A posta que é a vida a brincar

Sempre que a vida, essa brincalhona, nos encurrala em labirintos também oferece diversas saídas que, na maioria, desembocam em ratoeiras.

 

Na ascensão tudo parece conjugado para sermos transportados ao colo para o sucesso. Multiplicam-se os amparos, expandem-se os horizontes, alargam-se os benefícios e depressa interiorizamos que é a subir que todos os santos ajudam.

Contudo, na queda o fenómeno é o mesmo embora em sentido contrário. O universo parece transformar-se num escorrega e, a brincar, a brincar, sentimos a vertigem do aumento na inclinação que mais favorece a lei da gravidade quando se instala de armas e bagagens na existência. Se é para descer, todos os demónios empurram.

A mesma vida que nos catapulta cada vez mais alto depois do salto inicial num qualquer trampolim transforma-se numa daquelas brocas industriais que até furam os asteróides que cavalgamos a caminho do nosso armagedão pessoal e intransmissível. Sempre a cair.

Claro que gostamos sempre de acreditar que a vida é uma espécie de montanha russa, com ciclos como os da economia do passado, altos e baixos, subidas e descidas. Mas agora que na economia o mar está sempre flat e em permanente maré baixa, a vida parece acompanhar-lhe o ritmo e o parque de diversões parece só fornecer a emoção do salto para o abismo a bordo do comboio fantasma. Bater no fundo é apenas um degrau no rés-do-chão, a meio do caminho para as caves.

Isto porque, como referido na entrada desta prosa, a vida, essa parodiante colorida, não gosta de meias-tintas. Só aceita o horizonte cinzento-escuro por contrastar bem com a alegria do azul que transforma numa miragem, numa aberta apenas sonhada em períodos extensos de temporal. Até o brilho do sol se tornar em mais um dos muitos milagres integrados exclusivamente no domínio da fé.

 

É essa que nos move, mãos dadas com o desespero de causa, no interior do tal labirinto pelo qual deambulamos sem rumo e arriscamos nas saídas traiçoeiras que são afinal entradas para males piores. Em cada uma dessas falsas saídas um novo túnel cuja luz ao fundo não passa do reflexo luminoso de uma parede de betão.

E a vida a acelerar o tempo que passa sem nos fornecer qualquer travão.

publicado por shark às 10:23 | linque da posta | sou todo ouvidos