Terça-feira, 10.03.15

Imagina tu

Imagina um amor tão forte que consegue eliminar o segredo, não deixando à mercê da sorte, do ciúme que não passa de um medo, o futuro talhado agora pela determinação com que bate o teu coração agitado pela energia de mil beijos já dados e outros tantos ainda por dar.

Tenta ao menos acreditar que é viável essa entrega incondicional, que é possível renegar o mal expurgando dessa ligação a indecência de julgares excluída a cedência como um elemento fulcral para o amor que pretendas imortal, ignorante daquilo que só quem experimentou saberá explicar.

Talvez consigas apanhar melhor a ideia se eliminares em ti a barreira de pressupostos, se deixares cair os preconceitos que te levam a desdenhar a emoção que não consegues sentir como a descrevem os que sabem de que é feito afinal o amor de que falas porque ouviste contá-lo assim.

Talvez não comeces pelo fim os amores que matas à nascença por impores a desconfiança ou o silêncio comprometedor que inquina, o segredo, transformando cada passo numa mina potencial. Concentra-te no essencial, no objectivo comum em que dois não são a soma de uns mas antes o resultado de um amor que é moldado em função das características que não podes querer anular no outro que tratas como teu.

Procura o caminho para o céu garantido como contrapartida por abraçares um amor para toda a vida, mesmo que receies e tentes proteger a tua resistência contra a agressão como sentes cada desilusão que às tantas podia ser evitada se tivesses essa barreira construída por forma a não impedir esse amor de atingir a fasquia que acreditas ser a ideal.

Desiste de fingir, não é bom, não é normal, uma vontade que não consegues reunir de tão armadilhada pela tua tendência arriscada para o faz de conta, a suspeita que se levanta quando entras em contradição porque não ofereces o coração sem a tutela da cabeça.

Não deixes que isso te impeça de correres o risco que vale a pena, a paixão prolongada pela confiança depositada em quem corresponda ao teu esforço, ao teu empenho, numa relação alheia ao engano que a possa trair.

Alia a esse amor a amizade que pode unir as pontas soltas que vais deixando no coração, a dada desgosto, a cada traição como encaras todas as vezes em que te deparas com algo que pretendeste abafar, a verdade que acaba por ficar à superfície da pessoa que quiseste mudar em função das tuas exigências, sem admitires quaisquer cedências ou compromissos reais que fazem parte do respeito que também entra na equação na hora de acertar as agulhas a dois.

 

Imagina um amor tão forte que não possa jamais ficar exposto à mentira que o corrói, à cobardia que tanto dói quando revelada pela indiscrição de um simples lapso ou de um nome muitas vezes repetido durante um sonho que partilhas, sem querer, com o amante acordado a quem tentaste esconder essa tua hesitação que um amor a sério, eterno, encaixaria no perdão ou na sua persistência, na sua infinita resistência contra as pequenas fissuras que urge reparar com a frontalidade que te possa poupar à imagem que tanto rejeitas mas acabas por assumir.

 

Decide de uma vez para onde queres partir em cada viagem, reúne toda a coragem necessária para poderes mudar a história triste que insistes em reescrever sempre igual enquanto sentes o tempo a passar rumo ao final das hipóteses de viveres uma experiência que poderá um dia deitar-se ao teu lado sem que o percebas e siga o seu caminho.

 

Até ao dia em que pouses o olhar envelhecido nesse tempo mal perdido e te reste imaginar aquilo que podia ter sido se te imaginasses, nessa altura, agora, num dia de sorte, um amor tão forte, tão bom de sentir, que nem a tua alma esquiva consiga desmentir.

publicado por shark às 23:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Sexta-feira, 13.02.15

A posta que a sério só pode ser assim

São vidas que se mudam, talvez para sempre, quando o amor influencia decisões a tomar. Há um compromisso inerente na tomada de consciência dessas mudanças, na aceitação da influência do outro ou de nós mesmos no pouco do destino que conseguimos influenciar.

Torna-se sério sem que isso derive de uma qualquer imposição social, é mesmo assim. É lógico e é justo enquanto contrapartida para tudo quanto de menos bom pode derivar de qualquer relação amorosa, quaisquer que sejam os moldes da sua construção, nomeadamente a interferência em opções de vida de outra pessoa que poderiam alterar para sempre essa vida para melhor. Ou não.

Essa incerteza, contudo, basta para fundamentar um princípio fácil de enunciar que é o do sentido de responsabilidade não sobre o que cativamos mas sobre o que nos permitimos influenciar. Essa ingerência é tão mais profunda quantos os laços estabelecidos, os compromissos assumidos para viabilizar uma ligação, a sensível questão das cedências.

São essas, no maior ou menor grau de empenho que denunciam. que acabam por definir os contornos de uma relação e por determinarem os moldes (e por inerência os limites) da mesma em termos de capacidade de interferir, ainda que por omissão, na vida de outra pessoa. São os alicerces das regras do jogo e como tal acabam por estabelecer os pressupostos de confiança, as fronteiras que nos permitimos criar dentro do território de quem quanto mais se entrega mais terá a perder.

É aí que o compromisso deve existir sob alguma forma, ainda que baseado numa perspectiva de longevidade sempre falível. Mas pressuposta numa relação mais íntima, mais próxima, mais cúmplice como todas as que dizemos mais valorizar. A moeda de troca é a busca permanente do equilíbrio como o é a preocupação constante em fazer valerem a pena todas as cedências e abdicações que qualquer relação exige para existir sem a anulação seja de quem for.

