição pelo desastre nos resultados.

 

E a pessoa adormecida, comatosa, ouvindo ao longe os nomes de culpados laranja, azul, vermelho ou cor de rosa que justiça alguma punirá, alheada do presente envenenado para o futuro comprometido que não faz perder o sono, bêbedos de falsa esperança ou de apatia, porque a pessoa dormita à sombra de palavras antigas como árvores centenárias, honra e compromisso, que julgávamos necessárias ao ponto de ganharem raiz.

 

Mas as palavras leva-as o vento como às folhas e na prática ninguém sabe (ou responde pel)o que diz…

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publicado por shark às 16:26 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Terça-feira, 05.04.11

MERECIAM SER TRATADOS COMO NA ISLÂNDIA

Há em mim um dilema quando vejo os bancos em aflição ao ponto de exigirem um pedido de empréstimo intercalar por parte do Governo.

Se, por um lado, me preocupa a situação pelo que implica em matéria de má condição financeira do país, pelo outro sinto um prazer dificilmente reprimido ao ver a banca passar por algo de parecido com o que aplicam aos seus clientes mais aflitos.

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publicado por shark às 20:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Segunda-feira, 04.04.11

DESABAFOS DE SEGUNDA

Ele é o Porto campeão, o Cavaco presidente, o Passos a afiar a naifa para PM e no meio disto tudo uma crise do camandro.

Atão mas querem mesmo que um gajo faça as malas e emigre?

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publicado por shark às 10:13 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Sexta-feira, 11.03.11

MUDANDO DE ASSUNTO

Existe um limite na arrogância e no egocentrismo da malta a partir do qual já nem o seu bom fundo consegue compensar a coisa ao ponto de um gajo conseguir engolir o sapo.

Já nem me chateio. Apenas deixo cair.

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publicado por shark às 11:26 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Quinta-feira, 24.02.11

A POSTA POR SISTEMA

Sobretudo no mundo do futebol, mas um pouco por todas as actividades, assentou arrais uma expressão daquelas que o povo usa para sintetizar um problema crónico, para encontrar uma explicação simples em versão bode expiatório para tudo o que corre menos bem ou simplesmente não avança.

Essa expressão é o sistema, um conceito cuja interpretação depende sobremaneira da posição relativa da pessoa quanto ao sistema em análise.

 

De facto padece de análise, esta manifestação de impotência colectiva perante uma forma de poder traduzida, grosso modo, num conglomerado de interesses que começa por ser um feudo específico em determinado sector e que funciona como um vírus capaz de converter, por exemplo, uma articulação numa pedra. A partir daí a coisa alastra até todo o corpo (neste caso uma organização ou mesmo várias) até à paralisia quase total. Ou seja, a coisa até funciona mas apenas em função dos interesses que o tal sistema alegadamente servirá e ao ritmo lento que melhor se adequa à respectiva manutenção.

 

O sistema surge assim como um papão que espalha uma doença terrível que impede o correcto desempenho de um qualquer mecanismo criado para fazer acontecer algo que até acaba por acontecer mas em moldes que escapam ao controlo da população em geral e mesmo dos poderes que são sempre suspeitos de cumplicidade com qualquer sistema.

Na verdade, a imagem colectiva desse conceito sinistro associa sempre rumores ou mesmo suspeitas que nunca se traduzem em algo de concreto mas cria uma mística de invencibilidade em torno desse monstro que desvirtua as boas intenções de qualquer conjunto de regras ou de pessoas manipulando os cordelinhos de paus mandados nos bastidores dessa casa dos horrores que ninguém sabe bem onde (e como) fica mas toda a gente já ouviu falar.

 

A conjugação da impunidade presumida dos componentes de um sistema, por norma poderosos e muito hábeis na defesa daquele todo que deixa ver apenas contornos desfocados por detrás de um véu imaginário, com a passividade tradicional perante estas coisas (compadrios, cunhas, desenrasques, alianças por conveniência ou em torno de um elo de ligação natural como o vínculo familiar ou de simples vizinhança), tudo isto cria uma aura artificial de indestrutibilidade que acaba por constituir ela própria um dos principais argumentos para o perdurar do tal sistema que parece existir fora do nosso, o Solar, tamanha a (aparente) dificuldade em lhe identificar as características, localizar o pouso e cortar o mal pela raiz de forma... sistemática.

