Quarta-feira, 01.09.10

TRANSIÇÕES

Sentou-se à beira de um precipício, de uma maneira que facilitasse o suplício da vertigem que se queria impor, talvez uma última viagem para um sítio que a fé pintava melhor, a hipótese radical de decidir o seu próprio final ignorando o pecado mortal subjacente a essa forma indecente de voar para a deserção.

 

Olhou em volta para se certificar da solidão que mais o serviria, a decisão que tomaria sem influências do exterior, sozinho naquele lugar inacessível a quem o pudesse dissuadir caso entendesse partir de repente, inclinando o corpo para a frente, a gravidade da situação, a vontade de contrariar o instinto de conservação que o fazia hesitar.

 

Enchia o peito de ar como se tentasse ganhar a coragem que sabia não passar de mais uma miragem sem nexo no horizonte da sua alucinação e acelerava ainda mais o coração que parecia querer reclamar o seu direito a participar no momento da votação, qualquer que fosse a opção tomada, a democracia de fachada à mercê da cabeça que arrastara tudo o resto até ali.

 

À beira de um precipício, ganhando o tempo necessário para o despertador tocar e assim o salvar, acordando-o para o pesadelo alternativo que, no seu entender demente, a realidade tinha sempre presente para lhe oferecer.

publicado por shark às 15:24 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 22.08.10

EXIT

Saía todos os dias para avançar no caminho, para dar mais um passinho rumo à felicidade que entendia fazer parte da prosperidade que perseguia como um burro, a cenoura imaginária no carro de luxo, potente, que o podia abraçar de repente com braços feitos facas afiadas no final de curvas mal calculadas à velocidade da vida como a decidira viver.

Saía todos os dias para se convencer da vitória, essa estranha sede de uma glória traduzida num apartamento bem situado, num bairro endinheirado onde se sentia entre iguais, todos eles em busca de mais daquilo que os movia, a fortuna que se dizia ao alcance dos mais capazes de acreditar nessa realidade e de encontrarem sempre mais vontade de subir esses degraus que permitiam definir posições e hierarquias, as decisões que certamente tomarias, invejoso ou invejosa dessa vida cor de rosa que não poderias jamais conhecer por detrás do tapume que verás sempre por baixo, à distância, para lá do muro protector do condomínio privado onde o amor se vê quase sempre relegado para experimentar amanhã ou depois.

 

Saía todos os dias à pressa para alcançar outro triunfo, a contrapartida chamada sucesso como o via na casa de praia que construía aos poucos em nome de outrem para evitar um problema fiscal, já não via como um mal a trapaça que antes sentia como uma ameaça à sua integridade agora perdida, a dignidade oferecida em troca de um alegado prémio de consolação que se assumia a mais forte emoção possível de cada dia no meio do cansaço visível que lhe marcava as feições, mesmo quando alimentava as ilusões de que comprava afectos com os sinais exteriores que lhe permitiam vangloriar-se perante a família de nunca faltar com nada a quem quisesse pedir, gente infeliz e mimada, incapaz de subsistir pelos seus meios ou de lutar por algo mais do que um qualquer bem adicional, um prémio imediato pela sua contribuição na imprescindível manutenção das aparências.

 

Saía todos os dias e imaginava uma reforma dourada, uma vida bem terminada num paraíso de transição para o céu que acreditava merecer até ao preciso instante em que um imprevisto enfarte lhe reduziu a cinzas a ambição que alimentava quando lhe destruiu no coração o pouco que ainda lá restava.

publicado por shark às 18:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 16.08.10

AMOR URBANO DE PENDOR MODERNO

Descobriram-se em simultâneo, numa troca de olhares ocasional. Como que hipnotizados, fixaram os olhos um no outro e sentiram por dentro o germinar de uma nova e poderosa emoção que não ousaram tentar reprimir.

O tempo, contudo, não parava de correr e eles sabiam mas apenas conseguiam contemplar aquela visão que os apanhara de surpresa e agora dominava tudo aquilo que os rodeava e afinal parecia apenas um cenário, um enquadramento perfeito para uma história de amor que parecia ter pernas para andar.