É isso que permite chamar-lhe amor. E faz sempre mais sentido quando à exaltação do sentimento correspondem a lucidez e o discernimento necessários para o fundamentar.

publicado por shark às 23:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 25.01.15

A posta que falar de amor é fácil

É fácil falar de amor. A palavra é pequena, apesar do alegado tamanho da emoção em causa. Por isso mesmo, toda a gente sabe do que se trata e trata-o por tu.

“Eu amo-te”.

Não custa nada a dizer. E ainda por cima, tal como julgam que o sexo se aprende com filmes pornográficos, acreditam que o amor se aprende nas séries ou nas novelas da televisão. E é fácil de dizer, com expressões tão curtas como as paixões mais assolapadas se revelam quando não evoluem no sentido do compromisso emocional que o amor implica.

 

É fácil, sim. Falar de amor é possível bastando o recurso aos clichés dos contos de fadas ou dos clássicos do romance (quase a mesma coisa). Violinos em fundo, meia dúzia de adereços e I love you montanhas mesmo que não se faça a mínima ideia de qual a sensação que um amor suscita. A paixão serve de adoçante, o falso açúcar que, mesmo sendo doce, não é exactamente a mesma coisa. E depois a coisa amarga.

O amor implica riscos de que a paixão foge a sete pés. Coisas sérias. Confiança, perspectivas de futuro, cumplicidade, intimidade, respeito, uma carga pesada que a paixão alivia quando até se pode chamá-la de amor para dar o ar.

 

São afinal coisas parecidas, um bocado como o aglomerado de madeira pode fingir-se mogno. Não dura tanto, o aglomerado de paixão, mas remedeia. E depois de várias paixões, qualquer pessoa sente-se versada nas artes do amor. É paixão, mas até se pode chamar-lhe um assobio desde que produza a ilusão pretendida, o sonho disney de quaisquer candidatos a príncipes ou princesas.

“Amo-te muito”. Mas…

Mas é mais fácil de dizer do que de fazer (sentir), por estranho que pareça a quem sente o coração acelerado por alguém sem ter a noção de que até uma queca ansiada pode produzir esse efeito na pessoa.

 

É fácil falar de amor. Mas também é fácil falar de futebol e achar que o do Brasil, por exemplo, é igual aos outros. E no entanto é de outro campeonato que se trata.

publicado por shark às 14:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Segunda-feira, 15.04.13

A posta na vida de saltos rasos

Parto sempre do princípio de que textos publicados em jornais de referência, seja em edição online ou em papel, gozam de um pressuposto de credibilidade e de seriedade sustentados também no critério de selecção dos respectivos escribas.

Por isso mesmo, dou o peito às balas (que é como quem diz os olhos às palavras) sem os mecanismos de protecção que emprego, por exemplo, neste meio alternativo que é a Blogosfera. Ou seja, leio o que é publicado por títulos como o Expresso com a confiança típica do consumidor crente numa chancela.

Contudo, essa abordagem não me resguarda de potenciais erros de casting ou apenas de lacunas na filtragem de conteúdos e depois sou apanhado nas curvas por pérolas destas.

 

O tema é apelativo, quase diria sedutor, para um esqualo da velha escola, do tempo em que nós gajos tínhamos a fama e elas o proveito nessa matéria.

Dei por isso a máxima atenção possível ao texto da jovem Marta Ramalho, convicto de que iria confrontar-me com a visão moderna, com a perspectiva esclarecida de alguém que terá aprendido com as lições do passado (os don juans e os casanovas citados) e acrescentaria algo de novo (os múltiplos exemplos de sedutores sem pila, menos célebres e mais pragmáticos), nomeadamente a lucidez de quem percebe que à evolução do tempo corresponde a obsolescência de muitos estereótipos.

 

O tal texto da Marta até tenta, aqui e além, tapar o sol da evidência com a peneira da aparente mistura de géneros no mesmo saco de “vampiros de afectos”. No entanto, a descrição do perfil dessa gente narcisista e com pavor ao compromisso assenta de forma inequívoca e descarada no protótipo masculino mais generalizado. O macho da espécie, como é fácil constatar numa observação desatenta do discurso corrente, assenta como uma luva na definição que a Marta estampa no seu texto e só os/as mais desatentos/as não intuem de imediato aquilo que a alusão introdutória a personagens masculinos, consagrados da sedução, sem contraponto do género oposto (mata haris e assim), pretende garantir.

 

O texto da Marta é apenas mais uma versão sonsa do eterno (mas cada vez mais injustificado) separar das águas em matéria de agressores/agredidas por esses maus que as pintam como princesas sem qualquer intenção de as coroarem no futuro.

No fundo, é apenas mais do mesmo na sistemática diabolização dos fulanos que dantes as desonravam e agora apenas abandonam depois de conquistadas.

 

Claro que a Marta se esforça na modernização do cliché, deixando no ar uma vaga miscigenação dos géneros no bando de sugadores de jugulares emocionais, mas a Marta não é parva (se o fosse não escrevia para o Expresso) e a maioria dos leitores (e leitoras) bebe facilmente a mensagem de fundo que nos remete para um estilo e uma actuação que ainda hoje vestem na perfeição o género masculino, por muito que seja mais que óbvia a troca de papéis nesse particular ao ponto de já haver quem deixe escapar alguma saudade desses dias em que os homens (ainda assim numa confrangedora minoria) dominavam a arte da sedução enquanto hoje elas se sentem negligenciadas pela ausência dos tais habilidosos que as seduziam e hoje apenas as fazem bocejar numa sucessão infindável de cedências a males menores, a soluções de compromisso para evitarem as privações.