 

Não faltam alegadas vítimas dos vários sistemas que responsabilizamos, não podendo ser o Sócrates, enquanto culpados do costume quando as coisas parecem emperrar logo que caem sob a alçada do sistema, esse malandro anónimo que arrasa todas as ameaças potenciais à sua existência que se presume eterna até prova em contrário e essa nunca aparece inequívoca o bastante para prenderem os (alegados) maus e entregarem de novo o circuito e a cadeia de interesses às pessoas de bem. Mas essas escasseiam, tal como eventuais paladinos, cavaleiros da lei e da ordem capazes de enfrentarem o dragão (mesmo que tenha a cara chapada do Pinto da Costa ou de qualquer outro suspeito de arquitectar um sistema à medida das suas necessidades ou dos seus mais próximos) com a audácia e a descontracção de quem abraçou como causa o seu martírio.

 

Concluo esta breve incursão pela mitologia urbana adiantando que esta posta se deve em boa medida à influência perniciosa daquilo que a motivou.

Mas é possível vencê-lo (o bicho mau): Bastou dar-me para trabalhar um nadinha e o meu sistema (o informático) de imediato crashou...

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publicado por shark às 13:52 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 26.11.10

O FALCÃO FERIDO

Gostava de saber como é que a ave magoada se iria sentir se eu fizesse copy/paste de um dos seus poemas e me servisse dele como legenda para uma foto sem identificar o respectivo autor...

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publicado por shark às 15:01 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 21.11.10

O LÁPIS AZUL COM CHEIRO A ROSAS

Sempre que fecho os olhos a um princípio e faço algo que não gosto nada de fazer arrependo-me.

Comentar em blogues com caixas de comentários filtradas pela moderação é uma dessas excepções à regra que se revelam cada vez mais dispensáveis enquanto fonte de pequena perturbação interior.

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publicado por shark às 19:13 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 17.11.10

A POSTA QUE VIRA O DISCO E TOCA A MESMA

Mais uma vez estou a ser confrontado com um barrete por parte de um amigo.

E nem sequer é do barrete que enfiei, o propriamente dito, que me queixo.

Aquilo que faz mossa é mesmo o barrete que o próprio amigo constitui quando o vejo a rastejar por entre as pedras da argumentação vaga para escapar a qualquer tipo de responsabilidade que implique algum tipo de perda da sua parte.

 

Podia não ter sido dessa forma, mas calhou ser ele, amigo de longa data, a insistir num dado negócio. Recusei por duas vezes, mas a proximidade da relação aliada ao facto de eu efectivamente confiar na sua integridade levou-me a encontrar uma solução que viabilizasse o negócio em causa.

Na minha perspectiva o simples facto de ter sido ele a impingir deveria bastar para soarem os sinos de alarme quando a coisa deu para o torto e aquilo que lhe comprei deu raia. Mas não. Soaram sim os meus, nesta rotina de sucessivas desilusões com quase toda a gente de quem me aproximo em demasia. E percebi de imediato que estou (outra vez) confrontado com uma conversa difícil e cujo desfecho provavelmente será o do costume: fico com a razão mais o prejuízo e risco mais um nome da agenda telefónica...

 

Não sei mesmo se é de mim. Já estive na pele do outro neste caso concreto. E instintivamente reagi como sempre achei que me competia, assumindo a responsabilidade, mesmo apenas de índole moral, que me competia. Sobretudo quando estão em causa amigos ou familiares não me revejo em descartanços, em sacudidelas vagas de água do capote que me fazem sentir que hipoteco a própria alma se o fizer.

O meu amigo não vê as coisas assim. Acha que o problema é meu, o do prejuízo e o da perda de confiança implícita.

 

Eu também acho que o problema é meu. Mas a este ritmo de sucessivos baldes de água fria já não falta muito para que passe a ter como consequência nestas coisas apenas e só o prejuízo material. E esse sim, vale o que vale...

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publicado por shark às 12:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Quarta-feira, 03.11.10

A POSTA QUE NÃO É SÓ FACILIDADES

Isto da paternidade, porquanto insubstituível por qualquer outra maravilha das que a vida nos oferece, tem o senão de à intensidade da forma como a vivemos corresponderem, em proporção directa, situações complicadas de enfrentar.

Reguila como fui e tendo a marafilha herdado (demasiadas) características do pai é cada vez mais frequente ver-me na pele do mau da fita a julgar falhas dela que constam do meu currículo adolescente.