Ou rodas, como os comboios que partiam agora da estação em sentidos opostos, duas carruagens com cada um dos elementos daquele romance em hora de ponta a caminho de um subúrbio qualquer.

 

O apito ainda ecoava na estação do metropolitano quando ambos distraíram a atenção com pensamentos corriqueiros, sem paciência para alimentarem a fugaz fantasia porque esta certamente incluiria um final feliz e afinal isso podiam desbundar na boa e sem esforço no cinema ou nas telenovelas.

publicado por shark às 16:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quarta-feira, 07.04.10

NO SOFÁ COM A CARA ESMAGADA

Pelas palavras da mãe de um bebé que o próprio pai terá agredido até à morte, em Alcobaça, foi este o cenário que hoje preenche as parangonas do horror.

E eu acho melhor não lhe acrescentar seja o que for.

publicado por shark às 09:24 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 24.02.10

A CONVERSAR COM OS SEUS BOTÕES

Etilizado, sentou-se na cadeira de baloiço do alpendre e ficou entretido a observar a agitada perseguição policial. Quase ouvia zunir as balas trocadas, apanhado no fogo cruzado entre as forças da lei e os malfeitores, petrificado por aquela situação.

 

Acelerava em demasia o coração, de cada vez que via tombar um dos participantes no tiroteio que se instalara diante da fachada da sua casa em madeira à beira de uma estrada secundária no meio de um ermo qualquer, na sua terra natal.
Quase tanto como quando vivia no estádio, assim o julgava, as emoções de cada jogo da sua equipa que queria campeã ou quando seguia o drama de uma família desconhecida apanhada no meio de uma trama qualquer que se arrastava ao longo de meses numa novela vivida diante do seu olhar.


A vida a acontecer, permanente, num mundo que não o deixava fugir da realidade como a sentia, perigosa, confusa, perturbadora do sossego que buscava na miragem, na memória, de um horizonte sem fim que o agarrava à cadeira de baloiço do alpendre que não pisava desde a década de setenta em que migrara para outro lugar.

 

E foi por isso que acabaram por o encontrar ao fim de alguns dias sem dar conta de si, sentado afinal no sofá do seu apartamento nos subúrbios da cidade onde vivia há anos voluntariamente enclausurado, sozinho, uma velhice demente, fulminado por um enfarte e com os dedos da mão direita contraídos como pedra em torno do comando à distância da televisão.

publicado por shark às 10:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Terça-feira, 03.11.09

WHITE BLUES

Um piano plantado sobre a neve que cobre o relvado de uma mansão.

A música ausente que acentua a solidão de alguém presente no espaço vazio, devoluto, um rosto mal enxuto das lágrimas agora congeladas, o rasto das pegadas no trilho final.

Marcas daquilo que correu mal numa vida qualquer, um homem ou uma mulher torpedeados pela sorte ou arrastados para a morte social.

 

Um piano patético, coberto de um branco natureza que transmite apenas a tristeza de quem já deixou de o tocar.

A música a ecoar numa memória demente de alguém que foi importante, com honra e glória, mas perdeu o brilho de outrora, alguém que cedeu agora depois de um tempo marcado por tristes baladas que naquele piano eram tocadas para expurgar o desespero.

 

Um piano ao relento, um suspiro levado pelo vento, alguém escondido por detrás de uma janela a olhar, alguém enlouquecido a sonhar com a música que ecoava no salão em dia de baile, perdido no tempo por não conseguir acompanhar-lhe a passada.

A lembrança da música tocada, agasalho para o frio interior, a vontade de partir para um sítio melhor.

 

Um piano inútil, uma esperança tão fútil e vã como a chama de uma vela à mercê da primeira brisa gelada da manhã a chegar.

