As cruzes da ribalta

Por vezes desacreditamos personagens de filmes, incapazes de acreditarmos que existam pessoas assim. Isso aplica-se tanto às pessoas demasiado boas como às antes pelo contrário e nem precisamos de recorrer a exemplos extremos, incapazes que somos de aceitar alguns desvios de personalidade como possíveis.

Contudo, a vida vai-nos confrontando com uma realidade na qual existem de facto personagens de filme. Pessoas aparentemente normais mas capazes de protagonizarem situações impensáveis, para o bem ou para o mal, numa versão bipolar mansa que apanha de surpresa quem nunca está a contar. Gente estranha ou mesmo perigosa, pelas repercussões das suas iniciativas nas vidas que possam directa ou indirectamente afectar.

 

Imagine-se aquele cidadão que toda a vida ajudou velhinhas a atravessar a estrada e um dia empurra a anciã para debaixo de um camião. Coisa de filme, claro. Mas depois abrimos um jornal e lá está o facto insólito, mais os vizinhos surpreendidos por aquele gesto de quem afinal sempre foi boa pessoa.

Este conceito da boa pessoa é dos mais escorregadios nos dias que correm. Tanto pela ausência de valores determinantes para orientarem a conduta como pelo excesso de factores de perturbação capazes de desequilibrarem qualquer um/a.

O problema reside na facilidade com que a pessoa veste a pele de gente de bem, bastando alguma paciência na gestão da imagem. O objectivo final é obter aos olhos dos outros o tal estatuto de boa pessoa que dá trunfos para o jogo de influências tão em voga desde o dia em que alguém reparou na galinha da vizinha ou apenas na superioridade da dimensão humana de alguém que, apenas por isso, se constitui um estorvo, um embaraço potencial pela ameaça da comparação.

 

A falsa boa pessoa tem o condão de levar à certa quem prefere sempre acreditar no melhor cenário ou apenas naquele que é descrito à revelia de um alvo qualquer, sem contraditório. Se é uma boa pessoa que diz mal, é verdade com toda a certeza. E pelo menos a dúvida fica instalada até prova em contrário difícil de surgir quando a suspeita já manda no guião.

É assim que algumas personagens se constroem, história a história, mesmo sobre os escombros dos vilões inventados para justificarem a sempre rentável condição de vítima ou simplesmente porque sim.

E as encenações resultam, pelo menos enquanto das palavras não se passa às acções. É aí que torce o rabo a porca da verdade de um carácter moldado de forma tosca, baseado no recitar infindável de ladainhas ou de mentiras que contadas mil vezes transformam qualquer sapo num príncipe de fachada que desaba ao primeiro abanão na fantasia de Carnaval.

 

Estas coisas parecem inocentes, mas não são. Precisamente porque se nos filmes podemos atribuir à dramatização algum exagero na postura da pessoa a fingir, na vida a sério não existem atenuantes para as palavras ou as acções indignas quando acontecem sem justificação possível ou, ainda pior, quando servem claramente um propósito indecente que desmascara o actor ou a actriz.

E depois há o impacto negativo nos outros, muito mal no boneco da trama em carne viva, as consequências nefastas a empurrarem galãs de plástico e divas de silicone para fora do pedestal que nunca souberam merecer.

 

Há todo um karma ao qual nem as boas pessoas dignas de um Oscar conseguem fugir.

publicado por shark às 22:45 | linque da posta | sou todo ouvidos