A parceria

O sem-abrigo acordou com o pressentimento da presença do outro e de imediato rosnou o seu direito de propriedade, ou de ocupação, daquele espaço público mais abrigado que o outro parecia querer reclamar. Ou pelo menos o sem-abrigo assim o temia, calejado pela vida nas ruas que ao relento funcionava como a selva nas suas leis.

Ficaram assim por uns instantes, a entreolharem-se com desconfiança, sentidos bem alerta para qualquer movimento brusco que denunciasse uma má intenção. O sem-abrigo resmungava impropérios contra a vida em geral enquanto o outro apenas rosnava a sua perspectiva similar. Depois calaram-se de novo, saturados ambos daquele desconforto absurdo que se somava ao que já evidenciavam sentir.

Esfomeado, o sem-abrigo procurou no seu saco de recolha de tesouros uma solução. Restos que a civilização lhe proporcionava de entre os excessos que as circunstâncias lhe negaram algures num passado que preferia nem recordar, refugiado numa loucura própria dos seres humanos tombados na sua condição, alienado na luta por algo tão simples como um pouso mais sossegado para dormir.

Antes da primeira garfada no conteúdo do recipiente imundo que conseguira, há horas de sorte, encher na clandestinidade das traseiras de um restaurante gerido por gente de bem, reparou que o outro continuava ali, de olhos postos no repasto. O sem-abrigo identificou de imediato aquela expressão, a sua de tantos dias menos felizes na busca do sustento para mais um dia por viver. O outro já não rosnava, apenas contemplava à distância, pose entristecida, aquele recipiente mágico que lhe parecia uma cartola com coelho à caçadora pronto a saltar para o seu estômago dorido pela sensação quase permanente de vazio.

O sem-abrigo engoliu em seco, atordoado pela sua reacção, apanhado de surpresa por uma emoção que julgava enterrada na mesma sepultura do passado que recusava lembrar. Deu consigo a procurar no velho saco a tampa de uma lata que servia para o efeito na perfeição.

Dividiu a meio a ração disponível e aproximou do outro a metade que lhe oferecia enquanto refilava entre dentes contra si mesmo aquele assomo de generosidade que há muito não experimentava. O outro, receoso mas numa ansiedade indisfarçável, avançava centímetro a centímetro para o alvo da sua cobiça, desconfiado, esfomeado, desesperado pela confiança urgente de sentir naquele instante em que precisava avaliar o risco a ser assumido. O sem-abrigo já comia e olhava de soslaio para o outro, acabando por lhe fazer sinal para avançar com uma mão. E o outro avançou e partilhou com ele aquela refeição magnífica, visivelmente grato pelo gesto e pela companhia.

 

Seria, de resto, esta última que os uniu quando descobriram ambos que já não lhes doíam tanto o abandono e a solidão.

 

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publicado por shark às 16:38 | linque da posta | sou todo ouvidos