À espera de um final feliz

O figurante que aguarda impaciente o momento de pronunciar as três palavras que lhe atribuíram no guião. Que tenta concentrar a sua atenção no cenário enquanto se apercebe, visão periférica, do muito de importante que acontece nos bastidores. Encostado a um muro acabado de erguer, por detrás um mundo secreto onde possa esconder a sua frustração pelo cariz secundário da sua intervenção a fingir-se protagonista. Assiste impotente aos ensaios entre os actores e actrizes principais e quase se sente a mais no meio da pequena multidão que prende quase toda a atenção disponível. Recita mentalmente as três palavras decoradas que são palavras entre pessoas amadas e por isso se sente tão embrenhado no seu papel. O falso protagonista em si, na convicção. Mas quando o realizador grita “acção!” o figurante fica de fora nas cenas mais divertidas, nos diálogos entre pessoas tão amigas que quase parecem sentir o amor construído aos poucos no bastidor onde são pessoas de verdade e algures a amizade evoluiu por outros canais de comunicação. O cinema da emoção genuína, o apelo da proximidade estampado na retina e as câmaras encantadas a filmarem magia a acontecer e o figurante sempre a ver, encostado a um muro acabado de erguer por dentro também. Coração aos saltos para a falsa partida, a acção acaba cortada por causa de uma distracção qualquer da actriz principal. Take dois e outros se seguirão, o figurante com o adereço na mão para lhe entregar no momento de revelar à personagem, a ela também, o porquê da sua insistência em fazer parte de tal filme. Razões que o argumento não prevê, mas são as suas. Os holofotes apontados noutra direcção, o figurante com o adereço na mão para entregar à sua amada na película, a actriz principal concentrada afinal num piscar de olho discreto lançado por ela e retribuído pelo admirador secreto que se veste na circunstância de actor principal e a cena fica estragada outra vez. O adiamento confirmado e o figurante outra vez desolado por passar os dias como simples espectador de uma amizade travestida de amor, marcada pela extrema confiança, pela absoluta segurança no actor principal cuja ausência reclama sem exigir a presença só para evitar confusões. O papel não exige grande esforço nas representações e por isso os descuidos insistem em acontecer. Instintivos, impulsivos, descarados, assumidos como outra coisa qualquer. A actriz faz de mulher e o figurante aguarda a pergunta a cuja resposta se resume a sua intervenção. O realizador grita “acção!” e ela avança e pergunta: - Porque insistes neste papel confrangedor? E ele, cobarde, camufla o amor e responde azedo e corrói a paixão conforme previsto pelo autor do guião, engole no orgulho as três palavras que diria noutras circunstâncias, “porque te amo” e responde desastrado como exige o papel: - Sou um imbecil. É isso que diz. E depois fica a assistir ao resto da filmagem, à espera de um final feliz.

publicado por shark às 21:41 | linque da posta | sou todo ouvidos