A posta que depois logo se vê

Dediquei alguma atenção à ressaca do incêndio no Andanças, sobretudo porque depois de anos nos seguros percebi que a situação dos proprietários de viaturas danificadas era, não pelo motivo que quase todos julgam, muito complicada de resolver.

Obtive, na televisão, ao vivo e nas redes, a informação que ia sendo veiculada e rapidamente se começou a esboçar a habitual reacção inócua e mal dirigida da opinião pública, como dos media, contra os maus do costume: as seguradoras.

 

Dos vários pareceres de gente mais ou menos informada acerca da realidade manhosa da responsabilidade civil envolvida na resolução do problema, via apólice de seguro, destaquei um ao qual ninguém pareceu atribuir importância mas que, na prática, poderia sempre trazer um problema acrescido ao da já complexa atribuição de responsabilidades: os nossos ineptos legisladores transmitiram uma falsa sensação de segurança ao público quando tornaram obrigatório o seguro de responsabilidade civil para os organizadores de eventos como o Andanças mas não definiram um limite mínimo de capital a segurar.

Ou seja, o Andanças cumpriria a lei com um seguro igual ao do churrasco organizado pela administração de um condomínio.

 

Por esta razão, o insurgir colectivo contra as seguradoras, empresas privadas que dançam a música que a Lei toca e perante as quais se justificam algumas queixas mas nunca a esmagadora maioria, “obrigadas” por lei a aceitarem um risco que num país de baldas é sempre medonho, é prematuro (sem decisões definitivas passíveis de contestação) e acima de tudo mal direccionado pois é ao Estado que compete legislar na defesa dos interesses dos cidadãos e não apenas garantir qualquer coisinha em caso de azar.

Da leviandade com que se confia à iniciativa privada o bom senso de distinguir eventos com milhares de outros com dezenas de pessoas envolvidas, deixando em aberto o valor a segurar e sabendo-se como este altera substancialmente o custo de uma apólice, é que deveriam surgir as críticas. Contudo, já a maioria dava a causa como perdida para os proprietários de automóveis sem seguro contra todos com base na alegada má vontade da seguradora e ninguém apontava o dedo a quem tem o dever de definir as regras do jogo.

 

A coisa acabará no esquecimento, qualquer que seja o desfecho na atribuição de indemnizações aos incautos que acreditaram os seus bens acautelados num evento com tudo legalizado e devidamente aprovado.

E ninguém cuidará de se interrogar como seria, na óptica da apólice de seguro sem capitais mínimos impostos, se dentro dos veículos em chamas estivessem pessoas.

publicado por shark às 19:24 | linque da posta | sou todo ouvidos