E os primeiros raios de sol no corpo de alguém com o rosto tombado no frio do teclado, depois de toda a resistência se esgotar. 

publicado por shark às 16:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Segunda-feira, 02.11.09

BUSINESS AS USUAL

trânsito nos arredores de lisboa Foto: Shark

publicado por shark às 09:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Terça-feira, 06.10.09

A FACHADA DO FIM

a fachada do fim

Foto: Shark 

publicado por shark às 19:44 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 06.12.08

NA PEDRA DE GELO

sem querer

Foto: Shark

 

 

Linhas cruzadas, palavras perdidas no eco de uma má tradução.

A morte acidental da emoção no despiste das expectativas em excesso (de velocidade) numa estrada secundária do interior de cada um.

Traços confusos no esboço de um mapa das direcções sem sentido algum, riscos corridos ao sabor do lápis equilibrado nos dedos de uma mão. As dúvidas nascidas da ausência de uma reacção plausível, nenhuma explicação possível para o estreitamento da margem de manobra para os erros a cometer, estão espalhadas pelo asfalto no meio do resto dos cacos de tudo aquilo que se perdeu.
 
A história por acontecer, guardada nos planos sonhadores de aventuras e de amores proibidos, de momentos apetecidos que se resguardam da confusão que a vida se encarrega de instalar.
A história por escrever, bloqueada num engarrafamento de palavras e de ideias enervadas pela espera do avanço que não se produz na falta de ponta da hora marcada para um tempo que nunca existiu.
A paciência que partiu, abandonado pelo caminho o seu meio de locomoção, mãos dadas com a má interpretação de acontecimentos ditados pelo acaso sem cuidado na leitura das estrelas que indicam o rumo a seguir.
 
Linhas cruzadas, palavras erradas na cacofonia de uma péssima canção. O milagre da ressurreição reinventado como elixir da juventude para contrariar o envelhecimento da fé.
Palavras pintadas no muro que cerca um espaço fechado onde antes se trocavam impressões e se viviam as emoções de viva voz, substituídas pelo silêncio dos rabiscos marginais ao sentimento que arranham a parede com mensagens de desilusão.
 
As certezas pintadas na pedra de gelo num dia de Verão…
publicado por shark às 13:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quinta-feira, 04.12.08

RIP

Consumia o seu tempo sentado num banco a ver a vida passar.

Parecia não o incomodar aquela estranha condição, impávido, ciente das suas limitações, consciente da sua falta de vontade para as contrariar.
Usufruía do tempo como algo a que podia chamar seu e sentia-se milionário quando o gastava assim, à grande, esbanjava-o até. Sem prestar contas a ninguém.
E sabia dar-lhe o valor, precioso, sabendo o pouco que lhe restaria para perder enquanto o ganhava assim, a ver a vida dos outros que passava diante do seu banco habitual naquele jardim.
publicado por shark às 23:40 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 09.11.08

A POSTA NO OLHAR DE QUEM VÊ A CIDADE PASSAR TÃO DEPRESSA

calor humano

Foto: Shark

 

 

Passa-lhe ao lado a cidade no contexto de uma realidade que é só sua e de mais ninguém. Não se sente mal nem se sente bem, não chora mas não lhe dá para rir, também dispensou esse luxo que é sentir, algures quando o prato da balança desequilibrou demais para a verdade da dor com que magoa a saudade mais o remorso misturados no caldeirão fervente da indignação.
Abdicou da emoção quando se percebeu incapaz de lidar com as memórias de tempos atrás e aprendeu que no futuro de pouco lhe iriam valer, essas lembranças que fazem doer quando enfatizadas pela solidão, ainda que voluntária.
Uma tendência suicidária nas relações, um vício qualquer nas explicações desnecessárias para aquilo que lhe aconteceu no dia em que morreu para todos quantos o conheceram no tempo em que o aturaram nas suas manias e enfrentaram as desilusões que provocava nos outros por sistema.
 