 

O que a Marta parece não querer enfatizar é o cariz de reciprocidade na questão da auto-estima, relegando para segundo plano a das pessoas (sem pila) seduzidas em detrimento dos temíveis amantes do efémero que as enganam, presume-se que com falsas expectativas de amores eternos.

 

O que a Marta parece não querer deixar claro é que quando a corda ameaça partir é porque existe gente a segurá-la com força em ambos os extremos.

publicado por shark às 14:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quinta-feira, 14.02.13

Todos os dias

primeiro amor

Foto: Shark

publicado por shark às 01:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 16.12.12

Um amor que é

Um amor que sufoca quando as palavras se amontoam e atropelam na boca com pressa de sair, travadas por um beijo que parece não ter fim.

publicado por shark às 17:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Terça-feira, 28.08.12

BEBÉ, GATA, PRINCESA, ANJO

 

BEBÉ GATA PRINCESA ANJO

 


Foto: Shark

publicado por shark às 23:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 22.08.12

A POSTA DA CABEÇA AOS PÉS

Ela: Porque insistes em mimar-me tanto com palavras?

Ele: Foi a única solução que os meus lábios encontraram para beijar uma parte dos teus encantos que lhes está inacessível.

publicado por shark às 15:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 27.05.12

A POSTA QUE DAVA JEITO PODER MEXER-LHE

À semelhança de Deus, o amor é fácil de dizer. Deve fazer parte das características das coisas que nos transcendem, essa simplicidade de serem ditas.

Porém, falar é fácil mas fazer é outra conversa, como se comprova tanto na prática da fé como na do amor que, aliás, também parece reunir mais crentes do que praticantes.

 

O amor está por toda a parte (tal e qual Deus, eu sei) e na boca de toda a gente (tal e qual a pasta medicinal Couto, pois é). Ou quase, pois nem sempre os/as praticantes apreciam administrá-lo por via oral e por isso muitas vezes acabam numa espécie de retiro espiritual para descrentes e, pior ainda, não praticantes.

Fala-se o amor como se em cada cidadão existisse um entendedor na matéria, um sacerdote capaz de guiar as ovelhas tresmalhadas pelo demo da rejeição, e até existem algumas bíblias de referência. O amor enche-lhes as bocas e as páginas de emoção tão colorida nas descrições quanto pintada nas proporções, faz-se assim, sente-se assado, esse amor apalavrado de que afinal apenas se ouviu falar.

 

À semelhança de Deus, o amor é fácil de definir porque igualmente se escuda (o conceito) por detrás da impossibilidade de ser definido. Isto pode parecer confuso, mas dá um jeitão às palradoras e aos palradores que o amor tanto seduz porque lhes abre as portas a um universo de especulações, de indefinições, de clichés e de dogmas que depois se convertem facilmente, aos olhares mais desatentos, em tratados da cena. Melhor dizendo, dá pano para mangas para se falar do que não se conhece mas pelo menos se acredita.

Define-se o amor como se em cada pessoa existisse um sabedor de experiência feito, um monge budista capaz de meditar a emoção até conseguir convertê-la em algo de tangível a partir da espiritualidade que lhe é, de forma tão romântica, atribuída.

O amor enche-lhes a mentes e as páginas de convicção tão fantasiosa nas descrições quanto imaginada nas concretizações, sente-se assim, faz-se assado, esse amor aparvalhado de que afinal apenas se desejou existir.

 

Mas essa vontade sincera, essa intenção de quem espera sempre algo mais do que tem ou entretanto deixou perder, acaba por redundar numa espécie de catecismo para a conversão dos agnósticos que, bem vistas as coisas, acabam por ser os únicos verdadeiramente genuínos porque assumem a própria incapacidade (a que os doutrinários chamam ignorância) de explicarem uma coisa que não têm a certeza de terem experimentado apesar de toda a gente em volta lhe afirmar a existência e até aceitarem essa possibilidade como válida.

Por isso, como é normal nas emoções divinas, o discurso é movido pela vontade firme de afirmar certezas mesmo sem oferecer explicações que as justifiquem e surge sempre engalanado com o rococó típico dos contos de fadas, mormente no final feliz que, no céu como na terra, nunca se conhece até a coisa acontecer.

 

publicado por shark às 23:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Segunda-feira, 30.01.12

MINAS E ARMADILHAS

Algumas paixões não passam de chispas efémeras que acendem um rastilho para a sua própria implosão cujo fragor resulta da diferença entre a intensidade aparente das emoções e a realidade nua e crua desse factor de ignição, acabando por redimensionar à sua verdadeira escala as proporções da carga que se expectava, por excesso, muito explosiva.

publicado por shark às 16:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Domingo, 01.05.11

TALVEZ SAIBAS

Talvez saibas quando ficou amargo esse teu coração que pintas açucarado com palavras feitas pincel que te cobrem de cores quentes o fel que destilas sempre que surge a ocasião, consegues forjar a emoção adocicada e simulas-te apaixonada para poderes parecer como as outras que não entendes na sua capacidade de amar.