E se no que toca às questões ligadas, por exemplo, ao desempenho social consigo equilibrar o papel disciplinador com a abertura de espírito indispensável, no que toca ao percurso escolar, pela relevância, vejo-me encurralado quando as negas que ela me traz correspondem na íntegra às que eu próprio, num passado distante, produzi.

 

Sou um sortudo, ou tenho sido, no que concerne ao desempenho escolar da marafilha. Sem grande empenho (onde é que eu já vi este filme?) consegue notas que a colocam sistematicamente no terço superior da sua turma e até já lhe valeram uma passagem pelo quadro de honra de uma escola.

Esse facto, contudo, acaba por me complicar ainda mais a ingrata tarefa de aplicar aos desaires uma reacção proporcional à que assumo nas alegrias, imensas, que ela me dá.

A sério, sinto-me um biltre quando leio na sua expressão a tristeza por ter desiludido quem manifestamente mais se esforça por impressionar, mesmo tendo a noção de que não existem alternativas se quiser cumprir o meu papel de encarregado de educação que, bem ou mal, continua a parecer a melhor aposta no futuro dos filhos que tenhamos a nosso cargo.

 

No entanto, na hora de assinar um teste de Matemática com nota a vermelho, o instinto diz-me para não optar pela palmadinha nas costas, todo contente por ela ser tal e qual o papá em pequeno mas antes pela manifestação de desagrado tão contida quanto possível sem deixar de reflectir a minha preocupação.

É uma porra, isto. Tresanda ao conceito subjacente ao ser preso por ter cão...

Se uma pessoa facilita, desdramatiza em excesso ou faz de conta que não é nada os filhos podem ler nessas reacções um facilitismo que os irresponsabiliza. E se, pelo contrário, tentamos deixar clara a necessidade, a obrigação, de darem o litro no que de mais importante lhes compete nesta fase do percurso, carregados de sentimentos de culpa por termos que reagir mal a algo a que os nossos pais tiveram também de enfrentar,o cerco aperta-se em torno do dilema o que se quer e o que se deve fazer.

 

Sim, fui um cábula a Matemática. Detestei a imposição daquele engulho em vários anos da minha vida escolar e raramente consegui uma nota decente em função do meu esforço, pois era raro perceber o aeiou daquela disciplina que depois se chamou cadeira e eu continuei de pé...

E vejo, por comparação com as notas magníficas da marafilha em tudo o resto, que a malapata é hereditária e também ela tem ali um sacana dum desafio onde nem possuo capacidade para a ajudar a entender a matéria nem posso ignorar a minha função que implica fazer tudo ao meu alcance para que ela invista de si numa área do conhecimento criada para atormentar cérebros como o nosso.

 

E pronto, é isto.

Ou desabafava aqui ou iria ver-me grego para conter agora as lágrimas que a fiz verter não pelo que lhe disse ou fiz mas apenas pela desilusão que transmiti, enquanto adiava o abraço carinhoso e os muitos beijos que acabei por lhe dar depois...

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publicado por shark às 12:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 29.10.10

OS MENTIROLÓGICOS DO COSTUME

Ah, e tal, alerta amarelo para as zonas costeiras a norte e assim.

E um lisboeta sai para a rua confiante e desguarnecido e de repente abate-se um dilúvio puxado a vento que é para aprender...

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publicado por shark às 10:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 06.10.10

DE RESTO, SENTI-ME EM FESTA

O único grande inconveniente deste Centenário da nossa sofrida República é num dia tão especial termos que levar em doses tão elevadas com a fronha do actual Presidente da mesma.

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publicado por shark às 02:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Segunda-feira, 27.09.10

A POSTA SECURITAS

As pessoas, os outros, não cessam de me surpreender.

E raramente pela positiva.

Fazendo parte dos outros para as pessoas que me contactam, tenho a perfeita consciência de que também eu cumpro esse papel, o de oferecer surpresas menos agradáveis para quem aposta numa determinada opção da minha parte e acaba a ver-me seguir o caminho diametralmente oposto.

Se calhar é mesmo assim, sermos imprevisíveis faz parte do fascínio que representamos e se calhar outra vez sem isso não teríamos qualquer interesse ou piada.

Contudo, este cariz aleatório das nossas posições, das nossas escolhas, de quase tudo quanto nos é confiado no âmbito do livre arbítrio, acaba por tornar num pesadelo a maioria das (fracas) ligações que vamos criando uns com os outros.