Ao início sentia pena de si próprio por ter hipotecado o pouco que lhe restava e a vida não tardaria a penhorar. Cansou-se de enfrentar a reacção desesperada de cada pessoa amada que tentava em vão contrariar-lhe a decadência e depois ele sentia como uma indecência a sua presença perniciosa nas vidas que lhe competia partilhar.
Um dia decidiu aceitar o impulso interior para esquecer de uma vez cada amor que destruía aos poucos com a sua insanidade temporária, cada vez mais adornada a sua história com episódios que o ilustravam imbecil.
Sentia-se um homem tão vil que a pena que sentia afastou-se soprada pelo vento que o enregelava e às tantas até a alma se escapou, quase jurava que a topou a fugir enquanto secava a última lágrima a cair com a manga do casaco que ainda veste tantos anos depois.
 
Quanto tempo não sabia, o que lhe restava e o que jazia na masmorra fechada num canto da sua mente anestesiada à prova de emoções, a alma afogada em alucinações etílicas que o deixavam à mercê dos que lhe cobiçavam o quase nada que conseguia reunir nos seus espaços aleatórios de papelão.
 
Acreditava-se com as rédeas da sua vida na mão, independente, mais livre enquanto indigente do que na pele controlada por um papel a cumprir numa vida tramada para todos os que se deixavam arrastar por uma maleita qualquer que culmina no ensandecer debaixo da ponte ou nas arcadas de um edifício, sob o fogo de artifício das luzes em movimento da cidade que os esqueceu depois de os banir.
 
Às vezes apetece-lhe sorrir, mas descobre que é engano quando o calor metropolitano o lembra do frio interior e é então que desliga o olhar, pousado sem brilho num ponto fixo da cidade que lhe passa ao lado enquanto rumina em silêncio a melhor solução para a próxima refeição, desatinado por já nem conseguir lembrar-se de como desenrascou a anterior.
publicado por shark às 00:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Domingo, 19.10.08

SOZINHO EM CASA

Parecia carregar às costas cada um dos fardos que a vida lhe impôs em dada altura. Vergado sob o peso da sua incapacidade para deixar cair as suas culpas, mais as dos outros que assumia para se flagelar.

Lia-se o remorso no olhar perdido num ponto qualquer quando se cruzava com outras pessoas, eremita num apartamento dos subúrbios, temido pela incógnita que o seu recolhimento representava para os vizinhos com vidas vulgares que todos podiam debater pelas costas uns dos outros.
A dele ninguém conhecia, ninguém a sabia e por isso afastavam-se da sua figura sinistra como se de um barril de pólvora com pernas se tratasse, como se bastasse um encontrão descuidado para acontecer uma explosão de loucura de proporções inimagináveis para cada um dos cobardolas que dele fugiam sem saberem porquê.
 
Os anos passavam depressa e ele envelhecia e alguma vizinhança temia que a coisa fosse a pior, os sarilhos a valer que toda a gente comentava em surdina, boatos, que poderiam acontecer ali como alegadamente noutro sítio no passado daquele ponto de interrogação.
Procediam a uma apurada investigação, com a ajuda de um amigo polícia, quando correu a notícia do corpo encontrado numa janela, pendurado pelo pescoço, o coitado do homem como passou a constar.
Já ninguém parecia duvidar da sua inocência quando lhe anunciaram o fim.
 
A solidão e a tristeza, o abandono a que o votaram, o desprezo que fomentaram sem uma razão concreta, apagados à pressa com um apagador imaginário pelos que o difamavam apenas porque sim.
 
A vergonha camuflada pela conveniente hipocrisia colectiva que contava agora uma história contrária à memória do que verdadeiramente aconteceu.
 

Era apenas um velho amargurado que passava a vida calado e finalmente morreu.

publicado por shark às 17:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Terça-feira, 09.09.08

A POSTA NA ANESTESIA LOCAL

Via com clareza no universo que se expandia o aumento da distância entre si e a pessoa mais próxima. E nada podia fazer contra isso, combater nas duas frentes, a sua e a de outrem, tão mais perto no dia de ontem e cada vez mais distante nos amanhãs que se sucediam num banho de pequena desilusão que provocava a inevitável corrosão das amarras de outrora.