 

Talvez saibas quando foi aberta, sem sarar, essa ferida que dói em ti e nos outros que se deixam enganar por esse teu coração a sangrar um amor acre rebuçado que é um presente envenenado pela desistência que não admites e te deixa que na consciência fabriques justificações insanas, sabes que há muito não amas e por vezes até cais em ti e percebes que vem daí a explicação para a imparável sucessão de histórias sem final feliz.

 

Talvez saibas porque te contradiz na prática a deambulação dessa paixão errática que vais caricaturando na pele dos que te vão amando até se confrontarem com a ausência de explicações para o vazio das emoções maquilhadas, para o frio das palavras cuspidas sem amor e sem fé.

Depois dizes até que acreditas na realidade de um amor para a eternidade, enquanto soltas aos poucos as amarras de todos os que caem nas garras desse sorriso encantador de serpente ardilosa, dessa aparência amorosa que se transfigura em mais uma triste revelação do óbito desse teu coração azedo, desse teu orgulho ferido por cada derrota que, na tua mente contorcionista, a batota transforma em culpa alheia enquanto a vida se escoa como areia na ampulheta que vais virando no início de cada relação nascida para abortar.

 

Talvez saibas porque finges amar quando sabes que a meio da luta desertas, fracos os pretextos que inventas para mirrares, dura como pedra, seca como a terra no final de cada Verão.

 

Talvez saibas (tens a certeza) que é por essa terra ressequida que ao longo do resto da vida percorrerás o caminho mais curto para a tua inexorável solidão.

publicado por shark às 21:22 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Sábado, 23.04.11

NO TEU OLHAR O FUTURO NÃO SORRI

Concentra esse olhar assustado naquele sonho em voo planado que deixaste fugir algures num tempo em que não agarravas a vida que querias porque achavas que não podias, proibida por ti a passagem, cruzar a linha numa curta viagem para outro lado que sabes hoje seria o teu.

Sabes que deves parar esse constante deambular da atenção pelas miragens que ofereces ao coração como placebos, essas paragens ao longo de um caminho que percorres sem saberes onde te levará mas igualmente sem duvidares que em cada cama que desfizeres sem acarinhares a emoção deitarás contigo a solidão, a tempestade depois da bonança aparente que te ilude mais uns passos na sensação fugaz dos abraços que não voltas a repetir porque tendes sempre a fugir, algures num momento em que largas a vida que querias porque achas que devias ser outra coisa qualquer e no fundo nem sabes hoje como deveria ser.

Sabes apenas que querias melhor e não tiveste.

 

E eu sei que quando o amor te procurou não o quiseste.  

publicado por shark às 17:43 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (24)
Segunda-feira, 18.04.11

A SENTINELA DE PAPEL

De vez em quando espreitava as memórias que guardava durante o tempo que queria acreditar suficiente para as tornar inofensivas, anestesiadas, dormentes como os braços onde sentia agora o formigueiro do sangue na sua circulação, a alma em ebulição que fechava na mesma gaveta, esse pedaço incandescente que tentava apagar no rescaldo por acabar como o percebia sempre que abria o peito à análise irracional daquele resíduo de emoção perigosa dentro de si.

 

Ficava sempre por ali, no silêncio compartimentado, estanque, de uma casa-forte sem oxigénio que pudesse alimentar aquela chama que não conseguia apagar e queimava a cada inspecção as pontas dos dedos do coração que queria vencer o combate quando tocava a rebate o sino de alarme, o alerta geral de que algo poderia correr mal com aquela labareda à solta.

Fechava à pressa a porta de acesso para se poupar ao risco de se queimar outra vez, uma saudade inflamável que servia de combustível para o lançamento de um foguetão que lhe atingia o coração como uma seta de cupido tresmalhada no meio do fogo cruzado com a cabeça que se esforçava para impedir a ocorrência, não perdia a consciência do perigo que representava a abertura daquela caixa de pandora interior.

 

De vez em quando tentava extirpar o amor, a paixão teimosa que se revelava ardilosa quando se fingia uma bela adormecida de pacotilha para montar uma armadilha, uma emboscada à traição com a sua força de emoção poderosa e sabedora das fraquezas, dos remendos aplicados como certezas de uma segurança afinal tão titubeante como a indiferença aparente que constituía a primeira linha de uma defesa formada por castelos de areia à mercê de sopros mais fortes do vento.

 

Ou de uma inexorável subida da maré.

publicado por shark às 00:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Sexta-feira, 25.03.11

A DOIS TEMPOS

Devagar.

A mão que segue o olhar, suave sobre a pele a deslizar sensações, a despertar emoções tão belas mas adormecidas.
Sem pressa.
À espera que apeteça algo mais ainda, a estudar, e a outra mão a agarrar com mais firmeza, conhecedora, alardeando a certeza de quem conhece o caminho, outros desbravou, a mão que agarrou e agora convoca a outra para a acompanhar numa dança e o ritmo marcado pela confiança na interpretação dos sinais, queres muito, queres mais, e o olhar aquecido pelo reflexo do prazer num rosto de mulher, as unhas cravadas no chão, a mudança da expressão para melhor, ainda mais bonita, o corpo que se agita e os olhares trocados na hora de procurar outro passo por dar na viagem, apreciando a paisagem com o olhar que segue o movimento da boca que fala sem nexo no delírio do sexo que parece ideal, perfeito naquele momento, guardado para sempre no tempo que a memória existir, entrelaçados os corpos que anseiam repetir o que nem pára sequer.
Um homem e uma mulher.
Devagar.
Ou mais depressa, a seguir a um longo beijo.
Tanto faz...
 