 

O fascínio que acima referi é uma delícia quando podemos observar a prudente distância os cromos que viram casacas ou mudam de atitude ou mesmo de personalidade a qualquer momento e com isso alteram substancialmente os seus rumos e as imagens que vamos esboçando e que raramente correspondem à personagem.

Mas quando essas alterações súbitas se produzem demasiado perto de nós, quando estamos próximos de quem altera o nosso caminho por tabela quando lhe dá a travadinha e decide mudar o seu, a coisa perde muita da piada e o chão parece fugir-nos sob os pés de forma tão brusca e radical quanto mais nos sentimos ligados a essas pessoas.

É algo que tanto pode acontecer no contexto de uma relação amorosa como no de uma amizade aparentemente sólida e em ambos os casos provoca uma desorientação cujas sequelas acabam por surtir o mesmo efeito de uma qualquer traição.

E esse efeito é o receio instintivo de fomentar ligações, o medo do desconhecido, amplificado pelas feridas abertas na nossa percepção do outro e pela constatação de que afinal não conhecemos assim tão bem os outros e acabamos sempre por ver esses tiros no escuro transformarem-se em tiros nos pés de barro em que assentam as mais firmes convicções nesse domínio movediço que são as relações humanas.

 

Sobretudo na última meia dúzia de anos tenho sido confrontado com as mais incríveis piruetas por parte de quem vou aceitando no círculo restrito dos meus vínculos emocionais. Isso provoca em mim nada menos do que uma reacção proporcional, uma mudança brusca na minha forma de ser, de sentir, de querer os tais outros que dizem essenciais para uma vida preenchida e uma mente equilibrada mas acabam, e falo apenas de mim, por se revelar precisamente o oposto.

Aos poucos, na sucessão de ressacas, vou mesmo perdendo a vontade de abrir caminhos, de explorar o potencial das pessoas que por este ou aquele motivo, por esta ou aquela simples coincidência, entram na minha vida nos espaços deixados vazios por quem saiu.

As contas são fáceis e as entradas compensam cada vez menos as deserções, tanto pelo prisma quantitativo como qualitativo. E aí desenha-se o meu contributo, o tal receio que transforma cada nova relação num campo minado de surpresas potenciais que já não me sinto capaz de aguentar.

 

Sempre que tento contrariar esta tendência que a lógica me diz negativa mas os factos desmentem nesse pressuposto dou-me mal. E os outros também.

É quase um dado adquirido, qualquer que seja o tipo de relação, qualquer que seja o vínculo criado apenas para explodir algures debaixo dos pés de onde me foge o chão quando isso acontece.

É flixado, corrói a confiança, destrói a esperança, amputa a base de sustentação dessa vontade cada vez mais enfraquecida de tentar outra vez.

Até um simples café com alguém surge no horizonte não como o sol de um novo dia mas como o prenúncio de mais um desgosto, de apenas mais um temporal para fustigar o que resta da fé nos outros e em mim mesmo, enquanto viáveis, eu e os outros, do ponto de vista de algo mais do que uma ligação tanto quanto possível distante ou, neste espaço chamado blogosfera ou similares, puramente virtual.

 

O problema está tanto nos outros, essas caixinhas de surpresas que podem ser de pandora quando apostamos alto demais, como em cada um de nós que o somos (os outros) também. Ou nem se trata de um problema mas apenas de uma consequência real, tangível, da evolução da espécie para uma multidão de casulos individuais a abarrotar de instrumentos de comunicação que traduzem não essa necessidade instintiva mas apenas a necessidade de a fazer acontecer sem contacto directo e pessoal, à defesa como a distância parece, se não cedermos à tentação do toque, do olhar, do calor humano, garantir.

 

Todavia, seja o que for é fonte de desgostos, de desilusões, de inevitáveis trambolhões dos pedestais de papelão onde assentam as nossas expectativas relativamente ao que devemos esperar das relações que estabelecemos para lá do foro inevitável, de vizinhança ou profissional ou qualquer outro dos viveiros das tais coincidências que nos levam a descurar a prudência e a ignorar o saber de experiência feito e a (re)abrirmos de forma ingénua a outros as portas da nossa casa ou do nosso coração apenas para mais tarde instalarmos mais um conjunto de cadeados e de sistemas de protecção imaginários da nossa sensibilidade que nos tornam aos poucos em paranóicos emocionais.

 

E eu confesso que cada vez tenho maior dificuldade em encontrar as chaves ou em fixar os códigos de abertura dos meus.

publicado por shark às 23:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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