 
Os dias passavam diferentes agora, com o silêncio a preponderar sobre o desconforto que viam instalar-se de permeio entre os dois. Os dias cansavam e depois só queriam dormir para ainda mais silenciar uma estranha forma de angústia conformada na aparência de uma cordialidade que sabiam forjada na lava que anunciava erupção.
A tampa colocada em cada noite passada pelas bocas que cada vez menos se conseguiam beijar, com a distância a aumentar também entre os corpos inanimados pelos tons desanimados que assentavam nos lençóis, tão precária na sua função de reprimir o furacão capaz de deitar tudo a perder.
 
A indiferença a prevalecer sobre a vontade de insistir numa causa que se gritava perdida em surdina, reflectida no tom baço e na fadiga que aos poucos ocupava o seu espaço naqueles olhares.
As revoltas abafadas que surgiam de surpresa por detrás dos mais disparatados pretextos, as janelas abertas nos peitos com o vento das palavras por soprar penduradas numa corrente de ar tão quebrada nos seus elos de ligação.
Libertação esparsa de uma energia tão diferente da que o passado lhes dera a conhecer antes da vida acontecer de uma forma menos feliz.
 
Tudo aquilo que a mais se diz, braços dados com o muito que fica por dizer. O coração que pára de bater na sua dimensão romantizada, uma artéria entupida pelo colestrol da saturação. O tempo a passar e as decisões adiadas, as palavras como chicotadas nas costas de uma esperança tão resignada e no entanto estupidamente determinada a ser a última a morrer no campo de batalha onde jaziam os cadáveres irreconhecíveis de um contingente de emoções.
 
As partilhas das divisões nas assoalhadas que evitavam ocupar em simultâneo, nas suas cabeças entretidas a sós, ameaçavam fazer ruir o frágil edifício daquilo que soava já a pura acomodação.
A perda da razão a cada esquina das frases secas e ríspidas arremessadas, despejadas sem tratamento na placenta da violência doméstica embrionária, psicológica, e contudo letal para a fé nos sucessivos recomeços, falsas partidas, com que desistiam de todas as corridas que a coexistência quase forçada transformava aos poucos em lutas insanas, verbais, perante um público pequeno e incapaz de entender aquele bizarro vazio do poder insinuado em estéreis disputas por uma liderança qualquer.
 
Via com nitidez no firmamento a morte do sentimento na sua própria avaliação das estrelas enquanto simples pontos patéticos de luz fria condenados à separação no espaço do universo a expandir imparável, a cada instante, na crueza de uma análise distante às profecias que os astros pareciam conter.
O futuro a acontecer no céu, para alguém observar depois, mesmo por cima do inferno de uma vida a dois cozinhada em lume brando sobre brasas ateadas pelas fagulhas incandescentes trazidas pelo vento, as palavras, da sua pira emocional.
 
Tudo aquilo que correu mal, as mentiras e as culpas, os desmazelos e as multas que agora surgiam para pagar no acerto das contas, a roupa suja estendida para secar depois da chuva de lágrimas secretas cujas nódoas jamais poderiam sair.
A chuva a cair do lado de dentro das janelas agora fechadas, pombas brancas escorraçadas pelas reacções a quente exploradas em tribunal sob as asas das aves de rapina que a vingança exigiu quando a chama se extinguiu na lareira diante da qual abdicariam ambos da tentativa de reconciliação.
Abdicaram também do perdão que pudesse acautelar uma proximidade razoável, apenas o bastante para se acertarem as agulhas nos aspectos mais elementares.
 
A custódia perdida dos filhos ou da razão, no calor da erupção adiada por tempo demais. O património dividido à facada numa solução arquitectada por gente de fora, a soldo, com base em critérios alheios a uma ponderação racional.
A esponja à bruta no passado que se exige apagado, impossível, que se apresenta conspurcado pela imagem terrível dos monstros que o orgulho ou o despeito, o desgosto instalado no peito sem aberturas para a respiração, apresentam aos outros no lugar dos personagens de ficção, sorridentes, retratados em álbuns de fotografias exilados para um mundo de pó no ponto mais afastado do universo em remodelação.
 