Se nos olhos se espelhar o desejo de que aconteça outra vez.
publicado por shark às 23:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Segunda-feira, 21.03.11

NAQUELA CADEIRA

Sentado na cadeira que comprara numa feira quase trinta anos atrás, o homem passava o tempo que lhe restava a olhar fixamente a velha fotografia na sua mão.

Quase nem pestanejava, o ancião, hipnotizado por aquele filme em sessões contínuas na sua imaginação, a mesma história, na sua memória danificada como um disco de vinil.

Parado ali, concentrado na imagem de um tempo guardado como um tesouro na sua mente acelerada como uma bobina no projector, ao ritmo da película que via de um tempo em que vivia numa outra dimensão.

Agora isolava-se da solidão, deixava-a na bilheteira, e depois passava uma tarde inteira na companhia de por quem o seu coração batia, alguém que o amou.

 

Sentado na mesma cadeira onde o dela um dia parou.

publicado por shark às 23:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quinta-feira, 17.03.11

E QUEM TEM MEDO ADOPTA UM CÃO

Se alguém nascer e viver dentro de um quarto sem janelas e não tiver acesso a qualquer tipo de informação do exterior acabará por viver na convicção de que o mundo é um quarto sem janelas e dificilmente conseguiremos explicar a essa pessoa, por exemplo, o conceito de céu.

 

Com o amor e a paixão, e apesar de todos os riscos inerentes à experiência dessas emoções grandiosas, a questão coloca-se da mesma forma.

publicado por shark às 10:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Quarta-feira, 12.01.11

SOL POSTO

Viu-a sair da porta com a certeza absoluta de que saía da sua vida também, mas nada fez para a impedir. Achou que precisava de decidir e ela não deixava porque sempre que ele pensava ela interrompia e o barulho que fazia era algo que impedia um pensamento de fluir.

Preferiu deixá-la sair, sem alarido, sem luta, pois não tinha nada em disputa que o motivasse para tentar barrar-lhe o caminho, apetecia-lhe ficar sozinho por algum tempo e isso proporcionava-se naquele momento em que ela agiu em conformidade com a dura realidade da sua relação moribunda, a vontade ausente, perdida, o hábito e pouco mais a justificar a presença de qualquer deles naquela ligação interrompida por alguma razão, ou várias, que nem conseguia agora encontrar por entre as vagas memórias do muito que correra mal.

 

Preferiu aceitar o final e entendê-lo como o mais lógico corolário de um amor cujo inventário há muito denunciava a escassez, sentia que perdia mais de cada vez que insistia e depois ela não saía mas apenas se prolongava de forma artificial um romance que correra mal logo à partida, anunciando a despedida que nem chegaria a acontecer porque ele preferiu deixá-la sair sem uma palavra proferir que pudesse levá-la a resistir ao apelo que esboçara ao longo dos meses em que bocejara o seu enfado indisfarçável e lhe provou ser inviável a manutenção de um amor sem emoção, abaixo das expectativas criadas.

 

Deixou correr as águas passadas e concentrou-se, apoiado no parapeito da janela, no horizonte de onde o sol se preparava igualmente para partir.

publicado por shark às 12:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Sábado, 08.01.11

OU TALVEZ SÓ DEPOIS

Percorreu com um olhar de cetim aquele corpo nu de uma deusa como a via naquele instante no seu tempo em que o paraíso explodia dentro de si.

Encantado, ajoelhado como em reverência, e ela na cama, deitada, em toda a sua magnificência de criatura perfeita, olhar endiabrado em corpo angelical, sentindo por antecipação o toque firme mas suave de uma mão que ele aproximava devagar daquela linha de separação entre a terra e o céu, a pele macia que estremeceu ao contacto com o seu calor.

Queria fazer o amor sublime naquela cama, despertar nela a mesma chama que sentia arder em todo o homem que queria ser naquele instante do seu tempo feliz. Adorada, tocada como porcelana rara, valiosa, encantadora, a mulher feita deusa, feiticeira, que se entregava, disponível, ansiosa pelas sensações que ele lhe oferecia agora, lábios perdidos na imensidão do universo paralelo que percorriam os dois, corpos convertidos em paraísos perdidos, a ilha deserta recriada naquela cama onde ela, espalhada, o sentia sôfrego como um náufrago em busca da salvação, possuído, também ele, pela emoção que arfava no peito que lhe roçava nas costas no seu movimento de vaivém, pelo espaço, na ausência da gravidade, ainda que terrenos no som que produziam, as palavras insanas que proferiam como válvulas de escape da pressão crescente que os agitava em simultâneo quando no horizonte das suas mentes o sol finalmente nasceu, em órbita descendente para o reencontro naquela cama, onde ela, deitada, o beijou com a força desesperada da amante convencida de que o mundo iria certamente acabar amanhã.

publicado por shark às 17:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 12.12.10

A POSTA QUE VÊS MELHOR

Olha em frente tudo aquilo que será, abre a tua mente ao que o destino te trará e desmantela essa muralha que te isola de tudo aquilo que és quando jogas à defesa porque não tens a certeza de que vale a pena arriscar.