A vida em reconstrução sobre os escombros de uma aposta já muito distante no tempo, independência.
A obrigação do contacto à distância, por interpostas pessoas, retransmissores das combinações impostas pelo lastro de qualquer relação com laços filiais.
A descrença nos ideais que alimentam a esperança e sustentam a confiança em dias melhores com rostos sucessores que brilham sempre na comparação mas personificam a ameaça potencial de uma repetição desnecessária, de um desfecho igual.
 
O fim de uma ilusão legítima porque alicerçada pela paixão, nas ruínas fumegantes de um passado que se vê incinerado nos olhos descrentes de quem tenta, contraproducente, renegar o seu efeito reconstrutor mantendo-se algo distante seja de quem for.
 
Sem pressa de sentir as emoções. Sem coragem para ceder às tentações.
 

Com medo da dor.

publicado por shark às 09:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Sexta-feira, 16.05.08

FORA DE SERVIÇO (Out of Order)

 

Às tantas já rezava para que não lhe retirassem da boca a cavilha de uma granada feita de palavras prontas a explodir.
O olhar parecia suplicar clemência enquanto perdia a paciência por detrás, onde se distinguia com clareza o dedo no gatilho e a alma prestes a disparar.
Entretanto a face ia mudando de cor pelo esforço da mente em controlar o inconsciente dentro de si que já partia toda a louça interior, escaqueirada pela demência que lhe berrava a imprudência que tentava por fora evitar.
 
Nuvens cinzentas pairavam como abutres sobre a cabeça da tempestade em formação no vórtice do furacão que a revolta soprava, endiabrada, das entranhas daquela figura de pessoa encurralada no canto de uma jaula, animal ferido, tão imaginária como a revolução que acontecia descontrolada mas ainda longe da vista do poder.
A bronca quase a acontecer, presa apenas por arames que o gume afiado das provocações enfraquecia enquanto o seu rosto se contraía nas expressões visíveis de tudo daquilo que já mal conseguia conter.
 
A contagem decrescente a acontecer imparável numa avalancha de números que se sobrepunham ao tiquetaque do relógio, rastilho curto, instalado junto ao detonador e o punho cerrado cada vez mais à mercê da pressão que anunciava o pior. Menos tempo para o fatídico momento, o ponto de viragem da situação em seu desabono.
Era cão que não conhecia o dono, fauces escancaradas para a ameaça cuja essência se preparava para assumir. Enervado, saturado, incapaz de reagir com a ponderação que lhe exigia o bom senso arrasado pela insensatez do oponente que assim corporizava todos os males do mundo de que se queixava até chegar ao momento fatal.
 
Ninguém contava com aquela reacção. A fúria de um leão aterrada de repente no meio de uma sala cheia de gente incauta o bastante para empurrar a fera para um beco sem saída, armadilha, de onde afinal apenas ele acabaria por sair, a correr, para jamais alguém o encontrar, enlouquecido algures, perdido no mundo, dentro de um poço sem fundo, paralisado por uma camisa de forças virtual.
publicado por shark às 11:55 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 12.05.08

BLACK & WHITE

sem trunfo

Foto: Shark

publicado por shark às 15:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Quarta-feira, 16.04.08

BLACK & WHITE

sem palavras

Foto: Shark

publicado por shark às 17:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)

THE FIRE DEPARTMENT

Julgava-se sapador, um profissional na labareda do amor, mas não passava de um bombeiro voluntário.

Assim se explicava o facto de apenas o chamarem para acudir a incêndios de brincar e a fogos de artifício.

 

A meros simulacros de emoções.

publicado por shark às 17:07 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 13.04.08

MODERN ROMANCE (2)

Respondeu-lhe com um tb t kero bue intenso e emocional, na onda do sms radikal que recebera.