 

Olha em frente para poderes enfrentar de forma diferente o mundo que sentes hostil, perdido por cem, perdido por mil, e molda a consciência por forma a encontrares a resistência dos fortes pois é desses o que prevalecerá ao longo das voltas que a vida dá enquanto passeia diante dos nossos olhos a felicidade que por vezes rejeitamos por simples desleixo ou estupidez.

 

Olha em frente outra vez e prepara o caminho que falta, repara na tua alma que salta irrequieta e que te deixa tão inquieta a prudência que abraças como companheira numa solidão que não mereces conhecer porque sabes existir em ti tudo aquilo que fará, abre a tua mente ao que o destino te trará, as delícias de quem souber apreciar.

 

Liberta agora o teu olhar da desnecessária desconcentração que te provoca a visão periférica.

Olha em frente, abre a tua mente e envia esse amor como um sinal, como a luz de um farol.

 

Como uma mensagem telepática.

publicado por shark às 22:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 30.11.10

NUNCA JAMAIS

Nunca te deixes influenciar por aquilo que te possa demonstrar num momento de desnorte, acredita que foi pouca sorte teres a desdita de te confrontares com o outro lado de amores que se querem secretos, que nem sempre se revelam discretos e podem explodir numa simples exibição de uma mera irritação com o rumo que a vida por vezes toma, a que se pode juntar a soma de pequenos focos de incêndio, aqui e além, na mente de quem possa não estar assim tão bem quanto seja seu desejo provar.

Nunca te permitas ignorar tudo o resto que se esboça quando não meto a pata na poça, leviano, e te induzo naquilo que é um engano, a descrença, quando não te privo de argumentos para a esperança, sempre que exibo outra face livre de tudo o que nas horas más me entorpece a consciência do quanto vales para mim.

 

Nunca aceites chegado o fim da resistência, o esgotar da paciência que talvez não faça por merecer a todo o tempo, enfatiza o encanto de que sou capaz no todo que se faz de partes tão distintas, o monstro que me pintas quando te desiludo mas também o que mostro quando tudo não me basta para ti e tento ir mais além, as coisas que faço bem e te rendem à evidência de que a tua tolerância não é investida em vão.

Nunca rejeites a voz do coração quando te verga a uma verdade talvez para ti incómoda, quando a realidade te faz sentir estúpida por cultivares tamanha paixão por um homem que por vezes se revela tão distante da forma como o consegues sentir e por vezes não consegues entender o porquê.

 

Nunca esqueças que para lá do que se vê existem razões inexplicáveis para as coisas aparentemente impossíveis de aceitar.

Nunca inferiorizes o amor ou a paixão perante uma simples reacção impulsiva, deixa que o instinto sobreviva ao duelo com o vilão em que se transforma a razão quando ameaça a felicidade com base numa lógica sem capacidade de entender as emoções, que se baseia em equações sem que nada se prove porque afinal a prova dos nove bate certa no teu peito acelerado que se prefere enganado nas conclusões do que privado das sensações que lhe ofereço quando aceitas as desculpas que te peço, por vezes sem emitir um som, e fechas os olhos, enfeitiçada, ao meu lado menos bom.

publicado por shark às 15:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Domingo, 28.11.10

A POSTA MORNA E MONTES DE DOMINICAL

Só por uma vez (e foi há tanto tempo que poderia começar esta posta com "era uma vez") caí na asneira de me apaixonar por uma daquelas moças que se declaram completamente desvinculadas da sua paixão anterior mas um gajo até consegue ler nas entrelinhas da insistente negação o despeito ou o desgosto por a dita relação não ter resultado.

Bom, se calhar até aconteceu por mais do que uma vez. Mas todos/as sabemos o quanto a maioria das pessoas sem pila são hábeis em fazer como as bisnagas vira-bicos (sim, também já há muito não existem nos carnavais adolescentes), apontando a boca para o lado do desprezo enquanto o olhar, virado para o lado oposto, se delicia com tudo o que podem absorver acerca dos alegados ex com enorme, porquanto bem disfarçada, sofreguidão.

Isto a propósito de hoje em dia eu me desviar mais depressa desse tipo de pessoa sem pila do que se pira da água fria um gato acabadinho de escaldar.

 

Nada de bom se pode encontrar no futuro de uma relação cujo presente (toma e embrulha) se constrói nesta óptica da picardia para (re)estimular o alvo que ainda não está assim tão passado e nos transforma por inerência numa espécie híbrida de prémio de consolação com genes de isco para possessivos e gananciosos.

Aprendi essa lição, e acho que até já falei nisso por estas bandas, quando me deixei embalar na canção da coitadinha que o meu ex até me batia e eu odeio-o e agora preciso imenso de colo e de amor para compensar e investi tempo e emoção à toa numa rapariga que acabaria, para meu espanto - era muito novinho na altura, por me trocar precisamente pelo tal bruto que a agredia e me deixou com um desgosto tão grande que levei algumas quarenta e oito horas a apaixonar-me outra vez.

Bom, não foram bem quarenta e oito horas porque logo nesse dia dramático uma amiga próxima foi generosa ao ponto de me acolher no seu regaço para evitar algum trauma que pudesse dar-me cabo do vigor, mas dá para perceberem que uma pessoa fica mesmo abalada com este tipo de experiência tão chocante quanto instrutiva acerca do modus operandi da maioria (enfatizo esta quantificação para não tomarem a coisa por uma generalização) das moças incapazes de deixarem cair o homem da sua vida enquanto não surge em cena o mais adequado para lhe tomar a posição.