Depois foi buscar o carregador da bateria do telemóvel, para ter a certeza de que tinha carga suficiente para lhe mandar por mms a foto de uma rosa baril que sacara de um blogue qualquer.

publicado por shark às 19:33 | linque da posta | sou todo ouvidos

MODERN ROMANCE

Ela passou de repente pela tela e essa imagem era tão bela que ele não resistiu a pressionar o botão pause para a cristalizar naquele momento especial.
publicado por shark às 19:31 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 10.04.08

VISTO DE FORA

Era como um actor envelhecido diante de um teatro demolido.

Olhava para o chão como se procurasse pedaços de si espalhados por ali, a alma à deriva num cenário polar, coração gelado pelo frio.

 

Era como um espectador sentado diante de um palco destruído.

Soturno e vazio.

 

 

publicado por shark às 12:43 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 08.04.08

VISTO DE FORA

Fechou a porta atrás de si e ainda tentou desesperadamente travá-la quando se lembrou de repente da chave que esqueceu.
Esforço inglório, a porta fechou.
Entrou no elevador disposto a partir para outra, determinado a esquecer uma porta que mais tarde alguém trataria de abrir. E o elevador a parar, encravado. E ele a praguejar, encurralado pela vida numa coincidência das que todos evitamos, dedo no alarme sem abrandar a pressão.
 
A mesma que sentia enquanto se debatia com o melhor procedimento a adoptar, enquanto tentava racionalizar aquele momento sem sucesso algum.
Os nervos em franja quando do condomínio lhe enviaram o anjo salvador na pessoa do administrador que o libertou daquela condição deplorável.
A corrida pelo patamar fora, atrasado e o lugar do carro tão esquecido como a chave de casa no seu interior.
E a do carro também, como entretanto concluiu, com a mala entalada entre as pernas e as duas mãos desesperadas aos apalpões nos bolsos cheios de esperança mas sem sinal de milagre a acontecer.
 
Os vizinhos todos a verem das suas janelas, gente cusca, a triste figura de um homem apeado que se veio a saber desempregado quando finalmente chegou ao escritório, tarde demais pela última vez.
Chorou na casa de banho o seu revés e depois arrumou a secretária, altivo, enquanto pensava “sobrevivo a este dia que parece não acabar”. Os antigos colegas a virarem a cara para outro lado, cada um mais ocupado do que o anterior.
A despedida sem emoção com a entrega do cartão de ponto malvado que o denunciou.
 
A rua pejada de gente e ele tão sozinho na multidão, desorientado.
 
Apenas um homem num dia azarado, perdido no coração da enorme cidade que, com toda a naturalidade, o ignorou.
publicado por shark às 09:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 04.04.08

CONVERSA SEM OS BOTÕES

Notava-se pelos gestos como pelas expressões que o seu discurso era coerente. Pelo menos de forma aparente, pois toda a gente que com ele se cruzava sorria ou protestava mas ninguém afinal parava de propósito para o ouvir.

Só dois ou três rapazolas, gozões, mantinham-se próximos o bastante para lhe perceberem as palavras mas era óbvio que não lhes dedicavam qualquer atenção que estava toda centrada na figura do orador.

 

No entanto, ele prosseguia a animada conversa como se estivesse na boa, ao balcão do café do costume num dia rotineiro, num dia normal.

A pasta de executivo na mão, impecável, denunciava-o como um quadro intermédio ou superior, talvez alguém com imenso valor no desempenho das suas funções.

A aparência cuidada, embora o que se vê nem sempre corresponda à realidade dos bastidores de cada um, permitia concluir que aquele sujeito conversador teria um estatuto social elevado, classe média superior. Ou mesmo ainda melhor se de uma qualidade falamos. 

 

Pouco mais se poderia extrair a partir de uma mera observação com rigores de mirone circunstancial, alguns minutos apenas que entretanto o espectáculo acabou quando as cortinas tombaram sobre o palco improvisado daquele cidadão, sob a forma de um cobertor cinzento, barato, com que a polícia enrolou aquele homem completamente nu e o encaminhou à pressa para o interior da unidade móvel que alguém solicitara para acorrer ao local.

publicado por shark às 09:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 21.03.08

NO REGAÇO DE UM SONHO, FANTASMA

s.miguel.jpg

Apenas o silêncio cortado a espaços pelo rastejar de uma cobra no meio das ervas, ou seria o som da sua própria atitude que a mente descodificava como uma vergonha que rastejava mesmo ao lado, de raspão pelo passado, do seu corpo entregue ao flagelo do frio.
Era o que ouvia para lá do seu vazio por preencher.