 

Claro que a moral da história não implica que não tenha já incorrido na mesma asneira e não possa vir um dia a tropeçar de novo em cenário similar. Contudo, vestirei nesse caso a pele da vítima de um logro por parte de uma qualquer artista de variedades (por norma variam imenso também nos humores e nos namorados de substituição - uma espécie de assistência em viagem da paixão - que as rebocam emocionalmente até ao dia em que se sentem capazes de nadar de novo nas águas passadas onde supostamente quase estiveram para se afogar).

Nem todas as boas actrizes (e igualmente muita boas, às vezes) pisam um palco a sério e não faltam as que reservam esse talento para se travestirem em sessões privadas para o único imbecil disponível na platéia, sempre sob o olhar de esguelha do tal ex postiço que sempre arranja forma de espreitar a actuação às escondidas no camarote ou no ponto menos iluminado do balcão.

 

Sim, um gajo também acaba sempre por encontrar refúgio por entre os escombros de uma relação mal sucedida quando percebe que participou afinal de uma competição inquinada pela batota das negações por conveniência. Aliás, é essa a maior das portas pequenas por onde se sai de um filme assim.

 

Mas fiquem com a certeza de que nessas películas de segunda mais vale abandonar a sala antes mesmo de surgir na tela a palavra fim.

publicado por shark às 18:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 16.11.10

PONTO G - UM PONTO FINAL NA SUA INTERROGAÇÃO

Já há uns tempos falei aqui de um dos mais populares mitos urbanos, o célebre Ponto G. Na altura não vinha nada a propósito, tal como agora, mas dada a importância que a malta acaba sempre por atribuir a estas coisas da anatomia e do seu manancial recreativo entendi por bem repescar o assunto.

Até porque de política não percebo nada. E de sexo também não, como esta posta ajudará a confirmar.

 

Do Ponto G salta à vista o facto de se tratar de uma zona específica do corpo (e da mente, arriscaria eu) de uma mulher que funciona, diz-se, como uma espécie de lado on de um interruptor. Ou seja, um tipo dá com aquilo sem querer e a parceira transita de icebergue a vulcão num abrir e fechar de olhos, sendo garantido o prazer absoluto à fêmea em causa. Pura mitologia, portanto.

Todavia, a fé neste mecanismo miraculoso que tantas horas tem ocupado aos mais crentes e laboriosos (tão escassos que correm o risco, eles próprios, de se tornarem tão utópicos como o mito de que vos falo - falo não no sentido erecto da expressão) terá pois um efeito quase imediato na, digamos, predisposição da proprietária desse território mais procurado do que o petróleo no Beato.

Naturalmente, alguns machos da espécie parecem quase obcecados com a descoberta desse santo graal da coisa e concentram boa parte do seu empenho na busca incessante do tal ponto G ao ponto, passe a redundância, de se esgotarem nesse esgravatar sendo essa uma das explicações possíveis para que a duração média de um acto sexual se cifre nos três minutos (subsequentes às três horas entretidas na exploração que mais parece uma procura de unicórnios).

 

Por outro lado, a estatística associada ao ponto G não favorece os mais fervorosos. De acordo com a informação disponível, e apesar de existirem até diagramas que localizam o dito ponto num local específico no interior da dita cuja - alvo de contestação por parte de quem acha que isso seria fácil demais e por quem até não se importa nada com os esforços dedicados a tal causa, o ponto G não está sempre localizado no mesmo local em cada pessoa. Pior ainda, estamos a falar de uma pessoa do sexo feminino e aí as variáveis tendem para o infinito, como qualquer matemático de pacotilha consegue calcular.

Existe ainda uma corrente que defende uma proliferação de pontos G por todo o corpo, bastando apenas certificar-se o explorador de que nenhum centímetro quadrado fica por sondar nessa demanda pelo botão mágico que transforma qualquer amante num sucesso sem precedentes (estou a rir mas é dos nervos, não levem a mal). Os mais cépticos, no entanto, contestam essa abordagem por considerarem tratar-se de uma versão oportunista (nada feminina, nesse caso) destinada apenas a funcionar como uma espécie de cenoura pendurada diante dos, digamos, menos clarividentes.

 

Alguns estudiosos deste tema fascinante, nomeadamente os mais dados ao trabalho de campo, reclamaram para si os louros da descoberta deste tão prodigioso eldorado do sexo, embora nunca faltem as vozes oponentes que os acusam de se fiarem em demasia nas manifestações exteriores de satisfação cuja fiabilidade se sabe hoje (como ontem já se sabia) ser sobremaneira questionável.

 

E se os mais veteranos escarnecem os que ainda se dão a tais trabalhos de pesquisa do que a sua experiência de vida lhes ensina não passar de uma metáfora ou pouco mais, já os mais novos, a geração playstation, provavelmente desistirão do ponto G no momento em que se aperceberem de que nunca irão dispor de um comando à distância para a sua activação.

publicado por shark às 15:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (18)
Terça-feira, 26.10.10

DISTRACÇÕES

Agarrou-se com tamanho desespero às rotinas e ao discurso que usava no tempo em que ainda sabia o que era o amor que nem se apercebeu do dia em que perdeu a capacidade de o sentir.

publicado por shark às 11:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Sábado, 23.10.10

MADRUGADA

A luz distante, suave, de um candeeiro lá fora deste mundo criado a dois, tu perdida num paraíso e eu vou ter contigo depois, como um farol a luz que te faz brilhar mesmo no centro desse olhar que me dedicas, lá fora, uma luz, tão perto agora que me beijas com a paixão divina, e eu sou teu e tu és minha, os teus olhos fechados para que nada possa distrair-te a emoção, perdida num paraíso sem a orientação da luz que persigo porque te desenha na penumbra o contorno que me deslumbra, a sonhar acordado o momento partilhado que ninguém mais poderá reclamar, só tu e só eu, perdido no céu, na tua boca, a beijar, orientado apenas pela luz no teu olhar por entre pálpebras semicerradas, as persianas quase fechadas mas a luz distante consegue entrar, reflectida no teu olhar brilhante e na pele que me entregas aos lábios e às mãos, ao corpo inteiro que sou, tudo aquilo que tiro, tudo aquilo que dou, e a luz lá fora a apagar para finalmente dar lugar ao sol que já está a nascer enquanto te encostas ao meu peito e te sinto adormecer.

publicado por shark às 00:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Sábado, 11.09.10

AMOR BATRÁQUIO

Descuro num canto obscuro a memória abandonada de uma etapa desgraçada da existência que não me atormenta a consciência, renego sem hesitar a lembrança que quero evitar de um momento perdido no meio do tempo acumulado na cabeça ou noutro lado e percebo que vontade é esta, aproveitar o tempo que resta, que me move adiante numa ansiedade que é constante, a verdade perturbadora escondida na história desoladora, nesse canto desleixado da memória cuja chave há muito perdi num lugar que, de resto, esqueci pouco tempo depois de um mais um não serem dois e entretanto aquilo que foi passou a ser uma recordação que não dói no coração ou na mente concentrada na vida que quero gozada sem reticências, sem medo das incongruências que atraiçoam a confiança em tudo quanto se diz e fazem perder a esperança de se conseguir ser feliz.

 

Descubro numa esquina da vida o desmentir da oportunidade perdida que não o foi, a realidade sonhada que se vê concretizada num instante mágico, uma gargalhada, o sentido da vida tão cómico que em cada estrada desenha cruzamentos que são, afinal, intersecções de segmentos e é tão natural que as emoções se sobreponham nas almas que lutam pelas utopias que se sonham e por isso são tão reais como os factos que entendemos normais apenas por serem mais fáceis de produzir, fasquias que nos ensinam a baixar a um ponto sustentável que é tudo aquilo que acreditamos viável e, no fundo, não passam de ambições pequeninas que nos são impostas pelas vontades franzinas de quem se recusa a acreditar que é possível, basta lutar, ir um pouco mais além e tornar imbatível o poder do amor sobre a causa sofrível dos remediados que não se escondem desconsolados pela ausência de vitórias na sua existência de contadores de histórias que são mentiras piedosas para disfarçarem as atitudes medrosas com que enfrentam as paixões e os amores que ocultam nos bastidores de uma farsa qualquer.

 

Descuido no dia a dia a prudência dos que percorrem a linha da circunferência dos seus caminhos sem progressão, os ciclos viciosos que rejeito porque prefiro abrir o peito, o coração, e assumir, vertical, aquilo que aos outros parece mal à luz do efeito que invariavelmente se produz quando a sinceridade se impõe, a rejeição de que a sociedade dispõe para punir qualquer rumo traçado em linha recta que é algo que nunca se aceita de bom grado por ser foleiro para quem só vê pecado no que é verdadeiro em vez de camuflado numa amálgama de mentiras e de enganos, numa trama de pequenas traições e de planos mal elaborados que conduzem a desilusões quando desmascarados os piores actores de entre uma multidão clandestina.

 

Destruo, com esta regra que é a minha, a falsa benesse do sossego inquieto de quem tem a mania que é esperto mas recebo em troca uma paz de espírito colossal que resulta da escolha entre o bem e o mal representados na paleta das cores disponíveis nas decisões inadiáveis que qualquer dilema nos apresenta, o problema que nos confronta dobrado por si mesmo e pelo resultado das opções que aparentemente se multiplicam mas afinal se quantificam numa só, a que melhor desatar o nó na garganta e de nada adianta complicar com a piedade de uma omissão que é um gesto cobarde sem remissão por privar de escolhas quem tenha que as fazer, por muito que possa doer a f(r)actura exposta na ausência de uma resposta consentânea à vontade instantânea de fazer perguntas a mais.

 

Devolvo, em circunstâncias ideais, tudo aquilo de que possa privar quem corra o risco de me amar, com uma postura genuína e uma aposta total na rejeição de tudo quanto seja artificial no que respeita à emoção afirmada ou à expectativa criada quanto àquilo de que sou capaz e isso é mais do que muita gente faz quando opta pelo logro egoísta, a impunidade no topo da lista onde a seriedade nem chega sequer a constar.

 

Derroto, com esta forma de estar, os fantasmas nos armários, inexistentes, mais os medos permanentes associados à hipocrisia ou a uma relação de fantasia onde o príncipe só encanta até ao dia em que desponta o mais ínfimo traço do batráquio oculto pelos beijos mágicos, cada vez mais escassos, de um amor a espaços, tão difuso que algures se desvaneceu.

 

Uma paixão tão frívola e desnorteada que no meio do caminho se perdeu.

publicado por shark às 21:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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