Olhava o céu sem o ver, cego de nascença num ponto da consciência que lhe obliterava a perspectiva e o forçava a enfrentar o nevoeiro sem a mais pequena noção de um rumo, da direcção adequada para o local que procurava sem saber como nem porquê.
Tudo aquilo que alguém vê na escuridão de um espaço interior.
Oco como a mente de um louco condenado a prisão perpétua numa cela forrada a papel de lucidez.
Via apenas um momento parado de vez, num ponto fixo do tempo, uma imagem repetida até à exaustão que sentia como um chicote, uma punição, nas costas do arrependimento e no rosto enrugado que servia de leito às lágrimas que vertia quando ainda sabia chorar.

Apenas o cheiro dos cabelos, fragrância de saudade arrastada desde um local remoto na sua memória bloqueada como se estivesse blindada contra a tarefa inglória de a apagar.
O vento que a soprava contra si, lá dentro, contra as paredes de um cérebro empedernido como um rochedo, enfrentando a força colossal da rebentação.
Ondas eléctricas, lembranças, apenas vagas semelhanças entre o caminho antes percorrido e o trilho sem norte que o conduzira, sem sorte, até um ponto de saturação.

O grito lançado como um pombo-correio desorientado contra as copas das árvores onde a mensagem se perdia por entre a folhagem que jamais reagia à fúria que sentia, como ele, quando a voz lhe tocava a pele em suaves acordes da brisa que fingia nem o ouvir.

Depois apenas o silêncio cortado a espaços pelo longínquo rumor de palavras cheias de amor que a mente descodificava como um último beijo antes de adormecer.
Foi esse o último som que escutou.

Na alvorada do dia em que a sua alma beijada finalmente despertou.
publicado por shark às 00:14 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 14.03.08

ALEGORIAS E INCERTEZAS

A vida que não pára de acontecer no ecrã do olhar com que a projectamos nos bastidores da consciência, ao livre arbítrio da percepção.

A atitude da mulher muito produzida, declaradamente vestida para a arte da sedução, clandestina no telefone público enquanto atende o telemóvel com a outra mão. Fugida de uma realidade que lhe estagna a vontade, proibida de assumir o apelo interior para exigir o amor fatal que a arrasta por uma existência com algo de intenso, de indispensável e contudo marginal.

O desespero no homem apanhado de surpresa pelas palavras escritas numa folha de papel. A expressão no rosto de quem não esconde o desgosto, a folha amarrotada para dentro de um bolso enquanto se prepara para abandonar a mesa do café.
O olhar de relance para os dois extremos da rua, dois caminhos possíveis para passear a desorientação.
A caminhada para outro lugar, uma distância percorrida que de alguma forma consiga afastar o corpo e o pensamento do choque tão violento que parece fazê-lo alucinar.

A jovem na janela, sorridente. Abraçado por detrás o amante à barriga crescente de esperança na vida que um grande amor concebeu.
Observam a dois o céu tão azul que o sopro do vento limpou entretanto das nuvens e dos medos e de tudo quanto os possa impedir do direito a usufruir da felicidade em estado puro.

A silhueta por detrás da cortina da janela que fechou, à espreita, alguém que me imagina personagem do filme feito à medida de cada realizador. A história imaginada a partir de um pormenor da versão observada por olhares alheios à minha interpretação.
Avatares do que somos na imagem parcial do que damos a ver.

Na vida que, afinal, nunca pára de acontecer.
publicado por shark às 17:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 06.03.08

PEQUENO DRAMA DO QUOTIDIANO (2)

Não me apetece falar de bola.
publicado por shark às 23:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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